quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Equilíbrios

"Deletar, não! Não quero ser tão radical." Luane Dias

Há exatamente um ano, o Evandro aproveitou que eu passaria a última semana de férias do meio do ano fora de Araruama e me sugeriu: desligue o facebook por uma semana pelo menos e você verá o resultado. Foi uma experiência ótima, apesar de sempre aparecerem as mensagens desesperadas querendo reafirmar o sentido de urgência. Sobre isso a Eliane Brum tem um texto ótimo falando a respeito.

O caso aqui é que agora me bateu aquele senso de Luane Dias ("deletar o facebook não, não quero ser tão radical!") e pensar justamente num clichezão que é clichê por justamente ser ideal: um ponto de equilíbrio entre a existência dentro e fora da internet. Tudo bem que essa divisão para mim não é radical, mas quero pensar exatamente sobre pontos específicos em que essa distinção será necessária.

A última viagem para Curitiba me fez ver bem essas coisas. Pude curtir bem o passeio sem estar conectado 24 horas por dia e tudo o mais, ainda em que em certos momentos eu possa ter compartilhado uma foto aqui ou outra acolá em uma rede. Se eu me sentisse culpado em relação a isso e preconizasse "ah não posso fazer isso de jeito nenhum", aí sim estaria esquisito pois estaria postulando a mim mesmo uma proibição para algo que no fundo não me seria saudável.

Penso por exemplo nas ilusões de Escher do passeio que fiz com Matias e em como o tempo naquela cidade vive mudando. Pude sentir isso e depois ter um ótimo chá. O passeio que refiz 18 anos depois me faz reconectar com o menino que vivia numa época em que o máximo em fotografia era torcer pro filme de 12 poses não queimar (o de 36 era mais caro). Aliás me bateu uma emoção quando vi a mesma farmácia na esquina em frente ao Jardim Botânico na qual comprei o filme quando cheguei em Curitiba em 1994. Ao mesmo tempo é engraçado conviver com mensagens do tipo "onde está você?", como se houvesse uma cobrança para estar a postos. Eliane não está errada.

A pergunta clássica do mesmo Evandro: E como você se sente com isso, Odilon? Ele mesmo notou uma certa intranquilidade minha no regresso. Era como se tudo estivesse misturado ali: a vontade de rever as pessoas, fazer os passeios do jeito que eu quero, contar as novidades, carregar uma mala pesada e tudo isso pra ser vivido no "real" enquanto as "cobranças" do virtual estão ali. É angustiante, pesado até o momento em que paro, penso e digo, como aquele mene do cachorrinho "Qual a necessidade disso?".

O ponto de equilíbrio está justamente em seguí-lo, ainda que ele não esteja em seu perfeito ideal. Explicando melhor e sendo menos abstrato: se estou curtindo o resto de férias na presença de amigos do jeito que eu quero que eu continue fazendo exatamente isso a despeito de qualquer cobrança que possa surgir. Na verdade essas cobranças não são dos outros, mas internamente minhas. E é justo com elas que eu tenho que lidar de uma maneira mais tranquila.

Assim sendo, nessa busca da tranquilidade esse é o caminho necessário para mim conseguir uma melhor tranquilidade e qualidade de vida. Os equilíbrios são ideais? São...Mas que ao menos eu tenha o direito de perseguir o meu equilíbrio ilusório da maneira mais interessante e livre para mim, sem cobranças que possam encher a paciência.

Ps: A escolha de Luane para ilustrar esse texto e aquela foto desta celebridade nascida no virtual com esses óculos espelhados e mostrando em parte os seus olhos não foi à toa.


terça-feira, 23 de julho de 2013

O investimento de Narciso


Já postei aqui, diversas vezes, quando quero pensar sobre o amor sobre o investimento que é feito no "eu". Seja com aquele jargão psicanalítico, herdeiro do texto do Freud de 1914, ou mesmo no conselho da amiga pra outra "fofa, você tem que ter amor próprio, dane-se se vocês terminaram" e tudo o mais. Está no imaginário coletivo.

Aí na madrugada aparece esse tema mais uma vez. Pensei na questão dos investimentos que fazemos e quando nos damos conta de que estes objetos investidos de amor se perdem e aí desabamos.  E então nos recolhemos, sofremos, nos martirizamos, isso quando não colocamos toda a culpa no outro. Diante da perda amorosa, são várias as respostas possíveis.

Daí eu, que gosto de extrapolar, pensei nas confusões que vejo em redes sociais. A com estranhos porque um quer valer a sua opinião como soberana e digna de ser curtida e admirada. E as inúmeras que vejo entre amigos na qual, aquela pessoa que você ama (amizade é um investimento amoroso) discorda de uma ideia sua. Ele não ama, não se interessa e ao mesmo tempo rechaça aquela ideia que você guarda para si com tanto carinho. Como pode meu amigo ou minha amiga discordar de mim assim?

E daí, o sentimento de aniquilação, que não dorme cria toda a confusão com um objetivo: destruir aquele outro que não te ama. Um objeto destruído pelo eu é mais vantajoso que um outro que me causa desprazer por não concordar comigo. Antes nada do que algo negativo. Ou seja, mais vale eu acabar com aquela opinião do meu amigo e convencer de que estou certo, ou em casos extremos, acabar com a amizade, do que manter a discordância que tanto me incomoda e interfere no meu eu, transmutado na opinião minha de algo, essa traduzida como um objeto.

Outra situação interessante é a timidez. Eu mesmo me considero tímido em muitas situações. E daí me dou conta de que essa timidez é uma tentativa tipicamente neurótica de não sentir o ego abalado. Por exemplo...

... uma pessoa está numa festa e se interessa por outra. A timidez gera um medo que diz assim "não vá até aquela outra pessoa que ela vai te rechaçar. O seu "eu" não maravilhoso vai se mostrar completamente desinteressante, a desistência do outro vai evidenciar isso em você. Te causará esse desprazer. Então a saída é não fazer nada, ainda que o resultado seja exatamente igual ao de quando se é rejeitado, isto é nada acontece tanto para aquele tímido que "não chegou junto" como para aquele que levou o fora.

A diferença no caso é que o tímido, ali, paradão, se sente no controle da situação. "O neurótico goza com o seu sintoma" diria Freud e é mais ou menos por aí. Ou "eu" tenta de alguma forma se manter inteiro e gera a fantasia da rejeição do outro (se eu for, vou me dar mal, vou me ferrar) na qual o enredo está sob o controle de mim e não da ação (real) do outro.

Tem um paradoxo interessante nisso que, ao mesmo tempo em que é um investimento narcísico (não entendido aqui como uma patologia, por favor) é também a eleição de um outro como grande avalista do seu desejo. O estranho com quem brigo por opinião, o amigo em que investi uma relação pra concordar comigo em tudo, ou aquela pessoa ali no canto da festa na qual não chego junto. Para todas elas entregamos um poder que ilusoriamente era nosso.

No meu caso específico, uma chave talvez seja se perceber ridículo - coisa que reparei no divão, por exemplo- e perceber que tem muitas coisas além. Que viver implica sim perdas, ou então era melhor nem ter nascido e daí não ter nem prazer nem desprazer, como é na morte. Lidar com as perdas é difícil, mas nos obriga a deparar de que não somos um inteiro perfeito, mas que somos quebrados e fragmentados em diversas ações, somos faltosos e é justamente essa falta que move o mundo.

Enxergo aí uma chave que me faz pensar sobre a compulsão e a timidez: um investimento falho em um eu inteiro que simplesmente não existe. Enfim, esse assunto ainda rende, não é conclusivo, apesar da confusão que está esse texto. Tipicamente liquididificado.

Protesto

Faz um bom tempo que isso aqui tá abandonado, meio que pegando carona nos protestos que estão rolando no Brasil e tudo e tal. E em terras fluminenses a coisa continua com prisões arbitrárias, tiro, porrada e bomba. Algo que os moradores das periferias e favelas conhece há muito tempo... Mas antes que me taquem pedras, não justifico nenhuma forma de violência, seja na Vieira Souto ou na Passarela 9 da Avenida Brasil.

Os ânimos estava acirrados a ponto de eu ser questionado no facebook por conta de uma charge do Latuff - criticando os coxinhas - de ser um extremista de esquerda sem visão política da realidade ou algo do tipo. Claro que não preciso ficar dando satisfação pra a, b ou c sobre os meus pensamentos desde o momento em que eles não interferem no direito de ninguém, mas é um tanto quanto ilustrativo de como estavam os ânimos.

Sim, teve uma galera que preferiu ficar resmungando e dizer "ah é coisa de coxinha e vla bla bla". Isso pra mim é uma atitude conservadora pra quem se acha libertário. Se você ao menos é contra ao que está sendo dito, faça você mesmo então seu protesto, se organizando, militando, consultando as lideranças e fique pronto(a) para o tiro, porrada e bomba.

Claro, tem o coxinhismo do "sem violência" ou do mandar sentar. Tem aqueles ativistas de facebook que acham ruim porque o trãnsito fica uma merda pra chegar em casa e depois quer pagar de iconoclasta falando mal do Papa. Se você é contra manifestação por direitos legítimos você tão babaca quanto à ICAR pelo conjunto da obra e a tal da cartilha nefasta e preconceituosa que ela anda distribuindo. Enfim, esse é outro assunto. Deixa eu sair da teoria e contar a minha experiência pessoal em relação a isso.

Fui para o protesto em Cabo Frio, maior cidade das Baixadas Litorâneas Fluminenses, me encontrar com um amigo lá. O ônibus parou na entrada para o Centro da cidade e uma mulher com medo - justificável- de levar tirou ou algo do tipo.

Ao chegar encontrei muita gente jovem, muitos estudantes. Mensagens inócuas sim, vazias como "contra a corrupção" e coisas do tipo, mas outras bem direcionadas. O alvo era a empresa Salineira, que detém o monopólio do transporte na região e conta como um de seus acionistas o onipresente Jacob Barata, aquele mesmo que manda e desmanda no transporte rodoviário da capital.

Boa parte dos ônibus é intermunicipal. Até porque a região não ficou imune à praga da criação de trocentos municípios. Assim sendo, se você vai de Araruama a Cabo Frio (40km) você paga os mesmos R$ 4,00 que alguém saindo de São Pedro da Aldeia ou Arraial do Cabo até aquela cidade, mesmo distante 10 km (ou menos) de Cabo Frio.

Rolou o barulho, mas as passagens locais não baixaram. Só o intermunicipal de 4 passou para 3,80 por determinação do Governo Estadual.

O legal é que nós temos o desejo neurótico obsessivo de querer determinar tudo (beijos Viviane Mosé) e morremos de medo do incerto. Claro, "é preciso estar atento e forte" com manobras conservadoras do pior tipo em uma situação como essa. Mas isso não é desculpa pra fazer a linha iconoclasta de botequim e ficar apenas pixando de "coxinha" quando você não faz absolutamente nada.

Essas manifestações me lembram, num primeiro momento o objeto "a" criado por Lacan, aquele que não pode ser dito. No entanto vejo as manifestações como um discurso. Tudo bem, é da classe média, ou daqueles que outrora não estavam engajados. Mas isso não desqualifica o movimento. Se há a necessidade de coisas para serem ditas, que sejam. É legítimo. Ao que parece os que criticam a falta de democracia por vezes agem como reais reacionários.

Por outro lado tem aquele discurso mal direcionado e a papagaiada carnavalesca. Faz parte sim. E tem aquela hipocrisia do coxinha que ouve Charlie Brown Jr porque "é contra o sistema" e curte grafite, mas quando o bicho pega e você fala "fulano, você vai no protesto"..."ah não vou nessas paradas não, sabe como é, o bicho pega e bla bla bla"

Menciono tudo isso porque em mim habita o doido revolucionário, o coxinha do face, o medroso que só se revolta ouvindo aquela musiquinha entre tantas coisas e, obviamente, é importante revelar em mim cada um deles, mais que fazer o papel de inquisidor. E participação política é muito mais que uma passeata. E opressão policial é mais que as balas de borracha. Maré e Amarildo não me deixam mentir. 

De qualquer forma foi aberta uma das várias caixas de pandora (algumas já abertas há séculos) que parte da sociedade resolveu mexer e/ou olhar. E isso significa muita coisa, ainda que não se tenha um significado completo dos protestos. 

Ainda bem, porque cabe espaço para mais. Como diria o Basílio, trolando um clichezão ridículos desses, mas bem apropriado pra o momento "definir é limitar"

terça-feira, 18 de junho de 2013

Do pessoal e do coletivo



Estou há tempos protelando novas postagens por aqui. Especialmente agora que é outono, estação simbólica não só pelo fato dela ser a minha preferida, mas também quando ocorre o meu rito pessoal maior: o meu aniversário.

E nessa virada dos 35 tenho percebido de forma mais intensa as minhas emoções. Ao mesmo tempo inicio um relacionamento amoroso de forma mais tranquila e nem por isso menos intensa. Por vezes um sorriso desconcertante ao ouvir um "Eu amo você" me diz muito mais ao meu respeito do que uma série de elocubrações.

Acontece que eu sou prolixo.

E sou do tipo que sempre penso nas interseções da história coletiva com a história individual. E isso acaba mexendo com certas emoções em outros campos, em outros relacionamentos amorosos.

Estamos cá agora vivendo toda essa onda de protestos no Brasil. A história coletiva acontecendo. E em meio a tudo isso vejo pelas redes sociais uma pá de opiniões. Acaba que uma, mesmo que sendo uma merda, ganha mais relevância que a outra. Afinal vem na cabeça: poxa, vem de alguém que a gente ama, convive por mais de 20 anos desde o momento que nasceu etc etc etc. Mas antes desse "vir na cabeça" vem uma raiva acompanhada por uma série de ressentimentos.

E por que eles aparecem? Um exercício mental me lembra de que por mais que eu queira ignorar o fato, tem a história pessoal. Nela vem uma enxurrada de ressentimentos por parte da outra pessoa. E isso mexe comigo. Admitir isso é um primeiro passo.

E quais seriam os outros?

Diante das opiniões pessoais desse outro na qual vejo no intertexto uma série de ressentimentos o exercício da sabedoria a ser feito, antes do "deixa pra lá, é irrelevante" é pensar na clássica pergunta que, vira e mexe, o Evandro me faz: "Odilon, isso muda alguma coisa na sua vida?". É um questionamento libertador.

No caso não muda em nada. Sou talvez como Ló ao sair de Sodoma e Gomorra e segue em frente em busca de uma nova terra. A esposa vira para trás, vira uma estátua de sal. E as estátuas de sal devem ficar onde estão, até serem dissolvidas. Ela não há de salgar o meu prato.

E no mais, tem algo muito, mas muito maior acontecendo a minha volta...seja pessoalmente, seja no coletivo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dos balões


Sim, eu me lembro de quando o chamei para ir comigo." Mas esse balão é só de enfeite. Tem como contemplar o céu e as estrelas sem necessidade de subir nele. O céu, visto de baixo é bem maior. Não que eu não gostasse de ver o que há ali em cima com você, mas isso não é tudo". Isso foi tudo que me foi dito, mas...

... de repente estávamos ali no meio da tempestade enquanto subíamos e poderíamos ver toda a paisagem por cima. Disse-lhe que não havia problemas, que ele era bom navegador, que tirava aquilo de letra, ainda que o balão não fosse perfeito e que ajustes eram necessários.

"ah legal!". Isso foi tudo que me foi dito e...

... cessa a tempestade e não sei se caí, não sei se foi sonho, ou apenas um torpor momentâneo. Só sei que estava no meio do deserto. Sem balão, sem tempestade, sem a companhia, sem a habilidade. Senti-me só no frio de uma noite seca com muitas estrelas. Todas inalcançáveis, quaisquer que fossem os balões.

Isso foi tudo que pensei, logo...

... dei conta de que o único diálogo era comigo mesmo. Ali. O que restava era fazer o meu balão. Do meu jeito. Eu era um bom navegador. Não me importunavam a secura ou as aves que piavam no céu disputando alguma coisa que eu não conseguia ver. Vi que o conhecimento estava comigo e que só me restavam achar as peças pro meu próprio voo, para daí decidir quem ia comigo ou não. Mas tudo vinha do zero e...

...esse nada, esse vazio, essa vontade, era tudo que eu tinha, mesmo que não dito.

sábado, 23 de março de 2013

Como liqudidificar o carnaval?

No meu infame trocadilho com o nome desse blog penso que o tempo pode ser um aliado ou cruel motor para a liquididificação. Eu era para ter feito isso com o carnaval, que já foi há mais de um mês (daqui a pouco já é Domingo de Ramos) e nada foi mencionado aqui.

Talvez porque há experiências que são mais intensas e ao invés de serem colocadas numa espécie de associação livre, elas são melhores se forem sentidas. E no fim vem a elaboração textual, apesar de achar meus últimos textos muito fracos nesse sentido.

É engraçado agora recordar tudo. A figura da barca que vai e volta na mesma embarcação  para ver se resolve algo. O velho que me diz algo que não entendo. Os moços do 472. A sexta-feira. A necessidade de comprar bebidas. Aquele bloco simples no Leme com cordas. O multibloco dessa vez bem mais cheio e que rendeu fotos como a que ilustra esse post. A necessidade por descanso. O meu domingo cedo e maquiado com Osmar, Jefre e Átilas. A noite com comentários de Fabiana e volta pelo Centro do Rio. Rir com Sandro e Jadir e rever outras figuras. O reencontro com alguém que não vi pessoalmente e a noite ao som do samba da Portela. A manhã ressacada e eu perdendo uma estação do metrô. Aquela segunda de pura pasmaceira, que é a praga do carnaval, mas torcendo para Fabi se dar bem em seus desfile (e assim foi!). A terça-feira no Rio Maracatu e depois na Banda de Ipanema. O ar de desleixo que aparece quando eu bebo e me dou conta que esse desleixo é como eu gostaria de ser (ou na verdade sou). As revelações falsas de um espírito do Natal passado do meu amigo. Outra volta pelo mesmo lugar e dessa vez a noite é do Sandro.

... a quarta-feira de tão bonita merece uma linha separada. Meu coração agora bate mais devagar que em outras situações parecidas, porém com grande intensidade. Achei que nunca mais sentiria isso, mas o amor tem dessas coisas...

(e me obriga a pisar em ovos...)

... a quinta feira com uma figura maluca dos Andes que só Deus sabe como chegou no Brasil. A noite doida do meu melhor amigo que não será narrada no programa de TV vespertino. E vem a sexta...o sábado no fim do horário de verão eu deixo a Manchester Fluminense que estava no ensaio da Viradouro para ver a Manchester de fato. Para um domingo mais calmo e uma segunda feira de reencontro com parentes, de viagens emocionais, antes mesmo de voltar para casa.

Assim foi, assim tá registrado. Os neuróticos-obsessivos precisam disso. Mas que se foda, o gostoso é dar uma gargalhada e perceber que assim como as criações no texto, muita coisa é maquiagem.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Enquanto eu puder cantar...


Hoje eu estava para fazer um texto sobre temas mais amenos aqui nesse blog. Mas as manobras em nosso Congresso apoiada em especial na omissão do Partido dos Trabalhadores, que historicamente abrigou as lutas da minorias de poder neste país, me fizeram mudar o tom. Este tom é de indignação e tristeza, ao saber que um pastor racista e homofóbico de uma legenda de aluguel evangélica consegue a liderança da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Acho importante saber as suas atribuições aqui.

Diz o texto que  " O poder exercido pela CDHM advém da representação intrínseca dos mandatos " e fico pensando nesse poder dado a alguém que afirma que africanos apresentam uma maldição, bem como suas práticas religiosas, além de declarações homofóbicas. Mais que uma lástima, é triste saber como o jogo político funciona quando uma força com a história do partido dos trabalhadores rifa os direitos dessa maneira e entrega ao fundamentalismo de ocasião mais nojento um cargo dessa natureza.

Mas Odilon, isso não é democrático, ele tem o direito constitucional de exercer o cargo. Ok, se as leis garantem isso, faz parte. No entanto da forma como essa "força resultante" se colocou a partir de uma política que acende uma vela para Deus e outra para o Diabo e que se reflete em diversas áreas em nosso país, uma prática chamada por alguns de "lulopragmatismo". E o pragmatismo se converteu em uma negligência espúria com um representante da maior denominação evangélica do país.

Em tempos de ditadura Nelson Carneiro lutou contra o conservadorismo da Igreja Católica para que a lei do divórcio fosse aprovada em 1977. Hoje, em 2013 a luta não cessa, apesar do mesmo conservadorismo estar em outras mãos. É luta que permanece.

Sendo negro e homossexual sei que a vida vem no modo "hard" tal como uma comparação nerd que vi certa vez nas redes sociais. E nesse modo há de se enfrentar de cabeça em pé essas e outras manifestações do pior tipo de conservadorismo. Não nos esqueçamos que Marco Feliciano foi eleito pelo voto. Ele representa uma série de eleitores que compactuam dessa mentalidade conservadora. E essa por sua vez em muito se alimenta na cultura autoritária que engessa esta terra desde 26 de abril 1500, o dia da primeira missa, combinada com a omissão do Estado em pontos cruciais como sa´de e educação. A omissão do PT na comissão se assemelha a do Estado que ao não cumprir seu papel dá espaço (e por vezes apoia) a essas diversas seitas de pura lavagem cerebral que servem de consolo e garantia de prosperidade aos pobres. Nesta história toda, não há santos.

Com lágrimas nos olhos eu termino o texto cantando essa que considero uma das mais maravilhosas canções do Chico. Não sei como vai ficar o meu cordão. Sei que diferente do desejo de alguns que falam em pedir green card para outros países . Negligenciando o fato de que os direitos conquistados em locais onde os direitos LGBT e outro avançaram não foram por benesses dos governante e parlamentares, mas foi a custa de muita luta. Não há no caso uma "cultura naturalmente avançada" como faz supor nosso complexo de vira-latas no estilo "classe média sofre". 

No frigir dos ovos, ninguém vai me acorrentar, enquanto eu puder cantar, enquanto eu puder sorrir...




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Amoriçoca

Por vezes se é hostil a certos sentimentos. Então é melhor preveni-los porque paixão amortece assim como a dengue. E a hostilidade pode ser uma prevenção assim como evitar água parada. Revolva as águas, agite e crie um padrão de barreira emocional para não deixar esse sentimento aparecer.

Mas é verão e por vezes não tem como fazer um controle absoluto. E ai o amor vem zunindo como uma nuvem de muriçocas. Essas aparecem à noite, mordem, incomodam e causam coceira. Assim o melhor a ser feito é se apoiar numa cortina de inseticida e deixar o amor se manifestar sozinho, sem colocar o menor sinal de empatia. Mas é bom deixar aquela nota de que "a ausência foi necessária para não interromper o processo". Está na embalagem do produto: deixar o recinto completamente fechado por 20 minutos para o remédio fazer o efeito. No caso, foram exatos 28 minutos em uma madrugada de quarta para quinta.

Cabe prevenir-se de novo? Ou cagar pra isso tudo? Arrumar confusão, hostilidade? Seguir o tolo conselho tautológico do olhar para "si mesmo"? Enfim, no frigir dos ovos a decisão é minha. Diferente das muriçocas o melhor é fazer isso tudo sem zunir. 


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O corpo nu é, sobretudo, um corpo vulnerável

Recebo com espanto e ao mesmo tempo com racionalização a morte do ator pornô Arpad Miklos, cujo nome real era Peter Kozma. Morreu aos 45 anos e ao que indicam as notícias foi um suicídio.

Espanto porque a morte de alguém que aparentemente está bem - não faz muito tempo Miklos estrelou esse clipe- de repente aparece morto.A racionalização vem daquele princípio de que "ah vida de ator pornô é assim, tem aparência e tal, mas por trás há muitos problemas com drogas, depressão etc e Miklos não é o primeiro a morrer nessa indústria...". A racionalização não é mentirosa, mas é aquele eterno desejo da neurose obsessiva em organizar e arrumar explicação para tudo, inclusive para o que não pode ter explicação.

Quando via Miklos nos filmes sempre percebia um encontro de ideiais: homem com mais de 40 com "tudo em cima", musculoso, peludo, "jeitão de macho", enfim, um homossexual com todas as características desejadas do mundo hetero. Um detalhe que pode parecer banal, mas que me chamava a atenção era o fato de nos filmes ele sempre ser o ativo.

Fuçando a internet encontro o post de outro ator pornô, Colby Keller, comentando a respeito da morte de Miklos/Kozma. Uma frase que me chamou demais a atenção e que me inspirou a fazer o post foi essa "Afinal de contas, um corpo nu é um corpo vulnerável". Não pensei nela para buscar explicações para o sucídio de Arpad, mas em pensar a forma como lidamos com o corpo e a industrialização dele.

"The naked body is a vulnerable body after-all" Colby Keller


Um ator pornô, seja hetero ou homossexual ativo, não pode broxar. Esse mecanismo me faz pensar muito na estrutura neurótico-obsessiva, que evita a morte, mesmo rondado por ela o tempo todo. Tudo tem que estar duro e há uma evitação constante da falta. Como na metáfora da garrafa de água na geladeira que ainda guarda um resto insignificante porque o último que tomou água não quis que ela parecesse vazia por completo. E quando penso não só na indústria pornô, mas nas representações do corpo na mídia em geral me traz exatamente essa ideia: tudo milimetricamente calculado para aparecer e não deixar"cair" nenhuma vez. Seja a subcelebridade do carnaval, o ator malhadão, a/o modelo capa da revista ou aquele anúncio de cásulas emagrecedoras na rádio AM. Tudo bem que essas coisas são mais que batidas, mas cabe estabelecer a ligação aqui.

Outro dia mesmo comentava com um amigo sobre Queer As Folk e Roma e suas "ousadas cenas de sexo" e a forma como elas eram extremamente plastificadas a ponto de não serem sexuais. E o que isso tem a ver com o texto?

"Um corpo nu é vulnerável" e diante dele tentamos colocar diversas forma de controle. Enquadramos em discursos que se ligam politica, cultural e economicamente com o sistema vigente. Este corpo é construído para atender a um certo padrão estabelecido. E em uma sociedade que "sucesso", de "superação" broxar não é permitido, exceto que você venha com uma linda história de superação. Só que, repetindo, sendo esse corpo vulnerável nenhum controle é capaz de escapar à morte. Talvez o suicído de Peter Kozma seja uma trágica ilustração de como um corpo e uma personagem moldados em um certo padrão não escapa a ela também.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O dinheiro que não protege

Um tema que estou há tempos para "liquididificar" é o racismo. E como ele tem a sua grande dose de perversão, fica aquela coisa "Odilon, não é melhor não discutir isso, parece que você está se vitimizando etc e tal e bal bla bla" E por ai vai.

Tudo bem que nunca fui um negacionista ou mesmo alienado quanto a isso. Está na minha carne, está em minha própria identidade e disso não tem como fugir. O que eu estava sentindo falta era de uma leitura mais profunda sobre o tema, já que como psicólgo social sempre me foram sensíveis questão de gênero, sexualidade e violência. Considerando o racismo como algo ligado á violência estrutural e tendo experiência em lugares pobres em que a maioria da população era negra assim como eu, sempre senti falta, mesmo nesses trabalhos de apontar isso de forma mais direta e intensa.

E ai vieram a questão das cotas. Os debates a respeito do tema. O chorume de gente como Demétrio Magnoli e Ali Kamel. O caso envolvendo "Caçadas de Pedrinho" do Monteiro Lobato. As velhas manifestações no dia da Consciência Negra em que me dá mais revolta quando vejo um negro repetindo o discurso negacionista. Eu sei que como estrutura e instituição, essa opressão é devidamente internalizada por todos. Ainda assim, mexe comigo. Bem como as falácias sobre o tema, as mais clássicas ditas até por pessoas cuja inteligência admiro, mas esbarram feio quando não tem ou não querem entender o seu privilégio na sociedade. Poderia até fazer uma lista deles aqui, mas seria chover no molhado. Ou deixo para um próximo post.

Dito isto, vejo hoje o caso do Neymar no campeonato paulista. O jogador foi chamado de "macaco" pelo técnico do ituano e na hora reclamou com o juiz. Depois fez o estilo "deixa disso" e disfarçou dizendo que era apenas um "mal entendido". Cá nessas terras temos a esquizofrenia de um país em que as pessoas sempre conhecem alguém racista, mas ninguém admite que o é.

O negacionismo de Neymar é recorrente. Ele mesmo ao desconversar sobre racismo ele disse que nunca o sofreu porque "eu sou branco". Algo parecido foi dito por Ronaldo Fenômeno. E vejo isso, especialmente nos meios mais pobres, já que no país, sendo a cor um patrimônio, como bem explica Muniz Sodré, o tom de pele do negro mestiço um pouco mais claro confere-lhe uma aparente "vantagem", mas essa mesma se desmonta. Eu mesmo percebo isso, quando algumas pessoas ficam indignadas comigo quando afirmo a minha negritude e dizem "mas Odilon, você não é negro, é moreno (ou moreno escuro, seja lá o que for) e ai me lembro da melhor frase de Fabiana: "meu filho, nem meu cu que não pega sol é moreno".

No entanto o ocorrido com ele no jogo é um fato que desmonta algumas ideias. A primeira é a afirmação de que "raça" não existe, ou que querem "racializar" o brasil. Bem, quando alguém xinga o jovem jogador de "macaco" tem duas coisas ai: primeiro a raiva  em um discurso racista. Outro ponto é que esse xingamento não é uma novidade criada pelo tal técnico, mas ele é comum em nossa cultura racista. Então, o racismo é sim um fato social e psicológico, ainda que alguém apresente 50 teorias da biologia dizendo que raça não existe (ela está certa em seus pressupostos, mas a biologia não dá conta dos fatos sociais). Se tem gente que acha que Adãoe  Eva é verdade absoluta como alguém vai deixar de ser racista só por conta de dados do projeto Genoma?

Além disso mostra que a velha falácia do preconceito apenas social é mentira. Neymar tem seu nome e prestígio no futebol apesar da pouca idade. Deve ganhar 50 vezes mais que um ministro do STF (não fiz as contas, mas com certeza é mais, me permitam a hipérbole) e é contratado em diversos comerciais e tudo o mais. Veja, se o preconceito fosse apenas social no Brasil como alguém o chamaria de "macaco" durante uma partida?

Uma das coisas que sempre me chamaram a atenção no futebol, eu como torcedor, é que nele paixões são liberadas. Sentimentos absurdos surgem, entre eles a raiva, por conta da disputa. Não é à toa que, infelizmente, vemos brigas de torcida com morte mostrando o caso mais extremo da violência e geralmente contra alguém que o assassino sequer conhece e o odeia por apenas torcer para outro time. Pois bem, é nesse cenário que as censuras baixam e a sombra do nosso negacionismo aflora. Não que o racismo seja circunscrito ao futebol, que ai seria uma loucura da minha parte afirmar isso, mas como esse caso do Neymar é um bom exemplo de como esse tema é presente em nosso país, em nosso mundo.

Sendo assim, um tom mais claro, grana, fama e sucesso não vão te resguardar do racismo. Ele é uma instituição mais entranhada do que isso. E um passo importante será nós mesmos não negarmos isso e não ter medo de encarar a situação de frente, nem medo de dizer o que pensa sobre isso, tal como estou fazendo agora.

Ps: Aqui tem um texto interessante sobre o racismo sob a ótica da psicologia behaviorista.