terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Millenium: o homem que odiava as mulheres



Neste verão eu decidi fazer algo de diferente. Ficar na minha casa nesse verão maravilhoooooooooooso das Baixadas Litorâneas fluminenses, tomando meus bons Montillas e dividir com vocês esses momentos meus, que inclui bancar o cinéfilo de ocasião e comentar os filmes oscarizáveis.

É que cinema pra mim tem sido como ir a um restaurante bom ou ir no McDonald's, ou seja, seja um filme de arte ou um blockbuster cerejão é algo que faço raramente e, quando o faço, sei distinguir entre uma coisa e outra.

Mas o cerne do post não é esse, e sim comentar o que vi da versão estadunidense para a obra do jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), "Man som hataar kvinnor" (quedê o trema para o a de man, abnt? #classemediasofre) e que na versão de David Fincher é a "A Garota com a Tatuagem de Dragão" e no nosso dialeto brasileiro tornou-se "O Homem que não amava as mulheres". Coloquei os três títulos porque achei interessante quanto ao seu significado. Mas vou deixar a papagaiada psicolingúistica para o fim.

Estou com a versão sueca do filme na fila, que é de 2009 e dirigida por Niels Arden Oplev e quando vê-lo comentarei aqui, para as inevitáveis comparações.

Vamos ao tio Fincher. Esse é o tipo de filme que não dá pra ver assim de relance, aliás como todo o filme de mistério, detetives e afins em teoria devem ser. Não li a obra, mas pelo roteiro ele mescla uma história aparentemente nada absurda em termos de mistério, mas faz isso de uma maneira muito bem feita. Não foi difícil saber quem era o assassino do filme - acho que deduzi mais pela escolha de quem desempenhou o papel do que pela lógica em si, sou péssimo pra essas coisas - mas Fincher conseguiu trabalhar isso de forma  muito boa, partindo dos clichês habituais sim mas sem o lugar-comum: o investigador que se envolva com a assistente, o velho nazista em uma casa empoeirada, a garota hacker-gótica-maluquinha-usuária-de- drogas-bissexual, o senhor rico elegante e tudo o mais. E claro que além do bom roteiro de Steven Zaillian - o mesmo de Tempo de Despertar, A Lista de Schindler, Missão Impossível, Gangues de Nova Iorque, A Intérprete entre outros- aliado com as atuações do ótimo elenco, bem como detalhes técnicos como a fotografia, edição e montagem contribuem para isso.

Daniel Craig faz com competência Mikael Blomkvist, o jornalista da revista Millenium (título do filme) que perde um processo para Hans-Erik Wennerström, um "vilão" que pouco aparece no filme, até porque ele não é o foco central, mas o começo e o desfecho da trama. Craig teria tudo para repetir o 007 - tanto é que assim como em Casino Royale temos uma cena de tortura com tom homoerótico- e, por sua competência não o faz. Ele consegue achar o equilíbrio entre o jornalista derrotado, o pai ausente, o investigador inteligente e um homem submetido ao desejo de mulheres em situação de poder maior, seja pela editora Erica Berger (Robin Wright), chefe de Blomkvist ou pela jovem Lisbeth Salander (Rooney Mara), mais rápida, inteligente e que, sexualmente é quem toma a iniciativa diante de Mikael. 

A presença de Stellan Skarsgård é muito boa, ainda que eu o ache uma espécie de Gerard Depardieu sueco, ou seja, se o filme é sueco ou tem lenda nórdica na história, chamem Stellan. Para quem viu "A Casa de Vidro", em que ele era Terry Glass (vidro em inglês)  pode fazer uma ótima conexão, pois a personagem dele em Millenium, Martin Vanger, mora em uma casa envidraçada de fora a fora e dentre os membros da família Vanger é o mais simpatico e "transparente", juntamente com seu tio Henrik.

Bom rever Christopher Plummer que ficou na minha memória como o Capitão Von Trapp do clássico "A Noviça Rebelde". Mas uma vez ele é rico e mora em um lugar isolado de tudo...e a sua participação como o patriarca Henrik Vanger está ótima. 

Outro que merece destaque é o ator holandês Yorick van Wageningen, que faz do seu Nils Bjurman a medida exata entre o advogado comum, gordo , pai de família - sutileza do diretor na presença leve do álbum de retratos em sua mesa- e o cara perverso, fazendo um bom jogo com Rooney Mara sobre quem dá as cartas em alguns momentos do filme. 

A escolha do titúlo em inglês "A Garota com a Tatuagem de Dragão" é excelente, pois o filme é de Lisbeth Salander, a dita garota. O bacana é que essa tatuagem durante o filme é mostrada uma vez só durante um banho da personagem e já é o suficiente para sair do clichê (nossa, como estou usando essa palavra aqui). E se Lisbeth tinha tudo para ser a caricatura da garota esquisita rebelde maluca, a atuação econômica de Rooney Mara deu o ponto exato para a personagem que transita entre o violento, sexual, rigidez, dureza, afeto, carinho, infantil, inteligente tudo isso no momento certo, preciso.



Outros bons pontos é o fato do filme não terminar na resolução do mistério principal "quem matou Harriet Vanger?" e voltar para a briga de Blomkvist x Wennerström e Rooney Mara num visual mezzo Kate Perry, mezzo Raquel Assunção no julgamento de Ruth (sim, eu tenho que mencionar a teledramaturgia).

Aliás em relação ao apelo "gótico" de Lisbeth, é bom lembrar que a trilha tem o senhor Trent "Nine Inch Nails" Reznor, o homem do rock industrial tão querido pelos "goths, já que não só o filme, mas como o cenário, desde Estocolmo até o chalé de Blomkvist no norte da Suécia dá exatamente esse clima sombrio, mas sem cair naquele esquema fácil do noir-cinzento (pelo contrário o lugar é coberto por alvíssima neve). Há referência a Trent na camisa que o gordo que vende apetrechos eletrônicos para a espionagem de Lisbeth. 

E sim, nada de vilão voltando dos mortos para encher o saco e amarrando o final da história. O tempo nesse sentido é trágico e não dramático e isso é bom para o filme.

E as mais de duas horas de filme, enfim valem a pena. Se bem que nunca vi um filme gringo com merchandising descarado - quase no modelo brasileiro em que nomes de bancos vêm escancarados nas cenas- como esse, incluindo a Apple - claro em todo filme tudo mundo usa Mac, mas nesse, diferente de outros que vi, mostra o uso do MacOs- Coca Cola, Marlboro e Mc Donald's. Nada que comprometa o filme.

Consigo fazer mais leituras que me chamaram a atenção sobre Lisbeth: o fato dela oscilar bem entre a fragilidade e a força, entre a vítima e a vingadora, entre a louca e a sã, a tutelada e a independente. Outro ponto, no fim do filme, é que ela, mesmo sabendo de cabo a rabo a vida de Blomkvist ainda é surpreendida na cena final do filme por uma atitude tão comum feita pelos homens. Não vou contar para não fazer spoiling.

E por fim, no Brasil quisemos nos aproximar do título sueco "Man som hataar kvinnor", como "O Homem que não amava as mulheres". O que acontece, meus caros distribuidores brazucas é que uma coisa é "não amar", outra coisa é "odiar", onde é um desejo realmente existente com objeto e objetivo constituído, como o filme bem mostra. aliás quando li "hataar" me lembre do inglês "hate". Tá bom, não interessa a ninguém saber meus exercícios de etimologia vagabunda só pra dizer que sei alguma coisa).


Ps: Vejo nesse momento a que categorias do Oscar o filme está concorrendo

- Melhor atriz (Rooney Mara);

- Melhor Fotografia ( Jeff Cronenweth, que já trabalhou com Fincher em O Clube da Luta e A Rede Social, diga-se de passagem o segundo ainda não vi por pura implicância e o primeiro impliquei por anos para depois gostar muito do filme);

- Edição (Kirk Baxter e Angus Wall, companheiros de Fincher em A Rede Social, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button, sendo que o segundo fez o Quarto do Pânico, para mim um suspense mediano)

- Edição de Som: Ren Klyce, também dos filmes já citados

- Mixagem de Som: David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Bo Persson. Parker, já participou de inúmeros filmes, de O Retorno de Jedi a Gi-Joe, Piratas do Caribe entre tantos blockbusters. Semanick já tem duas estatuetas, uma por O Senhor dos Anéis- O Retorno do Rei (2003/4) e outra por King Kong (2005).  E o sueco Bo Persson já trabalhou com Bergman em Fanny e Alexander de 1982).

- Nada melhor que o IMDB nessa vida né mesmo? Dá um ar de que a gente sabe tudo de cinema, mesmo sendo um lammer, meu caso.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

As fluminenses


Bem eu sou daqueles neuróticos histéricos que repetem que carioca é quem nasce na cidade do Rio de Janeiro. Atravessou a Dutra, a Serra do Mendanha, o Rio Meriti ou a Ponte rio Niterói o "carioca" morre e pode-se usar o que todos nós cariocas, niteroienses, gonçalenses, campistas ou araruamenses somos: fluminenses.

Baseado nessa ideia vou escrever "As Fluminenses" baseado totalmente em fatos reais, a saber:

- A Desaparecida de Araruama;
- A Adúltera de São Pedro d'Aldeia;
- As Inconstantes de Cabo Frio;
- A Neurótica Obsessiva de Barra do Piraí;
- A Dissimulada de Volta Redonda;
- A Dama da Noite de Casimiro de Abreu;
- A Gringa de Macaé;
- A Aposentada de Itaperuna;
- A Bipolar de Paraíba do Sul;
- A Dama da Tarde de Nova Friburgo;
- A Política de Cordeiro;
- A Enfermeira de Itaboraí;
- A Maldita de Niterói;
- A judoca de Resende;
- A Solitária de Angra dos Reis;
- A Ninfomaníaca de Búzios;
- A Evangélica de São Gonçalo;
- A Caladona de Nova Iguaçu;
- A BBB de São João do Meriti;
- A Pintora de Nilópolis;
- A Samaritana de Tanguá

Mas isso não é uma questão de opnião

Estou preguiçoso com o liquididificador, compreendo. E a ressurreição de um texto do Danili Gentili de 2008 na minha timeline do facebook fez com que minha cabeça entrasse de fato no liquidificador (sem os di repetidos, por favor).

O fato em si não foi o fator principal. Eu poderia fazer um tratado completo sobre polissemia, falar de significante, significado, Saussurre, Lacan, antropologia , a teoria de Goffman sobre estigmas, projeto genoma e o escambau. E poderia repetir a diferença entre humor politicamente incorreto com exemplos e a grosseria pura e simples. Poderia, mas há uma razão mais simples diante de comentários de pessoas - de pensamentos políticos opostos - que assinaram embaixo para a baboseira desse senhor considerando-o genial. Tão ruim quanto um Bolsonaro da vida é ver esses discursos travestidos de uma suposta modernidade progressista.

Não me importa se posso ser considerado considerar racialista, ressentido, que estou me fazendo de vítima ou o caramba a quatro. O fato é simples: não quero ser xingado de baleia, macaco ou viado ou seja lá o que for. Xingado, esse é o termo, diferente de um amigo meu que chega e diz "viado, como tá a senhora?" que aí a semântica é outra. E isso não é uma questão de opinião, é grosseria mesmo. Sem teorias.

domingo, 1 de janeiro de 2012

MMXII


Se teve uma coisa interessante no ano que passou foi ver alguns acontecimentos como crônicas, apesar de ser fã do gênero e medíocre para escrevê-las.

Dia de sair de Araruama e vir para Copacabana, esse bairro-cidade que nunca para. Muitos tipos bonitos de todos os tipos (a repetição é proposital) e muito movimentado obviamente, com direito às figuras novas e aquelas que já fazem do bairro.

Aí no dia 30 pode-se ver clientes a procura das profissionais do sexo em suas quitinetes. Deve ser algo comemorativo ou pura vontade. De qualquer forma os que ali passarem já estão abençoados com alguma mensagem em forma de versículo da Bíblia pregado na porta.

Então papo com o porteiro na madrugada para saber mais ou menos como será a festa no dia seguinte e ele já avisando que não tem bagunça no prédio que ele não deixaria. Passam pessoas, entram senhora e senhor na boate de strip-tease que como Marilac devem quer algo de diferente neste verão. Isso na volta da madrugada do mercado relativamente cheio para o hora, em especial adolescentes apinhados na seção de bebidas, indecisos e com suas tolas brincadeiras (sim eu já fiz isso também).

Cervejas, mantimentos e rum comprados é esperar o dia seguinte. E pode-se dizer que foi bem sossegado, preparando a ceia. Posso dizer que foi feita em absoluta tranquilidade a ponto de podermos descer e acompanhar o papo de uma ex dançarina de uma boate ali de Copa reclamando do pessoal "de comunidade" que vai para a praia além de não sei quantos parentes vindo de Anápolis (Goiás insiste em nos rondar) e tudo o mais. Fora as olhadas descaradas e nossa visão fragmentada entre os Bombeiros, a Guarda Municipal, as janelas, as portarias e o grupo que só queria aproveitar a água dos chafarizes próximo à estátua da Princesa Isabel.

E assim foi. Os pedaços crus do chester demorado foram para o grill. A cuba libe + antártica bateram bem e lá fomos nós para areia festejar a chegada do ano novo com os belos fogos de praxe. Depois uma rodada pela muvuca, volta para jogarmos Mortal Kombat (será esse um ano nerd?) e retornamos à praia já sem show, mas com muita muvuca.  Hora de rirmos mais um pouco da vida e voltarmos para dormir que dois mil e doze só está começando, ainda que em um texto fraco, mas liquididificado.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Do desapego

Nestes dias pensei em uma série de textos, um para cada dia da última semana do ano com pensamentos sobre imagem, retornos entre outros que a falta do meu arquivo txt com os esboços me impede de lembrar.

Daí penso no meu último sonho do ano, que não está no meu blog específico de sonhos, mas aparece aqui por ter a ver com o título desta postagem e por sua aparente simplicidade: estávamos eu e Osmar na porta de seu prédio para ver os fogos em Copacabana. Estranhamente a rua tinha pouco movimento e logo em seguida o loucutor anunciava a contagem regressiva para o fim de 2011. Eu sem entender nada por achar que era mais cedo e meu amigo comemora e me diz que vai voltar pra casa. Na vontade de controlar o próprio tempo (isso já prestes a acordar e podendo controlar o sonho) pretendo voltar o relógio para trás e fazer daquela contagem algo melhor, com mais pessoas, enfim em clima de reveillon.

O sonho ilustra, entre várias coisas, a nossa dificuldade em nos despegarmos a certas coisas, pessoas ou situações. Achamos que somos capazes de controlar tudo e fazer as coisas da forma que idealizamos ou que achamos certa.

O que ocorre que o mundo não obedece ao nosso comando. E talvez por isso vamos tentando, como um colecionador, sustentar relações ou situações que não rendem mais nada.

E 2011  veio com doenças de pessoas queridas e morte de amigos, coisas sobre as quais nem eu nem ninguém temos controle, além de uma profunda transformação emocional. O meu desejo no fundo, a despeito de qualquer controle, é fazer com que as coisas aconteçam como tem que acontecer e, assim como fez meu amigo no sonho, aproveitar aquele momento de forma que dê prazer, independentemente se há 10, 100, 1000 ou um milhão de pessoas na rua. Pouco importa. A comemorãção, ou o recolhimento, quem faz é você e claro dentro das limitações que o mundo oferece.

E que em 2012 aprendamos a nos desapegar mais daquilo que não nos enriquece nada e saibamos fazer, cada um a seu jeito, mais celebrações. Que se dane o número de posts nesse blog, a vontade de fazer textos certinhos para cada dia ou a vontade de controlar os sonhos. Feliz 2012!!!!!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Não gosto dos meninos




Esse curta dirigido por Andre Matarazzo e Gustavo Ferri foi lançado em maio deste ano, mas eu estava mais por fora que umbigo de chacrete. Sorte que um dos que sigo no Twitter passou essa dica e pude acompanhá-lo.
 

O filme me chamou a atenção por vários pontos. Tem o lado de que me parece todos gozam de um mesmo status social - além de, como diz uma amiga minha em tom de piada, "cadê as cotas" ? - , mas isso em momento algum diminui a intenção, a força e a verdade dos depoimentos. E provavelmente muito do que é dito ali já foi vivido por muitos de nós, homossexuais.

Eu sou aquele tipo de neurótico que adora as entrelinhas. É comum ver a repetição, nos depoimentos dos homens em especial, sobre os "modelos". É sempre dito que o modelo que sempre nos é passado é negativo, da bicha louca, que solta a franga e tudo o mais. O que pode parecer negativo a princípio na verdade fez eu ter uma reflexão sobre mim mesmo.

Minhas referências masculinas foram, em suma, de homens heterossexuais - é esse o tema do próximo tópico do meu alfabeto - e, obviamente a vivência sexual e afetiva deles é diferente da minha. E isso não é um detalhe qualquer, mas algo que faz sim muita diferença.

Talvez essa nossa tentativa de "somos normais como quaisquer pessoa" guarda, mais do que a justa luta por direitos civis, uma necessidade de se desviar daquilo que consideramos negativo ou patológico. Talvez por essa razão muitas transexuais, por exemplo, sempre tem que dizer "eu não faço prostituição", como se fosse algo negativo esperado.

Quando me percebi gay vi que poderia não ser o tal "modelo negativo" que é dito nestes depoimentos. Em função disso durante um tempo achei válida a ideia do "seja gay, mas seja homem", como uma forma de ser o "gay parecido com a heteronorma", que na verdade despreza o que nós homens no fundo tememos: o feminino (ou femininos).

Sei que esse é um tema recorrente nesse blog ultimamente, mas ele reflete muito o que tenho pensado a respeito. E o contato com amigos que não têm medo de brincar com esse "feminino", mesmo não o sendo e sobretudo, compreender que da mesma forma que as orientações sexuais são diversas, há homossexualidades. Querer estabelecer um modelo "padrão"  e único para que seja seguido a todos nós homossexuais, de um gay asséptico, e no caso de nós homens, "másculos não afeminados" é tão intolerante, senão pior, que a própria homofobia.

Sim, quando um programa de humor resolve fazer graça em cima da bicha-louca, cabe sim a reclamação que muitos de nós fazemos sobre esse esteriótipo. Ao mesmo tempo cabe ver que famosos como Jorge Laffond ou Lacraia foram formas de expressão igualmente válidas da homossexualidade, ainda que o sistema tenha trabalhado de forma que estas se tornassem personagens que garantissem a tranquilidade que a heteronorma precisa de ver o homossexual como o "desviante".

Se eu reduzisse a questão do homossexual com a imagem devidamente asséptica é só de uma demanda de mercado seria uma interpretação reducionista. Ao mesmo tempo é uma das várias interpretações que se somam nesta questão. Por isso como vemos no vídeo, pode ser reconfortante como em alguns depoimentos do video se assemelhar a essa norma. Nesse sentido me chama a atenção o depoimento do menino com o cabelo "emo", que diferente dos outros não teve um esporte ou a amizade com o grupo de homens para se refugiar e passou sim por hostilização.

Quando se discute homofobia o que se quer é liberdade para as diversas formas dessa expressão homossexual da mesma forma que a hetero também encontra a sua diversidade.

O mais interessante foi que ao navegar por blogs e críticas sobre o filme de deparei com esse post aqui no qual muitos estavam com dúvidas sobre o título do filme. O fato é que essa dúvida vem pelo fato de quem diria isso seria uma lésbica, igualmente homossexual e que , pela forma como lidamos com o feminino é sempre descartado. Esse não entendimento vem disso, já que um homem homossexual diria justamente o contrário. Escolher o título a partir do que seria de uma fala lésbica é um dos grandes méritos deste curta. Até eu mesmo levei tempo para a ficha cair em relação a isso.

Enfim, em ritmo de fim de ano e com textos atrasados para o liquididificador esse curta despertou-me esse interesse. Mas claro há inúmeras outras interpretações a serem feitas a partir daí.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nan Goldin

Bem, em momento oportunista e para dar uma de "cult", o liuquididificador pega carona sobre a polêmica a respeito da exposição de Nan Goldin no Oi Futuro.

Vamos à celeuma. A dita instituição fez um edital e aceitou fazer a exposição da fotógrafa estadunidense que ocorreria a partir de janeiro de 2012. No dia 20 de dezembro ela estaria no Rio para ver os últimos detalhes e fazer fotos na minha querida Cidade Maravilhosa. Terra do samba, do carnaval, dos corpos malhados em sungas e biquínis nas praias. Do carioca manemolente cheio de gingado e descontração receptivo a tudo que vem de fora. Das muscas siliconadas e nuas nos carros alegóricos da Sapucaí e dos machos de pintos a mostra mijando na rua nos blocos de carnaval, apesar do choque de ordem. Terra das popuzudas do funk, atualmente alçadas à categoria de mulheres-fruta.

Dita essa ironia essencialista, o pessoal do Oi Futuro resolveu de última hora dizendo que a exposição não corresponde à missão da organização que é promover educação e cidadania a crianças e adolescentes. E segue se comentários, a partir da própria organizadora, sobre censura à arte e tudo o mais e claro, momento de criticarmos a terra brasilis. A crítica é válida.

No entanto deixo essa tradução minha de um artigo publicado pela própria Goldin em 8 de julho de 2008. Ela comenta sobre essa polêmica em torno de suas obras no jornal britânico "The Independent". A tradução não tá lá essas coisas, mas é o que temos pra hoje:



" Perversão está nos olhos de quem vê. As crianças nascem sem medo da sexualidade ou de seus próprios corpos. Esse medo é imposto a elas. Crianças são seres sensuais, elas se tocam e gostam de serem tocadas. É o adulto que às vezes tira vantagem desta situação.
Isso não é sobre o que as crianças estão fazendo em uma imagem e não há nada doentio no que diz respeito a uma criança nua. É tão ridículo que nós tratemos isso como um problema na sociedade. Esta é uma das alegrias da vida, o corpo humano.

Meu pequeno sobrinho cresceu na Escócia e quando ele visitasse a América com seus pais, ele correria pela praia nu e as pessoas ficariam irritadas. Quanto mais estamos cercados de nudez, mais ela pode ser desmistificada e mais percebemos que o corpo é belo.

Pornografia já é outra questão. Eu costumo trabalhar em Times Square e muitas pessoas que trabalharam em um bar lá foram profissionais do sexo que ganharam dinheiro em revistas pornográficas. Eu diria que a diferença entre pornografia e arte é essa (em um primeiro momento), crianças são abusadas para agirem na versão dos adultos de suas fantasias sexuais. Abuso de crianças está totalmente relacionado a poder e eu não estou estimulando ninguém a ter relações com alguém menor de idade.

No ano passado quando tive minha exposição na galeria Baltic, o diretor assistente chamou a polícia e disse que havia uma peça lá que você não poderia gostar. A imagem era de duas pequenas irmãs fazendo a dança do ventre. Elas decidiram dançar pra mim, eu não preparei nada. Elas estavam agindo de forma completamente natural. Depois disso eu recebi uma carta dos pais delas para dizer o quanto eles gostaram das imagens.
Mas agora até editores respeitáveis estão com medo de usar esta imagem em um livro do meu trabalho porque eles acham que isso poderia deter a sua distribuição pelos Estados Unidos.


Arte não pode e nem deve ser regulada pelo Estado. Políticos não tem nada a ver com arte ou artistas em qualquer situação exceto caso queiram se tornar colecionadores anônimos."

sábado, 19 de novembro de 2011

O prazer que habita em mim ou uma ursa nada carinhosa

Estou numa fase forte de pensar em uma série de coisas sobre a minha própria sexualidade. Sobre como quero e gosto de sentir prazer.

Quando se está na década de vinte, vamos dizer assim,  muita coisa parece novidade e tem-se a impressão de que está pronto para qualquer coisa. Depois dos trinta, como diz aquela piada infame, se está na idade do gavião, em que você olha bem o que vai comer antes. A despeito dessa metáfora machista posso dizer que ela tem muito a ensinar a todos, eu incluído.

Hoje foi mais ou menos assim: aparece uma figura no msn e marca encontro para aquela noite, assim de supetão. Eu naquela coisa de "tenho que ir para não perder a viagem e nem parecer bobo" me arrumei e fui.

Bem, ai chego e encontro a figura. Um cara de 40 anos, aparentando menos, careca, da minha altura,, gordo daquele tipo parrudão, cavanhaque, enfiim, muito bonito e dentro, para os parcos leitores desse blog, daquilo que chamo de "norte de desejo", isto é, fisicamente está "perfeito" para mim.

Trocamos poucas palavras e vamos em direção a um quartinho miúdo e acanhado que ele aluga em um lugar que me parece ter sido uma pousada nos áureos tempos de Araruama no turismo pré-via Lagos e que hoje me parece ser algo como uma pensão. O quarto está uma zona e ele solta o famoso "não repara na bagunça".

Tiramos as roupas pois uma ideia nossa antes era tomarmos um banho juntos. Naquele momento de ansiedade vou passando o sabonete no ursão. Estranhamente ele não me toca e nem me beija. Daí compreende-se bem o sentido mais extremo do termo "passivo": não é aquele que simplesmente quer ser penetrado, é simplesmente o fato de querer ser apenas tocado, sem te tocar.

Fomos percebendo que a coisa não estava andando e disse-lhe que comigo as coisas não funcionavam daquela forma. Me lembrei do Preto Velho que me afirmou que sou de Oxum, que dentre tantas coisas - meus conhecimentos sobre as divindades afro-brasileiras são parcos- representa o prazer. na minha referência intelectual greco-romana.

Nessa relação aconteceu algo que difere do que a maioria de nós pensamos sobre os papéis sexuais. de modo estanque pensamos: homens são os ativos que chegam metem sem perder muito tempo. As mulheres seriam aquelas que recebem, que precisam de carinho, atenção e afeto. Um binarismo ultrapassado, claro, porém existente e nessa noite me dei com ele de forma invertida: um passivo querendo um cara que não beija, de pau grande e duro ali pra chegar direto e meter nele, ainda que no começo ele tenha gostado do carinho durante o banho, apesar da sua visível insegurança ali naquele momento.

Outro dia conversava com amigos sobre pegação por exemplo e como - sem querer fazer papel de santo- minha sexualidade nesse exemplo só funciona basicamente de forma voyerística e não de chegar ali de pau duro e pá, "mandar ver". Esses papos me permitiram olhar mais para mim mesmo e ver como sinto prazer. E assim como eu disse ao urso dessa noite quando ele soltava o famoso e falso "não vamos perder contato, me desculpe acho que estou cansado e não estou bem", eu disse-lhe que cada um sentia prazer da forma que lhe convia e que comigo não era assim. Não quis perder tempo e fazer uma oficina de sexualidade com ele, já estava tarde e ele mesmo devia estar louco para me ver pelas costas assim como eu a ele.

Pensei em outro cara, da faixa etária deste araruamense, com quem tive encontros no Rio. Ele dizia que não gostava da penetração e que durante suas sessões de análise junguiana ele é "como as mulheres", pois precisa de beijos e carinhos. Tudo bem, beijos e carinhos não são exclusividade das mulheres, há homens hetero e homossexuais que gostam disso, assim como há mulheres que gostam de ir "direto ao ponto". Mas entendi o que esse carioca quis me dizer.

Hoje tive que lidar com isso. Na verdade com todo meu eu, meu prazer e ao mesmo tempo reafirmá-lo. A afirmação do seu prazer é mais do que dizer como você sente ou goza. Diz parte importante da famosa pergunta "quem sou eu". Diferente dos 20 anos, em que me sentiria naquela famosa "obrigação" de tudo dar certo, pude perceber com maior maturidade isso e dizer "maluca é essa ursa", que como parafraseou o Jonas, não é nada carinhosa. E a vida segue.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Araruama e a sua Parada

Ontem Araruama teve a sua Primeira Parada do Orgulho LGBT. Mal divulgada, por razões óbvias, mas valeu o empenho do pessoal do Araruama Free, bem como a colaboração do Cabo Free, além de outras entidade.

A primeira coisa, inevitável, é fazer a comparação com as paradas do Rio e São Paulo. Não como crítica, mas como diferenças que existem por ter diferença entre cidades com 10, 5 milhões de habitantes para uma de 100 mil no interior fluminense.

Aqui havia apenas um trio elétrico e não sei precisar o número de pessoas, mas era pequeno. Ainda assim a parada correu sem problemas e todos puderam se divertir.

Na parte discurso político notei a diferença do discurso. Claro que há as semelhanças nas críticas aos homofóbicos de plantão do meu Brasil Varonil, como Malafaia, Garotinho e Bolsonaro. No entanto, o discurso da militância tinha um lado mais pessoal que um pensamento "macro-político". Em outras palavras, as críticas eram diretas e válidas ao movimento evangélico da cidade e os militantes traziam seus depoimentos pessoais, familiares para argumentar contra a homofobia. Foi diferente do que já tinha visto nas grandes cidades e achei interessante ver as coisas também por esses viés. E também contou com a ajuda de outras organizações do interior do Estado. O melhor é que a maioria dos presentes prestou a atenção no que estava sendo dito, mesmo estando loucos para "fever". E vamos combinar e sermos menos hipócritas de que queremos discursos políticos em 6, 7 horas de parada ou reduzir a ação política apenas em um dia de parada. Ela deve ser vista como um detalhe importante em meio às lutas da causa LGBT.

Me deu a impressão que em um feriadão com show do Exalta Samba na cidade naquela noite havia muitas pessoas de fora. A pergunta também é: quem não é de fora em Araruama? Sejam os turistas ou pessoas que moram mas que vieram da capital como eu.

E o prefeito se ausenta por motivos políticos- entenda-se voto evangélico no pleito de 2012- e manda sua mãe para a Parada. Isso não melindrou o rapaz do Araruama Free falar a verdade, que esta é uma terra de coronéis. Se pensarmos bem, dentro do discurso que foca a militância LGBT podemos pensar como a política que pretende nos amordaçar, bater e matar também o faz com a população em geral.

Outro ponto interessante quando se está no interior é que as pessoas que ali estão lhe são mais próximas. A representante do Araruama Free é Guarda Municipal na cidade. O gordinho que dança com as drags é  o rapaz que trabalha no mercado. O menino da lan house está lá dançando com todos na pista, enfim é uma atmosfera diferente do que eu já estava habituado.

Enfim, em sua pequenez, a Parada mostrou sua grandeza, com suas características e acima dos obstáculos que lhe foram impostas. Que venham as outras.

domingo, 6 de novembro de 2011

Valores contra a parede

Um personagem delirante meu decide escrever a história de um universo próprio em uma parede infinita. Ele é livre para escrever. Quer dizer, nada do que ele escreveu pode-se apagar. Só poderá fazer isso uma única vez.

Talvez hoje eu estive tal como o personagem. Uma pergunta simples, e uma argumentação que não exigiria muito, e lá se vão valores meus contra a parede enquanto questiono os valores do outro. Vamos chamar esse outro, mais uma vez, de Homem-Parede.

Conversávamos sobre a presença de grupos em que há inimizades. E ele saca "grupo que tem muito viado é igual grupo que tem muita mulher, dá muita fofoca e intriga". Eu no meu afã feminista multifacetado - já não era a primeira assetiva machista dessa personagem da vida real em seu machismo - comecei a divagar sobre uma série de coisas. Tentei ser socrático ao perguntar quem mais mata e mais morre, se não são os homens,  boa parte heterossexuais, muitas vezes por motivos banais (há motivo sério para a morte? fica essa primeira questão). Ele me diz: homens são diretos, matam, não perdem tempo com intrigas, enquanto mulheres usam de falsidade. Tentei me perder em teorias mil, defeito meu, quando poderia simplesmente dizer "filho vai ver a próxima edição do BBB em janeiro que, ai quem sabe, você pensa melhor sobre isso".

Humano, demasiado humano. Criamos valores. E muitas vezes o usamos para rotular e discriminar - entenda como especificação- sobre o que o Hegemônico determina como o errado, pecaminoso, doente. Em suma, o que é "estranho" e "fora da norma". Uso um lugar comum também: o que é estranho e que ameaça o controle de quem detém poder causa angústia. Por isso deve ser rotulado, classificado para ser devidamente controlado. Daí é bom sair com boas pré-definições. "Vai me dizer que você nunca viu mulher falsa?". Poderia perguntar "Vai me dizer que você nunca viu um ladrão preto?" E daí poderia usar essa premissa do senso comum para poder estabelecer uma série de valores para manter tudo na devida ordem, tudo dentro da parede. Só que diferente da minha personagem, sem a possibilidade de voltar atrás na criação de seu próprio universo.

Não sou diferente. Sou um homem de universos e premissas. E com certezas no bolsos. Tentando em vão mantê-las mesmo sabendo que elas são como açúcar em água, se desmancham com facilidade. Isso já foi devidamente compreendido. E nesses meus universos compartilho com os demais o tabu da morte. A morte como algo último e que tirar a vida de alguém é condenável, absurdo, ainda que muitas vezes isso não tenha consistência absoluta.

Então, pelo tom da conversa - só pelo tom, não tive a oportunidade de questionar de modo mais profundo porque eu e o Homem Parede temos o mútuo medo de despedaçar tijolos falhos- me pareceu que falsidade tinha um valor mais fácil de ser condenado do que homicídio. No universo-parede, falsidade é intrinsecamente feminino (ou de viados, que por extensão se iguala ao feminino, haja visto que homem "de verdade" não transa com outro e viados são igualados às mulheres para isso parecer mais natural e controlável) e daí, talvez se lá, fosse um país, fofoqueiros, mentores de intrigas merecessem a cadeira elétrica e homicidas, uma liberdade por bom comportamento. Afinal o homicídio não é um fator desagregador, ele extermina logo de uma vez. E exterminando tudo, resolve se de maneira sucinta a possibilidade do conflito, sem espaço para indagações, dúvidas e incertezas que a natureza humana - se é que existe uma - é incapaz de resolver de uma vez em nome de uma suposta Verdade.