terça-feira, 10 de abril de 2012

O Tempo no deserto













I

O vento sopra em um deserto chamado Alma
e sussurra no ouvido um monte de conselhos
a ordem de olhar para a areia que faz brilho
e reflete a imagem inacabada do cansaço

Faz-se um pacto com o Sol
de que seu tempo, naquele dia é breve
faça e não se recuse ao teu papel de queima
para que não brigue com a Lua na outra parte do dia

À noite, com a luz-satélite
a imagem aparece, tímida
contando frustrações, revelvando sentimentos

E diz que não há ideia frustrada
o "cuide-se" se mantém e avisa
deixe o Sol fazer sua parte

II

Antes de entrar na teia de prazeres
a tenda no meio do deserto onde infelizes se encontram
tenta, ao menos um último contato
e nas mãos, tinha a areia de sua ampulheta

Por ela saberás que não há deuses a satisfazer caprichos
E que no deserto todas as vontades aumentam
castigam bravas em meio a um falso drama
a a viagem ainda persiste

Pega-se o caminho da tenda
lá, onde com o Sol ou Lua
o cuidado já é conhecido e sabido

E faça dela a tua morada
o teu tempo e o teu jeito
e não um reino de pequenos desprezos

III

Hora do reinício, o corpo ainda dorme
o tempo ainda é pouco
e o teto da tenda é frágil
a tempestade de areia se aproxima

De que adianta dizer que, no deserto
há areias de cores diferentes e que
a areia de tua cor é igual a todas as outras
se é você mesmo que as pinta e vende como original

Esqueça-se o mercador e os falsos produtos de tua boca
tua raiva quando a origem do que vende é descoberta
e que a alma infeliz dele não cabe neste deserto

Deixar que o Tempo reinicie por si mesmo
tentando consertar seus próprios estragos
fique na porta, escutando o vento, como música

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O bobo



Uma simples passada de vento. Uma mensagem falsa que obriga o bobo a fazer seu show. Ele quer plateia, ainda assim insistem para sua apresentação...

... antes da primeira piada a corte dorme agradecida pelo show que não aconteceu. Ser enganado, eis o papel do bobo na noite que se encerra entre ventos produzidos artificialmente. Fazer piada para súdito nenhum.

Que ri



Eras a Alice do teu próprio mundo, o Coelho Branco, o Chapeleiro Louco e nos momentos de crueldade, a própria Rainha de Copas. Num lance do destino, entre florestas de pimenta, bem longe do mato ao qual te acostumaste, encontras o Gato que Ri...


... e nessa estória ele não era você.


Permitiu-se ao riso e ao encanto. Ao cheiro de novas flores. O reencontro com velhos sentimentos e, como em tudo na vida um buraco se abriu.


Tentou subir por entre as paredes de pedra. De um jeito diferente, mas sendo aquela que era antes de perseguir o Coelho Branco. Conseguiste achar o cogumelo certo, evitou a lagarta com sabedoria e permitiu-se ao novo e ao velho, tudo ao mesmo tempo. Até mesmo conquistaste aquele que temia ser descoberto em uma noite de sexta nos fundos de um bar. Era o teu desaniversário.


Ao chegar na superfície o gato parou de rir. Ou melhor, decidiu rir em outro lugar. O mesmo de onde viera antes. Ali, Alice, era hora de acordar. Onde tu não és gigante nem diminuta. Lidar com essa aparente normalidade que é verdadeiro desafio, ainda que sonho seja um de teus nomes. Ainda bem.

domingo, 8 de abril de 2012

Grito circense


Lança-te no ar, que teu número é sem redes
ao invés do chão, a tua falta de sorte
encontra o vazio da partida
do Dono do Circo, que armou todo o show


O Dono procura por limpeza
sustentação da lona, o público da noite
e reclama do engolidor de espadas que fugiu pro sul
enquanto retira a rede que te protegeria de alguma forma


Lança te no vazio, sem oxigênio, sem queima
só pele e encontre de novo tuas emoções perdidas
e estabeleça um pacto com tempo e grite
"és tu que depende de mim como grande atração"


E ria, gargalhe, ainda que o teu som não seja ouvido
quando, diante da plateia perplexa
o dono procurar pelos olhos, por não ter conseguido enxergar


nem a si mesmo
nem a sua criação


assim nasce a tristeza do palhaço

sábado, 7 de abril de 2012

Um rei e seus espelhos

Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali                     Legião Urbana/Ico Ouro Preto






I


Ela tem 11 anos e chega com um sorriso bobo. Parece que ri de tudo, ainda brinca de bonecas e chama a todos de "tio". Mas com o tempo ela já deixa bem claro que é atenta à tudo o que se passa por ali. E faz a mãe chorar ao ler poesias de outras pessoas.


II


O Rei tem um decreto: olhe-se no espelho. Achava que era a dica perfeita a ser dada ao Poeta que, sem palavras e ao mesmo tempo diante dessa impossibilidade, parte para o Exílio em algum canto afastado daquele reino.


III


O exílio é repleto de pensamentos e sentimentos, mas só é real quando ele se torna escrito. Essa necessidade dói mais que o calabouço do Rei, mas é libertador.


IV


Enquanto as palavras doem no Exílio, lá no Reino o chefe diverte-se com as palavras prontas que ele julga ser simples. Ele busca ser um rei humilde, mas esquece que, para quem nasceu e deseja ser rei, aquilo era impossível.


V


No Exílio a menina chega e diz ao Poeta: "Tio, já reparou que no espelho quando a gente levanta a nossa mão esquerda a imagem levanta a direita?"


V


O Rei voltou atrás na sua decisão, mas teme ser incompreendido pelo Povo. Na verdade ele sabe que ele e o Povo é um só, a diferença que sendo ele Rei, ele manda. Então, nesse estranho jogo de espelhos ele abdica da sua responsabilidade em nome da prudência e nada revela a seus súditos.


VI


Poetas são perigosos. É melhor julgar o caráter deles, pensou o Rei. É a única forma que ele tinha, naquele momento de manter decretos ilícitos longe das vistas do povo, manter suas leis simples e fáceis ditas por outrem e resistir a qualquer criação artística que fosse diferente. Dizia que os poetas eram membros de uma elite fracassada, incapaz de abrir mão de seus privilégios em nome de um mundo novo que ele mesmo programara pra si naquele reino.


VII


A menina, no seu sorriso de onze anos trás lápis e caderno e diz ao Poeta: "Tio, agora só depende de você. Ninguém está vendo mesmo. Mandar o Rei se foder é bom certas horas".


VIII


O Poeta já sabe uma resposta e diz à menina: "não preciso mandar, o Rei já está fodido e ele tem consciência disso. Outro dia declamei um soneto chamado 'Perigo' e ele disse que deveria experimentá-lo por seus próprios pés, ainda que isso pusesse seu reinado abaixo, que Poetas inventam e não respeitam, só sabem criar imagens e ilusões. Foi aqui que fui mandado para cá, segurando um espelho que se partiu no meio do caminho". A menina pergunta que caminho era aquele, ao que o Poeta disse que ela só conhecerá o caminho que ela mesma determinar. Não há leis, reis ou frases prontas que ditarão o rumo que as coisas tomam. Ela gargalha e diz "Tio você diz umas coisas muito engraçadas". E some.


IX


O plano do Rei é descoberto. A menina, no dia da sua menarca, resolve contar tudo o que sabia ao Povo. Ela com os mesmos risos de sempre dizia que se fazia de boba, mas já sabia cada passo em falso do Rei, pois ela já se permitira à poesia e a chorar com sua mãe. O povo então não o deseja nem para figura decorativa na Nova República. Abole suas leis, some e restaura o Antigo Regime de lá, mesmo sabendo que poderia ser ainda pior. Inconformado, resta ao Rei partir para o Exílio ainda firme na questão dos espelhos.


X


No Exílio o encontro. Diante de um espelho inteiro e bonito o Poeta pergunta: levante sua mão esquerda e me diga que mão a imagem levanta? O Rei fica estupefato, mas se recusa a admitir o que os olhos lhe mostram. O Poeta parte para onde fora a menina, porém maduro para outros ares. Para o Rei diz que na verdade não tem nem um "si mesmo" ou espelho, que aquilo era efeito da luz, e que ele estava livre para fazer um novo Reino sem se prender a nada.

Fim de semana passado



Estou devendo a mim mesmo e a meu amigo essa liquididificação desconexa, mas que não posso deixar passar em branco com o sol transitando pela casa 12 no presente momento.


Com ele praticamente em tournée acima do paralelo 22ºS pensei nos elementos dessa composição.








Cenários:


- Praia de ondas aparentemente tranquilas, porém traiçoeiras de onde tenho medo por conta de um caldo que levei lá há 5, 6 anos;


- Um cemitério apenas para decoração;


- Ruas cheias de latas de cerveja jogadas no chão;


- Um videokê onde também se apresenta banda ao vivo tocando músicas antigas do Barão vermelho e dO Rappa;


- Outra praia próxima a um cemitério bem escura onde todos se perdem. Anexo a ela, um estacionamento;


- Um calçadão que leva até a barra de um outro rio entre morros de pedras;


- Um restaurante com festa de crianças e um a festa retrô daquelas que tocam The Fevers;


- Uma chuvinha que vem e vai e não sabe se fica;


- A parte de frente de uma casa com piscina e alguns mosquitos;


Personagens:


Ei ei, vocês viram onde eu estava escondido hoje?




- Geninho: ele tem uma bicicleta, o corpo um tanto delgado, mas diz que é segurança. Fica em frente ao restaurante e volta e meia ele some entre o calçadão e a praia próxima ao cemitério. Há boatos de que alguém sofreu estupro, mas o que se sabe é da possibilidade de ter maconheiros e pegações, para onde essa personagem se dirige;


- Tonico Pereira, como ele mesmo, para falar sobre o rolo de Stepan Nercessian e Charles Waterfalls;


- Uma ursa pintosa de RayBan arrependida de não ter ficado mais tempo no banheiro fingindo que estava lavando as mãos e conferir quem saiu de lá. Ela encontra a amiga na calçada e fica de cochicho, no misto de fofoca e desejo. Breguérrimo o que digitei agora, mas é o suficiente para descrevê-la com verossimilhança.


- Um mix de petroleiro, professor de artes marciais, vendedor de quiosque e garoto de programa. Ele está perto de ondas traiçoeiras, loucas como a sua própria história. Seu cliente maior não aceita que ele receba cigarros de outros caras. O caso é que se ele vai com a cara da pessoa faz de graça, pois entre uma cerveja  e outra, diz que gosta mesmo da putaria, sem a desculpa do "não gosto de homem, só faço pelo dinheiro". É a nova Gabriela Leite das Baixadas Litorâneas;


- Um roqueiro careca pseudo-magro de barba, lindo somente para eu ficar observando. Em seu cenário aparentemente há um coroa grisalho bonitão junto com outro que gosta de pagar cerveja para um rapaz mas novo da mesma banda do careca;


- A amiga do Geninho, que parece dar uma de segurança e protege meninos maconheiros na praia em frente ao resturante;


- Um bonitinho que passeia com o cachorro de madrugada;


- Um cafuçu malhado e semi-gordo que se mostra na porta de uma casa, conversa com algumas meninas perto de outro bar e some em um beco escuro;


- Uma figura que anda pela praia como quem tivesse num concurso de Miss de algum subúrbio e some nas mesmas brumas que o "segurança" vai;


- O amigo do petroleiro-GP que assiste a Tron, o legado;


- Um gordinho com a namorada no restaurante mas fixa os olhos durante 1 minuto, parado, observando os gordinhos que adentram o recinto;


- O prefeito gostoso da cidade que conversa com a senhorinha vizinha da venda porque é ano de eleições;


- O barbeiro que antes era só um "parrudo com barriga" e que agora é um "parrudo com barrigão" e ainda assim está muito gostoso, despertando desejos para além de uma aparada no cavanhaque;


- O rapazola que escuta hip hop internacional e Racionais MC para passar o tempo no posto de gasolina do pequeno distrito. Ele não sabe, mas tem uma beleza digna de qualquer desses modelos que vemos em revistas. Ele tem uma tatuagem no braço com o nome "Andreia" ou "Andrea";


- Muitos caras bonitos passando de bicicleta, de vários tipos, cores e modelos;


- O camarada do supermercado, aliás, 2. um do açougue e outro no caixa, creio eu;


- O quarentão no mercado que finge buscar óleo, mas está de olho em outra coisa;


- O barbudo magro e sua companheira no ponto de ônibus fazendo questão de encontrar um vazio para Cabo Frio, uma verdadeira impossibilidade em um domingo à noite;


- Uma maluca da Vila Capri indecisa, que não sabe o que quer da vida. Aliás se você for a Araruama e querer um balancinho com alguém deste bairro, um conselho de amiga: fuja! Dê preferência ao Parque Hotel, que é a outra calçada que margeia a Amaral Peixoto;


- O bonitnho que desce do ônibus, olha para trás e, no estilo Geninho, some perto do Extra;


-A doida que avisa a todos da cidade que meu amigo, de ascendência judaica, é muçulmano;


-Os entregadores de bebidas escandalizados quando escutam "o cara chupou os dois no ES";


- O músico que toca "Cidade Maravilhosa" para avisar: gente é hora de ir embora.



domingo, 25 de março de 2012

Eu nunca tive um amigo negro

Texto de Cláudio Cesar Dutra de Souza em "O Globo" no dia 24 de agosto de 2010

Eu nunca tive um amigo negro


Nunca se discutiu tanto a questão racial no Brasil como na época da aprovação da lei das cotas para negros em nossas universidades públicas. Também foi esclarecedora a percepção de nossas limitações nesse assunto. Subitamente, fomos brindados com as mais sofisticadas teorias sobre a inexistência do conceito de "raça", que seriam muito bem vindas caso não estivesse totalmente deturpadas pelo nosso "racismo cordial".
Ao pensar em um suposto "conflito racial", algumas pessoas foram a público denunciar a inconstitucionalidade, a aberração e a inutilidade de uma política de cotas para negros, visto que não existe racismo no Brasil. Daiane dos Santos, Neguinho da Beija-Flor e tantos outros foram "branqueados" e alçados a sua genética condição europeia que lhes excluiria de uma vaga especial pelo sistema de cotas. Ao lermos o livro de ficção científica de Monteiro Lobato, "O presidente negro", somos capazes de entender o que pode significar tais asserções e os aspectos políticos nelas envolvidos. Branqueamos os nossos negros, paradoxalmente, para mantê-los afastados de nós e de qualquer compensação reparatória, mesmo que mínima.
O fato é que somos racistas até a medula nesse país. Isso não significa que, em nossa história, queimamos negros vivos como muitas vezes aconteceu nos Estados Unidos na época da Klu-Klux-Klan ou que nossos negros fossem impedidos de sentar ao lado de brancos nos ônibus. Isso é tecnicamente incompatível com o nosso caráter cordial-lusitano, até mesmo porque é desnecessário quando os negros "sabem o seu lugar". E onde é esse lugar a qual designamos historicamente os nossos negros?
Basta pensar em qualquer garoto (a) de classe média branco (a) no Brasil em relação ao seu círculo próximo de amigos para se ter uma resposta muito rápida e precisa. Quase ninguém tem ou teve qualquer amigo negro. Quando falo em amigo não estou me referindo a conhecidos, mas sim, aqueles a quem dividimos nossos sucessos, alegrias, fracassos ou angústias. Aqueles que são convidados para dormir ou almoçar em nossas casas, bem como aqueles que podem se tornar objeto de nosso interesse amoroso. Eu jamais tive um amigo negro e tampouco alguma negra pela qual pudesse me apaixonar, pelo simples motivo que não convivi com eles na minha infância e adolescência como estudante em uma escola privada de Porto Alegre. Eles simplesmente não existiam.
Quando veio ao Brasil em agosto de 1960, o filósofo Jean Paul Sartre percebeu com perplexidade a ausência de negros em suas concorridas palestras. "Onde estão os negros?", perguntou ele a certa altura para o constrangimento dos universitários ali presentes. Alguém responderia a Sartre que não havia negros no recinto tão somente por causa da falta de mérito dos mesmos em conquistar um lugar no espaço universitário? Nesse período, o dramaturgo Nelson Rodrigues também se perguntava: "Onde estão os negros do Itamaraty? Procurei em vão um negro de casaca ou uma negra de vestido de baile. O Itamaraty é uma paisagem sem negros."
Nelson publicou em uma de suas "confissões" no jornal Última Hora em 26 de agosto de 1957 a seguinte observação acerca do teatrólogo e futuro senador da República Abdias do Nascimento: "O que eu admiro em Abdias do Nascimento é a sua irredutível consciência racial. Por outras palavras: trata-se um negro que se apresenta como tal, que não se envergonha de sê-lo e que esfrega a cor na cara de todo o mundo. (...) Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: que o problema não existe no Brasil. Mas existe. E só a obtusidade pétrea ou a má fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo".
A exata localização de nossos negros me intriga. Essa inquietação já me levou a dirigir o meu olhar na esperança de encontrá-los, por exemplo, nas universidades em Porto Alegre. Munido desse olhar específico, passei dias no campus do Valle da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em busca de negros nas áreas comuns do campus e não os encontrei, salvo como funcionários da cantina. Em entidades particulares a experiência se repetiu exatamente da mesma forma. Tudo era uma branca e vasta paisagem, com poucas gradações de cor.
Intrigado com tudo isso, estendi a minha observação aos lugares na noite a quais frequento bares, restaurantes, cinemas e casas noturnas em geral. Eles não estavam lá. Não existem negros ou grupos de negros se divertindo junto com brancos ou estudando junto com brancos, salvo raras e honrosas exceções. Essa situação se repete nas principais cidades do Brasil, não sendo apenas um fenômeno típico de Porto Alegre.
Os negros estão nas periferias, nas favelas, nas escolas públicas mais suburbanas, nos presídios e em subempregos pelo país afora. É hipocrisia nossa imaginarmo-nos, por um instante que for, que vivemos em uma sociedade multicultural, inter-racial, ou qualquer coisa desse tipo. É urgente que nossos negros comecem a desenvolver certa consciência racial e a problematizar o lugar que ocupam dentro de uma sociedade racista como a nossa. Que exijam serem reconhecidos para além dos estereótipos e que ocupem os lugares reservados à elite branca. Que exijam a compensação por séculos de escravidão e exclusão a que foram obrigados pelo escravocrata branco. Se bem que, se a reação causada por um reles ensaio de ação afirmativa se deu em um nível histriônico, poderíamos esperar coisas piores de nossos alvos cidadãos em face de ações mais contundentes

quinta-feira, 22 de março de 2012

Enquanto isso, na Câmara de Vereadores...

Bem, estou para transferir este ano meu título eleitoral para Araruama, onde a teocracia neopentecostal é palavra de ordem. Bem, no Rio, dada a sua maior diversidade temos um amálgama de reacionários machistas clássicos, como Carlos Bolsonaro, alguns evangélicos e muitos "escorregadios" em relação à distribuição de material didático contra a homofobia. Em outro post poderei analisar melhor a respeito. Só deixarei aqui as melhores "pérolas" dos nobres veradores que apoiaram o projeto de C.Bolsonaro.

"Meus amigos Vereadores, eu não consigo entender como é que alguns colegas aqui acham que esse assunto é bobeira. Para começar, eu não tenho problema nenhum com a opção sexual de ninguém, com a orientação sexual de ninguém. Mas, a partir do momento que você coloca isso acima da competência, acho que isso é, no mínimo – não vou baixar o nível – inadequado. Então, quanto à sexualidade de qualquer pessoa, eu acho que isso não se discute. Entre quatro paredes cada um faz o que quer. Mas a partir do momento que você cria um programa que estimula, ensina às crianças nas escolas que determinados tipos de comportamento são normais, acho que já começa a ser covardia, principalmente porque todo esse tipo de material é destinado para crianças do primeiro grau. " Carlos Bolsonaro
 "No meu primeiro mandato eu recebi reclamações de pais de alunos que as escolas estavam distribuindo cartilhas ensinando meninos a fazerem carícias em meninos, e meninas em meninas. Fui a Secretária Sonia Mograbi e expliquei a situação, ela desconhecia e quanto à orientação sexual e religiosa cabe aos pais e não as escolas públicas. E o que nós estamos querendo preservar aqui são as famílias. Quero deixar outra coisa clara: eu amo os homossexuais, amo os gays, mas amo a prática deles. Quero deixar isso bem claro e sou a favor (sic) desse projeto." Márcia Teixeira

 "Srs. Vereadores, Sras. Vereadoras, na época dos senhores e das senhores estudando, quando eram crianças, tiveram alguma orientação sexual? Será que estamos mudando realmente para melhor, como ouvi falar a nobre Vereadora Andrea Gouvêa Vieira? Estamos mudando. Mas estamos mudando para onde? Estamos indo para onde? Estamos mudando para melhor, atingindo nossas crianças amanhã? Falamos de ensino fundamental no Rio de Janeiro, volto a dizer. Não sou contra homossexual, homossexualismo, não sou contra nada. Sou totalmente favorável a total liberdade. Mas, não a libertinagem! A liberdade do adulto, o adulto tendo uma vez a sua mentalidade, atingindo uma maturidade, ele faça o que ele bem entender da sua vida! Nem Deus proíbe! Deus nos concede a liberdade! Vamos nós proibir? De jeito nenhum! Mas, ajudarmos a formatar a cabeça de uma criança, dizendo: “Isso pode, isso é normal. Se você quiser, de um jeito ou de outro...” Lógico, Vereador Eliomar, com mensagem subliminar. As pessoas não vão chegar lá e dizer: “Oh, você tem que ser! Vai por aqui, é legal, é isso!” Não vão fazer isso! Claro! Mas, se passará uma idéia, nobre Vereador José Everaldo, de que é comum, é normal, é natural! E não é! Não é! Não é! Na minha casa não é! Na minha casa não será! E onde eu puder falar, não será!" Jorge Braz

 " Eu sei que vai ser solicitada a votação nominal do projeto, e o Partido Republicano Brasileiro é favorável ao projeto do Vereador Carlos Bolsonaro. Até compreendo diversas colocações, de diversos Vereadores. Inclusive quero citar uma aqui, do nobre Vereador Eliomar Coelho, que disse que desde que mundo é mundo existe o homossexual. Compreendo. Observem a pintura desse quadro. De 1925. Eu acho que temos alguns cidadãos ali que estão com uma posição, por exemplo, a mão, enfim, sua posição clássica de estar em pé, diante de um portão, ou do lado de cá. Entendemos. É de 1925 esse quadro. Foi pintado por um artista plástico. Temos ali alguns jesuítas, acredito eu. Até compreendemos. Mas tornar isso público para nossas crianças, como bem disse o Vereador Carlos Bolsonaro, é inadmissível. Como pedagoga, é inadmissível trazermos esse tipo de assunto para as salas de aula. Muito obrigada, Vereador, pelo aparte." Tânia Bastos

 "Eu entendo, como orientação sexual, e bem colocou aqui o Vereador Jorge Braz, o professor, na sala de aula, ele tem obrigação de perceber se o aluno é míope; você está dando aula, você sabe, você tem alunos que são reprovados, quatro, cinco, seis, sete vezes, até o professor descobrir que o aluno não aprendia, porque ele era míope, ele não conseguia ler o que era ensinado na escola. E aquele garoto vai sendo taxado de burro por alguns professores, ou muitos professores que demonstram incompetência total para assumir o magistério.
    O professor, se ele perceber algum desvio de comportamento, algum desvio de ações, de alunos na escola, mormente naquela em que o Vereador Bolsonaro está se preocupando, que é na primeira fase da vida, na infância, a função daquele professor é orientar de que forma? O “orientar”, aí, veio, e coloca, mais uma vez, o Vereador Jorge Braz, não é chamar o aluno e dizer... Não.! É orientar através do contato com os pais; com o Orientador Educacional, com o Psicólogo. E esse conjunto, formado pela família e os técnicos especializados, é que vai dar orientação.
    O que eu vejo aqui, como o Vereador Carlos Bolsonaro coloca, e muito bem – quero até parabenizá-lo, Vereador -, é que estamos banalizando a sexualidade. A sexualidade tem que ser tratada com respeito e com cuidados técnicos, com cuidados científicos. O que nós percebemos é a banalização. O que nós percebemos, e o Vereador Bolsonaro aqui mostrou, através de cartazes, é o suprassumo do nada, é o suprassumo da imbecilidade. Eu costumo chamar, Vereador Eliomar, é o suprassumo da imbecilidade fenotípica, aquela imbecilidade adquirida no meio ambiente em que vivemos.
    Tratar dessa questão... Como é que eu vou tratar? Como é que eu vou deixar o meu neto...? Eu tenho um neto de oito anos, vai fazer oito anos, que se orgulha de dizer: “Vô, já estou com uma namorada na escola”. Eu pergunto: “Ela já sabe?”. Ele diz: “Não, vô. Ela não pode saber que eu sou namorado dela”. Será que uma criança dessa pegar um professor... Porque todo mundo aqui defende a questão do homossexualismo. Aí, na hora que o filho é homossexual, e ele descobre quarenta anos depois, quando o filho já casou com três, ele não admite. Porque ele admite quando é lá no outro." Professor Uóston
 " Sr. Presidente, Srs. Vereadores, eu sinceramente estou achando que eu perdi a tarde hoje, porque até agora eu não consegui entender. Pelo que me consta, ate o presente momento, o que foi que eu entendi com relação ao Projeto do nobre Vereador Carlos Bolsonaro? Onde está a discriminação? Nada disso foi dito pelo nobre Vereador, que alias defendeu o Projeto com muita competência. Eu lhe confesso publicamente, eu não teria condições de defender um Projeto com tanta veemência, com tanta competência. O que foi colocado, salve melhor juízo, é a forma como está sendo conduzida. Ora, gente, uma imagem vale por um milhão de palavras! Quantas vezes a televisão usa as imagens até de forma perversa. Muitas vezes um político é apresentado a uma pessoa de uma conduta não muito ilibada e aquilo é colocado para mídia de forma perversa, tentando jogar aquele cidadão na lata do lixo. Então, foi colocado aqui pelo nobre Vereador Bolsonaro. É a forma, ora, uma criança de 6 anos, qual é o entendimento que essa criança tem? Eu hoje tenho 66 anos, muita gente diz que eu tenho 35, mas eu não tive nenhuma orientação nesta área, e nem por isso aconteceu algo errado na minha vida. O Carlos Bolsonaro não está condenando o acasalamento de pessoas do mesmo sexo. Não foi isso que ele disse aqui. O que ele colocou foi a questão de uma criança de 6 anos... Aquela imagem que ele mostrou de um homem colado atrás do outro. Foi isso que ele mostrou. Então se foi isso que eu entendi, ou se eu entendi diferente, eu gostaria da orientação de vocês."  José Everaldo

 "Sr. Presidente , vou até fazer questão de ler a ementa porque já vi tanto discursos. E essa é uma questão que num ano eleitoral tem posicionamentos, e até se fala muito em preconceito homofobia, mas às vezes alguns discursos são desassociados da pratica. Eu já vi alguns políticos defenderem verbas para passeatas gays. E cada um tem sua forma de expressar a sua religião, a sua forma de entender a vida, mas nesse momento é um momento preocupante porque nós estamos votando aqui exatamente o seguinte: “veda a distribuição, exposição e divulgação de material didático contendo orientações sobre a diversidade sexual nos estabelecimentos de ensino fundamental”. Isso quer dizer, ensino fundamental crianças até mais ou menos 14 anos, claro tem algumas de 15 ou 16 anos. Então quero que os companheiros entendam que as outras questões que foram colocadas aqui podemos discutir até posteriormente. O que o nobre companheiro Adilson Pires disse, eu estava presente na Sessão, ele falou do projeto que criava o dia do hetero, e ele até se colocou favorável a projeto porém não entendia que aquela seria a melhor justificativa. Vejam bem ele foi taxado de homofóbico. Isso que é preconceito. Então o entendendo por que exemplo que o Estatuto da Criança e Adolescente diz que criança é de zero a 12 anos, adolescente é de 12 a 18 anos incompletos. Na minha opinião eu entendo que uma criança de 5, 6, 7 anos não está preparada para receber alguns materiais. Por mais que se diga que a Prefeitura não está fazendo isso! É obvio que não está fazendo. E quero a todos os companheiros que o sinal que a Presidenta Dilma teve que interceder sobre a distribuição dos kits, ora Senhores é possível. O que o nobre companheiro Carlos Bolsonaro está apresentando eu entendo e vou votar favoravelmente ao projeto porque entendo que crianças de 3,4,5,6,7,8,9,10 anos não têm o discernimento, por mais que as pessoas digam que sim. Porque alguns estão defendendo o projeto, mas educaram seus filhos falando de forma diferente! E é isso o que eu quero que vocês entendam. Esse momento é de reflexão, mas também de entendimento.
    Quero dizer que o ECA tem no seu artigo 71 - “A criança e o adolescente têm direito à informação, cultura, lazer, esporte, diversão, espetáculos e produtos e serviços que respeitem a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. Se os adultos não sabem dizer o que é uma criança em desenvolvimento, até que idade? Eu tinha 12 ou 13 anos e tinha um mundo completamente diferente das crianças de 12 e 13 anos.
    Só para finalizar, alguns argumentos falam do bulliyng – que crianças estão se matando porque sofrem bulliyng, porque têm uma orientação sexual diferente da maioria. Temos bulliyng também com o gordinho, com o manquinho, então, por que se coloca apenas nessa situação? Quero encaminhar e lamento que os Vereadores do DEM não estejam aqui, mas a minha colocação é: nada de homofóbico. Aliás, duvido que alguém, aqui dentro, tenha mais amigos que tenham opção sexual diferente da minha do que eu que trabalho no mundo artístico. Não me venham dizer que sou homofóbico! Pelo contrário!
    Sou favorável ao projeto apenas por essa colocação – crianças de 5, 6, 7, 8, 9 anos muitas vezes têm a sua família desestruturada. Claro que a escola cumpre esse papel, mas não é distribuindo material como o kit gay que seria distribuído. Quem teve o trabalho de levar para casa aquele kit está entendendo o que eu estou falando. Quem só fez discurso... realmente vai continuar só fazendo demagogia." Tio Carlos


Recomendo também que se leia o discurso dos 9 deputados contra esse projeto absurdo:

 Adilson Pires (PT), Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), Eliomar Coelho (PSOL), Paulo Messina (PV), Paulo Pinheiro (PSOL), Reimnot (PT), Carlinhos Mecânico (PSD), Brizola Neto (PDT) e Teresa Bergher (PSDB).

quarta-feira, 21 de março de 2012

O essencial

Naqueles insights de fim de tarde e aí me lembro da frase do "Paçaro da Dislexia". Deve ser o fato de agora estar lidando com um adolescente disléxico de 15 anos. Ele troca a ordem das palavras e os cálculos são difíceis para ele. Ainda assim ele encontra uma saída própria, quando a oportunidade lhe é dada e está  longe da superproteção da mãe que insiste em vê-lo como um incapaz. Esses amores estranhos que nos rebaixam...

"O essencial é invisível aos olhos" é uma daquelas frases infames, tipo um Pour Elise literário ou algo do tipo. Bem, daí tentei, por cisma mesmo e criar uma outra frase infame óbvia: "O essencial é visível aos olhos". Os empiristas e os céticos iriam ficar felizes com isso. Aliás considero São Tomé um grande injustiçado...

A psicanálise trouxe o conceito de inconsciente. Lá estariam os nossos desejos "invisíveis aos olhos'? Será? Lembro-me de rir com um amigo nos tempos de faculdade de um mantra que todos os professores freudianos repetiam "o inconsciente não é algo profundo, escondido, ele está ali junto com o consciente".  Frustração para o modelo do "iceberg" no qual seus dois terços submersos sustentam o terço emerso.

Me lembrei da noção de "sujeito". O sujeito na análise é aquele que fala, que dá sentido ao seu enunciado. Nessa fala escapam coisas sem sentido, sem um significado aparente. E é ele, o sujeito, em sua combalida ação se defronta com o desejo que estava mascarado e precisa dar um sentido a ele, ou transformar em outro "sintoma": uma mania, uma fobia ou outra coisa. Eu no meu processo de análise quantas vezes não saía deprimido, arrasado. O Sujeito, ser da fala, aquele que em sintaxe pratica ou sofre a ação do verbo, dava uma marretada no ego que tinha operado mil truques para camuflar o desejo.

Mas os desejos camuflados, o escondido, o que é inconsciente está tudo ali. O que acontece que o essencial é visível, ou seja, só é possível ter sentido e poder nos deparar com o que nos incomoda quando nos deparamos com ele e não escondendo.

Pensei em algo mais simples, como por exemplo: para onde eu viajaria. Se eu tivesse superpoderes conheceria o mundo inteiro. No entanto a minha mortalidade e necessidades materiais me impedem essa façanha. Mas também isso não é motivo para ficar parado. Basta fazer a árdua- sim para um neurótico a dúvida é fundamental para sustentá-lo - de selecionar para onde se quer ir e a partir daí fazer os planos, levantar o que precisa e colocar em prática o desejo. Ok, a vida nem sempre é tão simples assim, mas o enunciado é esse. Mais fácil para uns, mais difícil para outros. De qualquer forma o que se escolhe é o que se torna visível.

Claro que no mundo "invisível" há um mar de possibilidades, essas que nos impele a mudarmos. Ainda assim elas só terão sentido quando quando se tornarem visíveis. Ainda que a caverna platônica fala se uma saída externa onde há uma Verdade absoluta, de certa forma tem sentido do quanto é importante o que está visível.

No frigir dos ovos não há Deus, ideias, instituições ou outras coisas que nos sustente de todo. Nossa psiquê não é bem um iceberg. Está mais para um campo aberto e árido, onde há sim obstáculos e a convivência com os outros, mas no fim das contas cabe a cada um seguir seu caminho.


sábado, 10 de março de 2012

A Pedra que Brilha

Drummond, segundo Alvarus (1941)




Aí o Junior no facebook joga esse vídeo de "No Meio do Caminho" do Drummond. Vou embedar aqui sem medo do ECAD (vai que eles fizeram um acordo com a ABL, MEC sei lá e passe a atuar na literatura)




Bem, eu comecei a ler junto com todos eles em voz alta e ainda perceber como seria a palavra "pedra" nos diversos idiomas, finalizando no Tupi onde é dito o clássico "Ita". De Itaboraí, Itaguaí, Itapemirim e, porque não, Itabira, terra natal de Drummond que significa "A pedra que brilha".

Era criança quando Drummond morreu, mas ele foi um enredo feliz para a minha Estação Primeira em 1987. Acho que foi o primeiro samba-enredo que aprendi a cantar e naquele ano defini a minha escola do coração.

Na adolescência, tomei uma certa birra com Drummond, em especial por conta de "No Meio do Caminho". Achava chato, repetitivo, sem sentido, como muitos conservadores devem ter achado lá pelos idos de 1928 quando esse poema foi publicado.

Ontem comecei a lê-lo em voz alta. Hoje também. Momento tenso, deve ser. Em princípio achei que era por conta da prova de amanhã, mas creio que a a falta de conclusão sobre rachaduras na área de serviço devem de alguma forma me intranquilizar. É a atual pedra no meio do meu caminho.

Não foi um exercício de auto-ajuda. Mas mais importante, de auto-descoberta. Algo que tive, por exemplo com Clarice Lispector ao reler "O Primeiro Beijo".

Ler "No Meio do Caminho" não é só perceber o que externamente te incomoda. Pra mim foi um ato de lidar com a minha própria pedra interna e fazê-la brilhar, ainda que muitas vezes os olhos da alma possam dar a desculpa de estarem cansados, retinas fatigadas. E isso não deve ser de fato esquecido.