domingo, 5 de fevereiro de 2017

Sobre a imaginação

Um exercício que me foi proposto uma vez foi fazer um texto com todas as coisas que estivessem na minha cabeça. Sem censura, numa espécie de fluxo. O objetivo era explicar mais ou menos o que a psicanálise queria dizer com a associação livre. Adorei fazer este exercício.

Estes dias, pensando muito em questões existenciais me deparei com a minha própria capacidade de imaginar coisas. Um exercício pessoal que faço desde sempre é fechar os olhos quando ouço uma música. Ela me transporta para lugares e situações como se fossem um sonho, sem que eu tenha um controle sobre o que está acontecendo em cena. E fazia muito tempo que eu não fazia isso e achei que tivesse perdido essa capacidade. Ledo engano.

Uma das coisas boas em que senti efeito imediato foi a redução da minha ansiedade e uma noite de sono tranquila. Ainda mais considerando que em uma dessas vezes eu estava dormindo fora da minha casa e eu costumo dormir pouco fora dela. Durmo tarde e acordo muito cedo, porque me causa estranheza.

Talvez esse escape trazido pela imaginação, por mais que as imagens sejam, em tese, sem controle, me fazem estar comigo mesmo sem a interferência externa. Ou ao menos ela é atenuada. E de fato, estar com partes de mim, ainda que aparentemente desconhecidas, é estar em casa. Faz sentido.

Termino esse texto com essa música da Rita Lee e lembrando da dra Nise da Silveira, que viu a associação livre e a imaginação de seus pacientes não como um sinal de que era algo apenas patológico, mas algo com uma força criativa, artística, muito grande.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Faixa Amarela


Essa semana foi uma discussão sobre limites. Meu e de quem está comigo. E para isso me lembrei da metáfora da faixa amarela dita por um ex-amigo (existe essa expressão?) quando ele começou seu relacionamento atual.

A situação é esse ex vivia sozinho e a partir de um certo momento, na medida em que o relacionamento dele foi ficando mais firme e o namorado indo sempre na casa dele, ele disse que havia uma faixa amarela, um limite a ser respeitado para que ele não se sentisse invadido e tivesse sua liberdade preservada. Tal como a faixa amarela do metrô.

Essa semana quem se deparou com tal metáfora fui eu, mas de uma forma diferente. No caso tive que lidar com um sutil pedido de "tem como você ir hoje ao invés de ir na sexta". E isso foi algo que me desmontou.

Estranha a sensação de ser "convidado a se retirar", como diziam nos colégios quando um aluno estava pra ser expulso. Por um lado, há uma parte de mim que respeita a tal ideia da faixa amarela, entendimento da privacidade do outro e tal. Por outro tem o ego machucado diante de um pedido desse, nunca escutado em quase 40 anos de vida.

Faixa amarela fala dos limites entre "eu" e o "outro". E no meu caso fala de ego também. A sensação: "Porra Didi, olha a merda que você tá fazendo não respeitando o outro!". Algo que realmente deixa pra baixo.

O que acontece é que diante dessa situação triste, muita coisa foi colocada pra fora. Minha e dele. Fraquezas, sentimentos, o que sentimos um pelo outro e tudo o mais. E a situação foi resolvida, apesar de que um certo incômodo ainda com o que aconteceu me motiva a escrever esse texto. Mal de pessoas rancorosas, como é meu caso.

E talvez a faixa que seja mais difícil de ser quebrada não é essa da privacidade material, do meu espaço, do espaço do outro tudo mais. São aquelas que escondem sentimentos, manias, esquisitices e tantas outras coisas que estão ali no nosso lado emocional e que tanto escondemos. Coisas que sempre preferimos deixar, sem atenção, no vão entre o trem e a plataforma.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Ainda sobre ter e ser


Ainda no tema da última postagem sobre o “quem eu sou”, talvez a grande pergunta motivadora da existência, estava imaginando: como deve ser minha casa? Que coisas eu gostaria de ter nela?

Olho para o meu quarto e vejo que ainda existem coisas que são da época em que morava na capital. Objetos que estão ali por uma certa necessidade, pois sei que ao me desfazer de alguns deles, terei que substituir por outros, o que inclui gastos. Talvez esteja aí um pouco da minha resistência em não ter me livrado de alguns deles.

Ontem o Fábio me lembrou da afirmativa taurina: “sou o que eu tenho”. Sei que há textos que criticam a questão do ter em detrimento do ser na nossa sociedade. Até eu mesmo já fiz o texto sobre isso em algum momento. Mas hoje resolvi pensar nisso com mais profundidade e ir além da oposição simples entre os dois verbos.

Ao longo da vida vamos dando valor ao que gostamos, ou ao que nos serve de alguma forma. Aparentemente é assim. E nesse sentido aquilo que temos reflete de alguma forma o que somos, pois investimos algo de nós ali.

Daí penso no armário gigante (que metáfora! Armário) no quarto. Ele não é algo que desejei. Mas se eu não o desejei por que motivo ele ainda permanece lá?

Livrar-se dele vai implicar movimento, gasto de energia e de dinheiro. Vai ser uma ruptura que mexe com um certo conforto e comodismo. Agora, extrapolando para além dos objetos, o que será que todos nós temos guardado, ou mantido, por puro comodismo? Penso em relações amorosa, empregos, hábitos ou até mesmo o mesmo sanduíche que se pede sempre numa rede de fast food.

Perceber o que temos e o que não queremos pode fazer parte dessa jornada da tal grande pergunta motivadora: quem sou eu? Tentar responder parte dessa pergunta – que para mim é incompleta- vai mexer com desejos escondidos, com coisas que me forçarão a fazer mudanças porque aquilo é incômodo.

Nesse sentido, mais que uma mera oposição “ter x ser”, esses dois verbos podem estar ligados de uma outra maneira. O que temos pode significar parte de quem somos. Por outro lado, pode ser também parte daquilo que escondemos, pois “não ter” uma determinada coisa implicará em uma mudança que, ainda que dolorosa em alguns casos, pode revelar mais coisas do “quem sou eu”, que ainda estão escondidas.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Eu

Eu costumava usar uma frase da Clarice na minha descrição no Orkut. Eu, metido à literato, peguei um trecho grande de "A Hora da Estrela" que tem uma pegada bem existencial, que diz: 


Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto."

Sempre me incomodou dar uma resposta pronta pro "quem sou eu". Fico meio Caetano naquela clássica entrevista do fim dos anos 70 "eu não sei quem eu sou, eu não estou certo de quem eu sou"



 Daí por conta de uma postagem da Letícia, resolvi ler "A Mágica da Arrumação". Logo eu todo empolado pensando nos existencialistas lendo um livro de auto-ajuda de arrumação da casa. Mas vamos que vamos, porque confio na Letícia, ainda que não tenha sido uma indicação dela e sim o compartilhar da experiência dela com refletindo com esse livro.

Enfim, estou numa fase de terminar obra em casa, fazer um novo quarto e pensando: que cara ele vai ter. No livro, Kondo fala sobre um espaço seu, que tenha as suas características, ao invés de algo pronto como num manual de instruções. E antes da arrumação tem duas perguntas-chave: o que eu quero e o que me alegra?

Sempre achei que tivesse dificuldade em colocar pra fora o que eu quero, o que me fascina. Mas hoje percebi que não e bastou me lembrar de um pequeno detalhe depois de um encontro feliz.

Estive com o Célio na Zona Leste de São Paulo em Outubro deste ano e foi um dia muito agradável, ainda que por poucas horas. Afinal estava conhecendo alguém que até então só falava pela internet há 8 anos e tinha uma imagem x e ao conhecê-lo pude lê-lo para além dela e isso me fez muito bem. A imagem dele pra mim expandiu, ampliou.

Ao voltar pra casa do amigo que me hospedou por aqueles dias, vi a imagem do "skyline" daquela região ao passar pela passarela que dá acesso ao metrô Belém e aquilo me fez feliz.

Daí quando pensei: que caracteríticas poderia ter o meu espaço o meu canto, pensando em um fato que aconteceu, paradoxalmente, fora da minha casa?

Pensei que boa parte do que revela de mim já está presente: amo ler e escrever. E ouvir. É isso que tenho feito durante esse tempo. E gosto de ver também Daí pensei no quanto me faz feliz ouvir música, sair para passear, tirar fotos e especialmente, poder ver além da minha própria casa. Observar que há um horizonte maior e novo, como aquele que vi no dia que me encontrei com Célio. E que um lugar que tivesse a minha cara seria aquele que valorizasse essas características: excelente pra ler, pra ouvir música pra poder ir além. E na minha "arrumação" interna, direcionar a minha vida para coisas que me levem além do lugar em que eu estou e poder voltar pra ele, mas renovado, diferente, juntando o que é novo, ao que já estava ali o tempo todo.

E talvez sejamos isso mesmo. Penso sempre como somos fragmentados e entre esses fragmentos juntam-se coisas que já temos e vemos, as que temos e não percebemos e aquelas que são como novidades. E isso comigo tem que ser em movimento, é processo. Por essa razão me faz tão bem viajar de ônibus, ainda que numa viagem curta como de Araruama pro Rio, porque cada paisagem e movimento me faz me sentir bem, pensar sobre a minha vida, ter minhas epifanias. Aliás eu me lembro que há 20 anos atrás, no trajeto Humaitá-Glória, ao passar em frente à Praça Cuatemóque no Flamengo que decidi o que eu iria fazer.

Assim, continuo com Caetano, mas a pergunta quem eu sou não me causará, espero, tanta angústica comona Macabeia (ou não) e nem terei que pensá-la como naquele roteito de redação "que sou eu" que o professor deu na quinta série (era a pior aula com a coisa que mais amo, escrever).

domingo, 20 de novembro de 2016

Steven e a bolha



Passei os últimos dias fazendo uma maratona de Steven Universo. Já tinha visto alguns episódios, mas daí resolvi encerrar o fim de semana com a terceira temporada em dias. E creio que são episódios que rendem muitos textos.

No meu estado atual penso muito na Garnet e na capacidade que ela tem de prever o futuro baseado em possibilidades. Esses dias têm sido um turbilhão pra mim em termos de decisões a serem tomadas e sei que parece que estou naquele ponto que o que eu decidir agora há de ter consequências para o resto da minha vida a partir daqui.

E no último episódio lá está Steven no vácuo, após sair da Lua, protegido por uma bolha, discutindo com uma raivosa Rubi. Tem uns paradoxos interessantes ali, entre o estar protegido e ao mesmo tempo no meio do nada, simbolizando muito a própria condição do ser. E quando estou em situações assim, decisivas, por vezes me sinto sozinho, sem apoio e tendo que lidar comigo mesmo, como em uma bolha. E com isso vem a raiva. Ora externa, ora interna.

Aliás o diálogo entre Steven e a Rubi - que pode parecer a raiva mais primitiva nossa- me parece interessante porque por uns momentos ela quer encontrar Rose Quartzo. Para destruí-la ou para estar cara a cara com ela como forma de admiração. E é bem isso que a raiva faz com minha auto estima: a capacidade de reconhecer meus aspectos positivos, o que carrego de herança e por vezes uma vontade de simplesmente de que nada daquilo exista. E muito do conflito de Steven ali se deve a uma ética do menino em não querer destruir nenhuma Cristal Gem,

É o caso a se pensar: que Cristal Gem carrego e que por vezes parece ser tão difícil de destruir por um compromisso comigo mesmo?

No fim, na resolução mostra que é possível não aniquilar a raiva, mas colocá-la longe. Para um fim de temporada me pareceu ótimo por mostrar o amadurecimento, um ponto para a próxima fase, novas possibilidades, como bem mencionou Garnet sobre suas previsões.

E como disse a própria Rose Quartzo pro Greg: o bom de ser humano é a possibilidade de mudança. Diferente de uma Gem.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Preto e Gordo

A minha década pessoal de 30 tem me feito aprofundar em uma série de questões sobre identidade e também de que maneira eu percebo os outros, bem como a mim mesmo. Na verdade penso que sempre fiz isso, só que na medida em que vamos envelhecendo, novos fatos ou novas maneiras de observarmos determinadas coisas vão aparecendo.

E uma dessas várias questões identitárias que me tem aparecido tem respeito com a minha própria negritude. Aliás isso me lembra até uma enquete que vi na página Preto Gay do Facebook, em que se perguntava em qual dessas ditas minorias a pessoa mais se identificava e houve diversas respostas. Todas muito interessante, porque me fizeram observar outras vivências que tinham vários pontos em comum com os meus. E da minha parte tenho observado como uma "velha novidade" pensar a minha negritude. Velha porque é um tema que nunca deixei de pensar. Novidade porque penso que tenho aprofundado mais essas questões comigo mesmo.

Cito aqui como um ótimo exemplo de quanta coisa legal e bem escrita o blog "Preto e Gordo", do Túllio. Há tempos estou para escrever sobre algumas reflexões que tive ao lê-lo. Mas o texto dele é tão bem escrito que fala por si só. Cabe apenas a mim aqui compartilhas algumas impressões que tive com a leitura e outras com a minha própria vida.

Entre tantos pontos que merecem destaque ali é a maneira com ele coloca de que como certos temas que são vistos por pessoas não pretas como "diferente" ou até mesmo "revolucionário" pode parecer diferente para nós. E aí pensei em dois outros exemplos, além dos que ele já menciona, especialmente nesse texto , no qual ele relaciona a questão do amor livre e a bicha preta.

Certo diz li em uma discussão um militante branco LGBT fazer uma crítica a um casal de dois homens pretos estadunidenses que tinham uma filha e postavam a foto deles o tempo todo no Instagram. Ele fez a crítica no sentido que aquele era um modelo heteronormativo propaganda de margarina. Em princípio concordei, mas precisei refletir mais um pouco a respeito.

Minha mãe conversava comigo por exemplo o quanto é comum após a sua viuvez as pessoas perguntarem por quantos anos ela "morou junto" com meu pai, lembrando que ela é preta e ele tinha passabilidade branca.  Ela comentava que é comum falarem esse "morar junto" porque muitos julgam improvável uma mulher preta ser casada tanto no civil como no religioso. E o quanto as pessoas se assustam por exemplo quando surge naturalmente em uma conversa lembranças do casamento dela, o preparativo do vestido de noiva, o padre que fez a celebração e tudo o mais. E daí ela me disse o seguinte "há mulheres brancas que consideram revolucionário o fato de não seguir as normas estabelecidas do casamento. Mas para a mulher preta, como sua bisavó, casada três vezes, morar junto era a norma. Então tem que ser observado que mulher está falando". E daí pude compreender melhor muitas dessas e outras questões que são colocadas por feministas negras.

E daí fazendo a ligação entre esse relato da minha mãe, o texto do Túllio e o discurso do ativista pude pensar da seguinte maneira: pessoas brancas possuem dentro da nossa sociedade a opção de escolher o modelo que ela deseja, quando comparado com pessoas pretas. E sendo assim, não há uma propaganda de margarina com uma família preta. Então um casal de homens pretos cuidando de uma filha está longe de ser o modelo heteronormativo branco da propaganda da margarina. Aliás nesse sentido, o ator Érico Brás faz um ótimo trabalho ironizando o racismo em nossa publicidade aqui.

Não quero dizer contudo que não existam outras formas de opressão, mas acho que o recorte étnico-racial que observo a partir de questões tanto da minha vivência como de outras pessoas tem contribuído muito para também me fortalecer no que diz respeito a minha auto-estima e também às minhas emoções.

Pensar mais a minha negritude e as vivências de outras pessoas pretas tem sido fundamental nessa jornada não só de reforço ou de valorização da própria identidade, mas também como uma troca excelente de experiências para lidar com a coletividade, já que eu não penso que o racismo não será vencido apenas por ações individuais e pontuais.

Bilingual, 20 anos

Um dos meus álbuns favoritos. Bilingual, dos Pet Shop Boys foi lançado há 20 anos, em 2 de setembro de 1996. Até fui dar uma conferida na página oficial deles no facebook, mas não tinha nenhuma informação sobre essa efeméride.

Fiquei pensando que grandes álbuns por vezes tem significado extremamente subjetivo. E pensar em Bilingual é me fazer voltar aos 18 anos e o que as músicas dele têm significado para mim desde então.

Sei que assim que soube eu fui comprá-lo. Achei a capa interessante, pois assim como eles fizeram em Very três anos antes, era possível fazer uma capa criativa em CD, coisa que os defensores dos LPs sempre reclamavam.

Eu tinha alguma coisa para fazer na casa de um amigo, mas não via a hora para chegar em casa e poder ouví-lo. Mas como a irmã dele era fã dos PSB acabamos escutando o álbum lá mesmo e pela primeira vez eu via um encarte com as letras e ali eu ia acompanhando.

Havia duas músicas que eu já conhecia, pois já havia clipes para elas: "Se a vida é" e "Before". A primeira com batuques e sendo uma versão de música gravada pelo Olodum rendeu críticas preconceituosas na imprensa local dizendo que os PSB tinham "dançado na boquinha da garrafa". É aquilo, onde já se viu usar música feita por gente preta da Bahia? Nosso país jurando que não é racista.

E aí eu me lembro que a música que mais me marcou de forma imediata foi "Metamorphosis" e por razões claras. Naquele ano, com 18 anos, foi quando parei para pensar e admitir a minha própria homossexualdade.

Naquela época também me lembro de ir às festas do Maxims no alto da torre do Rio Sul. Já tinha 18 anos e poderia ir aos aniversários das meninas que nem tinham tanto contato comigo assim. Mas aquele ambiente me deixava deslocado de certa forma. E daí ia pro lado de fora, onde havia o fumódromo, creio eu e ficava olhando o Pão-de-Açúcar e o Corcovado e na minha mente vinha "It always comes as a surprise" com sample de Corcovado de Stan Getz e João Gilberto e foi a partir dali que comecei a prestar mais atenção na bossa-nova.

Aliás é um álbum com grande influência latina, até porque eles tinham passado pelo Brasil dois anos antes. E fui no show no antigo Metropolitan em 1994 e isso renderia outro texto. E no fim daquele ano estaríamos dançando Ricky Martin no baile de formatura e depois viria a onda latina. Segundo dados, eles usaram a música latina como reação ao Britpop da época. E daí também a razão do so do nome: Bilingual.

O interessante é que o que me faz gostar deste álbum não é só a relação nostálgica que traz no momento em que ouvi pela primeira vez. É o fato de ouví-lo até hoje e sempre vendo as conexões que ele faz pensar em "Step Aside" nos momentos de crise economica, de vencer a timidez quando penso em "If you see someone gorgeous then you think, Am I in, with a chance, should I try, buy a drink?" de Saturday Night Forever, de quando viajei para outro país e me senti "Single, bilingual" ou ainda ver o leão na Praça Trafalgar e pensar em "Back to Trafalgar one kiss, then I'll go" de Up Against It com a participação maravilhosa do Johnny Maar. Enfim ao longo desses vinte anos esse álbum tem me dito muita coisa.

Um hábito que mantenho desde então é pular "Se a Vida é" - tenho implicância com a direção do Bruce Weber, com rapazes jovens demais, magros demais, numa estética gay muito "asséptica" na qual eu nunca me senti representado ou, ainda que eu não me visse ali, não tinha também nada a me dizer. Mas a música é bonita sim e esses dias tenho escutado todas as músicas sem pular. O mesmo com Electricity, que acho chatinha, apesar da ótima ironia presente na letra.

Enfim, o que eu ouvia em CD (que deve estar guardado em alguma gaveta de casa) agora se faz pelo Spotify. Se eu estiver vivo aos 58 anos, veremos em que midia e que sensações eu terei ainda com essa obra.






Impichimã

Política é, sem sombra de dúvidas, um dos meus assuntos favoritos. Só creio que não tenho comentado nada sobre o assunto aqui e também tenho me preservado ao ler sobre o tema nas redes sociais. Não que eu as considere irrelevantes, mas tenho consciência de que política é mais que a pessoa no principal cargo do Executivo e uma série de textões.

Eu tenho lido muita coisa que é dita, seja por órgãos oficiais ou pela chamada mídia alternativa. Não tenho paciência é para aqueles blogs reaças ou chapa-branca, porque aí é puxado.

Poderia elencar uma série de coisas. E esse texto aqui serve, talvez, para satisfazer um desejo neurótico meu de ter que mencionar algo sobre o assunto (a neurose detesta o vazio). E das coisas que penso serei bem simplista: temos um sistema político cagado- na verdade ele é feito pra beneficiar os poderosos-, no qual se quem está no poder tem que fazer aliança com o PMDB, a verdadeira geleia geral do Brasil. E a questão é mais além do "brasileiro não sabe votar", se não prestarmos a atenção como se dá o financiamento de campanha, o uso das máquina governamental, os acordos, o dinheiro do grande capital, a nossa cultura política, o fato de sermos um país em que passamos 300 anos sob a chibata de forma oficializada e mais outros 100 de forma (não muito) disfarçada.

Reconheço muito os avanços na área social que vieram na era Lula-Dilma, especialmente quando ouço o que me dizem meus familiares lá no sertão cearense. E sei que para outros setores colocados a margem, a barra continua sendo pesada. E creio que com o que vem por aí será bem pior.

Li uma frase que pode parecer simplista, que diz que "com impeachment ou sem impeachment" o povo continuará se ferrando. De certa forma concordo com ela, mas penso que o que está ruim, pode ficar ainda pior. Ao invés das alianças dos governos anteriores com o grande capital, agora esses poderosos poderão ditar as cartas sem disfarce. E tome aí: perda dos direitos trabalhistas, reforma de previdência, terceirização e tudo o mais.

E que venham os protestos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Medo de escrever

Sempre gostei de escrever. Há 35 anos faço isso.

De uns tempos pra cá não tenho gostado do que escrevo. Parece que com o tempo parece que meus textos têm dois caminhos: ou parecem muito rasos ou herméticos, sem sentido até para mim. E talvez isso tenha me frustrado. Esse blog é uma prova disso.

Ás vezes me pego pensando, ou como dizia um behaviorista, na fala sem voz comigo mesmo e gosto do que sai. E aí vai pro papel (ou pra tela) e parece que algo ali se perdeu. Ficou resumido demais, palavras poucas demais e, pior, poucas ideias.

Em parte devo isso a uma certa postura que tive de uns tempos pra cá em meio a essa avalanche de ego nas redes sociais. Tenho preferido observar e compartilhar mais bobagens e as minhas fotos (que para mim não são bobagens) e assim ir evitando a fadiga.

Jung -sim, ele mesmo, não o Freud- disse que a psicanálise deveria ser a análise do introvertido. Por ela se basear na fala e na associação livre faz com que ele se pronuncie. E na minha época de análise não foi diferente. Disse à analista que pretendia escrever livros, mas que tinha lido que para escrever  eu precisaria ler mais. Ela discordou e disse que isso não era necessário.

E agora me pego nessa onda rogeriana que diz que quando prestamos atenção ao outro, fazemos uma modificação em nós mesmos. E aí está esse embate: a introversão para evitar a fadiga e poder se permitir ao outro ou expor, falar, ou como diz aquele meme: colocar a cara no sol?

Queria textos estruturados, com boas ideias e principalmente, não tão grandes. E talvez o passo na afirmação de quem sou, sem descartar essa transformação que o outro causa, é justamente poder afirmar isso. E tá aqui o liquidificador. Ele é esse espaço.

E vem o jogo, poder observar, aprender com aquilo que é externo a mim. E a partir desse aprendizado,  o que pode ser dito. Porque posso ficar completamente calado e aí não aprender nada. Fico parecido com um amigo que, diante das discordâncias, diz que prefere ficar calado e é uma pessoa extremamente fechada com grande dificuldade em lidar com emoções que vem dos outros, além de uma cabecinha conservadora pra muita coisa.

Enfim cá estou. Com o texto exposto. Com a cara do Sol. Mas um sol de fim de tarde, trazendo belas cores, mas mostando que aquele momento é efêmero e que logo logo vem a noite para cobrir tudo. Uma bela metáfora da vida que traduzi em muitas fotos minhas e que cá aparece na hora de refletir sobre esse meu medo de escrever.

Que tenha luz, que tenha sombra, que tenha escuridão!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Da auto crítica à gratidão

In my waking life, in the waking life
In the painful now, in the painful now
I wish for such a visit in the light of day
The light of the truth
I wish for such a visit, I need to know
In the light of day, I need to know
( Andy Butler, Roberto Gallegos, Answers come in dreams )


Por vezes existem coisas que nos incomodam e não sabemos bem explicar sua razão. Comigo não é diferente e daí percebi que essa semana meu comportamento estava estranho: exagerado e por vezes agressivo. E tem-se aí uma forte manifestação do eu.

Eu que ultimamente tenho evitado paju em redes resolvi criticar um amigo meu. Depois me dei conta que, por mais que do ponto de vista racional, eu estivesse com argumentos racionais a favor, fui de certa maneira agressivo com ele. E ainda essa semana, no twitter, um conhecido resolveu questionar uma postagem minha e lá fui eu dar uma patada arrogante no moço de cara. No momento, por mais que eu soubesse que o importante era justamente me ater as ideias, fui movido mais pelo ego e a necessidade de "sair vencedor". Enfim, uma babaquice.

Aí há duas formas do eu se manifestar. No momento em que fui arrumar cotenda, foi uma maneira de me mostrar "olha como sou maravilhoso e sei das coisas". Nesse momento passo a criticar tudo e a todos a minha volta, eu certo, eles errados. E depois, no momento de auto crítica, o ego tb fica tentado a se punir , de querer se isolar diante de um comportamento percebido como errado. Esses dois comportamentos são duas faces de uma mesma moeda: o impedimento do que vem do outro.

Então, como diz a música: respostas vêm nos sonhos. Essa noite sonhei que estava na praia e de repente era a varanda da minha casa. Meu pai conversava comigo e me avisava que um amigo meu muito querido estava chegando. Ele estava lindo, com um chapéu na cabeça e me avisava sobre o encontro que teríamos com outros amigos no fim de semana. E aí meu celular com várias mensagens de supostos peguetes querendo sexo naquele fim de semana e eu no dilema entre ter que dar atenção pr'os meus amigos ou ir pra gandaia. Até por um momento cogitei pro meu pai fazer sala pra eles, enquanto respondia as mensagens. Então decido que ficarei com eles, conversando, trocando ideias.

Não cabe aqui uma ideia moralista do tipo "sexo é ruim, valorize as amizades". Os dois são ótimo. Porém no contexto do sonho o sexo simbolizava exatamente esse investimento no eu, que por muitas vezes pra se defender é agressivo. E penso que negligenciar (a si e ao outro) é uma forma de violência, negligência essa que aparece nos amigos que chegam e eu querendo sair. A minha decisão ali simboliza uma outra medida, para além das tais duas faces anteriormente mencionadas: se permitir às ideias dos outros e ao mesmo tempo me expor, sem me isolar deles.

Então me lembrei da gratidão. Agradeci às pessoas que de alguma forma tiveram contato comigo esses dias e a agressividade foi percebida, entendida e arrefecida. E me senti bem melhor. Não por um capricho do eu, até porque essa não é uma decisão fácil pra um narcisista, mas por saber que outras formas de se relacionar com si e com os outros também é possível.

Não sou lá fã dessa coisa cirandeira "mais amor por favor", mas bem sei que se bem colocado, ele, junto com tantos outros sentimentos, pode sim trazer mudanças importantes. Ainda que as respostas dele precisem ser decifradas pela interpretação de respostas oníricas.