Se há um tema que nunca mencionei aqui é religião. Tenho vários motivos, mesmo sendo católico praticante. Entre eles cito o fato de que Deus existe sim, mas não para satisfazer nossos caprichos ridículos e que ele quer mais que nos viremos. Outro é que meu texto pode soar puro proselitismo e religião lida com verdades eternas e imutáveis e portanto, não hpa espaço para uma discussão ou reflexão. Por isso, pessoas muito "religiosas", me dão certo asco. Claro que todos tem direito a viver ou não a sua espiritualidade e tenho amigos de convívio de diversar matrizes religiosas e muitos que são ateus ou agnósticos. Isso não invalida o que sinto por cada uma deles. Outro fato é que intolerância e radicalismo pode ser visto em pensamentos que até mesmo negam a existência divina. O socialismo real foi uma prova viva disso.
Mas por que mencionei religião? Ah sim, é época de Páscoa. Para nós católicos representa o sofrimento de Jesus na cruz até a sua ressurreição, símbolo de vitória sobre o mal para qualquer cristão.
Meu primo, evangélico pentecostal, dizia que a visão católica de um Jesus sofrido era ruim, porque ele era vitorioso, glorioso e que sofrimento não combinava com ele. Está ai uma das chaves para o sucesso desses cultos e mais ainda, dos neopentecostais, com igrejas lotadas. Agora é hora de olhar os fatos não por um viés religioso/espiritual, mas sim, cultural/social/psicológico.
Vivemos em um tempo que tentamos o tempo todo negar o sofrimento. Pílulas de emgrecimento rápido - a sibultramina está ai como a vilã da vez- antidepressivos e tantas outras coisas prometem, tal como o discurso do pastor, a glória, a vitória eterna. Empresas treinam seus funcionários para o sucesso a qualquer custo, aumento das vendas, lucro, sempre a vitória.
Não há problema em querermos ter uma vida ótima. Ainda bem que o progresso científico nos trouxe benesses que nos aliviam de diversos males. Imagine a vida antes da invenção da anestesia, por exemplo. E imagina isso nos tempos atuais onde matamos mais que nunca? Não é "pecado" querermos ser bem sucedidos.
O perigo está na negação do sofrimento. Viver implica em vitórias, de acordo com os nossos esforços, que isso fique bem claro e ao mesmo tempo há frustrações, sofrimentos e perdas. E é isso que queremos negar.
Um amigo meu, umbandista, me explica que muita gente sai dos cultos afro para os evangélicos porque nestes últimos há uma promessa eterna de alegria e felicidade apoiados numa ideia de Deus que pode cumprir tudo e satisfazer seus caprichos mais mesquinhos, bem como "apagar" os seus erros na falsa ideia que tais igrejas trazes sobre o perdão. Errada porque se Jesus representa a forma humana de Deus e que ele se faz presente no amor que devemos ter uns com os outros, é na relação com os outros que deve existir o perdão e a alegria e não em uma oração para uma entidade distante e abstrata como muitos de nós, crentes, pensamos. Nesses cultos não queremos a coletividade, com suas alegrias e frustrações, mas apenas a satisfação de um capricho egoísta e a crença de que somos especiais, eternos e melhores que os demais por fazer parte de uma determinada denominação.
Por isso a ideia do Jesus sofrido pode sim nos atualizar para esse lado de que a vida implica sim em alegrias e tristezas e que a ausência de tudo isso só se dá mesmo na morte completa, uma ideia incompatível com a crença cristã - e de várias outras religiões- de que há vida eterna.
E espero, nessa Páscoa, que todos nós, independentemente de acreditar ou não em Deus, nos tornemos pessoas melhores e cientes de que a vida tem sim os seus percalços, mas que isso não é desculpa ou motivo para nos encerrarmos em uma depressão egoísta (excluo aqui a patológica) ou que a vida oferece puro sucesso e confundir isso com realizações mesquinhas.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Fetichização da desgraça
Bem, uma adolescente foi estuprada em Londrina e a "culpa" de acordo com os jornais é das "pulserinha do sexo".
http://http//odia.terra.com.br/portal/brasil/html/2010/3/menina_e_estuprada_apos_ter_pulseira_do_sexo_arrebentada_em_londrina_72554.html
Existem representações e afetos. Afetos são o que sentimos e representações são objetos de desejo ou repulsa que aplicamos a este afeto. Explicando essa psicanálise de almanaque que apresento aqui, se alguém tem medo de barata (meu caso), há um afeto: o medo e a representação : a barata.
O "afeto' perverso que se tem é o desejo em estuprar. Se bem que não sei se perverso é a palavra certa. A perversão implica uma negação da norma estabelecida, algo que choca, como é nos dias atuais, de acordo com a brilhante Roudinesco, o terrorista. O estuprador, por mais que nos choque tem a norma machista a seu lado: o cara se sente dono da mulher e pode impor seu poder conforme queira. Eu mesmo já ouvi de homens e de mulheres também a fala " a culpa foi dela que deu mole" ou ainda "bem feito, quem mandou ela usar short curto".
Dessa vez o objeto fetiche para essa representação são essas pulseiras. Elas são o bode expiatório (ou seria espiatório? to sem paciência pro google) da vez. Prefeituras proíbem suas vendas como se isso num passe de mágica evitasse essas barbaridades.
As pessoas tem que parar de negar hipocritamente a existência da sexualidade. Afirma sua existência é o melhor caminho para uma conversar franca com os filhos e colocar que uma vez que somos "sexuados", existem responsabilidades e formas de lidar com o nosso desejo, mesmo que, como diz a música Pecado Original do Caetano, trilha de "A Dama do Lotação" (filme de Neville D'Almeida) "a gente não sabe o luga certo onde coloca o desejo". Ao que parece, tanto os jornais, como os estupradores e alguns legisladores, resolveram colocá-lo nas pulseiras, num belo mecanismo de recalque coletivo, para mascarar o que realmente há por trás disso tudo: a existência e a emergência da sexualidade dos adolescentes e o jogo de poder e violência de uma sociedade machista que trata as mulheres como mero objetos. Se os responsáveis, escolas e demais instituições que lidem com os adolescentes souberem de forma clar, franca e objetiva como lidar com isso, teremos adolescentes menos vulneráveis a situações lamentáveis como essa de Londrina, meninas mais empodeiradas em sua sexualidade e morre a necessidade de atacar pura e simplesmente uma pulseira, quando sabemos que, por trás disso existem questões muito mais sérias.
http://http//odia.terra.com.br/portal/brasil/html/2010/3/menina_e_estuprada_apos_ter_pulseira_do_sexo_arrebentada_em_londrina_72554.html
Existem representações e afetos. Afetos são o que sentimos e representações são objetos de desejo ou repulsa que aplicamos a este afeto. Explicando essa psicanálise de almanaque que apresento aqui, se alguém tem medo de barata (meu caso), há um afeto: o medo e a representação : a barata.
O "afeto' perverso que se tem é o desejo em estuprar. Se bem que não sei se perverso é a palavra certa. A perversão implica uma negação da norma estabelecida, algo que choca, como é nos dias atuais, de acordo com a brilhante Roudinesco, o terrorista. O estuprador, por mais que nos choque tem a norma machista a seu lado: o cara se sente dono da mulher e pode impor seu poder conforme queira. Eu mesmo já ouvi de homens e de mulheres também a fala " a culpa foi dela que deu mole" ou ainda "bem feito, quem mandou ela usar short curto".
Dessa vez o objeto fetiche para essa representação são essas pulseiras. Elas são o bode expiatório (ou seria espiatório? to sem paciência pro google) da vez. Prefeituras proíbem suas vendas como se isso num passe de mágica evitasse essas barbaridades.
As pessoas tem que parar de negar hipocritamente a existência da sexualidade. Afirma sua existência é o melhor caminho para uma conversar franca com os filhos e colocar que uma vez que somos "sexuados", existem responsabilidades e formas de lidar com o nosso desejo, mesmo que, como diz a música Pecado Original do Caetano, trilha de "A Dama do Lotação" (filme de Neville D'Almeida) "a gente não sabe o luga certo onde coloca o desejo". Ao que parece, tanto os jornais, como os estupradores e alguns legisladores, resolveram colocá-lo nas pulseiras, num belo mecanismo de recalque coletivo, para mascarar o que realmente há por trás disso tudo: a existência e a emergência da sexualidade dos adolescentes e o jogo de poder e violência de uma sociedade machista que trata as mulheres como mero objetos. Se os responsáveis, escolas e demais instituições que lidem com os adolescentes souberem de forma clar, franca e objetiva como lidar com isso, teremos adolescentes menos vulneráveis a situações lamentáveis como essa de Londrina, meninas mais empodeiradas em sua sexualidade e morre a necessidade de atacar pura e simplesmente uma pulseira, quando sabemos que, por trás disso existem questões muito mais sérias.
Homens, mulheres e simpatizantes

A foto ao lado é dele mesmo: Marcelo Dourado. Sim, é triste por um lado perceber que só mesmo o BBB é capaz de mobilizar a produção deste texto. Por outro lado aqui não há espaço para a maldita síndrome de underground, mas antes de comentar a respeito do vencedor da décima edição desse reality show vou relatar um fato que ocorreu há algum tempo que percebi.
Estava trabalhando como facilitador em uma série de oficinas com homens jovens em uma comunidade da Zona Oeste do Rio. Junto comigo havia alguns outros, adultos, moradores das comunidades de onde moravam os jovens e que passaram por uma capacitação para trabalhar com eles. Em uma das oficinas tínhamos que decidir junto com eles, qual seria o nome para uma marca de preservativos que seria desenvolvida em um projeto de marketing social. Uma das sugestões apresentadas pelos rapazes foi "o Homem na Hora H". Um dos facilitadores se pronuncia, no melhor estilo politicamente correto e diz: "esse nome é discriminatório, pois a palavra 'homem' exclui os gays na hora de comprar o preservativo".
E o que Dourado tem a ver com esse relato que apresento? Em uma de suas discussões com Dicésar e na qual ele foi apontado como homofóbico ele disse algo como "não é pelo fato de você ser viado que você não é homem". Há um machismo na frase do lutador? Sim, pois sempre acreditamos que "ir pra luta", "ter coragem", "falar na cara" e qualquer coisa que o valha é um atributo masculino. Por outro lado, há algo muito interessante na fala dele pois , diferentemente do facilitador que trabalhou comigo, o Dicesar é sim gay e ao mesmo tempo, homem.
A homossexualidade, ou melhor dizendo, homossexualidades e indo mais além as masculinidades, assim mesmo com "s", mostram que dentro da chamada diversidade há outras diversidades. Ao mesmo tempo há algo que sempre insisto que não dá para discutir sobre qualquer orientação sexual sem antes, sobretudo, não for pensada a questão de gênero, ou seja, os papéis sociais esperados para homens e mulheres. Para os homens é espero que eles sejam "másculos", "viris" , "macheza" ou qualquer outra coisa que o valha. Tomemos por exemplo 3 exemplos da casa, heterossexuais até então, que mostram posturas bem diferentesde como ser homem: Dourado, o machão-chorão, Cadu, o saradão gente boae Michel, o tonto bonzinho. A despeito desses rótulos que apliquei nos 3 participantes o que há é que existem formar diferentes de ser homem e da mesma forma pode se pensar e incluir nessas formas, a homossexualidade.
Era visível por exemplo ver o Michel apontar em seu discurso que Serginho e Dicesar não eram homens. O mesmo dizia Fernanda para Dourado: "Você tem que tratar o Dimmy como uma mulher". Bem, isso veio da moça que disse que o Uilliam "não é tão preto assim", então não vou esperar grandes lances de inteligência e consciência por parte dela. De qualquer forma é Dourado, o machão homofóbico, que coloca as coisas na roda e aponta que a homossexualidade é só mais um detalhe no que significa ser homem.
Ao que parece o ser humano precisa de padrões para lidar com o desconforto do que lhe é estranho. Se um homossexual tem o que se chama de "straight acting" - sim é uma palavrinha muito infeliz - podem acontecer dois movimentos: o primeiro de causar muita estranheza, já que se precisa do gay que desmunheca para se fazer humor e colocar na categoria "não homem" ou "mulher". Por outro lado há o que se chama de "covering", ou seja ele é gay "mas age como homem", mascarando de vez a homossexualidade. A versão gay do "negro de alma branca" por exemplo.
É nessa esquizofrenia de conceitos e de visões que transita os nossos discursos e a visão que temops sobre gênero, sobre o que categorizamos no nosso dia a dia sobre o que é ser homem e ser mulher. E no meio dessa loucura toda é que podemos perceber, tal como no discurso de Dourado, do facilitador ou de outros, que se parecemos homofóbicos muitas vezes, se olharmos mais profundamente, pode-se confrontar e se mostrar mais além do que visões politicamente corretas que no fundo aprisionam as pessoas nas velhas categorias de sempre só que com uma "roupagem" nova.
domingo, 7 de março de 2010
Feliz 2011
Uma coisa é fato: 2010 vai ser um ano praticamente inexistente nesta terra tropical. Vejamos: muitos pensam que, terminado o carnaval, começa o ano. Esquecemos que tem a quaresma, época de expiar (ou espiar? enfim, to sem tempo pro google) os pecados depois vem a Páscoa, o Copus Christi, a Parada Gay, a Copa do Mundo e por fim as eleições.
Falando em eleições muitos comental que a Dilma está em plena campanha. Concordo que ela faz isso no melhor estilo "papagaio de pirata" do nosso querido Lula da Silva. Se Lula for em quermese em Iguaba Grande, lá estará ela dizendo que é a mãe do PAC e sem ele não teria as bandeirinhas que enfeitam a quermese.
Por outro lado, o Sr Bruns, digo José Serra vai fazendo doce e gente na imprensa diz que ele está lerdo na campanha por ainda não ter se lançado oficialmente como candidato, uma vez que Aécio Neves já pulou fora e almeja vaga do Senado. O que ocorre é que o camarada tá em todas, incluindo homenagem no Congresso aos 100 anos de Tancredo e lá estava ele prestando as "homenagens" já fazendo palanque político também. Ele só não pode ter dado muito as caras tanto quanto Dilma porque seu filme está muito queimado após os temporais em SP e a aliança de seu partido com o DEMônio de Arruda.
Falando em eleições muitos comental que a Dilma está em plena campanha. Concordo que ela faz isso no melhor estilo "papagaio de pirata" do nosso querido Lula da Silva. Se Lula for em quermese em Iguaba Grande, lá estará ela dizendo que é a mãe do PAC e sem ele não teria as bandeirinhas que enfeitam a quermese.
Por outro lado, o Sr Bruns, digo José Serra vai fazendo doce e gente na imprensa diz que ele está lerdo na campanha por ainda não ter se lançado oficialmente como candidato, uma vez que Aécio Neves já pulou fora e almeja vaga do Senado. O que ocorre é que o camarada tá em todas, incluindo homenagem no Congresso aos 100 anos de Tancredo e lá estava ele prestando as "homenagens" já fazendo palanque político também. Ele só não pode ter dado muito as caras tanto quanto Dilma porque seu filme está muito queimado após os temporais em SP e a aliança de seu partido com o DEMônio de Arruda.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Zoológico Humano, décima edição
Não adianta. O BBB é para o começo do século XXI o que a teledramaturgia foi em seu início despertando a síndrome do "eu não vejo, quem vê é a empregada", marco da nossa cultura que relega às classes baixas a falta de "cultura" - em uma acepção elitista e equivocada do termo - e que agora, com o "mass media" bem mais forte incluindo novas linguagens cede espaço para "BBB é para gente burra" ou algo assim. No entanto esse texto aqui pretende- sim, esse é um texto pretensioso - pensar em outros pontos da décima edição do reality show, que quer queira que não queira os intelectuais (pretensiosos, os autênticos) e seus simulacros (tipo, gente que assiste o Jô Soares para se sentir inteligente) mexe com o Brasil, ainda que na quaresma esqueçamos seus personagens. Viva o pop e a cultura do imediato, isso é fato.
Ao que consta o programa é derivado de uma experiência, até mesmo mostrado na TV Britânica, chamado de Human Zoo. Não sei se essa informação procede, mas a estrutura é bem parecida. Tem se uma casa com 12 pessoas que convivem e desenvolvem laços e que mudam de comportamento ao serem divididos em dois grupos (senhores e escravos) e pessoas que eram amigas outrora se tornam inimigos ferrenhos. Talvez isso sirva como pista para entender o que acontece em torcidas de futebol, em que você pode odiar alguém pelo simples e ridículo fato dele ou dela torcer para outro time.
Mencionei Tv Britânica, tem a holandesa Endemol por trás disso também, enfim. Em países como os EUA, Reino Unido e afins, por conta da marca do empirismo - o conhecimento vem através do objeto observado - a psicologia behaviorista (do inglês behavior, comportamento) faz muito sucesso e muito do que foi revelado em "The Human Zoo", no qual há psicólogos na observação, estão dentro do contexto dessa linha psicológica. Por ela a única coisa observável é o comportamento e só ele pode ser considerado válido do ponto de vista científico. Tudo bem que essa é uma visão mais radical do começo da psicologia e quando o behaviorismo rivalizava com outras linhas, tais como a psicanálise - que traz o conceito estranho, incômodo e inobservável do ponto de vista tradicional chamado "inconsciente" - e a psicologia da gestalt alemã. Esses são outros 500 que não cabe discutir aqui por enquanto, deixe-me voltar ao foco do que é colocado no BBB.
Tudo isso dito anteriormente, sobre a necessidade de dar importância ao comportamento observável é claramente mostrado no BBB. Vejamos bem, imagine ratos presos dentro de uma caixa-jaula sujeito a todo tipo de estímulo e ali cientistas vão observando e anotando seus comportamentos. No caso do reality show os ratos são os participantes e Boninho e sua equipe os cientista. E os telespectadores, não são os que observam? Não, o observado na televisão já foi manipulado em edições cuidadosamente caprichadas, ainda mais considerando o grande número de pessoas que não tem acesso ao Pay-Per-View (e outras que tb tem mais o que fazer ao invés de gastar dinheiro e tempo com essa possibilidade) e que, portanto, estão fora dessa possibilidade. Lembrando o velho Marx, são os telespectadores sem acesso ao dinheiro e consequentemente o poder de assumir esse papel de "bruxos" tornando-se telespectadores. Porém não passivos como a primeira observação pode trazer.
Cada cômodo da casa é cuidadosamente planejado. Todo manual de psicologia experimental e behaviorista está lá. A cor dos quartos, o excesso de espelhos em alguns, o formato, enfim, tudo o que possa alterar o psiquismo de cada um e, consequentemente, fomentar o grande show que se pretende ser o programa. Cabe lembrar que também tem a seleção dos candidatos que, além dos atributos físicos que retroalimentarão a indústria do consumo incluindo revistas "adultas", há também um cuidado na escolha levando em consideração o perfil psicológico de cada um. Tem os clichês que podem chamar a atenção do público: o machão, o valentão, o intelectual, a "galinha', a santinha, o viado enrustido, a bicha pintosa, a "muito franca" e mais uma gama de clichês. Engana-se no entanto quem acha que a seleção é baseada só nisso. Estamos lidando com uma equipe profissional que aqui chamo de "cientistas" com uma inteligência maior que possa parecer a primeira vista. Até porque quando há dinheiro em jogo - e em televisão, órgão ainda poderoso de venda é muito mais que R$ 1,5 milhão, a coisa fica muito séria.
Além desse projeto de ergonomia - algo que as empresas usam para adaptar o ambiente de trabalho o mais propício para os funcionários produzirem mais ao se sentirem confortáveis- completamente bizarro há também outros detalhes. Quem acompanha o programa sempre vê os participantes falando de emoções aumentadas e tudo o mais. O ingrediente para isso? Somemos confinamento, ergonomia bizarra e principalmente, privação de sono, que prejudica a capacidade de atenção, privacidade e, em alguns casos podem levar a alucinações e também afeta o humor. Basta vermos que os participantes vão dormir com o dia amanhecendo, isso após festas regadas a muito álcool - outro ingrediante fundamental neste zoológico - e poucas horas depois são acordados, por exemplo, por Ana Maria Braga e seu papagaio de espuma para manter a audiência de seu programa. Além de cobaias, os participantes são peças gratuitas da engrenagem de funcionamento de uma emissora que cobre o país inteiro, o que faz pensar que o prêmio de 1,5 milhão é uma ninharia perto da grana envolvida neste imenso circo behaviorista. No fim das contas o que conta mesmo é o comportamento de cada um: fofocas, malidicências, edredons, violência verbal e, raramente, física. É da ação das personagens envolvidas que a edição se nutre e joga para gente, narradas pelo Bial, o grande mestre de cerimônia desse circo que precisa sim de um jornalista de nome para tal, porque, ao contrário do que muita gente pensa, a tarefa do BBB não é para amadores. Que o diga o sofrível Britto Jr na versão da aprendiz de feiticeira comandada por pastores pós-modernos (sim, eu adoro esse excesso de adjetivos).
Claro que para o público e até mesmo para os participantes nada é tão passivo assim. Há uma ação sim efetiva destes na forma e nos contornos que o programa adquire a partir de seu desenho. A classificação "sarados", "ligados", "belos", "cabeças" e a preconceituosa "coloridos" mostram que há fronteiras ali que podem ser quebradas ou gerar conflitos não esperados. Pensemos nas discussões entre os "cabeças" Elenita e Alex, que mesmo sendo da mesma equipe e, aparentemente com alto grau de instrução, entraram em choque em certos momentos por conta mesmo de suas individualidades que vão além dos critérios de escolha de Boninho e sua equipe. O racismo velado do "ele nem é tão preto assim", ou os lances homofóbicos de Dourado e sua rixa contra Dicesar alimentado por brincadeiras bem planejadas por Bial para atender a demanda cultural nossa da necessidade de manutenção de uma masculinidade branca e heterossexual, ainda que isso esteja longe da realidade da maioria dos que assistem o programa, mas que de alguma forma se identifica ou, mais ainda, deseja esse ideal (olha eu detonando o neobehaviorista Skinner e voltando pra Freud), essa espécie de supereu cultural. A partir disso surgem as discussões de internet, posts no twitter, as entrevistas que a Globo faz com o povo na rua, as bobagens nos jornais, a alimentação das emissoras longe do poder da Globo que tal como chacais se aproveitam da carniça da programação da Vênus Platinada - Sônia Abrão pode ser considerada o chacal-mor e, até mesmo a existência desse texto e as caras amarradas daqueles que estufam o peito e dizem "não assisto a essa merda". Mas para os que assistem essa "merda" como eu, vou usar uma frase do próprio Bial para Tessália que disse "lixo também se recicla". E talvez nessa grande usina de reciclagem é que o programa encontra sobrevida para 10 edições, claro que amparado no grande poder que a sua emissora apresenta. Neste caso o zoológico humano se torna um verdadeiro "simba safari" via satélite.
Ao que consta o programa é derivado de uma experiência, até mesmo mostrado na TV Britânica, chamado de Human Zoo. Não sei se essa informação procede, mas a estrutura é bem parecida. Tem se uma casa com 12 pessoas que convivem e desenvolvem laços e que mudam de comportamento ao serem divididos em dois grupos (senhores e escravos) e pessoas que eram amigas outrora se tornam inimigos ferrenhos. Talvez isso sirva como pista para entender o que acontece em torcidas de futebol, em que você pode odiar alguém pelo simples e ridículo fato dele ou dela torcer para outro time.
Mencionei Tv Britânica, tem a holandesa Endemol por trás disso também, enfim. Em países como os EUA, Reino Unido e afins, por conta da marca do empirismo - o conhecimento vem através do objeto observado - a psicologia behaviorista (do inglês behavior, comportamento) faz muito sucesso e muito do que foi revelado em "The Human Zoo", no qual há psicólogos na observação, estão dentro do contexto dessa linha psicológica. Por ela a única coisa observável é o comportamento e só ele pode ser considerado válido do ponto de vista científico. Tudo bem que essa é uma visão mais radical do começo da psicologia e quando o behaviorismo rivalizava com outras linhas, tais como a psicanálise - que traz o conceito estranho, incômodo e inobservável do ponto de vista tradicional chamado "inconsciente" - e a psicologia da gestalt alemã. Esses são outros 500 que não cabe discutir aqui por enquanto, deixe-me voltar ao foco do que é colocado no BBB.
Tudo isso dito anteriormente, sobre a necessidade de dar importância ao comportamento observável é claramente mostrado no BBB. Vejamos bem, imagine ratos presos dentro de uma caixa-jaula sujeito a todo tipo de estímulo e ali cientistas vão observando e anotando seus comportamentos. No caso do reality show os ratos são os participantes e Boninho e sua equipe os cientista. E os telespectadores, não são os que observam? Não, o observado na televisão já foi manipulado em edições cuidadosamente caprichadas, ainda mais considerando o grande número de pessoas que não tem acesso ao Pay-Per-View (e outras que tb tem mais o que fazer ao invés de gastar dinheiro e tempo com essa possibilidade) e que, portanto, estão fora dessa possibilidade. Lembrando o velho Marx, são os telespectadores sem acesso ao dinheiro e consequentemente o poder de assumir esse papel de "bruxos" tornando-se telespectadores. Porém não passivos como a primeira observação pode trazer.
Cada cômodo da casa é cuidadosamente planejado. Todo manual de psicologia experimental e behaviorista está lá. A cor dos quartos, o excesso de espelhos em alguns, o formato, enfim, tudo o que possa alterar o psiquismo de cada um e, consequentemente, fomentar o grande show que se pretende ser o programa. Cabe lembrar que também tem a seleção dos candidatos que, além dos atributos físicos que retroalimentarão a indústria do consumo incluindo revistas "adultas", há também um cuidado na escolha levando em consideração o perfil psicológico de cada um. Tem os clichês que podem chamar a atenção do público: o machão, o valentão, o intelectual, a "galinha', a santinha, o viado enrustido, a bicha pintosa, a "muito franca" e mais uma gama de clichês. Engana-se no entanto quem acha que a seleção é baseada só nisso. Estamos lidando com uma equipe profissional que aqui chamo de "cientistas" com uma inteligência maior que possa parecer a primeira vista. Até porque quando há dinheiro em jogo - e em televisão, órgão ainda poderoso de venda é muito mais que R$ 1,5 milhão, a coisa fica muito séria.
Além desse projeto de ergonomia - algo que as empresas usam para adaptar o ambiente de trabalho o mais propício para os funcionários produzirem mais ao se sentirem confortáveis- completamente bizarro há também outros detalhes. Quem acompanha o programa sempre vê os participantes falando de emoções aumentadas e tudo o mais. O ingrediente para isso? Somemos confinamento, ergonomia bizarra e principalmente, privação de sono, que prejudica a capacidade de atenção, privacidade e, em alguns casos podem levar a alucinações e também afeta o humor. Basta vermos que os participantes vão dormir com o dia amanhecendo, isso após festas regadas a muito álcool - outro ingrediante fundamental neste zoológico - e poucas horas depois são acordados, por exemplo, por Ana Maria Braga e seu papagaio de espuma para manter a audiência de seu programa. Além de cobaias, os participantes são peças gratuitas da engrenagem de funcionamento de uma emissora que cobre o país inteiro, o que faz pensar que o prêmio de 1,5 milhão é uma ninharia perto da grana envolvida neste imenso circo behaviorista. No fim das contas o que conta mesmo é o comportamento de cada um: fofocas, malidicências, edredons, violência verbal e, raramente, física. É da ação das personagens envolvidas que a edição se nutre e joga para gente, narradas pelo Bial, o grande mestre de cerimônia desse circo que precisa sim de um jornalista de nome para tal, porque, ao contrário do que muita gente pensa, a tarefa do BBB não é para amadores. Que o diga o sofrível Britto Jr na versão da aprendiz de feiticeira comandada por pastores pós-modernos (sim, eu adoro esse excesso de adjetivos).
Claro que para o público e até mesmo para os participantes nada é tão passivo assim. Há uma ação sim efetiva destes na forma e nos contornos que o programa adquire a partir de seu desenho. A classificação "sarados", "ligados", "belos", "cabeças" e a preconceituosa "coloridos" mostram que há fronteiras ali que podem ser quebradas ou gerar conflitos não esperados. Pensemos nas discussões entre os "cabeças" Elenita e Alex, que mesmo sendo da mesma equipe e, aparentemente com alto grau de instrução, entraram em choque em certos momentos por conta mesmo de suas individualidades que vão além dos critérios de escolha de Boninho e sua equipe. O racismo velado do "ele nem é tão preto assim", ou os lances homofóbicos de Dourado e sua rixa contra Dicesar alimentado por brincadeiras bem planejadas por Bial para atender a demanda cultural nossa da necessidade de manutenção de uma masculinidade branca e heterossexual, ainda que isso esteja longe da realidade da maioria dos que assistem o programa, mas que de alguma forma se identifica ou, mais ainda, deseja esse ideal (olha eu detonando o neobehaviorista Skinner e voltando pra Freud), essa espécie de supereu cultural. A partir disso surgem as discussões de internet, posts no twitter, as entrevistas que a Globo faz com o povo na rua, as bobagens nos jornais, a alimentação das emissoras longe do poder da Globo que tal como chacais se aproveitam da carniça da programação da Vênus Platinada - Sônia Abrão pode ser considerada o chacal-mor e, até mesmo a existência desse texto e as caras amarradas daqueles que estufam o peito e dizem "não assisto a essa merda". Mas para os que assistem essa "merda" como eu, vou usar uma frase do próprio Bial para Tessália que disse "lixo também se recicla". E talvez nessa grande usina de reciclagem é que o programa encontra sobrevida para 10 edições, claro que amparado no grande poder que a sua emissora apresenta. Neste caso o zoológico humano se torna um verdadeiro "simba safari" via satélite.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Substantivos do reinado de Momo
Ar-condicionado. Informação. Espera. Atendente. Coca-Cola. Sanduíche. Presunto. Queijo. Tomate. Frango. Macarrão. Cibele. Risos. Loucura. Bônus. Livros. Dinheiro. Shopping. Tarifas. Cigarro. Fotografia. Multibloco. Beleza. Alegria. Pulo. Fantasia. Ônibus. Moedas. Trocados. Edições. Cansaço. Saída. Arredores. Cenas. Mijadas. Ruas. Policiais. Albinismo. Marcas. Venda. Cliente. Relógio. Madrugada. Favelados. Lanchonete. Loiros. Elevador. Rio de Janeiro.
Ps: Sim, é um texto hermético. Quando a paciência para outro tipo de texto surgir, será publicado aqui.
Ps: Sim, é um texto hermético. Quando a paciência para outro tipo de texto surgir, será publicado aqui.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
domingo, 6 de dezembro de 2009
Esgotamento
Passando pelo centro de Araruama hoje tenho a sensação de que a cidade não é homônima à lagoa que a banha. É um grande oceano de ruas desertas e bares que se tornaram ilhas de muitos homens e poucas mulheres vestidos de rubro-negro. A cabeça esgotada acaompanha os gritos de quase-gol, os fogos na hora em que o objetivo do jogo é realizado e o coração tricolor deserto de informações sobre o que se passa agora em Curitiba. Resta-me navegar por outros mares, o da informação, e ver que há nese minuto um empate de 1 a 1 e após a prova creio que meu esforço é parecido com o do meu time. Espero que isso não seja em vão e que minha alegria seja igual a daqueles muitos homens e poucas mulheres nos bares desta terra salgada.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
A escrava que não era Isaura
A cena de ontem na novela das 8 que passa às 9 foi completamente absurda e nojenta. Vejamos: a personagem da Lilia Cabral obriga Helena a cuidar da filha dela em uma viagem para a Jordânia. Ok, e a Helena, mesmo sem lentes de contato azuis, encarna a escrava Anastácia e vai para o sacrifício. Na volta a burra-velha filha da Sinhá volta paralítica e mamãe vem cobrar da negra satisfações. A infeliz afro-descendente se ajoelha diante da sinhá branca para pedir perdão e toma uma bofetada, tal como se estivesse no tronco. Ou seja, passados mais 300 anos, Palmares ainda é revolucionário neste país movido á manivela.
Essa subserviência me deixa indignado, não só por ser negro, mas esse tipo de comportamento é revoltante.
Essa subserviência me deixa indignado, não só por ser negro, mas esse tipo de comportamento é revoltante.
Chiclete
Bem, taurinos tem o péssimo hábito de serem obsessivos. Eu creio que sofro do efeito-chiclete. mastiga, mastiga, mastiga até o doce acabar de vez mesmo - neuróticos precisam de certezas, senão não existem - a ai sim, depois jogo for já com o maxilar doído.
No entanto esta semana ao falar com um ser estava na companhia de uma boa amiga-irmã que escutava o diálogo. Depois ela me surpreendeu com declarações que reduziu o ser a algo menor que um quark-top. E aquilo me fez um bem e me fez sair daquela obsessão, ou seja, pude jogar o chiclete antes do meu maxilar doer. Foi uma boa aplicação de soro chamado autoestima. Quero que isso se torne uma vacina e que meu organismo seja capaz de produzir esses anticorpos por si só.
No entanto esta semana ao falar com um ser estava na companhia de uma boa amiga-irmã que escutava o diálogo. Depois ela me surpreendeu com declarações que reduziu o ser a algo menor que um quark-top. E aquilo me fez um bem e me fez sair daquela obsessão, ou seja, pude jogar o chiclete antes do meu maxilar doer. Foi uma boa aplicação de soro chamado autoestima. Quero que isso se torne uma vacina e que meu organismo seja capaz de produzir esses anticorpos por si só.
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