terça-feira, 5 de maio de 2015

Respirar e revidar

Existem vezes em que alguém pode ser atacado em um aspecto extremamente íntimo e delicado. Ou não necessariamente sofrer um ataque, mas sentir as coisas dessa forma. E aí se apresentam algumas possibilidades:

1. Revidar imediatamente

2. Respirar

2.1 Respirar e assumir um comportamento ressentido: tempo mostrará quem tá certo, o que é da pessoa está guardado. Pode esperar, sua hora vai chegar.

2.2 Respirar e partir para uma conversa madura, um diálogo com a pessoa explicando todos os pontos.

2.3 Respirar e fazer algumas perguntas:

2.3.1 Vai fazer diferença?
2.3.2 Por que é necessário fazer isso?
2.3.3 O que se espera da relação em questão?

3. Nenhuma das anteriores

Enfim. A liquidificação tem seus momentos uó, como um grande esquema de auto-ajuda, quando na verdade, a melhor resposta é inexistente.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dance, dance, dance!

Quando pensei no título desse texto, me veio à cabeça o "dance, dance, dance!" do hit "Strike it up" do Black Box. Interessante que me lembro de que no clipe aparecia uma cantora, quando na verdade a voz era da Martha Walsh. Parece que isso foi revelado rapidinho porque na época tinha estourado o escândalo do Milli Vanilli.

Naqueles anos, eu entrando na adolescência, eu comecei aos poucos construindo um gosto musical mais identitário, digamos assim. É diferente da infância quando os gostos parecem mais permeáveis, e eu era aquele tipo que detestava as músicas infantis, em sua maioria. Exceto, talvez, pelo K-7 que eu tinha da "Arca de Noé 2" da BMG/Ariola com as músicas do Vinícius em especial para a Globo.

Lembro-me de meu primo passando férias em casa, ouvindo vários tipos de música, de Sinéad O'Connor à Guns n'Roses que tocava no rádio, passando pelo Bon Jovi. E ele dançava no meio da sala do ap pequeno em que morávamos com uma tremenda flexibilidade. Uma amiga dizia que ele se parecia com uma "minhoca com dor de barriga".

Depois lembro de mim no minúsculo corredor da casa ouvindo cds, que era novidade. Geralmente aos sábados. Era o tempo para dançar de forma desengonçada e ao mesmo tempo cantar as músicas. E como eram em inglês a maioria, torcia para a letra vir no encarte ou apelar para a revista "Letras Traduzidas" da Bizz, que estamos falando de uma época sem internet.

Indo para 2015: hoje eu estava ouvindo o novo CD do grupo francês Jupiter. As músicas me agradaram demais. E cá estava eu, nu, dançando no meio do quarto. E me dei conta da experiência incrível que é isso e como escrevi num poema curto que fiz há uns 17 anos: "dance (...) libertando a emoção que te impede voar".

Incrível porque em 2015 meu espaço é outro, É maior, É privado. Tem espelhos e pude fazer isso sem temer o ridículo. Ao mesmo tempo comecei a reparar mais os meus movimentos, partes do corpo que há tempos não reparava. E percebi que há tempos não dançava assim no quarto.

Hoje faz exatamente um ano que meu pai faleceu. E daí me dei conta de que dançar é uma forma de celebração. E não há razões para esconder isso. Aliás lembro me do jeito debochado que meu pai dançava ao ouvir as músicas que eu colocava, especialmente pelo bate-estaca. E como pude reencontrar de certa forma com uma parte de mim forjada lá atrás e perceber que hoje posso dançar e/ou cantar tanto as músicas que ouvia quando criança (que gosto) como daquele rapaz que via o primo dançando e dali foi construindo o próprio gosto musical. Solto, nu, sem se preocupar com amarras ou vergonhas.

Enfim, descobri o "enlevo, leve" que me permite voar.

sábado, 4 de abril de 2015

Surpresas no sábado de aleluia

Digo que essa semana santa pareceu que eu entrei num estado de suspensão. Não saí de casa, mesmo com dias brilhantes. Creio que para não encontrar a turba que vem para a Região dos Lagos nessa época. Apesar de que não notei em Araruama esse movimento todo.

Essa época coincide com o chamado "inferno astral" que, segundo um amigo astrólogo, na verdade é um momento do Sol transitar pela décima segunda casa. Momento de doação, de entrega, de pensar menos em si e entrar em estado de recolhimento.

Só que aí eu, com meu ego pocotó, resolvi criar mais um blog, mas esse de existência limitada, só para trabalhar de maneira aleatória 37 temas abstratos. De certa forma ali terão palavras que tentarão colocar as coisas que sinto de forma mais profunda. Pretensão, mas é meu jeito.

Aí nessa coisa toda, corro pro Kindle e daí vejo que no meio daquilo tudo tem esse livro:


Não sei como ele foi parar lá. Vi que é um best-seller e tal que fala da indústria de alimentos. Geralmente torço o nariz para livros desse tipo, não pelo tema, mas pela forma que foi escrita e tudo o mais. Mas resolvi dar uma chance e ainda estou nas primeiras páginas. Vamos ver se terei outras reflexões a respeito. 

O fato que esse fim de sábado entrando no domingo de Páscoa será na base desse livre ao som de Whigfeld, que fazia um Eurohouse nos anos 90 que eu torcia o nariz, mas descobri que a moça é boa. 

domingo, 29 de março de 2015

Sobre anjos e espelhos

No Reino dos Espelhos há um novo desafio. O Homem dos Vidros e o Homem das Molduras tinham um novo desafio do Rei: um novo tipo de espelho com uma bela moldura para a nova decoração de um dos palácios.

Parece que neste palácio em especial pessoas passavam por ali. Estavam na maioria das vezes nuas, passando por espelhos rachados, com fissuras. Alguns deles turvos. 

Depois da chegada da estátua de um anjo para a porta principal o Rei dos Espelhos achou que aqueles espelhos e aquelas pessoas não combinavam com o que ele queria para o palácio. Decretou então que ninguém poderia se exibir sem roupas na frente daqueles espelhos. Exceção feita a pouquíssimos escolhidos, que poderiam fazer isso em aposentos especiais sem, no entanto, compartilhar estes espelhos com outras pessoas.

Recebido o desafio, o Homem dos Vidros caprichou. Recuperou aqueles espelhos, só que dessa vez sem rachaduras e sujeiras ou algo do tipo. E ainda assim era o mesmo espelho. Fez tudo com afinco, pois estava disputando com o Homem das Molduras quem receberia o maior pagamento por parte do Rei.

E a tal estátua de anjo? Bem, parece que nos primeiros dias, antes da lua mudar de fase, ela ficou bela na frente do palácio para todos verem. Era uma mostra que o Rei queria em demonstrar o seu bom gosto, que era por vezes criticado por alguns de seus súditos. Só que após a mudança de fase, a estátua voou para a parte de trás do palácio, justamente onde era sempre pichada e maltratada por pessoas que queria deixar sua marca ali. Não adiantava colocar na parte de frente de volta porque à noite ela voltava.

No dia combinado o Homem dos Vidros mostrou seu trabalho. Além da restauração, seu espelho tinha uma capacidade especial de não mostrar mais a parte genital de ninguém, para o caso de alguém vencer a guarda do palácio e cismar em se exibir sem roupas. O Rei aprovou, mas ao que parece, ele deu maior pagamento ao Homem das Molduras, por estar mais encantado com o trabalho deste. Quando perguntado, ele respondeu: 

- Um espelho nunca pode ficar separado de uma moldura, e estas em especial estão lindas". 
- Mas Majestade, esse material da moldura é sabidamente ordinário. O trabalho feito no vidro do espelho é infinitamente superior- um dos Conselheiros o advertia.
- Não importa. O que importa é que quero uma moldura. Vidro, todos eles têm.

E enquanto o Homem dos Espelhos caminhava resignado em busca de trabalho em outros reinos, ele via indo também na mesma direção a estátua que voava. Dizem que ela gostou daquele período divertido, de parecer importante, mas gostava mais do lugar de onde partira antes.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Metalinguagem

Prolixo e confuso do jeito que sou, sempre tenho um texto para falar do blog em si. E do quanto eu poderia escrever mais, e blá blá blá.

Sinto falta de publicar mais aqui. Ano passado, 2014, foram apenas 10 postagens. Coloquei como desculpe a morte do meu pai, no começo de maio daquele ano, para dar um tempo e não escrever mais. Como se isso impedisse de pensar ou até mesmo ter a vontade de escrever.

Eu tenho um caderno com anotações básicas sobre temas que eu poderia pensar melhor a respeito e colocar aqui. Deixei em algum canto e não sei onde ele está agora. De qualquer forma, por incrível que pareça, o que mais tenho falta em escrever é mais que ter as ideias em si, mas na forma como eu posso organizá-las. Meu desejo em ter poder de síntese e bom encadeamento das ideias ainda continua.

Só que de repente sou da escola Freud-Breton da associação livre, do texto solto. Mentira! Posso até ter alguns assim, não sei se já os publiquei alguma vez - ah, me lembrei, já fiz isso sim-, mas no fundo desejo colocar mais coisas por aqui.

O título deste blog também reflete bem esse meu jeito de ser, de ter várias ideias ao mesmo tempo na cabeça. O mais engraçado é que nem sempre me mostro disposto a mostrá-las. E há quem repare nisso.

Por exemplo: lembro-me de uma vez que fui me encontrar com um cara que conheci no site azul. Daí nos vimos e tal e por algum motivo eu só o observava e não dizia muita coisa. Ele me disse que eu tinha cara de ter muitas ideias ao mesmo tempo, pela maneira com que eu o olhava e pela forma de eu falar. Eu dei uma risada, mas até hoje não entendi a razão da presença dele ter me provocado um certo desconforto. E olha que ele era um cara bonito, bom papo e tudo o mais, disse-me o mesmo. Mas como diz a minha queria amiga Biulah: faltou elã.

Espero encontrar de novo esse elã para ser devidamente liquididificado. Eu gosto disso, escrever, desde os meus 3 anos, com as letras de forma na parede de casa, para desespero dos meus pais.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Amanhã

Amanhã o dia vai nascer lindo. A luz do leste vai vir pela janelinha do banheiro e vai direto na parede, toda azul. E nela não terei a menor lembrança do guarda roupas que o escondia. Prateleiras, imagens, fotos...decoração. Uma sensação de que algo ali, naquela luz tem a minha marca.

E amanhã andarei em torno do pedaço da laguna que é quase outra laguna, onde ela quase se fecha. E então pegarei nos próximos dias a minha barriga e vejo que ela diminuirá. E nos outros meses nadarei até onde puder e terei tônus, e terei beleza e terei a vontade de ter prazer ao ver meu corpo nu na fotografia que ainda não tirei.

A nudez de amanhã será no mar. Ou em algum lugar de água doce, algo que tem a ver mais com Oxum. E então me sentirei mais livre, mais próximo do que eu acho natural, ainda que pense que natural não exista. Será natural, Do meu jeito, porém natural.

Terei uma cama grande onde passarei horas e horas com ele. Não existirá pressa, nem vergonha nem a vontade de sair correndo depois de gozar para poder se limpar. Nada disso terá sentido, apenas eu e ele finalmente tendo mais intimidade. Sem desculpas de prazos ou correrias. Sem pensar nas tarefas que precisam ser entregues amanhã.

Quando escreverei mais, Postarei os textos que não escrevi ainda. Onde vou emitir toda opinião. E ainda escreverei um livro, que será aclamado. Que me poderá permitir ser um tanto blasé e escolher para que audiência eu vou falar...

E quando tudo isso cansar, amanhã eu verei mais estrelas do que as que vi ontem e as que não vi hoje.

Amanhã, amanhã, amanhã...

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Diálogos

- Então amiga , passados 20 anos, fulano de tal não mudou nada, né? Tá com a mesma cara.
- Nada. Ele agora é "ex-viado". Casou com mulher, tem dois filhos e é crente fundamentalista homofóbico!!!
- Mas ainda deve falar "pobrema", né não? (#grammarnazi #preconceitolingustico)
- Ih menino, deve ser daqueles que fazem banheirão na Central e sai correndo ofegante porque fez o balancinho na pressa.
- Pois é. Esse assunto a senhora entende bem, né?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Falasser

No ótimo "Diário de um analisando em Paris", vem esse texto:

"Glossário do analisando

"Parlêtre – termo inventado por Lacan a partir de parler (falar) + être (ser) para designar o homem como ser falante; deve ser entendido não somente como o homem é aquele que fala, mas o homem é aquele que é falado, isto é, aquele que é estruturado pela fala; em português: “falasser”."

Diário de um analisando em Paris, p. 187

E eu viajando mais ainda na maionese da associação livre, "falasser" soa como "falácia", a possibilidade de nos enganarmos como sujeitos falantes e falados ou ainda "falecer", o que é a condição final de todos os seres, ainda que o inconsciente se julgue imortal. Ou nas palavras do Sigmund:

"De fato, é impossível imaginar nossa própria morte e, sempre que tentamos fazê-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores. Por isso, a escola psicanalítica pôde aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade
E que engano maior que a imortalidade.

sábado, 15 de março de 2014

No alto (e embaixo também)



I.

O urubu é um bicho feio. No entanto acho o voo dele uma das coisas mais belas de se ver. Adoro perceber quando eles aproveitam a corrente de ar para voar, sem bater as asas e planar. Vai ao sabor do vento, mas sem perder o momento certo de achar os animais mortos.

A vida do urubu não é diferente das outras. Depende da morte de algo.

II.

Sonho com planícies e montanhas. As primeiras me dão uma ideia de vastidão, dos olhos que se perdem em meio a luz do infinito, O horizonte que não tem fim. Me traz uma ideia de visão que se perde, mas com os pés seguros no chão.

Com as montanhas, que na minha adolescência era o meu ideal de lugar, tudo é mais fechado. Os caminhos são mais desafiadores. É cheio de meandros, por vezes é apertado. E num caminho uma pedra pode rolar e levar direto ao chão. Nela não há segurança.

Mas no alto dela a visão é ainda maior e mais impactante que aquela que tenho na praia.

III.

Ás vezes me prendo a certas coisas. A certas emoções ou ao represamento delas. E me acho seguro, como na planície e fecho os olhos para o horizonte. É nele também que posso subir as árduas montanhas. O mais importante não é chegar no cume, mas o caminho por onde se passa. O cume pode ser visto como um bônus, depois de tantas maravilhas, ainda que seja o norte dessa caminhada.

Ou às vezes fazer como os urubus e planar com o vento. E para dar vida a uma emoção, há algo que também precisa morrer.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Cruzeiro - Dia 2


Neste dia estávamos em alto mar, na véspera da chegada em Ilhéus. E a ótima sensação de ter dormido pela primeira vez em um navio. Sensação essa que, guardadas as devidas proporções, me lembrou o balanço da rede.

Ao rever os meus relatos, talvez seja o dia com menor número de acontecimentos. Isso quantitativamente.

Neste dia havia muita gente na hora do almoço, até que eu e Oz tivemos a sorte de encontrar um casal que resolveu dividir a mesa deles conosco. Carla e o Marido (nesse dia tenho que me referir a ele assim).

Eles vieram de Porto Alegre e assim como nós tinham comprados as passagens pela internet. Falamos muito de praias e ela citava uma praia em que ela tinha casa em algum ponto do litoral gaúcho. Enfim, eles eram beeeeeeeem diferentes do casal do jantar da noite anterior. E uma pergunta ficava no ar: por que diabos um gaúcho estava usando uma camisa do Fluminense?

Resposta no dia 3

Além disso foi o dia que o cover do meu amigo puxou papo com a gente no bar e daí descobrimos que ele era policial no Rio. Sua família, também de policiais, era da minha região. Engraçado que ele estava no bar e bebia vagarosamente, enquanto meu amigo fumava. E a tia do policial se divertindo em algum ponto do navio, porque não a vimos.

E falando em bar, foi nesse dia que eu descobri o rum "Captain Morgan". Além de ser uma delícia, passei no Free Shop e comprei uma garrafa #classemediacachaceiranaosofre E decidi que só vou abrir a garrafa no dia 27 de abril, meu aniversário.

Esse foi o dia em que só me ferrei naquelas máquinas caça-niqueis do cassino. O que me restou por um momento foi beber um drink chamado Tornado, enquanto o pessoal do pagode ruim do embarque tentava se enturmar com mineiros atleticanos...aliás era época da final do Mundial Interclubes.

E a noite foi feita na base do "tráfico" de Dramin. Eu explico: meu amigo encontrou na parte externa do navio um rapaz vomitando (para o mar). Foi aí que ele (o amigo) ofereceu dramin para o rapaz. Aliás eu e ele para nos prevenirmos, tomávamos um dramin ao acordar e outro antes da janta. E no meu caso o combo Dramin/Engov.