Aquele momento em que paro uma suposta sequência de posts por conta de um insight.
Hoje conversava com um amigo sobre um rapaz que, diante da desilusão amorosa, começou a esculhambar o mundo: "as pessoas são canalhas, o 'meio' não presta, todos querem se aproveitar de mim" e, em um dado momento a fala foi dirigida para si "estou com nojo de mim, eu faço escolhas erradas sempre!"
Daí começamos a pensar em nossas histórias amorosas e de uma fala que esse meu amigo me disse há tempos sobre o quanto é importante, mesmo que dado relacionamento tenha um significado importante, há um momento de "esvaziar os bolsos" e entender que não dá mais pra manter a nossa cabeça obsessiva naquela relação que já se foi.
Lembrei-me da metáfora da garrafa na geladeira, que já usei em diversos textos meus. A água dentro dela já está quase no fim, mas daí você não bebe toda e deixa um restinho ridículo de água (que não encheria nem 1/10 de um copo) dentro dela para ter a sensação de que ainda há algo ali, que a garrafa não se esvaziou por completo.
Sempre parei nesse ponto, do horror ao vazio e ao fato de não encararmos a falta. Mas hoje pude ir mais além um pouco nesse pensamento.
Como assim?
Quando a água na garrafa está prestes a acabar, temos algumas possibilidades: tomar também aquele resto que sobrou, jogar o resto fora, encher a garrafa com mais água ou, ainda, deixá-la vazia na pia e decidir depois se a enche ou se vai dar a tarefa para outra pessoa.
Se o resto fica, todas essas possibilidades que falei ficam sob responsabilidade de uma outra pessoa. Estou cogitando neste exemplo caso de haver mais pessoas na casa e que aquele que deixou o resto não vai mais mexer na garrafa.
E por vezes é isso que fazemos com os nossos restos: deixamos para que outros tomem decisões sobre ele, para que ele sim se confronte com a falta que não é dele, mas sim nossa. Não é mais ou menos isso que fazemos quando, muitas vezes, estamos acusando o mundo pelos nossos fracassos amorosos?
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Cruzeiro - Dia 1
Tivemos que acordar relativamente cedo, mas almoçamos
rapidamente mais cedo para chegar a tempo. Já a fila me parecia um grande
ensaio antropológico da classe média. Enorme, sob aquela Perimetral prestes a
ser derrubada em uma horrorosa Zona Portuária. E tome tempo de espera.
Daí após algumas horas chega a vez de ser atendido e uma
guria entrega um formulário para meu amigo. Nele você preenche os dados e o
número do cartão de crédito para ser usado em seu cartão dentro do navio. E
perguntei pelo meu formulário e daí ela disse que era “apenas 1 por cabine”.
Inconformados, mais tarde, enquanto esperávamos a nossa vez –
nossa senha era a de número 13- procuramos por uma outra moça do atendimento
que disse que a tal guria estava equivocada. E depois de ver um bolo de
formulários pude preencher os meus dados individualmente. Sem falar na ironia
que a outra fez em relação a tal guria: “ah, coisa de gente iniciante, sabe
como é”.
Enquanto isso uma galera tocava um pagode muito ruim, fora
de ritmo total. Como diria Dona Reginalda, que sabia tudo de samba, parece com
o samba daquela galera que acha que sabe lidar com o pandeiro e no fim tem que
comprar uma cerveja pra dividir com 10, porque não faturam muito.
E eu com aquele senso de observação já consegui mentalizar
alguns personagens: “Posto 2”, que era um loiro gordo-parrudo grandão, a “ursa”
(porque era o mais bonito dentro desse “padrão”) que em todo lugar para onde
íamos ela estava presente, o “Cramus” que era um cara bem parecido com um amigo
que tem esse apelido, e claro, a “Marte-Urano”, termo que merece aqui uma
explicação:
(No meu mapa natal eu tenho uma quadratura entre esses dois
planetas. Marte, o planeta da vontade e do desejo – incluindo o sexual- se
encontra em Leão na 12ª casa em quadratura com Urano, planeta que mostra onde
você é mais criativo e contestador, em Escorpião na 3ª casa, o que, segundo a
Astrologia, mostra um conflito entre desejo e transgressão, o que meu amigo
identifica no meu tesão em homens mais velhos fora do ‘padrão’ hahaha. A coisa
generalizou e hoje em dia todo coroa recebe essa alcunha: “Marte-Urano”. Enfim,
as minhas amizades são sempre com dialeto próprio)
Enfim, a tal Marte-Urano ficava o tempo todo me olhando e
coçando as partes, até o momento que se juntou a ele um grupo de mulheres, uma
delas parecendo a sua mãe e aí foi o fim da brincadeira L
Então a nossa vez chegou e, no momento em que avistava os
guichês, eu vi que a tal guria do “formulário único” estava lá no guichê. Foi
quando eu disse a meu amigo “A gente vai ser atendido por ela e ela vai fazer
merda”. E como numa versão trevosa de “O Segredo”, a tal lei da atração
funcionou: fomos atendidos pela guria e ela entregou para gente dois cartões de
outros passageiros. E mais um drama da classe média para trocar os cartões e
corrermos para achar a entrada para a fila do navio e que TODOS os funcionários
deram a indicação errada. Parecia que eu estava dentro de um filme que
misturava Kafka com Além da Imaginação e uma siticom dessas da Fernanda
Young/Alexandre Machado.
Enfim, a fila andou rápido e pude ver o navio, que para mim
era um colosso e, para meu amigo, mais acostumado a cruzeiros dizia “ah Di, não
é nada, há ainda maiores que esse”.
E finalmente entramos e já gostando da equipe. Na entrada
havia um careca que era uma versão mais gorda do ator pornô Eddie Diaz e um
brancão americano de cabelos negros e olhos azuis que mexiam com a imaginação.
Enfim, não poderia deixar esse registro de lado ;)
Foi o tempo de entrarmos no navio, conhecer o camareiro –
que parecia colombiano, muito atencioso – partir para a janta (e encarar o
galerão e sorte de encontramos lugares para nós ficarmos de boa). Aliás esse
momento foi ótimo, porque me lembro de meu pai dizendo o quanto era gostoso
estar em um navio fazendo a refeição olhando para o mar.
E então o navio partiu e pela primeira vez na vida pude ver
a Baía da Guanabara em sua entrada de uma forma mais próxima e boa parte do
litoral fluminense. Era bem interessante como ao longe a gente se dá conta de
como o litoral fluminense que vai da Guanabara até o Cabo Frio é relativamente
pequeno e eu poderia vê-lo todo. Pensei que essa era exatamente a parte onde
viviam os Tamoio, já que após o Cabo Frio era domínio dos Goitacá, meus
ancestrais. Inclusive foi legal quando uma moça de Saquarema (cidade vizinha de
Araruama) reconheceu a iluminação verde ao longe que era da Igreja Nossa
Senhora de Nazaré.
Então chegou a hora do jantar à la carte, nós éramos do
segundo turno. Para nosso azar tivemos que dividir a mesa com um casal de meia
idade muito chato. No caso o marido que determinava tudo o que a mulher tinha que
comer. Após fazerem a oração, comemos num certo silêncio e nem o vinho ajudou a
me animar. Então chega o cheesecake de morango do meu amigo q e mulher olha com
o ar de “eu queria, mas não posso porque meu marido exigiu que eu pegasse outra
coisa”. Enfim, decidimos que a partir daquele dia não jantaríamos mais ali e
sim no buffet self-service.
No fim da noite, antes de ir dormir, fiquei feliz por saber
que havia bebida na promoção. Vodca Absolut por 18 dólares, mas não era ela que
me interessaria mais ali. O lance foi aproveitar o balanço do navio e dormir
confortavelmente.
Cruzeiro - Prólogo
Foi tenso quando meu amigo chegou pra mim e disse: “Didi,
tenho uma proposta ‘indecente’ pra fazer pra ti. Vamos fazer um cruzeiro?”. E
então após “n” argumentos (a bebida liberada foi um fortíssimo) eu tomei a
decidi e parti do Rio de Janeiro-RJ em direção a Salvador-BA.
Um corre-corre para arrumar malas e remanejar as aulas dos
meus alunos se formou, mas no frigir dos ovos foi tudo tranquilo. Agora, nas
próximas postagens segue um resumo das minhas impressões durante aqueles 7 dias
no mês de dezembro.
E também para parar de protelar o envio de textos para esse
blog.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Eu Maior
Na semana que passou eu vi no Youtube o documentário "Eu Maior" (2013), com roteiro de Fernando Schultz e dirigido por ele e Paulo Schultz.
O objetivo do vídeo é falar sobre questões ligadas à vida e à felicidade e, em tese, sob diferentes perspectivas. Percebi ali um "tripé" interessante que reunia artistas, religiosos/espiritualistas e filósofos/cientistas e, ao lado disso, um esportista, a ex-Senadora Marina Silva, a presidente da associação LGBT de São Paulo, Greta Silveira e a liderança comunitária Vanete Almeida.
Eu gosto demais desses temas e gostei de vários depoimentos. Tinha entrevistados que gosto muito como o Cortella e o Rubem Alves. E gostei muito de pontos abordados pela Moja Coen, as histórias de Vanete e Greta e o depoimento do palhaço Márcio Libar.
O que realmente senti falta e daí minha zica com esse tipo de filme que discute esses temas é que ele coloca basicamente o tema da felicidade e da vida vinculado a um viés classe média/alta com aquele epaté orientalista que agrada certas pessoas desse segmento.
Explicando melhor: se quero fazer um filme com depoimentos daqueles que lidam com a espiritualidade e sendo esse filme feito no Brasil, onde estavam os representantes do candomblé, umbanda, e, por que não, de alguma corrente evangélica (o Pastor Godim seria uma pessoa ótima pro filme, por exemplo). O catolicismo, bem ou mal, tinha Leonardo Boff.
Com isso fica a impressão de que a discussão sobre quem somos é coisa de gente branca de classe média do Leblon que ama algo da filosofia oriental (devidamente mastigado ao gosto do freguês) e restringe muito o que se poderia ter um panorama mais amplo. As falas de Vanete, por exemplo, poderiam chamar a atenção para algo bem maior do que o reme-reme ao qual estamos habituados a ver quando esses temas são discutidos e não se resumir apenas a uma "participação especial"
O objetivo do vídeo é falar sobre questões ligadas à vida e à felicidade e, em tese, sob diferentes perspectivas. Percebi ali um "tripé" interessante que reunia artistas, religiosos/espiritualistas e filósofos/cientistas e, ao lado disso, um esportista, a ex-Senadora Marina Silva, a presidente da associação LGBT de São Paulo, Greta Silveira e a liderança comunitária Vanete Almeida.
Eu gosto demais desses temas e gostei de vários depoimentos. Tinha entrevistados que gosto muito como o Cortella e o Rubem Alves. E gostei muito de pontos abordados pela Moja Coen, as histórias de Vanete e Greta e o depoimento do palhaço Márcio Libar.
O que realmente senti falta e daí minha zica com esse tipo de filme que discute esses temas é que ele coloca basicamente o tema da felicidade e da vida vinculado a um viés classe média/alta com aquele epaté orientalista que agrada certas pessoas desse segmento.
Explicando melhor: se quero fazer um filme com depoimentos daqueles que lidam com a espiritualidade e sendo esse filme feito no Brasil, onde estavam os representantes do candomblé, umbanda, e, por que não, de alguma corrente evangélica (o Pastor Godim seria uma pessoa ótima pro filme, por exemplo). O catolicismo, bem ou mal, tinha Leonardo Boff.
Com isso fica a impressão de que a discussão sobre quem somos é coisa de gente branca de classe média do Leblon que ama algo da filosofia oriental (devidamente mastigado ao gosto do freguês) e restringe muito o que se poderia ter um panorama mais amplo. As falas de Vanete, por exemplo, poderiam chamar a atenção para algo bem maior do que o reme-reme ao qual estamos habituados a ver quando esses temas são discutidos e não se resumir apenas a uma "participação especial"
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
No muro, no entanto, há vigas expostas
| Les Demoiselles D'Avignon, Pablo Picasso, quem me mostrou as múltiplas faces na pintura |
Aquela velha pergunta: quem sou eu?
Clarice, em "A Hora da Estrela" fornece uma ideia:
Quero afiançar que não me conheço senão através de ir vivendo...
Se tivesse a tolice de me perguntar "Quem Sou Eu?" certamente cairia estatelada e em cheio no chão.
É que "Quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade?
-Quem se indaga é incompleto!
Hoje ela surge através do que muitas vezes penso sobre mim mesmo. Eu, incompleto que sou.
E a bendita/maldita alteridade. O que os outros veem em você?
Há aquele discurso prático de auto-ajuda aparentemente rebelde "seja você mesmo, não ligue para o que os outros pensam". Claro que viver em função do pensamento ou da opinião dos outros é horrível. Por outro lado cabe a pergunta: será que estou imune a isso?
Na minha vida convivo com certos paradoxos. Nada mais humano que eles...
Para alguns eu tenho um lado forte, combativo que me leva à intolerância. A uma incapacidade de ouvir o outro e de ser crítico 24 horas por dia. Uma pessoa teimosa que não abre mão daquilo que pensa.
Para outros sou o eterno diplomático. Aquele que tenta contornar as relações e que não arruma inimizades. Que não é maldito na boca dos outros e sempre tenta ficar bem com todo mundo. O famoso "em cima do muro".
Ironicamente, o sonho desta noite me mostrou esse paradoxo: nele eu tentava ficar em um muro com vigas expostas (ah, os símbolos fálicos) só que não tinha espaço suficiente para eu me sentar. Engraçado ver como o sentar pode levar a uma associação interessante: bunda, passividade, acomodação. E no isso tudo era impossível. Há algo no desejo, esse que me mostra incompleto, que impede isso.
O que tem essa acomodação com o "quem sou eu?" e o "olhar do outro"?
No muro, sentado eu poderia estar ao mesmo tempo exposto (nele eu ficaria ao lado do meu namorado) e ao mesmo tempo observando. Sujeito ao olhar do outro. Sujeito, o ser da fala, o praticante da ação contida no enunciado verbal que ao mesmo tempo sofre a ação, se sujeita.
E junto com isso vem os incômodos: será eu o intolerante que não se permite ao que os outros pensam? será eu o covarde que tem medo de se colocar diante de certas situações?
No fim, ao invés de pensar no "quem sou eu", vem o "o que eu faço"? E como faço? Por que faço? E se eu puder colocar todas as perguntas, mesmo sabendo que elas não serão totalmente respondidas. Pela falta.
Aí me vem um conselho: não racionalize. Pode ser...Mas sou incapaz É aquele momento que parafraseando uma música do Serguei "eu volto pro interno". Nele, mais que racionalizar, é importante sentir também. Perceber as multiplicidades que há em mim na forma como eu me construo a cada dia. Reconhecer o paradoxo tolo do "quem sou eu", mas se permitir ir além dele.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Psicossociologia, PT e Supereu
Vi que compartilharam esse texto no Facebook e muitos o citaram como algo perfeito e definitivo. Uma coisa que observo é que toda vez que você quer negar algo do seu universo ou fazer a crítica de uma suposta crítica estabelecida, ela é feita de maneira rápida sem observar os detalhes que existem nela. No caso da autora, se há um universo de esquerda que critica a classe média e o que está junto (homofobia, machismo, racismo...) há uma necessidade de criticar.
Acho sempre válido criticar e duvidar do que parece tão confortável ao seu redor. No entanto ela tem que ser feita com observação e argumentos que sustentem essa crítica. E nesse sentido o texto apresenta alguns problemas. Vamos a eles.
Em primeiro lugar ela enxerga a classe média como "bode expiatório" e isso é motivo de incômodo. Eu fico pensando nos milhões de brasileiros que não tem o que comer e ela fazendo tal afirmação. Isso não é pura e simplesmente demagogia ou uma afirmação piegas, mas em um país em que a concentração de renda é absurda, essa afirmação não é de todo certa. Ainda que se possa reconhecer que essa concentração se dá, justamente pela forma como toda nossa estrutura social foi formada ao longo dos séculos e como ela se estabelece no século XXI, em que parte da elite está inserida no contexto capitalista global e outra mantém relações do Brasil Colônia. Mas esse é outro papo...
O grande problema é que ela fala de "classe média tradicional" e trata uma distinção como uma mera observação. É importante saber sim de que classe média você fala. Então falta explicar com clareza que classe média é essa.
Daí parte para para as explicações psicanalíticas. Sendo que faltou estabelecer uma outra diferença entre luto e melancolia, em que o primeiro é consciente e o segundo inconsciente. Isso é fundamental porque aí há de se falar de uma instância psíquica, o supereu, que sequer é mencionado, mas tem uma relação com a melancolia, já que ele se baseia em um desejo recalcado edípico (seja como seu pai, mas você não pode ser como seu pai, ie, desposar a mãe).
Outro fato é que o agente crítico tem sua relação com o sadismo e com a pulsão de morte.
Aí parte para a discussão sobre o tumblr classe média. Na sua alegação ela acha que tudo é creditado à classe média. De fato, homofobia, sexismo, racismo não são exclusivos dessa classe. O que ocorre, algo que qualquer psicólogo social deve ter em mente, é de que lugar se fala. Os discursos ali são produzidos sim pela classe média. É ela que fundamentalmente está lançando os comentários nas redes sociais e, além disso, são os clássicos comentaristas de portal. Concordo que nem tudo pode ser creditado a essa classe, mas afirmar que não o é é falta de uma visão contextualizada sobre o que está sendo postado ali.
A falta de uma visão social mais ampla faz com que a autora ache que as reivindicações da classe média são as mesmas do PT/Movimentos Sociais. Em um país em que se pautou pela escravidão e pela diferenciação das pessoas, parte da classe média quer sim seus filhos em escolas particulares ou seus planos de saúde porque isso é um sinal de distinção de classe, ainda que eu compreenda a má qualidade dos serviços públicos.
Outro detalhe é em relação aos movimentos evangélicos em que ela cita como das classes mais baixas. Os movimentos aos quais o PT tem como principal aliado, em especial a IURD, tem como sua base a Igreja Universal do Reino de Deus entre outras que pregam a chamada "teologia da prosperidade", que muito mais se identifica com os anseios de consumo dentro das relações religiosas do que simplesmente pessoas pobres que estão indo rezar.
O PT não é e nunca foi o totem absoluto da "classe média tradicional". O tiozinho que esbraveja contra o Lula é o mesmo que 89 dizia que não votava em analfabeto baderneiro.Parte dessa classe pode estar enlutada, bem como os movimentos sociais organizados que tem/tinham o PT como aliado (aliás é bom frisar que no movimento LGBT, parte está cooptada pelo governo e outra não, então nem isso é homogêneo). Restringir toda a classe média "tradicional" a "viúvas" melancólicas do PT é uma simplificação falaciosa.
Até mesmo vendo os comentários da autora percebo a sua insistência em manter esse mesmo modelo. Enfim, o supereu não só se relaciona com a melancolia, mas também com a neurose obsessiva, que também tem horror a perda do objeto investido.
Acho sempre válido criticar e duvidar do que parece tão confortável ao seu redor. No entanto ela tem que ser feita com observação e argumentos que sustentem essa crítica. E nesse sentido o texto apresenta alguns problemas. Vamos a eles.
Em primeiro lugar ela enxerga a classe média como "bode expiatório" e isso é motivo de incômodo. Eu fico pensando nos milhões de brasileiros que não tem o que comer e ela fazendo tal afirmação. Isso não é pura e simplesmente demagogia ou uma afirmação piegas, mas em um país em que a concentração de renda é absurda, essa afirmação não é de todo certa. Ainda que se possa reconhecer que essa concentração se dá, justamente pela forma como toda nossa estrutura social foi formada ao longo dos séculos e como ela se estabelece no século XXI, em que parte da elite está inserida no contexto capitalista global e outra mantém relações do Brasil Colônia. Mas esse é outro papo...
O grande problema é que ela fala de "classe média tradicional" e trata uma distinção como uma mera observação. É importante saber sim de que classe média você fala. Então falta explicar com clareza que classe média é essa.
Daí parte para para as explicações psicanalíticas. Sendo que faltou estabelecer uma outra diferença entre luto e melancolia, em que o primeiro é consciente e o segundo inconsciente. Isso é fundamental porque aí há de se falar de uma instância psíquica, o supereu, que sequer é mencionado, mas tem uma relação com a melancolia, já que ele se baseia em um desejo recalcado edípico (seja como seu pai, mas você não pode ser como seu pai, ie, desposar a mãe).
Outro fato é que o agente crítico tem sua relação com o sadismo e com a pulsão de morte.
Aí parte para a discussão sobre o tumblr classe média. Na sua alegação ela acha que tudo é creditado à classe média. De fato, homofobia, sexismo, racismo não são exclusivos dessa classe. O que ocorre, algo que qualquer psicólogo social deve ter em mente, é de que lugar se fala. Os discursos ali são produzidos sim pela classe média. É ela que fundamentalmente está lançando os comentários nas redes sociais e, além disso, são os clássicos comentaristas de portal. Concordo que nem tudo pode ser creditado a essa classe, mas afirmar que não o é é falta de uma visão contextualizada sobre o que está sendo postado ali.
A falta de uma visão social mais ampla faz com que a autora ache que as reivindicações da classe média são as mesmas do PT/Movimentos Sociais. Em um país em que se pautou pela escravidão e pela diferenciação das pessoas, parte da classe média quer sim seus filhos em escolas particulares ou seus planos de saúde porque isso é um sinal de distinção de classe, ainda que eu compreenda a má qualidade dos serviços públicos.
Outro detalhe é em relação aos movimentos evangélicos em que ela cita como das classes mais baixas. Os movimentos aos quais o PT tem como principal aliado, em especial a IURD, tem como sua base a Igreja Universal do Reino de Deus entre outras que pregam a chamada "teologia da prosperidade", que muito mais se identifica com os anseios de consumo dentro das relações religiosas do que simplesmente pessoas pobres que estão indo rezar.
O PT não é e nunca foi o totem absoluto da "classe média tradicional". O tiozinho que esbraveja contra o Lula é o mesmo que 89 dizia que não votava em analfabeto baderneiro.Parte dessa classe pode estar enlutada, bem como os movimentos sociais organizados que tem/tinham o PT como aliado (aliás é bom frisar que no movimento LGBT, parte está cooptada pelo governo e outra não, então nem isso é homogêneo). Restringir toda a classe média "tradicional" a "viúvas" melancólicas do PT é uma simplificação falaciosa.
Até mesmo vendo os comentários da autora percebo a sua insistência em manter esse mesmo modelo. Enfim, o supereu não só se relaciona com a melancolia, mas também com a neurose obsessiva, que também tem horror a perda do objeto investido.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Uma saia justa
E este bafafá todo em torno da discussão entre Bárbara Gancia e Paula Lavigne me fez pensar sobre algo que há dias eu tinha refletido a respeito e que ainda não tinha colocado em texto.
Acertadamente, diz Gancia:
A diferença é que ainda pega mal sim, ser gay hoje em dia, infelizmente. Por essa razão há questões que ainda permanecem necessárias. E a partir daí penso em duas situações com conhecidos meus, mas que provavelmente muitos já devem ter ouvido.
Um deles reclama que um amigo fica interpelando o tempo todo para saber a sua orientação sexual, para saber se ele gosta de homem. Pergunto a ele: por que você não joga tudo na lata e não diz logo? Ele me responde dizendo que aquela questão é de "foro íntimo", que o tal amigo não merece ter a resposta porque não foi uma pergunta de coração e só fez a pergunta para satisfazer uma curiosidade pessoal e não realmente uma preocupação com o que ele (meu conhecido) sente.
Outro resolveu dividir apartamento com uma amiga que fala abertamente sobre seus namoros e histórias "doidas" com os caras e tudo o mais. Ele reclama que ela "joga verde" para saber se ele é homossexual. E ele diz que não diz, porque não quer dar esse gosto para ela, não quer que ela fique sabendo da vida dele ou algo do tipo.
Em princípio posso pensar como uma operação neurótica do desejo. O dizer mara a possibilidade da dúvida e, como dizia Freud, o neurótico goza com o seu sintoma. Há um gozo, de certa forma, nesse não dizer, nessa omissão. É como o último biscoito do pacote que ainda fica ali, mostrando que está (quase) vazio, mas esse "vazio" de todo não ocorre. A dúvida alimenta essa construção.
Por outro lado não há de creditar tudo isso ao sujeito, isolado de sua cultura, sociedade e história. Pensemos: um hetero não diz que a sua orientação sexual é algo "de intimidade". Um homem que tem desejo sexual por mulheres ou uma mulher que sente desejo sexual por homens (com grandes ressalvas aqui, porque entendo como o machismo opera na hora das mulheres expressarem seu desejo, ainda que com parceiro do sexo oposto) não é algo "íntimo". Seu amigo hetero não vai esconder que ele tem desejo por uma mulher, ainda que existam aqueles tímidos ou os mais reservados que não revelem o seu interesse. Independentemente disso, eles têm uma autorização social para que esse discurso ocorra...o discurso do homossexual não goza desse mesmo atributo, ainda que seja "hoje em dia", embora eu reconheça as pessoas que não têm medo de falar a respeito, como a própria Gancia.
Tem dois caminhos que pensei: por um lado sim, o desejo é de ordem íntima e não sabe forçar os meus conhecidos que mencionei ou quaisquer outros em situação semelhante a apresentarem sua orientação. Por outro lado é estranho essas pessoas terem amigos, ou pessoas com quem dividem o mesmo ambiente e se sentirem agindo dessa forma, gerando essa espécie de roda sem fim. Se eu prezo tanto a minha intimidade assim por que razão eu haveria de me relacionar com amigos com os quais não digo certas coisas, ainda que dividamos os mesmos espaços, troquemos intimidades e convivemos juntos quase todos os dias?
Talvez é para o biscoito permanecer ali, no mesmo lugar. Só que chega um dia que ele estraga...e fede. E não há saia justa que dê conta.
Acertadamente, diz Gancia:
Fora que achei a pergunta preconceituosa, como se "pegasse mal" alguém ser gay hoje em dia.
A diferença é que ainda pega mal sim, ser gay hoje em dia, infelizmente. Por essa razão há questões que ainda permanecem necessárias. E a partir daí penso em duas situações com conhecidos meus, mas que provavelmente muitos já devem ter ouvido.
Um deles reclama que um amigo fica interpelando o tempo todo para saber a sua orientação sexual, para saber se ele gosta de homem. Pergunto a ele: por que você não joga tudo na lata e não diz logo? Ele me responde dizendo que aquela questão é de "foro íntimo", que o tal amigo não merece ter a resposta porque não foi uma pergunta de coração e só fez a pergunta para satisfazer uma curiosidade pessoal e não realmente uma preocupação com o que ele (meu conhecido) sente.
Outro resolveu dividir apartamento com uma amiga que fala abertamente sobre seus namoros e histórias "doidas" com os caras e tudo o mais. Ele reclama que ela "joga verde" para saber se ele é homossexual. E ele diz que não diz, porque não quer dar esse gosto para ela, não quer que ela fique sabendo da vida dele ou algo do tipo.
Em princípio posso pensar como uma operação neurótica do desejo. O dizer mara a possibilidade da dúvida e, como dizia Freud, o neurótico goza com o seu sintoma. Há um gozo, de certa forma, nesse não dizer, nessa omissão. É como o último biscoito do pacote que ainda fica ali, mostrando que está (quase) vazio, mas esse "vazio" de todo não ocorre. A dúvida alimenta essa construção.
Por outro lado não há de creditar tudo isso ao sujeito, isolado de sua cultura, sociedade e história. Pensemos: um hetero não diz que a sua orientação sexual é algo "de intimidade". Um homem que tem desejo sexual por mulheres ou uma mulher que sente desejo sexual por homens (com grandes ressalvas aqui, porque entendo como o machismo opera na hora das mulheres expressarem seu desejo, ainda que com parceiro do sexo oposto) não é algo "íntimo". Seu amigo hetero não vai esconder que ele tem desejo por uma mulher, ainda que existam aqueles tímidos ou os mais reservados que não revelem o seu interesse. Independentemente disso, eles têm uma autorização social para que esse discurso ocorra...o discurso do homossexual não goza desse mesmo atributo, ainda que seja "hoje em dia", embora eu reconheça as pessoas que não têm medo de falar a respeito, como a própria Gancia.
Tem dois caminhos que pensei: por um lado sim, o desejo é de ordem íntima e não sabe forçar os meus conhecidos que mencionei ou quaisquer outros em situação semelhante a apresentarem sua orientação. Por outro lado é estranho essas pessoas terem amigos, ou pessoas com quem dividem o mesmo ambiente e se sentirem agindo dessa forma, gerando essa espécie de roda sem fim. Se eu prezo tanto a minha intimidade assim por que razão eu haveria de me relacionar com amigos com os quais não digo certas coisas, ainda que dividamos os mesmos espaços, troquemos intimidades e convivemos juntos quase todos os dias?
Talvez é para o biscoito permanecer ali, no mesmo lugar. Só que chega um dia que ele estraga...e fede. E não há saia justa que dê conta.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Adesivado
Adesivos! Adesivos! Tome seu caminho pela trilha figurinha-autocolante. Reluzentes todas elas. Que no final da estrada, a casa de espelhos, toda transparente, está tomada por completo por adesivos. Nem macacão de piloto de F-1 conseguiu tamanha proeza.
Mas fique certo de que a palavra são "stickers". E não leve um dicionário. Neste caminho eles não são de bom tom e há de provar pra este universo de que toda palavra estranha é dita com todos os efes e erres. Ainda que elas não signifiquem nada.
A loucura tem algo assim, não é mesmo?
Toque na casa de adesivos. Está mole. Não há mais espelhos, ainda que muitos deles em tinta fluorescente diga "si-mesmo"...Mas no apagar da luz, a tinta fosforecente, mostra outra coisa. Mostra nada.
E nada há dentro da casa. E adesivos se desfazem no ar.
Ali não há casas. Há. São todos com passos de tartaruga. Carregam suas casas também. Suas identidades. Seus adesivos. Para que todos vejam. Mas só os que forem de figurinha repetida. Fora da repetição tudo é um grande mar de tédio e bocejo.
Então era melhor dormir, para ver a realidade. Longe dos campos forjados, adesivados.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Olhar de si
Os existencialistas, a reboque de Nietzsche recusavam a ideia de um "si mesmo", em nome da mudança. Não me lembro do nome do pré-socrático (Parmênides?) que fala do conhecimento como um fluxo que muda, tal como um rio.
Lacan vem com o seu estágio do espelho em que para a emergência do "eu" é paradoxalmente necessário o olhar do Outro. O Outro do inconsciente internalizado em nós mesmos, mostrando onde somos onde não pensamos.
Nas redes sociais, fotos da academia, da viagem, marcações no foursquare, stickers do get glue, instagram e ganham mais significado que o exercício, a viagem, os lugares, os filmes vistos ou a comida saboreada. O prazer é puramente escopofílico. E o olhar do outro aprova esses espelhos tão turvos, já que o real, é indizível.
Enquanto isso, nos esquecemos do que aconselha Riobaldo em Grande Sertão Veredas, que o segredo da viagem é o caminho, e não o seu final. Mas ele era homem do sertão, de grandes distâncias...bem longe desses 2013 sem compartilhamento de ideias em si e só exposições narcisistas na nossa eterna busca de aprovação do olhar dos outros.
Lacan vem com o seu estágio do espelho em que para a emergência do "eu" é paradoxalmente necessário o olhar do Outro. O Outro do inconsciente internalizado em nós mesmos, mostrando onde somos onde não pensamos.
Nas redes sociais, fotos da academia, da viagem, marcações no foursquare, stickers do get glue, instagram e ganham mais significado que o exercício, a viagem, os lugares, os filmes vistos ou a comida saboreada. O prazer é puramente escopofílico. E o olhar do outro aprova esses espelhos tão turvos, já que o real, é indizível.
Enquanto isso, nos esquecemos do que aconselha Riobaldo em Grande Sertão Veredas, que o segredo da viagem é o caminho, e não o seu final. Mas ele era homem do sertão, de grandes distâncias...bem longe desses 2013 sem compartilhamento de ideias em si e só exposições narcisistas na nossa eterna busca de aprovação do olhar dos outros.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Equilíbrios
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| "Deletar, não! Não quero ser tão radical." Luane Dias |
Há exatamente um ano, o Evandro aproveitou que eu passaria a última semana de férias do meio do ano fora de Araruama e me sugeriu: desligue o facebook por uma semana pelo menos e você verá o resultado. Foi uma experiência ótima, apesar de sempre aparecerem as mensagens desesperadas querendo reafirmar o sentido de urgência. Sobre isso a Eliane Brum tem um texto ótimo falando a respeito.
O caso aqui é que agora me bateu aquele senso de Luane Dias ("deletar o facebook não, não quero ser tão radical!") e pensar justamente num clichezão que é clichê por justamente ser ideal: um ponto de equilíbrio entre a existência dentro e fora da internet. Tudo bem que essa divisão para mim não é radical, mas quero pensar exatamente sobre pontos específicos em que essa distinção será necessária.
A última viagem para Curitiba me fez ver bem essas coisas. Pude curtir bem o passeio sem estar conectado 24 horas por dia e tudo o mais, ainda em que em certos momentos eu possa ter compartilhado uma foto aqui ou outra acolá em uma rede. Se eu me sentisse culpado em relação a isso e preconizasse "ah não posso fazer isso de jeito nenhum", aí sim estaria esquisito pois estaria postulando a mim mesmo uma proibição para algo que no fundo não me seria saudável.
Penso por exemplo nas ilusões de Escher do passeio que fiz com Matias e em como o tempo naquela cidade vive mudando. Pude sentir isso e depois ter um ótimo chá. O passeio que refiz 18 anos depois me faz reconectar com o menino que vivia numa época em que o máximo em fotografia era torcer pro filme de 12 poses não queimar (o de 36 era mais caro). Aliás me bateu uma emoção quando vi a mesma farmácia na esquina em frente ao Jardim Botânico na qual comprei o filme quando cheguei em Curitiba em 1994. Ao mesmo tempo é engraçado conviver com mensagens do tipo "onde está você?", como se houvesse uma cobrança para estar a postos. Eliane não está errada.
A pergunta clássica do mesmo Evandro: E como você se sente com isso, Odilon? Ele mesmo notou uma certa intranquilidade minha no regresso. Era como se tudo estivesse misturado ali: a vontade de rever as pessoas, fazer os passeios do jeito que eu quero, contar as novidades, carregar uma mala pesada e tudo isso pra ser vivido no "real" enquanto as "cobranças" do virtual estão ali. É angustiante, pesado até o momento em que paro, penso e digo, como aquele mene do cachorrinho "Qual a necessidade disso?".
O ponto de equilíbrio está justamente em seguí-lo, ainda que ele não esteja em seu perfeito ideal. Explicando melhor e sendo menos abstrato: se estou curtindo o resto de férias na presença de amigos do jeito que eu quero que eu continue fazendo exatamente isso a despeito de qualquer cobrança que possa surgir. Na verdade essas cobranças não são dos outros, mas internamente minhas. E é justo com elas que eu tenho que lidar de uma maneira mais tranquila.
Assim sendo, nessa busca da tranquilidade esse é o caminho necessário para mim conseguir uma melhor tranquilidade e qualidade de vida. Os equilíbrios são ideais? São...Mas que ao menos eu tenha o direito de perseguir o meu equilíbrio ilusório da maneira mais interessante e livre para mim, sem cobranças que possam encher a paciência.
Ps: A escolha de Luane para ilustrar esse texto e aquela foto desta celebridade nascida no virtual com esses óculos espelhados e mostrando em parte os seus olhos não foi à toa.
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