quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Mano Brown



Segunda-feira fui zapear a TV e parei na TV Cultura. Programa "Roda Viva" com Mano Brown dos Racionais MC. Minha informação sobre o rapaz era rala: só conheço "diário de um detento" - uma das letras mais fodas feitas nestas terras- o comentário do Juba por considerá-los inversamente racistas e machistas e a cara de mau do Mano.

Na referida "roda" estavam aqueles jornalistas chatos de revistas musicais igualmente chatas. Aliás concordo e estendo a opinião de Paulo Lins, autor de "Cidade de Deus", ao afirmar que crítica literária é a mais difícil porque a cinematográfica qualquer um faz. Eu diria que o mesmo serve para a musical, qualquer pessoa que mal usa a notocorda é capaz de fazer isso, difícil é achar alguém para fazê-las bem feito.

Aliás, Lins estava na platéia com uma Maria Rita Kehl, psicanalista e mais aquele tiozinho com o look 70's jornalista da Cultura Renato Lombardi...

Fazendo a linha Nelson Rubens "ok ok"...a entrevista poderia ter sido melhor, pois como o próprio Brown sugeriu, eles estavam com medo de partir pro ataque diante de tantas incoerências do rapper. Eis aqui alguns ponto da entrevista que me chamaram a atenção.

1) A compação entre comerciante e traficante. Por um lado diz que o traficante é só um comerciante e que os bandidos são os donos da 51 e da Ambev, mas que não são presos por não serem negros da periferia. Então, Mano, seriam duas punições diferentes ou uma só para os referidos "comerciantes"? Faltou provocação.

2) A pergunta da psicanalista sobre MST em que tanto ela quanto Brown pareciam estar perdidos no tempo e no espaço sobre o movimento. Ok, Mano não tem a obrigação de militar em prol do MST só por ser "rapper da periferia".

3) Gostei da firmeza dele em defender o Lula e o PT e até mesmo a ex-prefeita, agora ministra do "relaxa e goza", coisa que a classe "intelectual" escamoteia ou ataca a dita direita como forma de fugir do assunto. Sendo que no fundo ele tratou Lula como bandido, uma vez que ao afirmar que o presidente não entregaria os amigos, me lembra um membro de uma quadrilha que foi preso e que nao deve entregar seus companheiros de crime. De qualquer forma, Dona Marilena Chauí e cia deveriam aprender com ele.

Em meio a tantas contradiições que o próprio Mano assumiu em tê-las ao comentar sobre a Nike, por exemplo, o que o programa revelou, apesar de ter sido morno demais, foi o fato de que o líder dos Racionais mostou um lado humano muito interessante. Humano entenda-se como cheio de contradições, imperfeições e o mais importante, o fato do próprio não querer ser exemplo nem modelo de discurso para ninguém. Como o próprio afirmou sua arte não é para ser professoral, mas sim, companheira. Pontos para o rapper, zero para os jornalistas (e psicanalistas) bundões, mais preocupados com imagens, discursos prontos, camisetas do Tim Maia e piercings do que de fato colocar um pouco de "rock 'n roll" na entrevista com um ícone do rap nacional.

Para quem quiser conferí-la na íntegra, clique aqui.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Menina pastora e existencialismo made in Gloria

Acabei de ver e ouvir o tal funk da Menina Pastora. Sinceramente, não entendi essa celeuma toda em cima do video. É engraçadinho, mas não é "oh" lá essas coisas. Será que estou ficando velho e chato?

O video de Cris Nicolotti com seu famoso "vai tomar no cu" é deveras mais interessante apesar de ter perdido a graça por conta do tempo. O mesmo vai acontecer com o funk da menina e tantas bobagens do you tube que irão aparecer, se é que o you tube também não vai sumir na fumaça. Só não sei daqui a quantos segundos.

Cultura chiclete, mascamos o doce, percebemos depois a borracha que é e jogamos fora. Tudo é pra ontem, rápido, acelerado como esses sucessos dentro e fora da internet. A fama dura menos de 15 minutos. Claro, o gozo não é etermo. Melhor mesmo se jogar na rapidez das coisas e do próprio gozo e evitar ao máximo, nesse mundo hedonista, a chegada do desprazer. Por isso o ecstasy é a droga-metáfora perfeita dos tempos atuais. E na falta dela, vamos todos esperar pelo próximo link nessa nossa eterna (e ridícula) maneira de disfarçar ou escamotear a maior certeza de todas: a morte.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Viés

O tempo entre o último post e esse pode ser caracterizado sob vários pontos de vista. Pode ser do ponto de mais uma viagem para Sampa que foi maravilhosa em outros tantos pontos de vista – sim, isso está virando um hipertexto – no qual não só foi legal pelo lado afetivo-sexual, mas também uma fase intensa de separar o joio do trigo. De desfazer alguns mitos do passado – talvez tenha sido essa a maior e melhor contribuição desta viagem e bem como poder estar ao lado de quem vale a pena de verdade, no quesito amizades. Aliás sobre isso eu recomendo uma olhada no texto do blog do Juba, que sintetiza essa idéia da frase anterior.

Pode ser do ponto de vista de alguém— eu no caso – que gosta de se colocar no alto de um pedestal no qual observo tudo e a todos e digo coisas, palpito, etc. Claro que faço isso quando a pessoa me pede para fazer isso. E daí neste mesmo pedestal odeio quando “simples mortais” vêm querendo saber detalhes da minha vida ou dar palpites sobre certo ou errado quando eu não pedi consulta ou algo do tipo para tanto. Diz um amigo meu que é coisa da lua em capricórnio. Pode ser, mas é fato que isso incomoda.

Outro viés- psicólogos amam essa palavra – pode ser pela novela da Record que é simplesmente bizarra. Bizarra porque foi capaz de reunir gente foda das artes cênicas como Walmor Chagas e Ítala Nandi e colocar no mesmo elenco a Karina Bacchi e a Preta Gil e, pasmem, uma novela que fala de “mutantes” com poderes especiais. Juro que eu morro de vergonha pelo autor desse troço tão absurdo que nem a Gloria Perez teria coragem de escrever. E a vergonha maior fica pelo ex-paquito Cláudio Meyer (eu não uso o outro sobrenome dele mais conhecido porque é complicado para digitar) fazendo papel de bicha afetada tendo como trilha sonora “Robocop Gay” dos Mamonas Assassinas.

Tem também aquele senado daquele país que absolveu aquele senador – que era amicíssimo daquele presidente “Impichado”- que está envolvido naquele esquema de corrupção. E neste mesmo país, em vésperas do 11 de setembro, tem se um “atentado” no trem que levava dois ministros de baixo escalão. Nossa, até pra atentado esse país anda fraco. Bin Laden por aqui, só em máscara de carnaval na cara de um folião bêbado.

E o clima seco, sim, também tem ele entrando pelas narinas. E tento achar ainda um fio, uma nesga de coragem para tomar uma decisão que há muito tempo já deveria ter feito...enfim, coisas da vida. Pelo menos as fotos que pululam no “batch” do flickr dão uma idéia de como eu estava, pelo menos, visualmente.

Sem mais por enquanto...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Bobagens no Bom Dia Brasil

1) A piada da CPMF...a contribuição supostamente provisória e que pelo jeito será permanente. Parece os remendos que meu pai faz em casa e irritam minha mãe no estilo "já consertei a tomada, mas o que tá lá é provisório, enquanto não compro uma nova". Assim é o governo. A piada aumenta quando os políticos ligados ao atual governo defendem a contribuição - os mesmos que a pichavam antes de 2003 - e a dita "oposição" reclama da tal contribuição, eles que antes de 2003 a achavam fundamental para a saúde. Isso é política, isso é Brasil. Pra arrematar a dona Miriam "Porcão" faz uma defesa cínica do antigo governo ao afirmar que a manutenção da mesma era fundamental para as crises econômicas que o governo de outrora passou. No final das contas quem paga a conta disso tudo é o cidadão brasileiro que continua com péssimos serviços de saúde pública, vide o caos noticiado sobre os hospitais nordestinos.

2) Renato Machado, aquele moço que não sabe se é jornalista ou dono de restaurante. Pois é. Hoje em matéria sobre a comida mineira - a minha preferida e da maioria de muitos brasileiros- o sr Machado dá uma "aula de história" ao afirmar que a comida mineira é a mais "brasileira" pelo fato de ter sofrido pouca influência dos imigrantes e que foi uma culinária construída "no Brasil". O que eu acho engraçado é que vivemos em um país em que - excetuando-se a contribuição indígena- tudo é importado, seja o que veio de Portugal, dos escravos africanos - decisivos nessa referida culinária - ou mais tarde, no século XIX dos imigrantes de outras partes do mundo. Essa busca por uma suposta "autenticidade" é algo que enche o saco certas vezes. Até porque não só no Brasil mas, muitas culturas, se fizer uma investigação histórica cuidadosa, recebeu em sua origem influência de outras culturas...o mundo gira, não é algo estático. E este planeta tem uma espécie que resolveu povoar e andar por praticamente toda sua superfície dando um caráter dinâmico ao que chamamos de civilização. E esta é a mesma espécia é capaz de emporcalhar o planeta ou dizer bobagens matinais. Ou escrever um post idiota em um blog pouco lido.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Não sabe? Joga no google!

Esse blog que inicialmente pretendia ser menos bissexto que os anteriores que criei parece estar com o mesmo ranço dos seus similares. E bate aquele velho chavão psicanalítico que diz “o neurótico não recorda, repete”. E isto aqui fica parecendo o tempo do Rio de Janeiro esses dias, isto é, dia de calores dignos de verão – porém com o tempo “abafado” – e de repente queda da temperatura e chuva fina.

Falando em tempo o fim de semana foi ótimo para tirar fotos. Em especial do Jardim Botânico, local que este carioca desnaturado não tinha colocado os pés ainda, bem como no bairro homônimo, que me lembrou os tempos de colégio. Pra ser mais exato um menino que vivia me seguindo pela sala de aula com a desculpa de que não trouxe o livro de história e queria sentar do meu lado quando a sua namorada faltava a aula. Mas essa é uma outra história.

O grande barato de tirar fotos dessa cidade – e no flickr tem o resultado delas, basta clicar no banner na parte lateral deste blog – é perceber o quanto essa cidade é bonita, mesmo com tanta gente maltratando-a. Inclusive soltei um “porco!” sonoro na volta pra casa quando vi um vizinho meu que desconheço jogar plástico do cigarro no chão da rua. Não bastava ele emporcalhar os próprios pulmões e de quem está a sua volta. Tinha que sujar o chão também. Fico com a nítida impressão que o Rio é como a puta mais linda do bordel, completamente desvalorizada, desacreditada, violenta e decadente mas ao mesmo tempo dona de uma grande beleza que atrai muitos clientes e desperta a inveja de outras putas e de “senhoras de respeito”. É uma metáfora interessante pra essa cidade cheia de curvas, montanhas e prédios antigos.

E na volta pra casa vejo um monte de gente parado em frente ao camelô na Rua do Catete vendo ao filme hypado por meus alunos , o “Tropa de Elite”. Tomei um susto quando a molecada me falou que estava vendo filme nacional, depois que me dei conta que para eles o mais importante era falar das cenas chocantes e dos tiros, sem fazer concatenação com a realidade que os cerca. Pelo menos em um primeiro momento.

Daí chego em casa e “jogo no gugol” o nome do filme e fico sabendo que esta versão pirata é uma cópia que ainda não foi completamente editada e que vazou, pois o filme será lançado no Festival do Rio. E me vem na cabeça que era o mesmo filme em que um amigo trabalhou na produção no ano passado. Sim, um filme que fala a respeito do BOPE e de suas atrocidades com a população pobre fluminense – algo talvez parecido com a ROTA paulista, não estou bem certo. O fato é que lá pelas tantas o diretor “intelectual que filma na favela e critica o sistema” solta uma perola. Ele afirma que ficou puto com o vazamento do filme, mas que não se preocupa com a bilheteria uma vez que o público de seu filme não é o mesmo que compra DVD pirata. Faz-me rir, que o meu pai pegou emprestado um “piratex” do filme 300 com um “douto” vizinho do andar de cima que tem todo perfil do “público do festival”. Depois de ouvir uma idiotice dessas dá raiva ver esse povo reclamando de falta de verbas pro cinema. Na boa, posso estar sendo um pouco “mainardiano” demais da conta, mas ouvir uma coisa dessas justamente de onde menos se espera (ou não) é no mínimo revoltante.

Enfim, coisas do Rio. E no próximo post vou colocar as minhas 7 maravilhas desta cidade, bem como as 7 desgraças.

sábado, 18 de agosto de 2007

Desfazendo o rascunho

1- Ouvi essa semana o último álbum dos Chemical Brothers "We are the night" e tenho que mencionar aqui que o trabalho está maravilhoso. Não conheço a discografia completa do duo de Manchester, Inglaterra. Todavia digo que este álbum é digno do trabalho dele e o mais interessante, que eles são capazes de se renovar, mesmo pegando "coisa velha". Explicando: pelo que ouvi de trabalhos anteriores eles têm uma pegada forte no rock entre outros estilos. Em We are the night, talvez por fazer alusão à danceteria, o rock fica um pouco de lado e tem-se outras misturas, como o hip-hop do começo dos anos 80 - algo também explorado pelos dinamarqueses do Junior Senior - electro e batidas mais "viajantes". Quem ouviu a última faixa da coletânea de singles deles lançada em 2003 (não ouvi ainda o "Push the bottom", de 2005), tem-se a impressão que Golden Path - faixa com o "Flaming Lips"- teve uma continuação neste álbum em sua primeira faixa "No Path to Follow", não apenas pelo substantivo coincidente. Isso sem falar na faixa à la Justin Timberlake- que torçam o nariz os seus fãs mais afoitos ao "odeio música pop" - Do It Again. Acredito ser meritoso um artista conseguir soar mais pop sem que isso signifique perda de qualidade. E talvez por isso alguns críticos tenham torcido o nariz para o álbum por conta da maldita síndrome de underground. Outra faixa que merece ser mencionada é "Modern Midinight Conversation" que tem uns samples que me fizeram voltar para o começo dos anos 80, quando eu ouvia Manchete FM e tentava imitar o povo dançando break na novela "Partido Alto". Ok, não era em Manchester.

Aqui o clipe da timberlakeana "Do It Again" com um "q" de Push the tempo do Fatboy Slim:




2- Não preciso mais falar do "Cansei". O comentário no post anterior do Rodrigo e essa notícia são sufcientes. Apesar do tiozinho ser mais um daqueles loucos chavistas que acham a Venezuela "modelo de socialismo", os gongos dele em gente tão variadamente absurda como Hebe, Ivete Sangallo, Agnaldo "do Cacique" Rayol, João Dória Jr e o próprio presidente da OAB - o mesmo que defende o casal Hernandez da Rensacer- são maravilhosos.

3- Por que a novela das 7 é chata?

a) Por que a Priscila Fantin é péssima atriz, caricata e chata?
b) Porque o Gianecchini não convence como taxista?
c) Porque o Walcyr Carrasco insiste em ser didático ao apresentar os 7 pecados.
d) Por que tem Cláudia Raia no eterno papel de travesti?
e) Por que insiste com Mel Lisboa como "femme fatale" (e acho que a menina tem talento).
f) Por que tenta me convencer que vou pegar um táxi em Sampa com o Max Fercondini com um bigode nada a ver?
g) Por que Giovana Antonelli se encontra insossa e apagada, bem diferente da novela que reprisa depois do Video Show?
h) Por que desenterrou o Juan Alba ao invés de deixá-lo perdido pelas Records da vida?
i) Por que o excelente -e gostoso- ator Aílton Graça parece-me engessado no papel do Barão?
j) Por que tem a Claudia Gimenez como a eterna gorda-engraçada-do bem fazendo dupla com a anja biba de Niterói? Saudades de Edileuza.

Todavia, tem alguns pontos interessantes, incluindo Gabriela Duarte -sim, ela mesma, a Maria Eduarda chatíssima do Maneco- fazendo um papel interessante, embora clichezento como a professora bacana que vai mudar os marginais do colégio e com boa interação com Marcelo Novaes.

A novela das 6 não existe, portando dispensa comentários.

4- Ouvi também o álbum Idealism, do Digitalism. É um álbum legal, bem feito e tudo e tal. Só não compreendo esse hype todo em torno do Digitalism e essa coisa do "vem ou não vem tocar no Tim Festival". Aliás se é uma coisa que me dá nojo é esse Tim Festival: aparecem os hypes de ocasião, blogs e fotologs de bichas desesperadas comentando que foram no show de fulano de tal para se sentir "in" mesmo sem saber sequer onde fica a Península Nórdica ou a Jutilândia - local de onde aparecem muitos dos hypes/indies atuais - e aquela invasão de gente aqui na Marina da Glória que aflora o meu instinto parisiense wannabe que detesta um batalhão de gente de fora na "minha área".

5- E os morangos da feira aqui perto - devem ser de Atibaia, como diz a Dona Edith - são melhores porque não estão mofados, pode comê-los sem açúcar o que agrada muito este ser gordo que escreve esse post rabugento e azedo, como os morangos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Rascunho

Temas para posts futuros:

1- O último álbum do Chemical Brothers
2- Porque cansei do "Cansei" ( idéia tirada do blog do Marko)
3- Porque a novela das 7 é chata e a das 6 não existe
4 - Por que o hype em torno do "Digitalism"?
5- As razões filosóficas, existencias e sócio culturais em uma perspectiva psicodinâmica que levam a crer porque os morangos da feira do Catete são os melhores do bairro.

E outras coisitas mais...

domingo, 12 de agosto de 2007

After all



Vou mencionar aqui neste blog a minha dupla favorita. Sim, são os Pet Shop Boys. Em 2005 Neil Tennant e Chris Lowe se juntaram ao compositor alemão, criado em Dresden, Torsten Rasch e a Dresdner Sinfoniker para fazerem uma nova trilha para o filme clássico "O Encouraçado Potemkin" (1925) do russo Sergei Eisenstein. Rasch já tinha feito um álbum chamado Mein Herz Brennt (Meu Coração Queima) baseado na música da banda de rock alemã Rammstein.

O desejo do diretor russo era que a sua obra ganhasse uma trilha sonora a cada década. Não estou certo de que a promessa foi cumprida mas é fato que o duo inglês fez jus à obra de Eisenstein. Eles fizeram uma obra-prima que parece, de um ponto de vista conceitual, a continuação do que eles fizeram em "Left to My Own Devices" do álbum Introspective (1988). As músicas são belíssimas, acompanham o rítmo da trama e a despeito do quão "moderna" possa parecer a música eletrônica (algo que se iniciou desde os tempos em que o filme foi lançado, ou seja, antigo) e puristas de plantão possam torcer o nariz, as músicas são belíssimas e trazem na medida exata as emoções que o filme passa. O destaque fica para "After All", que acompanha a cena da clássica e imortalizada "escadaria de Odessa". Quem estiver a fim de ver e talvez chorar o tanto que eu já chorei com essa cena, é só conferir aqui:



Podem ter alguns outros que torcerão o nariz pelo fato do filme ter sido propaganda Stanilista. Sim, ele foi. Mas quem observa o filme só por essa matiz ou é extremamente preconceituoso, ou só enxergou o que está na superfície ou as duas coisas juntas. O filme é uma obra de arte, e tal como o próprio Tennant observou, em princípio ele achou que eo filme ra só propaganda comunista, no que Lowe retrucou afirmando que o filme sobre um ideal, um ideal de revolução. A história da trama se passa em 1905, ainda na época que o historiador Eric Hobsbawn chama de "a era das revoluções" que se encerra em 1917, que começa a chamada "era dos extremos".

E talvez eu tenha me emocionado tanto com o filme, com a trilha (seja a original ou a de 2005) entre tantas coisas seja mesmo aquela minha característica da qual já fui acusado algumas vezes: caretice. Tudo isso porque ainda acredito naquela coisa, tão demodê desde o último século, chamada liberdade.

Segue abaixo a minha tradução para "After all", faixa do álbum que ilustra bem toda a idéia:



Se você realmente não entendeu as regras
Se você sequer conhece os resultados
Então como nós estamos em guerra?

As pessoas estão vivendo agora
dentro de suas lembranças
Até que ponto nós todos acreditamos
e como nós nos iludimos?
O tempo corre
estamos todos começando a morrer
apesar de tudo

Se você realmente não entendeu a causa
Se você sequer parou para pensar
Então como nós estamos em guerra?

As pessoas estão caindo
se tornando lembranças
Algum dia todos nós seremos lamentados
tarde demais para sermos aliviados
o tempo corre
todos nós começamos a morrer
apesar de tudo.

Eu sei que vai chegar a hora
Apenas espere e veja
A mudança não é obstáculo
nós podemos concordar que
o paraíso é possível
apesar de tudo

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A "volta" da violência depois do Pan

Da série como a mídia fluminense mente: está em todos os jornais - e na Rede Bobo - que depois do Pan voltaram os conflitos nas favelas. Que a violência "voltou" depois que o esquema de segurança do Pan foi embora. Será?

Bem, andei pelas ruas nos dias do Pan e não notei a menor diferença. O meu lado "direita" ficou na esperança do que o povo pseudo-esquerda anunciou: iriam fazer um "faxinão" nas ruas e a molecada- que carinhosamente chamo de "mini-Elzas" - sera levada para os Padres Severinos (a versão fluminense de FEBEM) da vida. Pois bem, tentei ir no banco outro dia e as mesmas mini-elzas de sempre estavam na porta. Cadê o faxinão prometido?

Então tá, acabou o Pan e fica aquele espaço vazio no jornal. E tal como cantor decadente, vamos promover a "volta" de alguma coisa que na realidade sempre esteve presente e nunca saiu.

Em tempo: a favela próxima a outrora Vila Olímpica, ao que parece, será finalmente removida. Sobre essa "volta" da violência, o destaque foi pouco.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Dogma


Um dos males deste neurótico obsessivo: ausência de síntese. Prolixidade é meu nome muitas vezes. E já que neurose obsessiva tem relação com a fase anal, imaginemos aquele cidadão doido pra defecar , mas segura até o último momento para poder descarregar tudo no vaso depois. E daí vem um prazer intenso. Ou então aquele camara que junta dinheiro e não abre a mão nem para dizer tchau. Ou ainda, aquela pessoa que pega a garrafa de guaraná quase no fim, mas não a esvazia e deixa um pouco, um resto ridículo na geladeira para jurar a si mesma que o guaraná não acabou. Pois é, este é o maravilhoso mundo da Nobs. Qualquer dia desses voltarei a falar nela, tema recorrente por aqui.

Todavia, o que o cu tem a ver com as calças (literalmente)? Tal como o cidadão do meu primeiro exemplo passei os dias segurando os assuntos para por aqui neste blog e são inúmeros e claro, vai torrar a paciência de quem raramente se dá ao trabalho de ler minhas bobagens por aqui. Hoje comentarei um filme que vi na semana passada ao zapear por um acaso os canais da rede Telecine. Refiro-me a Dogma (1999) de Kevin Smith, que no filme também encarna a personagem "Silent Bob".

Antes - para reforçar a minha prolixidade - tenho que retomar à época de lançamento do filme. Eu estava no quinto ou sexto perído de faculdade. Do meu lado aqueles resquícios de adolescentes e gente que adorava falar mal da igreja católica - em cursos de ciências humanas e quando se tem menos de 25 anos isso pode soar cool- coisa que me incomodava não por ser católico, mas pelo fato de muitos críticos de tal instituição terem preconceitos e uma visão de mundo tão fechada que deixaria ruborizado até mesmo um membro da Opus Dei. Entretanto, como diria Irmã Selma "enfim, Deus sabe o que faz". E como se não bastasse Alanis Morissette era queridinha por algumas meninas chatas que achavam que ser sapatona e fumar maconha eram as coisas mais revolucionárias do mundo.

E dentro desse contexto eu torci o nariz para o filme na época por achar que era hype demais e se basear numa fórmula fácil: criticar a Igreja católica para parecer contestador. Wow! E caiu no gosto classe-mérdia ao qual me referi. Também não tiro a responsabilidade da própria Igreja que cria tanta celeuma que promove tanto exemplos ruins quanto bons, como o ocorrido com a escola de samba Beija-Flor no histórico "Ratos e Urubus, rasguem a minha fantasia" de 1999, por conta do uso de uma alegoria do Cristo Redentor na Sapucaí.

Sete anos depois, com quase 30, cá eu escrevendo a respeito do filme e dizer que ele é ótimo, além de divertidíssimo. Diferente da frase daquele pretensioso diretor francês que diz "o tempo destrói tudo", na realidade o tempo construiu ou ao menos permitiu que eu visse o filme sem a encheção de saco da época e, de fato, destruiu a minha resistência.

Em princípio o filme poderia parecer também uma espécie de propaganda protestante. Nele há um escárnio bem feito com elementos da Igreja Católica em especial com a Renovação Carismática - em alta antes da Dona Benta assumir o trono de Pedro - que tenta dar um ar "moderno". Aliás, ao lado de evangélicos neo-pentecostais, os carismáticos estão na lista da minha sombra interna, aquela que se dominasse o mundo criaria uma filosofia de vida, restauraria a inquisição e colocaria essa galera na fogueira...mas enfim, é a sombra, o lado cruel de cada um de nós.

Outro lado bacana do filme é que dá para aturar o Chris Rock e o Ben Affleck. Você se esquece de que são eles no filme, sem falar na piada bem sacada sobre o apóstolo negro que é esquecido das Escrituras. Alanis no papel de Deus também fica ótima, uma vez que ela não canta, a exemplo de Courtney Love que também não canta em "O povo contra Larry Flint". Ainda sobre o elenco, vale a pena ver Alan Rickman no papel de anjo e Salma Hayek como musa...eles estão ótimos.

E o filme por fim consegue ser uma comédia divertidíssima, com roteiro bem estruturado e piadas bem sacadas- o diálogo da personagem de Affleck com a freira no começo do filme exemplifica isso- sem cair em um discurso panfletário e, ao mesmo tempo, faz refletir, sem parecer como uma palestra chata, sobre algo que nos permeia talvez desde que se inventou esse troço chamado "civilização" que é a fé, as certezas, os dogmas, uma verdade absoluta em detrimento das idéias, do pensamento, do diálogo e do questionamento. Creio - verbo complicado, eu sei - que esses temas nunca perderão sua atualidade.

A frase do escritor, ex-pastor protestante, psicanalista, teólogo, etc Rubem Alves resume bem o que eu disse nesse post, desde o princípio: "parte de nossa neurose é o desejo onipotente de ter os nossos bolsos cheios de verdades e certezas". Como aquela garrafa de guaraná na geladeira, ou o intestino, que não se esvaziam.