sábado, 7 de abril de 2012

Fim de semana passado



Estou devendo a mim mesmo e a meu amigo essa liquididificação desconexa, mas que não posso deixar passar em branco com o sol transitando pela casa 12 no presente momento.


Com ele praticamente em tournée acima do paralelo 22ºS pensei nos elementos dessa composição.








Cenários:


- Praia de ondas aparentemente tranquilas, porém traiçoeiras de onde tenho medo por conta de um caldo que levei lá há 5, 6 anos;


- Um cemitério apenas para decoração;


- Ruas cheias de latas de cerveja jogadas no chão;


- Um videokê onde também se apresenta banda ao vivo tocando músicas antigas do Barão vermelho e dO Rappa;


- Outra praia próxima a um cemitério bem escura onde todos se perdem. Anexo a ela, um estacionamento;


- Um calçadão que leva até a barra de um outro rio entre morros de pedras;


- Um restaurante com festa de crianças e um a festa retrô daquelas que tocam The Fevers;


- Uma chuvinha que vem e vai e não sabe se fica;


- A parte de frente de uma casa com piscina e alguns mosquitos;


Personagens:


Ei ei, vocês viram onde eu estava escondido hoje?




- Geninho: ele tem uma bicicleta, o corpo um tanto delgado, mas diz que é segurança. Fica em frente ao restaurante e volta e meia ele some entre o calçadão e a praia próxima ao cemitério. Há boatos de que alguém sofreu estupro, mas o que se sabe é da possibilidade de ter maconheiros e pegações, para onde essa personagem se dirige;


- Tonico Pereira, como ele mesmo, para falar sobre o rolo de Stepan Nercessian e Charles Waterfalls;


- Uma ursa pintosa de RayBan arrependida de não ter ficado mais tempo no banheiro fingindo que estava lavando as mãos e conferir quem saiu de lá. Ela encontra a amiga na calçada e fica de cochicho, no misto de fofoca e desejo. Breguérrimo o que digitei agora, mas é o suficiente para descrevê-la com verossimilhança.


- Um mix de petroleiro, professor de artes marciais, vendedor de quiosque e garoto de programa. Ele está perto de ondas traiçoeiras, loucas como a sua própria história. Seu cliente maior não aceita que ele receba cigarros de outros caras. O caso é que se ele vai com a cara da pessoa faz de graça, pois entre uma cerveja  e outra, diz que gosta mesmo da putaria, sem a desculpa do "não gosto de homem, só faço pelo dinheiro". É a nova Gabriela Leite das Baixadas Litorâneas;


- Um roqueiro careca pseudo-magro de barba, lindo somente para eu ficar observando. Em seu cenário aparentemente há um coroa grisalho bonitão junto com outro que gosta de pagar cerveja para um rapaz mas novo da mesma banda do careca;


- A amiga do Geninho, que parece dar uma de segurança e protege meninos maconheiros na praia em frente ao resturante;


- Um bonitinho que passeia com o cachorro de madrugada;


- Um cafuçu malhado e semi-gordo que se mostra na porta de uma casa, conversa com algumas meninas perto de outro bar e some em um beco escuro;


- Uma figura que anda pela praia como quem tivesse num concurso de Miss de algum subúrbio e some nas mesmas brumas que o "segurança" vai;


- O amigo do petroleiro-GP que assiste a Tron, o legado;


- Um gordinho com a namorada no restaurante mas fixa os olhos durante 1 minuto, parado, observando os gordinhos que adentram o recinto;


- O prefeito gostoso da cidade que conversa com a senhorinha vizinha da venda porque é ano de eleições;


- O barbeiro que antes era só um "parrudo com barriga" e que agora é um "parrudo com barrigão" e ainda assim está muito gostoso, despertando desejos para além de uma aparada no cavanhaque;


- O rapazola que escuta hip hop internacional e Racionais MC para passar o tempo no posto de gasolina do pequeno distrito. Ele não sabe, mas tem uma beleza digna de qualquer desses modelos que vemos em revistas. Ele tem uma tatuagem no braço com o nome "Andreia" ou "Andrea";


- Muitos caras bonitos passando de bicicleta, de vários tipos, cores e modelos;


- O camarada do supermercado, aliás, 2. um do açougue e outro no caixa, creio eu;


- O quarentão no mercado que finge buscar óleo, mas está de olho em outra coisa;


- O barbudo magro e sua companheira no ponto de ônibus fazendo questão de encontrar um vazio para Cabo Frio, uma verdadeira impossibilidade em um domingo à noite;


- Uma maluca da Vila Capri indecisa, que não sabe o que quer da vida. Aliás se você for a Araruama e querer um balancinho com alguém deste bairro, um conselho de amiga: fuja! Dê preferência ao Parque Hotel, que é a outra calçada que margeia a Amaral Peixoto;


- O bonitnho que desce do ônibus, olha para trás e, no estilo Geninho, some perto do Extra;


-A doida que avisa a todos da cidade que meu amigo, de ascendência judaica, é muçulmano;


-Os entregadores de bebidas escandalizados quando escutam "o cara chupou os dois no ES";


- O músico que toca "Cidade Maravilhosa" para avisar: gente é hora de ir embora.



domingo, 25 de março de 2012

Eu nunca tive um amigo negro

Texto de Cláudio Cesar Dutra de Souza em "O Globo" no dia 24 de agosto de 2010

Eu nunca tive um amigo negro


Nunca se discutiu tanto a questão racial no Brasil como na época da aprovação da lei das cotas para negros em nossas universidades públicas. Também foi esclarecedora a percepção de nossas limitações nesse assunto. Subitamente, fomos brindados com as mais sofisticadas teorias sobre a inexistência do conceito de "raça", que seriam muito bem vindas caso não estivesse totalmente deturpadas pelo nosso "racismo cordial".
Ao pensar em um suposto "conflito racial", algumas pessoas foram a público denunciar a inconstitucionalidade, a aberração e a inutilidade de uma política de cotas para negros, visto que não existe racismo no Brasil. Daiane dos Santos, Neguinho da Beija-Flor e tantos outros foram "branqueados" e alçados a sua genética condição europeia que lhes excluiria de uma vaga especial pelo sistema de cotas. Ao lermos o livro de ficção científica de Monteiro Lobato, "O presidente negro", somos capazes de entender o que pode significar tais asserções e os aspectos políticos nelas envolvidos. Branqueamos os nossos negros, paradoxalmente, para mantê-los afastados de nós e de qualquer compensação reparatória, mesmo que mínima.
O fato é que somos racistas até a medula nesse país. Isso não significa que, em nossa história, queimamos negros vivos como muitas vezes aconteceu nos Estados Unidos na época da Klu-Klux-Klan ou que nossos negros fossem impedidos de sentar ao lado de brancos nos ônibus. Isso é tecnicamente incompatível com o nosso caráter cordial-lusitano, até mesmo porque é desnecessário quando os negros "sabem o seu lugar". E onde é esse lugar a qual designamos historicamente os nossos negros?
Basta pensar em qualquer garoto (a) de classe média branco (a) no Brasil em relação ao seu círculo próximo de amigos para se ter uma resposta muito rápida e precisa. Quase ninguém tem ou teve qualquer amigo negro. Quando falo em amigo não estou me referindo a conhecidos, mas sim, aqueles a quem dividimos nossos sucessos, alegrias, fracassos ou angústias. Aqueles que são convidados para dormir ou almoçar em nossas casas, bem como aqueles que podem se tornar objeto de nosso interesse amoroso. Eu jamais tive um amigo negro e tampouco alguma negra pela qual pudesse me apaixonar, pelo simples motivo que não convivi com eles na minha infância e adolescência como estudante em uma escola privada de Porto Alegre. Eles simplesmente não existiam.
Quando veio ao Brasil em agosto de 1960, o filósofo Jean Paul Sartre percebeu com perplexidade a ausência de negros em suas concorridas palestras. "Onde estão os negros?", perguntou ele a certa altura para o constrangimento dos universitários ali presentes. Alguém responderia a Sartre que não havia negros no recinto tão somente por causa da falta de mérito dos mesmos em conquistar um lugar no espaço universitário? Nesse período, o dramaturgo Nelson Rodrigues também se perguntava: "Onde estão os negros do Itamaraty? Procurei em vão um negro de casaca ou uma negra de vestido de baile. O Itamaraty é uma paisagem sem negros."
Nelson publicou em uma de suas "confissões" no jornal Última Hora em 26 de agosto de 1957 a seguinte observação acerca do teatrólogo e futuro senador da República Abdias do Nascimento: "O que eu admiro em Abdias do Nascimento é a sua irredutível consciência racial. Por outras palavras: trata-se um negro que se apresenta como tal, que não se envergonha de sê-lo e que esfrega a cor na cara de todo o mundo. (...) Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: que o problema não existe no Brasil. Mas existe. E só a obtusidade pétrea ou a má fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo".
A exata localização de nossos negros me intriga. Essa inquietação já me levou a dirigir o meu olhar na esperança de encontrá-los, por exemplo, nas universidades em Porto Alegre. Munido desse olhar específico, passei dias no campus do Valle da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em busca de negros nas áreas comuns do campus e não os encontrei, salvo como funcionários da cantina. Em entidades particulares a experiência se repetiu exatamente da mesma forma. Tudo era uma branca e vasta paisagem, com poucas gradações de cor.
Intrigado com tudo isso, estendi a minha observação aos lugares na noite a quais frequento bares, restaurantes, cinemas e casas noturnas em geral. Eles não estavam lá. Não existem negros ou grupos de negros se divertindo junto com brancos ou estudando junto com brancos, salvo raras e honrosas exceções. Essa situação se repete nas principais cidades do Brasil, não sendo apenas um fenômeno típico de Porto Alegre.
Os negros estão nas periferias, nas favelas, nas escolas públicas mais suburbanas, nos presídios e em subempregos pelo país afora. É hipocrisia nossa imaginarmo-nos, por um instante que for, que vivemos em uma sociedade multicultural, inter-racial, ou qualquer coisa desse tipo. É urgente que nossos negros comecem a desenvolver certa consciência racial e a problematizar o lugar que ocupam dentro de uma sociedade racista como a nossa. Que exijam serem reconhecidos para além dos estereótipos e que ocupem os lugares reservados à elite branca. Que exijam a compensação por séculos de escravidão e exclusão a que foram obrigados pelo escravocrata branco. Se bem que, se a reação causada por um reles ensaio de ação afirmativa se deu em um nível histriônico, poderíamos esperar coisas piores de nossos alvos cidadãos em face de ações mais contundentes

quinta-feira, 22 de março de 2012

Enquanto isso, na Câmara de Vereadores...

Bem, estou para transferir este ano meu título eleitoral para Araruama, onde a teocracia neopentecostal é palavra de ordem. Bem, no Rio, dada a sua maior diversidade temos um amálgama de reacionários machistas clássicos, como Carlos Bolsonaro, alguns evangélicos e muitos "escorregadios" em relação à distribuição de material didático contra a homofobia. Em outro post poderei analisar melhor a respeito. Só deixarei aqui as melhores "pérolas" dos nobres veradores que apoiaram o projeto de C.Bolsonaro.

"Meus amigos Vereadores, eu não consigo entender como é que alguns colegas aqui acham que esse assunto é bobeira. Para começar, eu não tenho problema nenhum com a opção sexual de ninguém, com a orientação sexual de ninguém. Mas, a partir do momento que você coloca isso acima da competência, acho que isso é, no mínimo – não vou baixar o nível – inadequado. Então, quanto à sexualidade de qualquer pessoa, eu acho que isso não se discute. Entre quatro paredes cada um faz o que quer. Mas a partir do momento que você cria um programa que estimula, ensina às crianças nas escolas que determinados tipos de comportamento são normais, acho que já começa a ser covardia, principalmente porque todo esse tipo de material é destinado para crianças do primeiro grau. " Carlos Bolsonaro
 "No meu primeiro mandato eu recebi reclamações de pais de alunos que as escolas estavam distribuindo cartilhas ensinando meninos a fazerem carícias em meninos, e meninas em meninas. Fui a Secretária Sonia Mograbi e expliquei a situação, ela desconhecia e quanto à orientação sexual e religiosa cabe aos pais e não as escolas públicas. E o que nós estamos querendo preservar aqui são as famílias. Quero deixar outra coisa clara: eu amo os homossexuais, amo os gays, mas amo a prática deles. Quero deixar isso bem claro e sou a favor (sic) desse projeto." Márcia Teixeira

 "Srs. Vereadores, Sras. Vereadoras, na época dos senhores e das senhores estudando, quando eram crianças, tiveram alguma orientação sexual? Será que estamos mudando realmente para melhor, como ouvi falar a nobre Vereadora Andrea Gouvêa Vieira? Estamos mudando. Mas estamos mudando para onde? Estamos indo para onde? Estamos mudando para melhor, atingindo nossas crianças amanhã? Falamos de ensino fundamental no Rio de Janeiro, volto a dizer. Não sou contra homossexual, homossexualismo, não sou contra nada. Sou totalmente favorável a total liberdade. Mas, não a libertinagem! A liberdade do adulto, o adulto tendo uma vez a sua mentalidade, atingindo uma maturidade, ele faça o que ele bem entender da sua vida! Nem Deus proíbe! Deus nos concede a liberdade! Vamos nós proibir? De jeito nenhum! Mas, ajudarmos a formatar a cabeça de uma criança, dizendo: “Isso pode, isso é normal. Se você quiser, de um jeito ou de outro...” Lógico, Vereador Eliomar, com mensagem subliminar. As pessoas não vão chegar lá e dizer: “Oh, você tem que ser! Vai por aqui, é legal, é isso!” Não vão fazer isso! Claro! Mas, se passará uma idéia, nobre Vereador José Everaldo, de que é comum, é normal, é natural! E não é! Não é! Não é! Na minha casa não é! Na minha casa não será! E onde eu puder falar, não será!" Jorge Braz

 " Eu sei que vai ser solicitada a votação nominal do projeto, e o Partido Republicano Brasileiro é favorável ao projeto do Vereador Carlos Bolsonaro. Até compreendo diversas colocações, de diversos Vereadores. Inclusive quero citar uma aqui, do nobre Vereador Eliomar Coelho, que disse que desde que mundo é mundo existe o homossexual. Compreendo. Observem a pintura desse quadro. De 1925. Eu acho que temos alguns cidadãos ali que estão com uma posição, por exemplo, a mão, enfim, sua posição clássica de estar em pé, diante de um portão, ou do lado de cá. Entendemos. É de 1925 esse quadro. Foi pintado por um artista plástico. Temos ali alguns jesuítas, acredito eu. Até compreendemos. Mas tornar isso público para nossas crianças, como bem disse o Vereador Carlos Bolsonaro, é inadmissível. Como pedagoga, é inadmissível trazermos esse tipo de assunto para as salas de aula. Muito obrigada, Vereador, pelo aparte." Tânia Bastos

 "Eu entendo, como orientação sexual, e bem colocou aqui o Vereador Jorge Braz, o professor, na sala de aula, ele tem obrigação de perceber se o aluno é míope; você está dando aula, você sabe, você tem alunos que são reprovados, quatro, cinco, seis, sete vezes, até o professor descobrir que o aluno não aprendia, porque ele era míope, ele não conseguia ler o que era ensinado na escola. E aquele garoto vai sendo taxado de burro por alguns professores, ou muitos professores que demonstram incompetência total para assumir o magistério.
    O professor, se ele perceber algum desvio de comportamento, algum desvio de ações, de alunos na escola, mormente naquela em que o Vereador Bolsonaro está se preocupando, que é na primeira fase da vida, na infância, a função daquele professor é orientar de que forma? O “orientar”, aí, veio, e coloca, mais uma vez, o Vereador Jorge Braz, não é chamar o aluno e dizer... Não.! É orientar através do contato com os pais; com o Orientador Educacional, com o Psicólogo. E esse conjunto, formado pela família e os técnicos especializados, é que vai dar orientação.
    O que eu vejo aqui, como o Vereador Carlos Bolsonaro coloca, e muito bem – quero até parabenizá-lo, Vereador -, é que estamos banalizando a sexualidade. A sexualidade tem que ser tratada com respeito e com cuidados técnicos, com cuidados científicos. O que nós percebemos é a banalização. O que nós percebemos, e o Vereador Bolsonaro aqui mostrou, através de cartazes, é o suprassumo do nada, é o suprassumo da imbecilidade. Eu costumo chamar, Vereador Eliomar, é o suprassumo da imbecilidade fenotípica, aquela imbecilidade adquirida no meio ambiente em que vivemos.
    Tratar dessa questão... Como é que eu vou tratar? Como é que eu vou deixar o meu neto...? Eu tenho um neto de oito anos, vai fazer oito anos, que se orgulha de dizer: “Vô, já estou com uma namorada na escola”. Eu pergunto: “Ela já sabe?”. Ele diz: “Não, vô. Ela não pode saber que eu sou namorado dela”. Será que uma criança dessa pegar um professor... Porque todo mundo aqui defende a questão do homossexualismo. Aí, na hora que o filho é homossexual, e ele descobre quarenta anos depois, quando o filho já casou com três, ele não admite. Porque ele admite quando é lá no outro." Professor Uóston
 " Sr. Presidente, Srs. Vereadores, eu sinceramente estou achando que eu perdi a tarde hoje, porque até agora eu não consegui entender. Pelo que me consta, ate o presente momento, o que foi que eu entendi com relação ao Projeto do nobre Vereador Carlos Bolsonaro? Onde está a discriminação? Nada disso foi dito pelo nobre Vereador, que alias defendeu o Projeto com muita competência. Eu lhe confesso publicamente, eu não teria condições de defender um Projeto com tanta veemência, com tanta competência. O que foi colocado, salve melhor juízo, é a forma como está sendo conduzida. Ora, gente, uma imagem vale por um milhão de palavras! Quantas vezes a televisão usa as imagens até de forma perversa. Muitas vezes um político é apresentado a uma pessoa de uma conduta não muito ilibada e aquilo é colocado para mídia de forma perversa, tentando jogar aquele cidadão na lata do lixo. Então, foi colocado aqui pelo nobre Vereador Bolsonaro. É a forma, ora, uma criança de 6 anos, qual é o entendimento que essa criança tem? Eu hoje tenho 66 anos, muita gente diz que eu tenho 35, mas eu não tive nenhuma orientação nesta área, e nem por isso aconteceu algo errado na minha vida. O Carlos Bolsonaro não está condenando o acasalamento de pessoas do mesmo sexo. Não foi isso que ele disse aqui. O que ele colocou foi a questão de uma criança de 6 anos... Aquela imagem que ele mostrou de um homem colado atrás do outro. Foi isso que ele mostrou. Então se foi isso que eu entendi, ou se eu entendi diferente, eu gostaria da orientação de vocês."  José Everaldo

 "Sr. Presidente , vou até fazer questão de ler a ementa porque já vi tanto discursos. E essa é uma questão que num ano eleitoral tem posicionamentos, e até se fala muito em preconceito homofobia, mas às vezes alguns discursos são desassociados da pratica. Eu já vi alguns políticos defenderem verbas para passeatas gays. E cada um tem sua forma de expressar a sua religião, a sua forma de entender a vida, mas nesse momento é um momento preocupante porque nós estamos votando aqui exatamente o seguinte: “veda a distribuição, exposição e divulgação de material didático contendo orientações sobre a diversidade sexual nos estabelecimentos de ensino fundamental”. Isso quer dizer, ensino fundamental crianças até mais ou menos 14 anos, claro tem algumas de 15 ou 16 anos. Então quero que os companheiros entendam que as outras questões que foram colocadas aqui podemos discutir até posteriormente. O que o nobre companheiro Adilson Pires disse, eu estava presente na Sessão, ele falou do projeto que criava o dia do hetero, e ele até se colocou favorável a projeto porém não entendia que aquela seria a melhor justificativa. Vejam bem ele foi taxado de homofóbico. Isso que é preconceito. Então o entendendo por que exemplo que o Estatuto da Criança e Adolescente diz que criança é de zero a 12 anos, adolescente é de 12 a 18 anos incompletos. Na minha opinião eu entendo que uma criança de 5, 6, 7 anos não está preparada para receber alguns materiais. Por mais que se diga que a Prefeitura não está fazendo isso! É obvio que não está fazendo. E quero a todos os companheiros que o sinal que a Presidenta Dilma teve que interceder sobre a distribuição dos kits, ora Senhores é possível. O que o nobre companheiro Carlos Bolsonaro está apresentando eu entendo e vou votar favoravelmente ao projeto porque entendo que crianças de 3,4,5,6,7,8,9,10 anos não têm o discernimento, por mais que as pessoas digam que sim. Porque alguns estão defendendo o projeto, mas educaram seus filhos falando de forma diferente! E é isso o que eu quero que vocês entendam. Esse momento é de reflexão, mas também de entendimento.
    Quero dizer que o ECA tem no seu artigo 71 - “A criança e o adolescente têm direito à informação, cultura, lazer, esporte, diversão, espetáculos e produtos e serviços que respeitem a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. Se os adultos não sabem dizer o que é uma criança em desenvolvimento, até que idade? Eu tinha 12 ou 13 anos e tinha um mundo completamente diferente das crianças de 12 e 13 anos.
    Só para finalizar, alguns argumentos falam do bulliyng – que crianças estão se matando porque sofrem bulliyng, porque têm uma orientação sexual diferente da maioria. Temos bulliyng também com o gordinho, com o manquinho, então, por que se coloca apenas nessa situação? Quero encaminhar e lamento que os Vereadores do DEM não estejam aqui, mas a minha colocação é: nada de homofóbico. Aliás, duvido que alguém, aqui dentro, tenha mais amigos que tenham opção sexual diferente da minha do que eu que trabalho no mundo artístico. Não me venham dizer que sou homofóbico! Pelo contrário!
    Sou favorável ao projeto apenas por essa colocação – crianças de 5, 6, 7, 8, 9 anos muitas vezes têm a sua família desestruturada. Claro que a escola cumpre esse papel, mas não é distribuindo material como o kit gay que seria distribuído. Quem teve o trabalho de levar para casa aquele kit está entendendo o que eu estou falando. Quem só fez discurso... realmente vai continuar só fazendo demagogia." Tio Carlos


Recomendo também que se leia o discurso dos 9 deputados contra esse projeto absurdo:

 Adilson Pires (PT), Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), Eliomar Coelho (PSOL), Paulo Messina (PV), Paulo Pinheiro (PSOL), Reimnot (PT), Carlinhos Mecânico (PSD), Brizola Neto (PDT) e Teresa Bergher (PSDB).

quarta-feira, 21 de março de 2012

O essencial

Naqueles insights de fim de tarde e aí me lembro da frase do "Paçaro da Dislexia". Deve ser o fato de agora estar lidando com um adolescente disléxico de 15 anos. Ele troca a ordem das palavras e os cálculos são difíceis para ele. Ainda assim ele encontra uma saída própria, quando a oportunidade lhe é dada e está  longe da superproteção da mãe que insiste em vê-lo como um incapaz. Esses amores estranhos que nos rebaixam...

"O essencial é invisível aos olhos" é uma daquelas frases infames, tipo um Pour Elise literário ou algo do tipo. Bem, daí tentei, por cisma mesmo e criar uma outra frase infame óbvia: "O essencial é visível aos olhos". Os empiristas e os céticos iriam ficar felizes com isso. Aliás considero São Tomé um grande injustiçado...

A psicanálise trouxe o conceito de inconsciente. Lá estariam os nossos desejos "invisíveis aos olhos'? Será? Lembro-me de rir com um amigo nos tempos de faculdade de um mantra que todos os professores freudianos repetiam "o inconsciente não é algo profundo, escondido, ele está ali junto com o consciente".  Frustração para o modelo do "iceberg" no qual seus dois terços submersos sustentam o terço emerso.

Me lembrei da noção de "sujeito". O sujeito na análise é aquele que fala, que dá sentido ao seu enunciado. Nessa fala escapam coisas sem sentido, sem um significado aparente. E é ele, o sujeito, em sua combalida ação se defronta com o desejo que estava mascarado e precisa dar um sentido a ele, ou transformar em outro "sintoma": uma mania, uma fobia ou outra coisa. Eu no meu processo de análise quantas vezes não saía deprimido, arrasado. O Sujeito, ser da fala, aquele que em sintaxe pratica ou sofre a ação do verbo, dava uma marretada no ego que tinha operado mil truques para camuflar o desejo.

Mas os desejos camuflados, o escondido, o que é inconsciente está tudo ali. O que acontece que o essencial é visível, ou seja, só é possível ter sentido e poder nos deparar com o que nos incomoda quando nos deparamos com ele e não escondendo.

Pensei em algo mais simples, como por exemplo: para onde eu viajaria. Se eu tivesse superpoderes conheceria o mundo inteiro. No entanto a minha mortalidade e necessidades materiais me impedem essa façanha. Mas também isso não é motivo para ficar parado. Basta fazer a árdua- sim para um neurótico a dúvida é fundamental para sustentá-lo - de selecionar para onde se quer ir e a partir daí fazer os planos, levantar o que precisa e colocar em prática o desejo. Ok, a vida nem sempre é tão simples assim, mas o enunciado é esse. Mais fácil para uns, mais difícil para outros. De qualquer forma o que se escolhe é o que se torna visível.

Claro que no mundo "invisível" há um mar de possibilidades, essas que nos impele a mudarmos. Ainda assim elas só terão sentido quando quando se tornarem visíveis. Ainda que a caverna platônica fala se uma saída externa onde há uma Verdade absoluta, de certa forma tem sentido do quanto é importante o que está visível.

No frigir dos ovos não há Deus, ideias, instituições ou outras coisas que nos sustente de todo. Nossa psiquê não é bem um iceberg. Está mais para um campo aberto e árido, onde há sim obstáculos e a convivência com os outros, mas no fim das contas cabe a cada um seguir seu caminho.


sábado, 10 de março de 2012

A Pedra que Brilha

Drummond, segundo Alvarus (1941)




Aí o Junior no facebook joga esse vídeo de "No Meio do Caminho" do Drummond. Vou embedar aqui sem medo do ECAD (vai que eles fizeram um acordo com a ABL, MEC sei lá e passe a atuar na literatura)




Bem, eu comecei a ler junto com todos eles em voz alta e ainda perceber como seria a palavra "pedra" nos diversos idiomas, finalizando no Tupi onde é dito o clássico "Ita". De Itaboraí, Itaguaí, Itapemirim e, porque não, Itabira, terra natal de Drummond que significa "A pedra que brilha".

Era criança quando Drummond morreu, mas ele foi um enredo feliz para a minha Estação Primeira em 1987. Acho que foi o primeiro samba-enredo que aprendi a cantar e naquele ano defini a minha escola do coração.

Na adolescência, tomei uma certa birra com Drummond, em especial por conta de "No Meio do Caminho". Achava chato, repetitivo, sem sentido, como muitos conservadores devem ter achado lá pelos idos de 1928 quando esse poema foi publicado.

Ontem comecei a lê-lo em voz alta. Hoje também. Momento tenso, deve ser. Em princípio achei que era por conta da prova de amanhã, mas creio que a a falta de conclusão sobre rachaduras na área de serviço devem de alguma forma me intranquilizar. É a atual pedra no meio do meu caminho.

Não foi um exercício de auto-ajuda. Mas mais importante, de auto-descoberta. Algo que tive, por exemplo com Clarice Lispector ao reler "O Primeiro Beijo".

Ler "No Meio do Caminho" não é só perceber o que externamente te incomoda. Pra mim foi um ato de lidar com a minha própria pedra interna e fazê-la brilhar, ainda que muitas vezes os olhos da alma possam dar a desculpa de estarem cansados, retinas fatigadas. E isso não deve ser de fato esquecido.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Vive la France




I

No ano da França no Brasil tivemos fogos de artifício na Lagoa. Noite embaçada em que o melhor espetáculo foi o motorista de táxi que nos deixou no local combinado. A viagem poderia ser mais longa e interessante.

II

Já reparaste que nunca tiveste mais de 3 pessoas na sua casa ao mesmo tempo? Tudo bem, não é mais ano da França no Brasil, é a França na sua casa. Magra e sem ocupar espaço.

III

Batem perna o dia todo, a que horas voltam?

IV

Qual o maior desafio: cozinhar para um chef ou resistir a um belo par de pernas, cueca e o mais importante: um belo rosto?

V

Agora que reparei no mais magro: ali cresceu um bigodinho e tá parecendo francês de filme americano.

VI

O bom do Rio e de onde você mora é isso: poder fazer coisas a pé. Não sei como são as coisas naquela cidade que pra mim era nome de marca de roupas dos anos 90.

VII

Ouve-se ruídos à noite. Pena que não deu pra ver muita coisa.

VIII

Dia seguinte: sim o mais bonito dorme nu. Você teve sorte porque para mim o que restou foi uma canga vermelha. Vou fazer um musical: Retalhos Malditos. Muita música indiana para combinar com as cores daquele pano, mas não quero que ele seja algo de mais de 3 horas. É Copacabana, não Mumbai.

IX

Nesses dias da França contigo há muito sol, brilha o céu tá lindo e ganhamos queimaduras. Mas estamos lindos, é o que conta.

X

Só ele reparou o jeito que ele nos olhava antes de sairmos pra praia. Achamos natural isso, afinal algo foi dito a respeito do nosso amigo antes de eu tomar 1 ou 2 goles de rum naquela manhã.

XI

Vou pra casa. Quero que você tenha uma outra visão da França na minha ausência, beijos.

XII

Daí você fica sabendo via mensagem que eles, mesmo ocupando pouco espaço, estão naquele sítio em que a maioria gosta de espaço. Espaço bem maior do que de alguém que pede abrigo por uns dias. Que diabos!  Por que não avisaram antes? Não se deram conta de que a gente na frente deles éramos um duplex com vista para o mar, um que não se avista naquele ponto do Sul da França?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Pro pós-carnaval ficar mais engraçado


No site marrom já recebi várias mensagens de um moço, indignado pelo Site  Marrom ter cortado a conta premium

"Agora ficou sem graça,nosso acesso ficou restrito,agente so consegue receber mensagens e enviar,por enquanto, vamu ver se isso tbm sera bloqueado,uma pena.....beijus"

Essa foi a quinta mensagem que recebi da criança. Quando queremos ver fotos de bofes bens, o entendemos, mas não nego o absurdo dessa indignação no estilo aposentado reclamando do preço do remédio para hipertensão na Farmácia Popular.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ju e Re


Marilyn a observa de lado e estranha a pesada maquiagem


- Rê, o que você fez?
- Não viste as visitas de ontem? Uma delas trabalha com maquiagem de grandes estrelas lá fora. Mas de vez em quando arruma uns frilas quando de férias no Brasil.
- Percebo...tá diferente, te traz um ar de felicidade.

Telefone toca, era Ju a interromper a conversa junto à parede. Foi só o tempo de sacar depois uma bela imagem e colocar no desktop. Um perfil belo e sério de fim de carnaval que a cabeça que quase sofrera uma concussão dias antes ainda tinha a capacidade de captar.

Mas a hora não era para perfis nem paredes, era hora do diálogo.

(...)

Fim de tarde, Ju na cadeira em comportamento inquieto não decide ainda como acompanhar o sol. O certo é que insiste freneticamente em coçar as partes, não se sabe se por areia, tesão ou chato.

- Rê, como você me coloca em uma roubada daquelas. Toda vez você cisma em chegar em alguém que já cheguei, que coisa chata isso. Ou então me empurra gente feia. Façamos um trato em relação à última conquista, já que nós dois conseguimos: quem quiser chegar junto tem que falar com a gente primeiro. E lembre-se, não é fifity-fifity porque não é assim que a coisa funciona. Lembra-se daquela outra que eu peguei e depois você foi em cima? Pois é, ela me disse que você confundia as coisas, que era só amizade. Lembre-de de que tem pessoas que estão só a fim da sacanagem e tal, tá liberada. Para outras não é assim que a coisa funciona. E sim, já já vou dar um mergulho, passar a zero na cabeça e me cuidar porque engordei muito, minha imagem é feia. Mas não arrume gente feia para mim.

Ju era uma metralhadora de palavras, sempre de costas para o sol. O corpo cheio, rosto bonito e pernas grossas eram bem realçados pelo som, ainda que em movimentos constantes, frenéticos, entre a indefinição sobre o que se pensa do seu desejo, ansiedade ou simplesmente desorientação. Ou tudo isso junto. Coisa que Marilyn, por ser mito, desconhecia, pois era uma imagem linda e kistsch na parede.

Algumas mulheres ali perto pensaram que pelo jeitão com certeza Ju era do mercado financeiro. Sabia classificar bem suas conquistas, estabelecer cada tipo psicológico e negociar com suas amizades como deveriam ser as relações com cada uma delas. Planejamento estratégico era a palavra de ordem na areia e Rê sabia reconhecer bem isso,. No fundo o que todos desconfiavam é que Re e Ju deveriam sempre estar em companhia eterna, seria mais bonito que o mais belo dos casamentos. E tesão não faltaria com certeza.

Mas era hora de partir. Ju em dois mergulhos rápidos demora demais para pegar as coisas. E anda pela praia e depois pelas ruas em ziguezague. Assim como o poder de barganha e classificação, ela adquirira a mania de andar na vertical e na horizontal pelos corredores do mercado em que trabalha. Então, tal como Marilac, decidiu naquele verão fazer algo diferente e andar em diagonal. Com paradas estratégicas para colocar cada pessa de roupa.

O Fundão ainda espera Ju numa festa naquela noite...

Carnaval em dois tempos

Tempo Pi

Pi de piranha, piedade, pia e Piaget.
A vida pode ser circular ou reta passando pelo seu centro, diâmetro e daí dividimos o seu valor e temos um número impreciso. Diante disso simbolizamos, Pi. Tês vírgula catorze dezesseis e reticências.

E o que não é o carnaval senão um símbolo dessa inexata vida que se tenta por em retas e circunferências perfeitas?

No carnaval Pi fotografa-se a banda em dois tempos. No tempo da multidão de um dia lindo e luz mais baixas. Dos velhos flagrantes. De uma Amy Winehouse feia e desfigurada que lança um coração.

Tempo da ressaca, do estômago embrulhado em H2UÓ frutas cítricas sem açúcar e bebida gosto de maçã. Do Engov e da febre que passa no dia seguinte com o poder da Dipirona Sódica. Dos ônibus cheios, da loira maldita que lança um olhar fulminante porque olhamos para uma de suas possibilidades de carnaval. Da corda humana que protege a banda que se diz livre. Do Multibloco perdido no sono da manhã e das lembranças do ano novo não liquididificado em Rondonópolis. Da luz ruim da terça gorda e a consequente falta de foco.

Tempo das mensagens desconexas, do coelhinho perdido naquela noite que se perde em outra por não saber seduzir. Da ursa casada que tenta algo com quem não gosta de gordo. Do lugar apertado, da fila e da música que se repete 10 minutos depois. A velha música da Madonna e a nova velha música da Beyoncé. Do neurótico que te cumprimenta de longe e do rapaz do interior que insiste em dar, de longe, um tchauzinho sem jeito. Da bicha de cabelo grisalho que fuma seu cigarro após hospedar outra possibilidade italiana perdida. Da sua saída 10 minutos depois e da minha após duas horas. Da porta que não abre para poder fumar. Tudo tão certo, tudo tão inexato.



Tempo de Anjo

Ele sobrevoa em dose dupla, ora em Valparaíso, ora em Santiago, ora em Los Angeles, ora na Tijuca, ora em Campo Grande. Mas ele me confessa em segredo que sonha com uma morada em Copacabana. E me traz notícias da América Latina de 2 semanas e dos EUA de três anos atrás.

No seu tempo, a maldição da loira se quebra e ganha-se um beijo bicudo de longe no ponto do ônibus. A Montilla tem um preço barato e não dá ressaca nem estômago embrulhado.

Na floresta se revelam coisas interessantes e nos livram de um show de uma pimenta estragada. Tem gosto doce da água de coco que repõe os sais minerais.

Tem músicas que ainda não ouvi e espero achar na set list do DJ. Tem sistahs dando escândalo na porta da boate e da sauna causando asco daqueles que muitos outros tem asco e estão ali na fila, medindo com olhares algo que nem mesmo eles sabem. Por isso devem dizer "estava lá e não te vi". Ver o outro às vezes permite-se a ver a si mesmo.

No tempo do anjo a mensagem da Itália ou de Melbourne é rechaçada e tem-se dignidade. Tem um bloco de sujos que passa na porta do prédio e consigo colorir. Tem um ruivão exibido que sobre no hidrante para ver a banda passar. E um careca de bico vermelho faz a foto ficar perfeita.

Nesse tempo nos fantasiamos de palhaço e de pirata. Por sorte consigo um tapa olho chinês e fico com pele carameloavermelhada pela maquiagem. Tem o sucesso junto com o sorriso da senhora na rua. Tem se a satisfação por um trabalho bem feito.

 Tem um sorrisinho no meio da multidão. Tem um planejamento estratégico perfeito para os nossos olhares e a bela surpresa de chegar em casa depois e ver que não são as piores fotos do carnaval. O coelhinho passa porque de Ancara vem algo bem melhor. Avisa que a ducha será de portas abertas, enquanto há uma expectativa da França e um argentino louco se perde nas areias da praia.

No tempo do anjo equilibra-se o carnval "nerd" de ver a TV e rir com os comentários de várias mídias e ao mesmo tempo sair e se divertir como bom folião. É ver mais belezas e ter um gordo na janela que te salva da síndrome do "adonis factor". Onde foi que eu disse que ver o outro às vezes é ver a si mesmo?

É tempo de flamenguista na van. Da suposta Mônica do celular e do interesse em saber em que banda se estava o que vai fazer enquanto se vai para casa do "amigo" no Leblon.

É de estar livre para falar o que se gosta. Estar com melhor amigo e poder rir com a melhor amiga, mesmo essa de luto por alguém que lutou por algo justo.

Os anjos caídos tem a sorte de nos livrarmos dessa tragédia chamada perfeição. Ele vem anunciar em pleno carnaval o valor de pi que são aquelas reticências, que eu também chamo possibilidade. Com muito frango apimentado na hora do almoço enquanto queremos "free Alemão". Se esqueci de mais alguma coisa, por favor, me avise, já que esses momentos são cheios de detalhes inexatos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Bichinha de Parada

Há uma noção reacionária que diz que a relação entre politica e sexualidade é algo do século passado, coisa de maconheiro que lia Marcuse em 1968. Só que quem tem um mínimo de noção de que sexualidade permeia nossas identidades e que política fala essencialmente de poder, nada mais humano, demasiado humano nos dois temas, com ou sem maconha, 68 ou 2012.

A Parada Gay é vista muitas vezes como um carnaval pura e simplesmente. Um argumento sem estrutura porque na verdade é só dia de celebração para que um grupo da sociedade possa celebrar a diversidade da sexualidade e convoca a participação de todos. Por isso há de tudo, da bicha bate-cabelo à senhora com o netinho. Diversidade, esse é seu nome.

Por outro lado a luta política se dá no dia a dia, na cobrança de nossos direitos junto às 3 esferas do poder e na educação, que é o ponto mais importante para nossa plena cidadania.

Dito isso recebo uma conversa no qual um homossexual, a fim de ridicularizar o outro diz que seu amigo não merecia ter um namorado cujo amigo é "uma bichona', "um afeminado" e, "do tipo de ir na parada gay".

Estou me indagando ironicamente se há um tipo para ir na Parada. Eu já fui, será que eu tinha o tipo? Em que lugar eu vou para fazer o exame se estou apto para isso e pegar as minhas credenciais.

A "pinta" para muitos homossexuais masculinos é como o "tom de pele' ou o "nariz afilado" dos negros. Algo como "ah você é gay, mas que bom você nem dá pinta" é correlato do "ah você é negro mas não é tão escuro e seu nariz é fino ou o cabelo é bom". Naquela base.

Essa fala reproduz exatamente isso. O cara que vai na Parada e assume publicamente seu desejo, assim como a pinta, é motivo para a ridicularização de uma alma infeliz que não tem a coragem de se olhar no espelho. A projeção de seu desejo em igual - um homossexual que não tem medo - causa medo (fobia) a esse ser humano que teme que seu desejo seja conhecido. É um paradoxo que se resolve a partir da criação de hierarquias tolas que no fim das contas serão inúteis para as nossas conquistas.

Se você busca ter a união civil pouco importa se você dá pinta ou não. O juiz não vai levar isso em consideração. O pastor ou padre que prega contra gays bem como o skinhead que nos agride também não levam isso em consideração. Aliás já tem até pai e filho agredidos pela mera demonstração de carinho, mesmo sendo eles heterossexuais.

A Parada de certa forma é uma transferência e resistência. Resistência na ridicularização quando um desejo que não quer ser assumido ou sabido não pode sê-lo. Nesse sentido ela dá ótimas pistas de como os próprios homossexuais podem, muitas vezes, serem homofóbicos, jogando ao outro a sua homofobia interna.

Ditos isso tudo resta-me o desprezo por esse tipo de viado. E fico com Betina Botox que diz "respeito é bom e a gente gosta". Um viva para as bichinhas de Parada.