terça-feira, 22 de outubro de 2013

Psicossociologia, PT e Supereu

Vi que compartilharam esse texto no Facebook e muitos o citaram como algo perfeito e definitivo. Uma coisa que observo é que toda vez que você quer negar algo do seu universo ou fazer a crítica de uma suposta crítica estabelecida, ela é feita de maneira rápida sem observar os detalhes que existem nela. No caso da autora, se há um universo de esquerda que critica a classe média e o que está junto (homofobia, machismo, racismo...) há uma necessidade de criticar.

Acho sempre válido criticar e duvidar do que parece tão confortável ao seu redor. No entanto ela tem que ser feita com observação e argumentos que sustentem essa crítica. E nesse sentido o texto apresenta alguns problemas. Vamos a eles.

Em primeiro lugar ela enxerga a classe média como "bode expiatório" e isso é motivo de incômodo. Eu fico pensando nos milhões de brasileiros que não tem o que comer e ela fazendo tal afirmação. Isso não é pura e simplesmente demagogia ou uma afirmação piegas, mas em um país em que a concentração de renda é absurda, essa afirmação não é de todo certa. Ainda que se possa reconhecer que essa concentração se dá, justamente pela forma como toda nossa estrutura social foi formada ao longo dos séculos e como ela se estabelece no século XXI, em que parte da elite está inserida no contexto capitalista global e outra mantém relações do Brasil Colônia. Mas esse é outro papo...

O grande problema é que ela fala de "classe média tradicional" e trata uma distinção como uma mera observação. É importante saber sim de que classe média você fala. Então falta explicar com clareza que classe média é essa.

Daí parte para para as explicações psicanalíticas. Sendo que faltou estabelecer uma outra diferença entre luto e melancolia, em que o primeiro é consciente e o segundo inconsciente. Isso é fundamental porque aí há de se falar de uma instância psíquica, o supereu, que sequer é mencionado, mas tem uma relação com a melancolia, já que ele se baseia em um desejo recalcado edípico (seja como seu pai, mas você não pode ser como seu pai, ie, desposar a mãe).

Outro fato é que o agente crítico tem sua relação com o sadismo e com a pulsão de morte.

Aí parte para a discussão sobre o tumblr classe média. Na sua alegação ela acha que tudo é creditado à classe média. De fato, homofobia, sexismo, racismo não são exclusivos dessa classe. O que ocorre, algo que qualquer psicólogo social deve ter em mente, é de que lugar se fala. Os discursos ali são produzidos sim pela classe média. É ela que fundamentalmente está lançando os comentários nas redes sociais e, além disso, são os clássicos comentaristas de portal. Concordo que nem tudo pode ser creditado a essa classe, mas afirmar que não o é é falta de uma visão contextualizada sobre o que está sendo postado ali.

A falta de uma visão social mais ampla faz com que a autora ache que as reivindicações da classe média são as mesmas do PT/Movimentos Sociais. Em um país em que se pautou pela escravidão e pela diferenciação das pessoas, parte da classe média quer sim seus filhos em escolas particulares ou seus planos de saúde porque isso é um sinal de distinção de classe, ainda que eu compreenda a má qualidade dos serviços públicos.

Outro detalhe é em relação aos movimentos evangélicos em que ela cita como das classes mais baixas. Os movimentos aos quais o PT tem como principal aliado, em especial a IURD, tem como sua base a Igreja Universal do Reino de Deus entre outras que pregam  a chamada "teologia da prosperidade", que muito mais se identifica com os anseios de consumo dentro das relações religiosas do que simplesmente pessoas pobres que estão indo rezar.

O PT não é e nunca foi o totem absoluto da "classe média tradicional". O tiozinho que esbraveja contra o Lula é o mesmo que 89 dizia que não votava em analfabeto baderneiro.Parte dessa classe pode estar enlutada, bem como os movimentos sociais organizados que tem/tinham o PT como aliado (aliás é bom frisar que no movimento LGBT, parte está cooptada pelo governo e outra não, então nem isso é homogêneo). Restringir toda a classe média "tradicional" a "viúvas" melancólicas do PT é uma simplificação falaciosa.

Até mesmo vendo os comentários da autora percebo a sua insistência em manter esse mesmo modelo. Enfim, o supereu não só se relaciona com a melancolia, mas também com a neurose obsessiva, que também tem horror a perda do objeto investido.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Uma saia justa

E este bafafá todo em torno da discussão entre Bárbara Gancia e Paula Lavigne me fez pensar sobre algo que há dias eu tinha refletido a respeito e que ainda não tinha colocado em texto.

Acertadamente, diz Gancia:
Fora que achei a pergunta preconceituosa, como se "pegasse mal" alguém ser gay hoje em dia.


A diferença é que ainda pega mal sim, ser gay hoje em dia, infelizmente. Por essa razão há questões que ainda permanecem necessárias. E a partir daí penso em duas situações com conhecidos meus, mas que provavelmente muitos já devem ter ouvido.

Um deles reclama que um amigo fica interpelando o tempo todo para saber a sua orientação sexual, para saber se ele gosta de homem. Pergunto a ele: por que você não joga tudo na lata e não diz logo? Ele me responde dizendo que aquela questão é de "foro íntimo", que o tal amigo não merece ter a resposta porque não foi uma pergunta de coração e só fez a pergunta para satisfazer uma curiosidade pessoal e não realmente uma preocupação com o que ele (meu conhecido) sente.

Outro resolveu dividir apartamento com uma amiga que fala abertamente sobre seus namoros e histórias "doidas" com os caras e tudo o mais. Ele reclama que ela "joga verde" para saber se ele é homossexual. E ele diz que não diz, porque não quer dar esse gosto para ela, não quer que ela fique sabendo da vida dele ou algo do tipo.

Em princípio posso pensar como uma operação neurótica do desejo. O dizer mara a possibilidade da dúvida e, como dizia Freud, o neurótico goza com o seu sintoma. Há um gozo, de certa forma, nesse não dizer, nessa omissão. É como o último biscoito do pacote que ainda fica ali, mostrando que está (quase) vazio, mas esse "vazio" de todo não ocorre. A dúvida alimenta essa construção.

Por outro lado não há de creditar tudo isso ao sujeito, isolado de sua cultura, sociedade e história. Pensemos: um hetero não diz que a sua orientação sexual é algo "de intimidade". Um homem que tem desejo sexual por mulheres ou uma mulher que sente desejo sexual por homens (com grandes ressalvas aqui, porque entendo como o machismo opera na hora das mulheres expressarem seu desejo, ainda que com parceiro do sexo oposto) não é algo "íntimo". Seu amigo hetero não vai esconder que ele tem desejo por uma mulher, ainda que existam aqueles tímidos ou os mais reservados que não revelem o seu interesse. Independentemente disso, eles têm uma autorização social para que esse discurso ocorra...o discurso do homossexual não goza desse mesmo atributo, ainda que seja "hoje em dia", embora eu reconheça as pessoas que não têm medo de falar a respeito, como a própria Gancia.

Tem dois caminhos que pensei: por um lado sim, o desejo é de ordem íntima e não sabe forçar os meus conhecidos que mencionei ou quaisquer outros em situação semelhante a apresentarem sua orientação. Por outro lado é estranho essas pessoas terem amigos, ou pessoas com quem dividem o mesmo ambiente e se sentirem agindo dessa forma, gerando essa espécie de roda sem fim. Se eu prezo tanto a minha intimidade assim por que razão eu haveria de me relacionar com amigos com os quais não digo certas coisas, ainda que dividamos os mesmos espaços, troquemos intimidades e convivemos juntos quase todos os dias?

Talvez é para o biscoito permanecer ali, no mesmo lugar. Só que chega um dia que ele estraga...e fede. E não há saia justa que dê conta.





segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Adesivado


Adesivos! Adesivos! Tome seu caminho pela trilha figurinha-autocolante. Reluzentes todas elas. Que no final da estrada, a casa de espelhos, toda transparente, está tomada por completo por adesivos. Nem macacão de piloto de F-1 conseguiu tamanha proeza.

Mas fique certo de que a palavra são "stickers". E não leve um dicionário. Neste caminho eles não são de bom tom e há de provar pra este universo de que toda palavra estranha é dita com todos os efes e erres. Ainda que elas não signifiquem nada.

A loucura tem algo assim, não é mesmo?

Toque na casa de adesivos. Está mole. Não há mais espelhos, ainda que muitos deles em tinta fluorescente diga "si-mesmo"...Mas no apagar da luz, a tinta fosforecente, mostra outra coisa. Mostra nada.

E nada há dentro da casa. E adesivos se desfazem no ar.

Ali não há casas. Há. São todos com passos de tartaruga. Carregam suas casas também. Suas identidades. Seus adesivos. Para que todos vejam. Mas só os que forem de figurinha repetida. Fora da repetição tudo é um grande mar de tédio e bocejo.

Então era melhor dormir, para ver a realidade. Longe dos campos forjados, adesivados.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Olhar de si

Os existencialistas, a reboque de Nietzsche recusavam a ideia de um "si mesmo", em nome da mudança. Não me lembro do nome do pré-socrático (Parmênides?) que fala do conhecimento como um fluxo que muda, tal como um rio.

Lacan vem com o seu estágio do espelho em que para a emergência do "eu" é paradoxalmente necessário o olhar do Outro. O Outro do inconsciente internalizado em nós mesmos, mostrando onde somos onde não pensamos.

Nas redes sociais, fotos da academia, da viagem, marcações no foursquare, stickers do get glue, instagram e ganham mais significado que o exercício, a viagem, os lugares, os filmes vistos ou a comida saboreada. O prazer é puramente escopofílico. E o olhar do outro aprova esses espelhos tão turvos, já que o real, é indizível.

Enquanto isso, nos esquecemos do que aconselha Riobaldo em Grande Sertão Veredas, que o segredo da viagem é o caminho, e não o seu final. Mas ele era homem do sertão, de grandes distâncias...bem longe desses 2013 sem compartilhamento de ideias em si e só exposições narcisistas na nossa eterna busca de aprovação do olhar dos outros.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Equilíbrios

"Deletar, não! Não quero ser tão radical." Luane Dias

Há exatamente um ano, o Evandro aproveitou que eu passaria a última semana de férias do meio do ano fora de Araruama e me sugeriu: desligue o facebook por uma semana pelo menos e você verá o resultado. Foi uma experiência ótima, apesar de sempre aparecerem as mensagens desesperadas querendo reafirmar o sentido de urgência. Sobre isso a Eliane Brum tem um texto ótimo falando a respeito.

O caso aqui é que agora me bateu aquele senso de Luane Dias ("deletar o facebook não, não quero ser tão radical!") e pensar justamente num clichezão que é clichê por justamente ser ideal: um ponto de equilíbrio entre a existência dentro e fora da internet. Tudo bem que essa divisão para mim não é radical, mas quero pensar exatamente sobre pontos específicos em que essa distinção será necessária.

A última viagem para Curitiba me fez ver bem essas coisas. Pude curtir bem o passeio sem estar conectado 24 horas por dia e tudo o mais, ainda em que em certos momentos eu possa ter compartilhado uma foto aqui ou outra acolá em uma rede. Se eu me sentisse culpado em relação a isso e preconizasse "ah não posso fazer isso de jeito nenhum", aí sim estaria esquisito pois estaria postulando a mim mesmo uma proibição para algo que no fundo não me seria saudável.

Penso por exemplo nas ilusões de Escher do passeio que fiz com Matias e em como o tempo naquela cidade vive mudando. Pude sentir isso e depois ter um ótimo chá. O passeio que refiz 18 anos depois me faz reconectar com o menino que vivia numa época em que o máximo em fotografia era torcer pro filme de 12 poses não queimar (o de 36 era mais caro). Aliás me bateu uma emoção quando vi a mesma farmácia na esquina em frente ao Jardim Botânico na qual comprei o filme quando cheguei em Curitiba em 1994. Ao mesmo tempo é engraçado conviver com mensagens do tipo "onde está você?", como se houvesse uma cobrança para estar a postos. Eliane não está errada.

A pergunta clássica do mesmo Evandro: E como você se sente com isso, Odilon? Ele mesmo notou uma certa intranquilidade minha no regresso. Era como se tudo estivesse misturado ali: a vontade de rever as pessoas, fazer os passeios do jeito que eu quero, contar as novidades, carregar uma mala pesada e tudo isso pra ser vivido no "real" enquanto as "cobranças" do virtual estão ali. É angustiante, pesado até o momento em que paro, penso e digo, como aquele mene do cachorrinho "Qual a necessidade disso?".

O ponto de equilíbrio está justamente em seguí-lo, ainda que ele não esteja em seu perfeito ideal. Explicando melhor e sendo menos abstrato: se estou curtindo o resto de férias na presença de amigos do jeito que eu quero que eu continue fazendo exatamente isso a despeito de qualquer cobrança que possa surgir. Na verdade essas cobranças não são dos outros, mas internamente minhas. E é justo com elas que eu tenho que lidar de uma maneira mais tranquila.

Assim sendo, nessa busca da tranquilidade esse é o caminho necessário para mim conseguir uma melhor tranquilidade e qualidade de vida. Os equilíbrios são ideais? São...Mas que ao menos eu tenha o direito de perseguir o meu equilíbrio ilusório da maneira mais interessante e livre para mim, sem cobranças que possam encher a paciência.

Ps: A escolha de Luane para ilustrar esse texto e aquela foto desta celebridade nascida no virtual com esses óculos espelhados e mostrando em parte os seus olhos não foi à toa.


terça-feira, 23 de julho de 2013

O investimento de Narciso


Já postei aqui, diversas vezes, quando quero pensar sobre o amor sobre o investimento que é feito no "eu". Seja com aquele jargão psicanalítico, herdeiro do texto do Freud de 1914, ou mesmo no conselho da amiga pra outra "fofa, você tem que ter amor próprio, dane-se se vocês terminaram" e tudo o mais. Está no imaginário coletivo.

Aí na madrugada aparece esse tema mais uma vez. Pensei na questão dos investimentos que fazemos e quando nos damos conta de que estes objetos investidos de amor se perdem e aí desabamos.  E então nos recolhemos, sofremos, nos martirizamos, isso quando não colocamos toda a culpa no outro. Diante da perda amorosa, são várias as respostas possíveis.

Daí eu, que gosto de extrapolar, pensei nas confusões que vejo em redes sociais. A com estranhos porque um quer valer a sua opinião como soberana e digna de ser curtida e admirada. E as inúmeras que vejo entre amigos na qual, aquela pessoa que você ama (amizade é um investimento amoroso) discorda de uma ideia sua. Ele não ama, não se interessa e ao mesmo tempo rechaça aquela ideia que você guarda para si com tanto carinho. Como pode meu amigo ou minha amiga discordar de mim assim?

E daí, o sentimento de aniquilação, que não dorme cria toda a confusão com um objetivo: destruir aquele outro que não te ama. Um objeto destruído pelo eu é mais vantajoso que um outro que me causa desprazer por não concordar comigo. Antes nada do que algo negativo. Ou seja, mais vale eu acabar com aquela opinião do meu amigo e convencer de que estou certo, ou em casos extremos, acabar com a amizade, do que manter a discordância que tanto me incomoda e interfere no meu eu, transmutado na opinião minha de algo, essa traduzida como um objeto.

Outra situação interessante é a timidez. Eu mesmo me considero tímido em muitas situações. E daí me dou conta de que essa timidez é uma tentativa tipicamente neurótica de não sentir o ego abalado. Por exemplo...

... uma pessoa está numa festa e se interessa por outra. A timidez gera um medo que diz assim "não vá até aquela outra pessoa que ela vai te rechaçar. O seu "eu" não maravilhoso vai se mostrar completamente desinteressante, a desistência do outro vai evidenciar isso em você. Te causará esse desprazer. Então a saída é não fazer nada, ainda que o resultado seja exatamente igual ao de quando se é rejeitado, isto é nada acontece tanto para aquele tímido que "não chegou junto" como para aquele que levou o fora.

A diferença no caso é que o tímido, ali, paradão, se sente no controle da situação. "O neurótico goza com o seu sintoma" diria Freud e é mais ou menos por aí. Ou "eu" tenta de alguma forma se manter inteiro e gera a fantasia da rejeição do outro (se eu for, vou me dar mal, vou me ferrar) na qual o enredo está sob o controle de mim e não da ação (real) do outro.

Tem um paradoxo interessante nisso que, ao mesmo tempo em que é um investimento narcísico (não entendido aqui como uma patologia, por favor) é também a eleição de um outro como grande avalista do seu desejo. O estranho com quem brigo por opinião, o amigo em que investi uma relação pra concordar comigo em tudo, ou aquela pessoa ali no canto da festa na qual não chego junto. Para todas elas entregamos um poder que ilusoriamente era nosso.

No meu caso específico, uma chave talvez seja se perceber ridículo - coisa que reparei no divão, por exemplo- e perceber que tem muitas coisas além. Que viver implica sim perdas, ou então era melhor nem ter nascido e daí não ter nem prazer nem desprazer, como é na morte. Lidar com as perdas é difícil, mas nos obriga a deparar de que não somos um inteiro perfeito, mas que somos quebrados e fragmentados em diversas ações, somos faltosos e é justamente essa falta que move o mundo.

Enxergo aí uma chave que me faz pensar sobre a compulsão e a timidez: um investimento falho em um eu inteiro que simplesmente não existe. Enfim, esse assunto ainda rende, não é conclusivo, apesar da confusão que está esse texto. Tipicamente liquididificado.

Protesto

Faz um bom tempo que isso aqui tá abandonado, meio que pegando carona nos protestos que estão rolando no Brasil e tudo e tal. E em terras fluminenses a coisa continua com prisões arbitrárias, tiro, porrada e bomba. Algo que os moradores das periferias e favelas conhece há muito tempo... Mas antes que me taquem pedras, não justifico nenhuma forma de violência, seja na Vieira Souto ou na Passarela 9 da Avenida Brasil.

Os ânimos estava acirrados a ponto de eu ser questionado no facebook por conta de uma charge do Latuff - criticando os coxinhas - de ser um extremista de esquerda sem visão política da realidade ou algo do tipo. Claro que não preciso ficar dando satisfação pra a, b ou c sobre os meus pensamentos desde o momento em que eles não interferem no direito de ninguém, mas é um tanto quanto ilustrativo de como estavam os ânimos.

Sim, teve uma galera que preferiu ficar resmungando e dizer "ah é coisa de coxinha e vla bla bla". Isso pra mim é uma atitude conservadora pra quem se acha libertário. Se você ao menos é contra ao que está sendo dito, faça você mesmo então seu protesto, se organizando, militando, consultando as lideranças e fique pronto(a) para o tiro, porrada e bomba.

Claro, tem o coxinhismo do "sem violência" ou do mandar sentar. Tem aqueles ativistas de facebook que acham ruim porque o trãnsito fica uma merda pra chegar em casa e depois quer pagar de iconoclasta falando mal do Papa. Se você é contra manifestação por direitos legítimos você tão babaca quanto à ICAR pelo conjunto da obra e a tal da cartilha nefasta e preconceituosa que ela anda distribuindo. Enfim, esse é outro assunto. Deixa eu sair da teoria e contar a minha experiência pessoal em relação a isso.

Fui para o protesto em Cabo Frio, maior cidade das Baixadas Litorâneas Fluminenses, me encontrar com um amigo lá. O ônibus parou na entrada para o Centro da cidade e uma mulher com medo - justificável- de levar tirou ou algo do tipo.

Ao chegar encontrei muita gente jovem, muitos estudantes. Mensagens inócuas sim, vazias como "contra a corrupção" e coisas do tipo, mas outras bem direcionadas. O alvo era a empresa Salineira, que detém o monopólio do transporte na região e conta como um de seus acionistas o onipresente Jacob Barata, aquele mesmo que manda e desmanda no transporte rodoviário da capital.

Boa parte dos ônibus é intermunicipal. Até porque a região não ficou imune à praga da criação de trocentos municípios. Assim sendo, se você vai de Araruama a Cabo Frio (40km) você paga os mesmos R$ 4,00 que alguém saindo de São Pedro da Aldeia ou Arraial do Cabo até aquela cidade, mesmo distante 10 km (ou menos) de Cabo Frio.

Rolou o barulho, mas as passagens locais não baixaram. Só o intermunicipal de 4 passou para 3,80 por determinação do Governo Estadual.

O legal é que nós temos o desejo neurótico obsessivo de querer determinar tudo (beijos Viviane Mosé) e morremos de medo do incerto. Claro, "é preciso estar atento e forte" com manobras conservadoras do pior tipo em uma situação como essa. Mas isso não é desculpa pra fazer a linha iconoclasta de botequim e ficar apenas pixando de "coxinha" quando você não faz absolutamente nada.

Essas manifestações me lembram, num primeiro momento o objeto "a" criado por Lacan, aquele que não pode ser dito. No entanto vejo as manifestações como um discurso. Tudo bem, é da classe média, ou daqueles que outrora não estavam engajados. Mas isso não desqualifica o movimento. Se há a necessidade de coisas para serem ditas, que sejam. É legítimo. Ao que parece os que criticam a falta de democracia por vezes agem como reais reacionários.

Por outro lado tem aquele discurso mal direcionado e a papagaiada carnavalesca. Faz parte sim. E tem aquela hipocrisia do coxinha que ouve Charlie Brown Jr porque "é contra o sistema" e curte grafite, mas quando o bicho pega e você fala "fulano, você vai no protesto"..."ah não vou nessas paradas não, sabe como é, o bicho pega e bla bla bla"

Menciono tudo isso porque em mim habita o doido revolucionário, o coxinha do face, o medroso que só se revolta ouvindo aquela musiquinha entre tantas coisas e, obviamente, é importante revelar em mim cada um deles, mais que fazer o papel de inquisidor. E participação política é muito mais que uma passeata. E opressão policial é mais que as balas de borracha. Maré e Amarildo não me deixam mentir. 

De qualquer forma foi aberta uma das várias caixas de pandora (algumas já abertas há séculos) que parte da sociedade resolveu mexer e/ou olhar. E isso significa muita coisa, ainda que não se tenha um significado completo dos protestos. 

Ainda bem, porque cabe espaço para mais. Como diria o Basílio, trolando um clichezão ridículos desses, mas bem apropriado pra o momento "definir é limitar"

terça-feira, 18 de junho de 2013

Do pessoal e do coletivo



Estou há tempos protelando novas postagens por aqui. Especialmente agora que é outono, estação simbólica não só pelo fato dela ser a minha preferida, mas também quando ocorre o meu rito pessoal maior: o meu aniversário.

E nessa virada dos 35 tenho percebido de forma mais intensa as minhas emoções. Ao mesmo tempo inicio um relacionamento amoroso de forma mais tranquila e nem por isso menos intensa. Por vezes um sorriso desconcertante ao ouvir um "Eu amo você" me diz muito mais ao meu respeito do que uma série de elocubrações.

Acontece que eu sou prolixo.

E sou do tipo que sempre penso nas interseções da história coletiva com a história individual. E isso acaba mexendo com certas emoções em outros campos, em outros relacionamentos amorosos.

Estamos cá agora vivendo toda essa onda de protestos no Brasil. A história coletiva acontecendo. E em meio a tudo isso vejo pelas redes sociais uma pá de opiniões. Acaba que uma, mesmo que sendo uma merda, ganha mais relevância que a outra. Afinal vem na cabeça: poxa, vem de alguém que a gente ama, convive por mais de 20 anos desde o momento que nasceu etc etc etc. Mas antes desse "vir na cabeça" vem uma raiva acompanhada por uma série de ressentimentos.

E por que eles aparecem? Um exercício mental me lembra de que por mais que eu queira ignorar o fato, tem a história pessoal. Nela vem uma enxurrada de ressentimentos por parte da outra pessoa. E isso mexe comigo. Admitir isso é um primeiro passo.

E quais seriam os outros?

Diante das opiniões pessoais desse outro na qual vejo no intertexto uma série de ressentimentos o exercício da sabedoria a ser feito, antes do "deixa pra lá, é irrelevante" é pensar na clássica pergunta que, vira e mexe, o Evandro me faz: "Odilon, isso muda alguma coisa na sua vida?". É um questionamento libertador.

No caso não muda em nada. Sou talvez como Ló ao sair de Sodoma e Gomorra e segue em frente em busca de uma nova terra. A esposa vira para trás, vira uma estátua de sal. E as estátuas de sal devem ficar onde estão, até serem dissolvidas. Ela não há de salgar o meu prato.

E no mais, tem algo muito, mas muito maior acontecendo a minha volta...seja pessoalmente, seja no coletivo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dos balões


Sim, eu me lembro de quando o chamei para ir comigo." Mas esse balão é só de enfeite. Tem como contemplar o céu e as estrelas sem necessidade de subir nele. O céu, visto de baixo é bem maior. Não que eu não gostasse de ver o que há ali em cima com você, mas isso não é tudo". Isso foi tudo que me foi dito, mas...

... de repente estávamos ali no meio da tempestade enquanto subíamos e poderíamos ver toda a paisagem por cima. Disse-lhe que não havia problemas, que ele era bom navegador, que tirava aquilo de letra, ainda que o balão não fosse perfeito e que ajustes eram necessários.

"ah legal!". Isso foi tudo que me foi dito e...

... cessa a tempestade e não sei se caí, não sei se foi sonho, ou apenas um torpor momentâneo. Só sei que estava no meio do deserto. Sem balão, sem tempestade, sem a companhia, sem a habilidade. Senti-me só no frio de uma noite seca com muitas estrelas. Todas inalcançáveis, quaisquer que fossem os balões.

Isso foi tudo que pensei, logo...

... dei conta de que o único diálogo era comigo mesmo. Ali. O que restava era fazer o meu balão. Do meu jeito. Eu era um bom navegador. Não me importunavam a secura ou as aves que piavam no céu disputando alguma coisa que eu não conseguia ver. Vi que o conhecimento estava comigo e que só me restavam achar as peças pro meu próprio voo, para daí decidir quem ia comigo ou não. Mas tudo vinha do zero e...

...esse nada, esse vazio, essa vontade, era tudo que eu tinha, mesmo que não dito.

sábado, 23 de março de 2013

Como liqudidificar o carnaval?

No meu infame trocadilho com o nome desse blog penso que o tempo pode ser um aliado ou cruel motor para a liquididificação. Eu era para ter feito isso com o carnaval, que já foi há mais de um mês (daqui a pouco já é Domingo de Ramos) e nada foi mencionado aqui.

Talvez porque há experiências que são mais intensas e ao invés de serem colocadas numa espécie de associação livre, elas são melhores se forem sentidas. E no fim vem a elaboração textual, apesar de achar meus últimos textos muito fracos nesse sentido.

É engraçado agora recordar tudo. A figura da barca que vai e volta na mesma embarcação  para ver se resolve algo. O velho que me diz algo que não entendo. Os moços do 472. A sexta-feira. A necessidade de comprar bebidas. Aquele bloco simples no Leme com cordas. O multibloco dessa vez bem mais cheio e que rendeu fotos como a que ilustra esse post. A necessidade por descanso. O meu domingo cedo e maquiado com Osmar, Jefre e Átilas. A noite com comentários de Fabiana e volta pelo Centro do Rio. Rir com Sandro e Jadir e rever outras figuras. O reencontro com alguém que não vi pessoalmente e a noite ao som do samba da Portela. A manhã ressacada e eu perdendo uma estação do metrô. Aquela segunda de pura pasmaceira, que é a praga do carnaval, mas torcendo para Fabi se dar bem em seus desfile (e assim foi!). A terça-feira no Rio Maracatu e depois na Banda de Ipanema. O ar de desleixo que aparece quando eu bebo e me dou conta que esse desleixo é como eu gostaria de ser (ou na verdade sou). As revelações falsas de um espírito do Natal passado do meu amigo. Outra volta pelo mesmo lugar e dessa vez a noite é do Sandro.

... a quarta-feira de tão bonita merece uma linha separada. Meu coração agora bate mais devagar que em outras situações parecidas, porém com grande intensidade. Achei que nunca mais sentiria isso, mas o amor tem dessas coisas...

(e me obriga a pisar em ovos...)

... a quinta feira com uma figura maluca dos Andes que só Deus sabe como chegou no Brasil. A noite doida do meu melhor amigo que não será narrada no programa de TV vespertino. E vem a sexta...o sábado no fim do horário de verão eu deixo a Manchester Fluminense que estava no ensaio da Viradouro para ver a Manchester de fato. Para um domingo mais calmo e uma segunda feira de reencontro com parentes, de viagens emocionais, antes mesmo de voltar para casa.

Assim foi, assim tá registrado. Os neuróticos-obsessivos precisam disso. Mas que se foda, o gostoso é dar uma gargalhada e perceber que assim como as criações no texto, muita coisa é maquiagem.