sábado, 26 de fevereiro de 2011

Vida tirana

Estava sem ideia para o post de hoje. Na verdade tive várias nesses dias que a Fabi esteve aqui, mas basta estar na frente do computador que elas "somem".

Mas ai vem aquele papo com o amigo que vem salvar a falta de ideias. E vem aquele papo assim: tem um menino bonito, desejado que está perto de uma criatura que é o oposto. No entanto, ela não tem medo de ser ridícula e não liga, pelos nossos valores, para a própria imagem. Na verdade é um tipo de criatura narcisista que caminha para o erro, dado o exagero ou a forma tosca como lida com as coisas.

O lembrei que ele é do tipo que, mesmo que tenha um rosto bonito e desejado que ele adore, se for para ele se expor ao ridículo, ou mais ainda, quebrar com o próprio senso de si, que lhe dá, de certa forma, segurança sobre que ele é, ele sacrifica a sua escolha. Aliás não há sacrifício, ele escolhe a si mesmo.

Sim, vivemos nesta gangorra entre eu e o outro. A vida não veio mastigada com manual de instruções, mas ela é tirana. Culpa daquela praga que Hegel chama de "consciência de si" e que as religiões fazem questão de matar, mesmo sem sucesso.

Essa gangorra deixa bem claro a nossa falta. Não há escolhas definitivas que nos complete. Sabe quando a gente diz "nem tudo é perfeito"? Passa por ai. São as tiranias da vida. São as nossas tiranias na nossa frágil, porém necessária, tentativa de manter o nosso mínimo de dignidade.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Caminhos Geológicos

Olá meu caro,

A profusão de coisas loucas prosseguem. Muitas delas em sua companhia. Você acredita que me lembrei de ti ontem ao passar em Niterói e ver uma espécie de sede de alguma instituição estadual que fala do projeto Caminhos Geológicos. E nós sabemos as razões disso, pois sempre nos surpreendemos, no sentido literal e figurado com esses pontos mostrados pelo projeto e que para nós se tornou uma metáfora. Somos homens das Baixadas Litorâneas. Em meio de uma planície de lagoas salgadas podemos nos surpreender, encostado ao fundo, com algum desses pontos. Parece que todo o litoral do Estado do Rio é assim, não é mesmo?

E essas surpresas podem ser pontos - ok, mais que pontos - que aparecem em toda parte de várias formas e sob várias cores. E a vida, que sempre chamamos de tirana, nesse aspecto prega as suas peças e vem com certas surpresas esquisitas. Tanto para o meu lado como para o teu.

Eu com essa minha mania de "3 na 12" tenho a capacidade de me interessar caoticamente por vários assuntos. Nunca decorei as Eras Geológicas, mas me impressiona, por exemplo, ao voltar para a casa e reparar a Serra do Matogrosso - aquela que te dá enjoos - e imaginar que aquilo tudo levou milhões de anos para se formar nessa sucessão de eras.]

E hoje pensei nas diversas eras de uma parte que suas emoções passam. Contei aquelas que vivi desde que nos conhecemos. Pensei também nas minhas eras.

A sua era atual parece ter um engraçado jogo de espelhos. Uma palavra dita aqui por você e outra dita pelo seu novo outro. Elas são pronunciadas com uma dose de cautela e ao mesmo tempo carregadas com a energia de dizer as coisas na lata que lhe é característica. É como assobiar e chupar cana com elas, coisa que tenho dificuldade em fazer.

E as regras, você que ao mesmo tempo convive com elas - até por força de seu trabalho- e ao mesmo tempo é rebelde com elas? Parece que elas, para reforçar a tirania da vida, veio com uma série de impedimentos para evitar esse seu novo encontro. E nesse encontro que não acontece é que se desenvolve a sua nova era pessoal. Devagar, como sedimentos que vão se depositando nas baixadas e rochas que mudam de forma com o passar desses milhões de anos. O mais engraçado que as regras alimentam o narcisismo do outro, nessa mistura de "não posso" com uma dose forte de provocação, por muitas vezes velada.

Em princípio pode parecer que você está perdido, mas por te conhecer bem, nesses seus caminhos não geológicos, você sabe exatamente o terreno que pisa. E que se for ter uma desilusão, que tenha. Você se permite a ser vivo e não se perde ou deixa de ser feliz para alimentar uma bobagem que venha a dizer "oh como sou gostoso", mas sem nada concreto efetivamente. Você é criatura da ação, ainda que em meio a brumas e madrugadas ou noites curtas entre a televisão e a hora de fazer a janta.

Agora em meio a florestas em que o sol não parece dourar a copa das árvores mas revela o prateado das águas você deixa fluir suas emoções. O que vem depois dessa era, não sei. O barato agora é vivê-la e enquanto isso não só acompanho, mas vamos nessa caminhada louca preparada por essa senhora tirana chamada vida.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sobre a amizade.

Já passa da metade do mês de fevereiro. O meu segundo post. E isso porque essa semana aconteceram diversas coisas que poderiam render vários assuntos, temas e discussões para esse blog pouquísismo lido, uma das razões talvez que o fazem ser bissexto. Ok, chega dessa enrolação.

O ponto de partida para o pensamento de hoje é o filme que o Osmar me mostrou hoje, após chegarmos do enterro da mãe da Fabi que é o que ilustra esse post: "Mary e Max". A história de uma menina australiana que troca correspondência com um homem de meia idade novaiorquino com uma variação rara de autismo é de chorar. E, apesar desse argumento ele não é piegas e tolo. Apesar de ser uma animação, não é do tipo divertida, piadista (apesar de eu adorar animações desse tipo também) e, apesar de ser uma relação não de namorados é, no fim das contas, uma história de amor. Chorei com o filme e o recomendo, já que é um belo e realista libelo a mais nobre, por mais que isso seja batido, das formas de amor: a amizade.

"No fim das contas você vai ver que o amor é um só", me disse Evandro semanas atrás. Eu me lembrei de uma roda que a professora de português fez na sala, no primeiro ano do segundo grau, e falávamos sobre amor. Eu, sempre pernóstico e metido a intelectual da turma saí com o chavão: o amor tem várias formas de se manifestar, mas é tudo amor. Quinze anos depois eu iria me dar conta das minhas palavras não como um clichê, mas como experiência vivida.]

Naqueles idos de 94 a Suiá estava em outra turma por ter optado por francês e assim, poder manter seu grupo, "a cozinha", unida contra a fragmentação pretendida pela direção do colégio, pois, optando pelo francês no ensino médio, todas seriam obrigadas a estar na mesma turma, a de final 08, que era a única que tinha a língua estrangeira de baixa procura no colégio. Afinal de contas o inglês é mais necessário. E assim elas fizeram, não todas as cozinheiras. Eram 7 no total e 3 se mantiveram unidas. E as que não estavam unidas por turma mantiveram contato no colégio e este se estende até hoje. Ali é um exemplo de como se deu uma história de amor adolescente.

Hoje eu vi Suiá no enterro. Ela faz parte das minhas histórias amorosas. E Fabi que pra mim é minha irmã também. A morte de dona Reginalda me fez ter vários momentos de reflexão, estados, sentimentos por muitas vezes caóticos. De me lembrar do meu primeiro contato com Fabi, no dia em que tentei pegar o 438 e o maldito motorista ruivo (apelido que colocamos) impediu-me de entrar pela frente, porque a maior parte dos motoristas, antes da aprovação da lei orgânica de 1990 achavam que estudante do Pedro II não era da Rede Pública e por isso não deveriam entrar pela frente, tal como os das redes estadual e municipal. "Vem, Odilon!" foi a primeira palavra que trocamos. Isso era ainda na primeira ou segunda semana de aula, o que faz o cinco de março ser uma data emblemática para nós assim como o aniversário, natal, páscoa e ano novo.

Dona Reginalda apareceu pela primeira vez naquele mesmo ano. Tínhamos, eu e Fabi, que fazer um trabalho de matemática. O tema era porcentagem e era relacionado com a campanha para governador daquele ano. Entrevistamos pessoas, até pelo telefone usando o catálogo, para saber sua intenção de voto e, a partir dali, transformar em dados estatísticos. A mãe, preocupada com a filha a levou até em casa, dizendo que gostaria de saber onde a filha estava indo e quem eram as pessoas e tudo o mais. A partir daquele dia começa toda a história.

Eu e Fabi vivemos nossos momentos, nossos altos e baixos e sempre ajudando um ao outro. Tínhamos em comum um certo olhar de superioridade para cima dos demais. Eu fã de literatura, Fabi do teatro. Aliás foi pela paixão pelo teatro que me rendeu o título de "procurador" da Fabiana, pois às quartas feiras ela saía depois do recreio para o curso de teatro na Casa de Cultura Laura Alvin com hoje conhecidos na cena teatral Daniel Herz e Suzana Krugger e, por isso, nos dias de vista de prova eu olhava a nota dele e conferia algum erro na correção do professor.

Em meio a todas essas histórias que se desenvolveram lá estava dona Reginalda com seu jeito abusado de falar aquilo que pensava e queria. As suas várias histórias desde o tempo que chegou menina de Salvador no Rio, o que ela passou com sua mãe, sua vida toda, sempre pontuada por muita diversão e festa mesmo com toda luta e como foi ter uma filha com mais de 40 anos tendo que criá-la sozinha. Isso ao mesmo tempo fez com que Fabi tivesse que, desde cedo, desenvolver um senso muito forte de independência. Desde menina ela já sabia como lidar com burocracias bancárias, contratos de aluguel, dar atenção aos filhos do vizinho e tem que estudar. Essa independência fazia contraste comigo, completamente "Mummy's boy" e esse foi um dos fatores que me uniram a Fabi. E hoje me dou conta de que na mediação desse processo lá estava dona Reginalda.

Nos eventos importantes como meus aniversários, formatura, festas de fim de ano elas - mãe e filha - estiveram presentes. Muitos na família sempre acharam que eu e Fabiana éramos namorados, algo que hoje respondo como "temos um casamento de mais de 20 anos". E sempre refletindo sobre o que chamamos de "ditados de Reginalda", entre eles, o mais célebre "preto quando tem poder pisa logo nos irmãos de cor deles". Pelo espectro politicamente correto pode parecer racista, mas não é, especialmente quando víamos como a Chefe de Disciplina agia com a gente. O que dona Reginalda, do seu jeito quis dizer era como nós repetíamos o papel de feitores da Casa Grande.

Os anos se passaram e a saúde de DR, como a chamamos, foi se agravando. Não quero muito entrar nos pormenores desse processo que vivemos juntos, pois hoje, após o enterro o que mais quero lembrar são desses momentos de vida, seja na diversão ou até mesmo nos estresses que também ocorreram. Afinal, como Max disse a Mary, você não é perfeita assim como ninguém o é e não tem como ter uma fórmula que dê conta de tudo. Apesar de que a busca pela tal cura de Mary era uma maneira que ela acreditou de expressar seu amor, assim como estar ao lado de DR em momentos delicados de sua saúde. E cabe lembrar que ela, tal como uma mãe, me estendeu a mão também quando precisei. Mas o amor é mais que troca.

Pensei muito sobre essa questão de mãe e filhos. Pessoas com quem fiquei e meus melhores amigos passaram ou estão passando por situações delicadas no que diz respeito à saúde delas. Essa semana fez 3 anos que me mudei e minha mãe teve problema de saúde logo que nos mudamos para Araruama. Aquela situação, bem como quando ela retirou tumores benignos há 20 anos, fez pensar muito sobre isso, sobre cuidado, sobre saúde, sobre amor.

Amor de mãe sei que não é algo instintivo, da natureza. É fato cultural. E todo filho reconhece que em vários momentos as mães podem ser muito cruéis. Faz parte, Eros e Tanatos caminham ali, em certas situações o último prevalecendo mais que o primeiro. Só que dessa vez o que me deteve mesmo foi o amor, aquele que o Vando disse que é "um só". Aquele que acabei descobrindo.

E nas suas diversas formas, o que marca é a amizade. Pensei no que uma pessoa me disse que temia chegar aos 30 anos sem ter alguém, um namorado para estar junto. Hoje ele mora com o namorado. Mas pensei, pensamos no namorado, marido, esposa seja lá que nome tenha como forma de "companhia" nos esquecendo de que "companhia" mais intensa são a dos amigos e que tem a vantagem de não exigir monogamia, apesar de que existem amigos possessivos. Claro que muitos querem um companheiro ou companheira, casamento, família para que outros arranjos amorosos se desenvolvam. Não os nego aqui, só mudei de foco, talvez, para a amizade.

E aproveito aqui para agradecer os amigos que tenho. São todos muito preciosos e eles sabem disso. Rever amigos de tempos imemoriais, estar com outro de longa data no sepultamento de dona Reginalda, hoje, foi muito significativo. Não deu Fabi, para estar no Bar do Peixe e "beber" DR, mas é que um turbilhão de sentimentos e reflexões estavam comigo no mesmo momento e que permitiu a eu pensar sobre tudo isso e dedicar esse texto a você.

E um dia estaremos todos em algum lugar, junto com DR, tocando o terror, com samba do estilo da Praça XI, com DR fazendo todas aquelas exigências que já conhecíamos. Enquanto isso não acontece, vamos aproveitar as nossas vidas da melhor maneira possível nesse plano, como já temos feito durante todos esses anos.

Dedico também a todos os demais amigos, que após meu baque de fim de ano, estiveram ao meu lado, cada um de um jeito: um saindo comigo e fazendo a maldita, outro me ouvindo me ajudando a esclarecer as coisas, outro a ver as coisas com suavidade, outro me forçando ver as coisas na base da "porrada", enfim, tudo o que se espera de uma relação humana realmente verdadeira.

Esse texto pode parecer hermético para uns, caótico para outros. Mas hoje, com licença, quero me permitir ao caos das coisas como forma de poder abraçar, pelas palavras os meus amigos. Palavras que uniram Mary e Max, dois desconhecidos. Palavras que nos une, mesmo que não seja por carta ou blog, o faz pela voz. Não importa. O amor, repetindo mais uma vez, é um só.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Profecia como repetição

Meu pai hoje ao passar em frente à IURD daqui de Ponte dos Leites recebeu um livreto com mensagens do Bispo Macedo. Era a versão de um dos brasileiros mais inteligentes vivos para o Apocalipse, no qual há a ameaça de que estamos em um mundo ruim, tal como mas profecias do livro, e que o caminho era a fé em Jesus, isto é, pagar em dia o dizimo e a oferta. Confesso que não é algo que se deva ler quando você sabe que a mãe de seu amigo não està bem de saúde.

Em meio a isso falei com minha mãe sobre como esse livro, escrito no contexto da dominação romana no Oriente Médio, convence muita gente como profecia. Minha mãe disse que era por conta de similaridades entre aquele mundo e o atual. Eu concluí: nós, humanos, nos repetimos.

Heloísa Fischer em sua inserção na radio CBN apresentou trecho de uma ária de Julio César de Haendel. No trecho apresentado um egípcio quer vingar a morte do pai pelos soldados romanos na ocupação do Egito em 48a.c

A escolha feita por Heloísa foi para relacionar com o noticiário atual sobre aquele paìs. Faz sentido: o império da antiguidade hoje està em uma área estratégica e e Egito é um paìs desenvolvido economicamente para níveis africanos. No lugar de Roma, vemos Nova Iorque. No lugar da loba que amamenta Rômulo e Remo, tem aquela escultura do touro. E Júlio César muda de cara de tempos em tempos. Hoje ele é negão e seu pai veio do mesmo continente do Egito.

Enfim, guardadas as devidas diferenças históricas, o que fazemos é nos repetir. Não é preciso profecias.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Panela

"...mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulaçao produz a paciência" Rom 5,3

Teu amor, nosso amor, meu amor, amor de ninguém, amor que não era amor ou amor de verdade posto com tudo que tinha de bom e ruim. E na paciência me vem o conselho: o que me fez gostar de ti?

Sentimentos vieram como fogo, mas mandaste colocar uma pedra. Sou como tu e achei cômodo sem me dar conta de que sou fogo e terra. Sou como pedra.
Tudo é aquecido, até a pedra. E se tapa tudo depois o quem sai como explosão.

Tu pela pouca inteligência não saberias que éramos como panela de pressão. Eu sabia e me omiti por cinismo.

Na dança da agua quente e salgada busco as emoções. O fogo não é permanente. Nem mesmo o do sol. Nem eu mesmo, se é que isso existe.

Me desfaço em pedaços como o feijão espalhado pelo azulejo da cozinha. É mais que chegada a hora do almoço e fazer outro prato. Os dias são quentes e quero algo gelado como a tua expressão que odeia o choro de outro.

Farei isso com a paciência que me cabe. O que fiz, já se estabeleceu. Serei outro. Um novo eu mesmo essencial que não existe.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Apego

Deve ser essa a primeira vez que estou blogando pelo celular. Detalhe: ele nao é smart phone nem tem teclado qwerty. Por isso vou precisar de paciência para minha prolixidade e apelar pro t9.

Passado o momento metalinguístico vou colocar algo que estou há tempos pra postar.

Com os últimos acontecimentos nas Serras Fluminenses observei o fato de algumas pessoas terem morrido por quererem ficar em suas caras a despeito do perigo. Muitos acham que é coisa de pobre ignorante. Outros de rico apegado a bens materiais. Será que é por ai?

Quando ajudei o Osmar em sua monografia, reli e pensei sobre a teoria do apego. Ela coloca o apego a alguém ou algo como tao basico como comer, beber ou respirar. Ela contraria ideias comportamentais ou da psicanálise que coloca o afeto como algo subordinado a essas outras necessidades vitais.

No caso de desastres como o da serra, incêndios ou outras tragédias me fazem pensar sobre esta noção de apego que humanamente investimos nas coisas, pessoas e no fundo em nós mesmos como forma de evitar o desamparo.

Nesse sentido será que o cara que deu a vida por uma casa ou carro e nao admite perdê-los é diferente de alguém que nao larga um vício ou tem algum comportamento obsessivo? E os que não desapegam das pessoas amadas mesmo quando a relação já faliu? Claro que não posso fazer uma comparação simplista diante da tragédia. Até porque é o mesmo sentimento que faz um pai ou mãe voltar para casa e tentar tirar um filho que corre o risco de morrer com o desabamento. O apego vai se diferenciar de acordo com o que nós julgamos como vitais em nossa existência. Variáveis psicológicas, sociais e culturais devem ser consideradas. Só acredito que o apego- algo que me parece tão basico para vivermos-não pode ser desmerecido.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sobre a D.I.V.A

Depois de estar sem computador em casa, ainda mais nos tempos atuais que internet é tão obrigatória quanto ter luz, gás e água achei que o Departamento de Investigação da Vida Alheia seria completamente desativado e que o clima de introspecção nas Baixadas Litorâneas me reduziria consideravelmente o material desta organização que tem filiais espalhadas em qualquer lugar do mundo onde tenham seres humanos.

O que ocorre, no entanto, é que sempre tem o maldito (ou bendito) orgasmograma, o famoso quem pegou quem, como na Quadrilha de Drummond. Por ele fiquei sabendo semana passada que uma figurinha desconhecida minha que se vendia de um jeito - muito caro por sinal - na verdade era outra coisa, bem diferente do que ela se propunha. E quando confrontada com a informação, ela, que jura que não liga para essas coisas, tomou Doril. Ela teve o azar de cruzar as minhas linhas do orgasmograma.

O silêncio dela me lembra muito, nesse sentido, o xingamento da personagem do post hermético anterior. É foda quando você é desnudado. Sempre aparecerá aquele menino irreverente a dizer "Gente, o rei está pelado!".

Todos nós caímos, até Jack, o cara.

Da janela lateral

Existem desejos que ele, naquela noite não quis admitir. No entanto havia no ar aquele falso esquecimento que deixa luzes acesas e a janela a vista de todos. Ele, apenas mais um naquela multidão de quadrados lado a lado de repente mereceu atenção. Não por quem ele era - as janelas confirmavam seu anonimato-, mas pelo que ele fazia.

Ela, mais esperta já tinha chegado a esse conclusão há muito tempo e, simplesmente não ligava.

Terminado o ato ele se dá conta de sua passividade. Ele que por uns breves minutos era quem estava literalmente por cima ainda que com a maior parte do corpo vestida (o que ele esconde?) de repente se viu ali, flácido, vulnerável ao olhar do outro. Esteve o tempo todo sem o menor controle e estava realmente solto quando se achava no controle da situação. O que acontece é que ele escamoteou o próprio desejo de ser, de alguma forma, o alvo do desejo e não só o que deseja aquela mulher que simplesmente não ligava. Desejo de um anônimo perdido em outra janela igual a dele.

Tão forte era isso que no fim apelou para um xingamento impessoal, a tentativa inútil de que era ele o dono do jogo. Tarde demais. Ainda que o olhar do outro o tornasse alvo de algo especial que ele, ao recobrar a consciência custou em admitir. Não, ninguém perdeu nada ali. Quem se perdeu mesmo, foi ele.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Praia esquizoide


Olá, meu caro, tudo bem com você

Hoje estive na praia e foi uma pena que você não estava com a gente. Garanto que você iria se divertir muito por lá, dada uma série de fatos realmente interessantes.

Você já me conhece há tempos e sabe dessa minha necessidade doida de sempre consultar as diversas teorias para refletir sobre fatos que eu deveria, a exemplo de Caeiro, sentir. Parece que estou buscando uma essência das coisas, mas não estou. Eu gosto do diálogo e da possibilidade de confrontar idéias. Evitá-las é tão covarde quanto estabelecer uma essência eterna para todas as coisas. Enfim, esse é o meu jeito.

Hoje pensei nos "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade". Nele, Freud menciona a clássica ideia do par exibicionismo e voyerismo. Em época de começar BBB começam a aparecer trocentos especialistas para falar da "modernidade" do tema (o texto do velho Zig é de 1905) ao apontar a sociedade de espetáculo que vivemos ou vem aqueles que pasteurizam tudo e resolver fazer um essencialismo biológico de quinta categoria negando ao desejo humano os seus aspectos sócio-culutais e até mesmo os psicológicos pelo imperativo da reprodução.

Passada a papagaiada cult o fato é que hoje parecia um típico dia de sábado e atípico para o que estávamos vendo durante a semana, eu e meu amigo. Ficamos por horas a espera de achar um ponto estratégico em meio a uma tarde de sábado cheia na praia. Foi então que avistamos um coroa que era uma cruza de Silvio Santos com Manolo Otero há 30 anos que estava com uma canga com desenho da bandeira brasileira e uma sunga combinando com ela. E perto dali dois rapazes gringos muito bonitos pediram, depois da nossa luta em fincar a barraca e achar sombra naquele que pareceu o ponto mais vazio da praia, para vigiar seus pertences enquanto ia na água. E um pouco mais próximo da beira, uma figura de boné com uma garrafa vazia de H2OH! na mão conseguia, como bom voyeur, ter olhos para os três momentos: os rapazes, eu e meu amigo e Silvio Otero com o amigo, amante, sei lá o que dele.

A água hoje estava melhor que ontem, mas as ondas não estavam de brincadeira. A minha sunga está em petição de miséria. E quem fica na beira acumula mais areia no calção, então parecia que eu estava todo cagado com aquela sunga velha, esticada e sem elasticidade, comprada nos tempos em que eu estava mais gordo. Não que eu seja magro, mas acredite em mim, eu estava maiorzinho.

Foi meu amigo que chamou-me a atenção para o lance da areia e daí, após refletimos, decidi que vou pegar a dica do chileno parecido com o Joey Fantone e comprar em uma loja em minha cidade uma sunga nova. Resolvi quebrar o protocolo de me secar de pé e sentei para diminuir a sensação de vergonha.

Eis que a praia começa a esvaziar mais e então aparecem novas pessoas. Esse movimento é engraçado, parecem as ondas que trazem oferendas da semana passada de volta para areia, enquanto é capaz de levar para si areia e, muitas vezes, pessoas. Por isso os salva-vidas estavam de plantão na beira do mar e apitando para quem resolvesse pegar jacaré em um ponto mais distante.

Saquei a câmera e comecei a fazer fotos, meu vício maior. E do nada aparecem dois rapazes e uma moça com a camisa de alguma ONG fazendo a limpeza da areia. Em princípio achei que eles iriam para outros pontos da praia, mas para a nossa surpresa eles resolveram ficar ali.

Falei aquela papagaiada freudiana do desejo de observar. Deve estar ligado a minha estrutura neurótica sempre vivendo na ambivalência da dúvida e da certeza. Olhar é o nosso meio de acesso a conhecer. E ao mesmo tempo que eles ficavam só de sunga, o nosso conhecimento e supresa aumentavam.

Aquele loiro, ah aquele loiro. Sempre eles! Não tirou a mão do pau em nenhum tempo que estávamos ali. Sabia que estávamos gostando e ele se exibia. Era um jogo que mexeu com esse lado ativo do voyeur com o passivo do exibicionista. Quando os nossos olhares se encontravam - ele tinha olhos verdes belíssimos - eu ficava tímido.

Outro dia escrevi um texto falando do norte do desejo e seus ideais. Ali não era nenhum bolsão gay e talvez por isso as investidas do olhar se tornam mais interessantes. Ao mesmo tempo era de se estranhar de que alguém que não aparentava ser um pay-per-view sexual com um belo corpo fazer tudo aquilo. Sabe como é cabeça de gordo e neurótico, ele precisa da dúvida para saber se é alvo do desejo de alguém.

O que eu tinha me esquecido, meu caro, é que a sexualidade tem a sua fase de auto-erotismo quando ainda não entendemos o corpo como um "todo". Naquele jogo de olhar e ser olhado havia por uns breves instantes a presença marcante da mão sobre aquela sunga e só. Sabe aquele lance que te disse da gestalt sobre figura e fundo? As mão frenéticas eram a figura.

Claro, teve momentos de observar o todo, o belo rosto e o corpo malhadinho sem exageros. Um sorriso meio sonso, além do amigo moreno dele de bunda pequena e vermelha e aquela moça cuja presença no cenário até agora eu não consigo entender além de ajudar no recolhimento do lixo. E olha que nem ela, e nem a família que chegou depois, inibia os movimentos do loiro.

Falando em gestalt aquele ponto ficou mais "pink" depois que chegaram três figuras que resolveram ficar ali perto. Havia um careca magro lindo com barba por fazer e lábios grossos. Esse é um dos vários tipos que o meu desejo eclético pistoleiro serial killer adora. Formou-se ali, naquele lugar aparentemente vazio, uma gestalt rosa. Lei da proximidade. E essa lei me deixava ainda mais doido quando o tal careca olhava para nossa direção entremeado pelas investidas do loiro.

Engraçado como esses jogos sexuais ficam fixos nesses pontos. O coração bate mais forte, há uma adrenalina e no fundo é mais um dos grandes teatros que todos nós participamos. No caso de nós homossexuais, o silêncio é uma tônica forte. Muitas vezes por não termos a liberdade da cantada direta - apesar de que muitas vezes ela possa vir a acontecer sim. Ou então, o maldito norte do desejo em seu aspecto aprisionador, impede que tipos diferentes se dialoguem. É um conflito que a diferença de corpos pode trazer e então ela prefere a "metafísica de não pensar em nada".

Não sei até que ponto faz sentido tudo isso que estou mencionando pois está tudo fresco - com trocadilho, por favor - na minha cabeça. Talvez seja hora de um bom descanso disfarçado, a exemplo do loiro, e se submeter ao próprio prazer. E deixar a roda da vida continuar com seu trabalho.

No mais, por hoje é isso.

Um beijo grande,

.O

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Até Jack, o cara, caiu! Parte 2

Vendo a entrevista do Neil Tennant ele fala sobre a música:

NT: "Jack the Lad" is about being an individual, daring to do what you want to do. The song refers to Lawrence of Arabia, Oscar Wilde, and Kim Philby. It's also about the application of the idea of individuality to masculinity and not worrying too much about falling down. When you're a Jack the Lad type, you can be the fool, too.

Três personagens originais em suas vidas e que em um dado momento, caíram. Lawrence estuprado pelos turcos, Philby teve que pedir arrego na URSS quando descobriram que ele era contra espião para os russos e Oscar Wilde preso e condenado.

E por mais original que possamos ser, um dia, como o Jack, caímos, nos ferramos. Deve ser esse o grande medo que nos ronda. Não estou fora disso, por isso me identifiquei com Jack, de alguma forma.