Ultimamente tenho acompanhado textos e discussões, tanto aqui como em outros países, sobre o preconceito que cerca os gays ditos afeminados. Ela se dá de várias formas, mas quando se discute a questão do "não sou/não curto afeminados" aparecem estes discursos: é só uma questão de preferência por um lado e, por outro, a questão do quanto esses gostos estão carregados de preconceito, uma vez que nossos gostos são influenciados pela heteronormatividade. Em uma sociedade machista que rejeita o feminino é fato que não é apenas uma "questão de gosto".
Essa semana, em uma discussão que li, uma pessoa postou um print de uma conversa no whatsapp. Era o print de dois rapazes que, pelo jeito, se conheciam há pouco tempo. O rapaz A dizia ao rapaz B que ele era legal, que tiveram um bom encontro, mas que infelizmente, B era afeminado e isso dificultaria, por exemplo, apresentá-lo aos pais. O rapaz B se ofendeu e, na tentativa de A em se refazer e dizer "podemos ser amigos", B disse-lhe que não poderia ser amigo de uma pessoa homofóbica.
Logo em seguida li um comentário que me chamou a atenção. Dizia que os gostos das pessoas não têm sido respeitados e que quem não gosta de afeminados cai na "malha fina" e recebe o rótulo de pessoa preconceituosa. Não ficou muito claro pra mim, mas também a pessoa dizia sobre aqueles que em um primeiro momento fingia não ser afeminada e que depois se revelava e daí achava ruim pelo fato da pessoa não curtir. Nesse sentido o comentário dizia que é importante ser quem somos e deixar as pessoas gostarem ou não da gente, pois ninguém se relaciona com quem não gosta. E que essa mudança de comportamento é algo incômodo.
Penso que independentemente de se pensar as preferências como construção ou não, os gostos devem sim ser respeitados. É muito ruim alguém querer forçar uma pessoa a qualquer coisa que ela não gosta. E sendo específico no caso, se o cara não curte afeminado, que cada um tome seu rumo. O cara que não curte tem seu gosto respeitado e a pessoa afeminada em questão também não é obrigada a ficar com alguém que tem essa visão heteronormativa.
Um ponto interessante que esse comentário trouxe foi o lado de deixar as pessoas gostarem ou não da gente. Recentemente li um texto (infelizmente não tenho o link dele) em que um gay de origem asiática nos EUA dizia que era o momento das pessoas não brancas pararem de reclamar dos brancos que a rejeitam e se relacionarem com quem gostam delas. Acho isso importante, por questão de amor próprio, ao mesmo tempo em que não gosto da ideia do "deixar de lado" quando o assunto é discriminação e preconceito, pois parece que está varrendo a sujeira pra debaixo do tapete. Penso que é importante sim, o valor a si próprio e não suplicar atenção para quem tem determinado privilégio social, mas também bem como apontar o racismo. Nenhuma mudança é possível se tudo fica dentro da mesma bolha.
Outra questão é de também não nos submetermos a uma "persona" que não somos só pra se ajusta ao queé aceito socialmente. Obviamente, não cabe uma mera crítica, pois muitas vezes fazemos o uso dessa imagem aparentemente irreal como uma forma de defesa. Nesse sentido, na medida em que a pessoa toma consciência de quem ela é e se fortalece, sendo essa uma ação difícil e não apenas algo individual, essa persona se torna desnecessária.
O que não faz sentido é a questão da "malha fina". Ou que os afeminados estão impondo uma "ditadura". Ela seria possível sim, se estivéssemos em uma sociedade em que o gay afeminado fosse o mais desejado e o menos vulnerável a sofrer violências de todo tipo. Acontece que a realidade é muito diferente. Por isso é um equívoco, em uma sociedade em que o afeminado está sujeito a sujeito a uma série de violências, baseadas em uma sociedade que coloca o que é tido como feminino em condição de subalternidade. Esse discurso (estão querendo impor que se gostem dos afeminados, o gay másculo está sendo desvalorizado) , que sempre é recorrente nestas questões se assemelha aos de "racismo reverso", "heterofobia" e "misandria".
Em relação à "modinha", cabem outras observações. Por um lado há sim pessoas que estão revendo seus preconceitos em relação a essas questões. Eu mesmo, no decorrer da minha vida tive que rever e mudar meu pensamento em relação a isso. Já fui muito preconceituoso, até porque ninguém nasce "desconstruidão". Nesse sentido apontar que a pessoa faz por modinha não faz sentido. Por outro lado, existem sim pessoas que fazem um discurso anti heteronormativo, mas isso se dá só na teoria, pois na prática se revela igualmente preconceituosa.
Sendo assim, o importante é podermos nos fortalecer e para isso observar bem o mundo que nos cerca a fim de que nos fortaleçamos e também possamos rever nossos preconceitos e ter consciência dos nossos privilégios, quando existirem. Perceber que existem assimetrias nas relações e que o processo de rever essas coisas não deve ser uma "moda" para parecer desconstruído, palavra tão em evidência. Dessa forma pode-se ter um diálogo real e verdadeiro e, de fato, conviermos com a diversidade que tanto falamos.
quarta-feira, 31 de maio de 2017
domingo, 28 de maio de 2017
Internação Compulsória
Vi esse texto no feed do meu Facebook e quem compartilhou me disse que ele merecia ser lido. Li e reli várias vezes, até porque e me chamou a atenção por ser algo relacionado à saúde mental, tema do meu interesse.
Daí resolvi fazer esse texto.
A autora traz a experiência em um atendimento a uma pessoa envolvida com drogadição e como a pessoa tinha vários problemas, incluindo exploração sexual, AIDS , tuberculose e sífilis.A partir dessa experiência ela faz a defesa da internação compulsória, por pensar que é uma forma de salvar vidas para quem está em uma situação grave e, por isso entende como um ato de caridade. Quem é contra a internação, segundo o texto, são pessoas más e que buscam ganhos políticos que tem apoio de uma claque imbecil de esquerda.
É fundamental ouvir tanto as pessoas que passam por essa situação como as pessoas que trabalham com elas para que entendamos a situação não como caso de polícia, mas que tem a ver com saúde pública. Adriana nesse sentido traz a questão para esse campo a partir da sua experiência e pauta a questão no campo da saúde mental e não no policial.
Quem está em uma situação grave como a vivida na cracolândia, de fato, não é algo como "protesto". Existem inúmeras variáveis e uma questão como uso abusivo e dependência química devem ser vistsa por um ângulo mais abrangente, que leve em consideração também questões sociais e econômicas, dada a situação de vulnerabilidade.
Ela aponta que existem pessoas que defendem a existência da cracolândia. Entre os críticos da internação compulsória não vi quem defendesse essa existência, mas se a autora o viu cabe realmente a crítica. Nenhuma pessoa sã pode dizer que a cracolândia é um lugar legal.
Vejo falhas no texto ao defender a pura internação compulsória sem um viés crítico a ela. Especialmente vindo de quem atende pacientes com esses problemas. Há pesquisas tanto no Brasil (você pode ler esses texto aqui e aqui,como exemplos) como eu em outros países que mostram que essa questão é muito controversa, pois não há resultados que afirmem que a internação compulsória é eficaz. Aliás é bom lembras que existe em alguns países a ideia de internação "semi-compulsória" como substituição a uma pena em casos de crimes de delitos não graves com relação a dependência. Políticas Públicas devem sempre observar esses dados e não apenas relatos de casos pontuais, ainda que eles também tenham sua importância.
Outro erro e apontar que as pessoas que são contrárias à internação o fazem por não conhecer a cracolândia ou por não ter um familiar nessa situação. Essa afirmação é tão falaciosa quanto se eu aqui apontasse que todas as pessoas a favor da internação compulsória são malvadas que querem apenas tirar as pessoas de circulação prendendo-as.
Existindo a internação compulsória não podem ser negligenciadas as questões éticas envolvidas, especialmente no que diz respeito ao poder de decisão das pessoas, entendo que existem casos extremos que esse poder não existe. De qualquer forma para haver o tratamento, que não é apenas a internação em si, mas envolve mais coisas que não são pontuais, é necessário o envolvimento e a participação dos pacientes.
Outras implicações tanto do ponto de vista da saúde e o Direito, através de leis entende isso é a participação e envolvimento das redes que cercas as pessoas com esses problemas. Nesse sentudo cabe ao Estado oferecer condições para isso. No entanto não há esse aprofundamento no texto da autora, que prefere trazer uma visão sociológica do século XIX na qual se pensa uma sociedade em ordem e com pessoas desajustadas a essa ordem, pessoas que são chamadas de farrapos humanos que abrem mão de suas vidas sem fazer uma crítica necessária sobre de que maneira o nosso modelo de sociedade cria as cracolândias.
Eu gostaria muito que ela, como profissional, relatasse além dos casos, quais as condições de trabalho e do tratamento oferecidos pelos agentes públicos, a forma como as famílias são envolvidas e em que sentido ela e seus colegas tem se mobilizado e cobrado dos governos para que a situação melhore.
Sendo assim, não cabe apenas afirmar que as pessoas contra a internação compulsória fazem uma claque de esquerda demagógica.
O que há é o questionamento necessário de como essa política tem falhas. E por se tratar de política pública de saúde isso deve ser levado em consideração. A pura retirada das pessoas das ruas e jogadas em clínicas. Muitas dessas clínicas, aliás, estão envolvidas no fundamentalismo cristão, que tem ganhado força no Brasil e o que se tem é o favorecimento desses setores ao invés de um tratamento devido Não é a toa que membros da chamada bancada religiosa tem interesse nessa forma de internação.
A partir do momento em que possa se fazer uma discussão mais ampla, a partir de descobertas que os pesquisadores de diversas áreas tem feito e trazido para o tratamento das pessoas envolvidas na dependência do crack (entre outras drogas) pode-se formular políticas que garantam que tanto o paciente tenha bons resultados e que pessoas como a Adriana possam realizar de forma plena e segura o seu trabalho.
Daí resolvi fazer esse texto.
A autora traz a experiência em um atendimento a uma pessoa envolvida com drogadição e como a pessoa tinha vários problemas, incluindo exploração sexual, AIDS , tuberculose e sífilis.A partir dessa experiência ela faz a defesa da internação compulsória, por pensar que é uma forma de salvar vidas para quem está em uma situação grave e, por isso entende como um ato de caridade. Quem é contra a internação, segundo o texto, são pessoas más e que buscam ganhos políticos que tem apoio de uma claque imbecil de esquerda.
É fundamental ouvir tanto as pessoas que passam por essa situação como as pessoas que trabalham com elas para que entendamos a situação não como caso de polícia, mas que tem a ver com saúde pública. Adriana nesse sentido traz a questão para esse campo a partir da sua experiência e pauta a questão no campo da saúde mental e não no policial.
Quem está em uma situação grave como a vivida na cracolândia, de fato, não é algo como "protesto". Existem inúmeras variáveis e uma questão como uso abusivo e dependência química devem ser vistsa por um ângulo mais abrangente, que leve em consideração também questões sociais e econômicas, dada a situação de vulnerabilidade.
Ela aponta que existem pessoas que defendem a existência da cracolândia. Entre os críticos da internação compulsória não vi quem defendesse essa existência, mas se a autora o viu cabe realmente a crítica. Nenhuma pessoa sã pode dizer que a cracolândia é um lugar legal.
Vejo falhas no texto ao defender a pura internação compulsória sem um viés crítico a ela. Especialmente vindo de quem atende pacientes com esses problemas. Há pesquisas tanto no Brasil (você pode ler esses texto aqui e aqui,como exemplos) como eu em outros países que mostram que essa questão é muito controversa, pois não há resultados que afirmem que a internação compulsória é eficaz. Aliás é bom lembras que existe em alguns países a ideia de internação "semi-compulsória" como substituição a uma pena em casos de crimes de delitos não graves com relação a dependência. Políticas Públicas devem sempre observar esses dados e não apenas relatos de casos pontuais, ainda que eles também tenham sua importância.
Outro erro e apontar que as pessoas que são contrárias à internação o fazem por não conhecer a cracolândia ou por não ter um familiar nessa situação. Essa afirmação é tão falaciosa quanto se eu aqui apontasse que todas as pessoas a favor da internação compulsória são malvadas que querem apenas tirar as pessoas de circulação prendendo-as.
Existindo a internação compulsória não podem ser negligenciadas as questões éticas envolvidas, especialmente no que diz respeito ao poder de decisão das pessoas, entendo que existem casos extremos que esse poder não existe. De qualquer forma para haver o tratamento, que não é apenas a internação em si, mas envolve mais coisas que não são pontuais, é necessário o envolvimento e a participação dos pacientes.
Outras implicações tanto do ponto de vista da saúde e o Direito, através de leis entende isso é a participação e envolvimento das redes que cercas as pessoas com esses problemas. Nesse sentudo cabe ao Estado oferecer condições para isso. No entanto não há esse aprofundamento no texto da autora, que prefere trazer uma visão sociológica do século XIX na qual se pensa uma sociedade em ordem e com pessoas desajustadas a essa ordem, pessoas que são chamadas de farrapos humanos que abrem mão de suas vidas sem fazer uma crítica necessária sobre de que maneira o nosso modelo de sociedade cria as cracolândias.
Eu gostaria muito que ela, como profissional, relatasse além dos casos, quais as condições de trabalho e do tratamento oferecidos pelos agentes públicos, a forma como as famílias são envolvidas e em que sentido ela e seus colegas tem se mobilizado e cobrado dos governos para que a situação melhore.
Sendo assim, não cabe apenas afirmar que as pessoas contra a internação compulsória fazem uma claque de esquerda demagógica.
O que há é o questionamento necessário de como essa política tem falhas. E por se tratar de política pública de saúde isso deve ser levado em consideração. A pura retirada das pessoas das ruas e jogadas em clínicas. Muitas dessas clínicas, aliás, estão envolvidas no fundamentalismo cristão, que tem ganhado força no Brasil e o que se tem é o favorecimento desses setores ao invés de um tratamento devido Não é a toa que membros da chamada bancada religiosa tem interesse nessa forma de internação.
A partir do momento em que possa se fazer uma discussão mais ampla, a partir de descobertas que os pesquisadores de diversas áreas tem feito e trazido para o tratamento das pessoas envolvidas na dependência do crack (entre outras drogas) pode-se formular políticas que garantam que tanto o paciente tenha bons resultados e que pessoas como a Adriana possam realizar de forma plena e segura o seu trabalho.
sexta-feira, 26 de maio de 2017
O sexo que é?
Li que esta semana a Ru Paul recebeu uma série de comentários agressivos e até mesmo ameaças por ter desclassificado uma participante do seu reality show. Li um texto que associa a violência cometida por parte do público gay à heteronormatividade. Vale a pena lê-lo aqui.
Eu não descarto a ideia do texto, mas penso que, sendo a própria heteronormatividade como uma das características de uma sociedade machista, gosto de ir além dessa ideia e pensar na própria construção das masculinidades hegemônicas tendo como um de seus alicerces a violência. Por isso sempre é importante refletir sobre os papéis de gênero.
Nos estudos de masculinidades e violência são recorrentes o uso de dados que associam o alto número de mortes violentas com o comportamento masculino. Homens jovens em especial lideram várias estatísticas de homicídios e outras formas de morte violenta.
Diversas áreas do conhecimento têm contribuído para essa reflexão, especialmente no que diz respeito aos aspectos da própria sociedade sobre o papel esperado para o comportamento masculino. Ser "homem de verdade" muitas vezes significa correr riscos e usar a violência como forma de resolução de conflitos. Nesse sentido a psicologia e a psicanálise também têm as suas contribuições.
Recentemente tenho procurado textos da psicanalista feminista Nancy Chodrow. Pelo que observei ela questiona a premissa tradicional freudiana- de base biológica, trazida pra psicanálise- e lacaniana - que relê Freud tendo como uma de suas bases a antropologia de Levi Strauss- a respeito da diferenciação entre meninos e meninas. Aliás estamos em tempos de maior questionamento a respeito do binarismo sexual, mas para aprofundar sobre isso seria necessário outro texto. Vou me ater a questão proposta por ela.
Nos Três Ensaios, Freud diz que a diferença sexual que as crianças fazem a partir do momento em que meninos e meninas pensam ser possuidores do pênis, até o momento em que o menino percebe que ele tem a menina não (complexo de castração) e a menina percebe que ela não tem o pênis (inveja do pênis). Lacan retoma isso no campo da linguagem e do simbólico em que a mulher é o "sexo que não é", ou, como dizia o meu ex professor Clauze, uma lógica do sistema de numeração binária 0 e 1. Ok, vai ter uma ruma de lacanianos dizendo que não é assim, que Mulher é um conceito, que não é a mulher real (ou da realidade) etc e tal, mas é fato que há críticas a sua obra nesse aspecto.
Chodorow coloca a noção de que ser homem não é uma afirmação fálica, mas sim uma negação do feminino. Ao invés de uma afirmação, o masculino se dá através de uma negação. Até relacionei nesse sentido com o ritual de passagem descrito na tribo Anga da Nova Guiné em que os rapazes, para fazer a transição para a vida adulta, devem engolir o semen de jovens mais velhos como forma de expulsar o efeito do leite materno ingerido quando criança.
Em nosso mundo ocidental, ser homem muitas vezes é negar tudo aquilo que é postulado como feminino. A aproximação com o feminino é motivo de piada, desonra e mesmo violência. E está na base das diversas formas da LGBTfobia. E de que maneira essa violência usada na construção do masculino atinge homens cis não heterossexuais, sendo nós também alvos dessa violência machista?
A nossa orientação sexual, por mais que existam várias discussões sobre se nascemos com ela ou se a aprendemos, é modulada ao longo dos anos. E os meninos ao longo do seu desenvolvimento vão aprendendo que a violência, independentemente de sua orientação, é a maneira como são resolvidos os problemas, que é a forma da afirmação de sua identidade, do seu ego.
É nesse sentido que um hetero torcedor de um time e um gay com sua diva musical favorita se aproximam. As escolhas que fazemos, sobre o que e quem amamos passa por um investimento narcisista e, diante da ameaça por parte de outra pessoa, de outro time ou preferência, a resposta, pra tentar manter esse ego masculino inteiro (tarefa inglória) se dá justamente pela violência.
Claro que aqui é bom observar que há discrepância grande entre os privilégios dos homens cis heterossexuais dos que não são, o que nos coloca em situação de maior vulnerabilidade. Ainda assim, esses aspectos da nossa socialização e a forma como isso está presente em nosso desenvolvimento psíquico não podem ser descartados.
Nesse sentido é importante percebermos esses aspectos das masculinidades hegemônicas e de que maneira ela nos afeta, de forma negativa, o nosso comportamento, bem como nossos sentimentos e a nossa possibilidade de expressão emocional (como o texto que eu mencionei já coloca). Que esse comportamento paradoxal que elege uma diva, mas estimula rivalidade, agressão e tudo mais não contribuem de forma positiva tanto na nossa realidade externa como em nossa subjetividade.
E também cabe o pensamento: ao invés de nós, homens cis, perguntarmos apenas "O que querem as mulheres", pois na maior parte das vezes a pergunta vem como forma de colocá-las como seres "complicados" é pensarmos "quem realmente somos e o que queremos ser" e perceber que as complicações, na verdade, são para todos nós e não tá baseada em nossa identidade de gênero.
Eu não descarto a ideia do texto, mas penso que, sendo a própria heteronormatividade como uma das características de uma sociedade machista, gosto de ir além dessa ideia e pensar na própria construção das masculinidades hegemônicas tendo como um de seus alicerces a violência. Por isso sempre é importante refletir sobre os papéis de gênero.
Nos estudos de masculinidades e violência são recorrentes o uso de dados que associam o alto número de mortes violentas com o comportamento masculino. Homens jovens em especial lideram várias estatísticas de homicídios e outras formas de morte violenta.
Diversas áreas do conhecimento têm contribuído para essa reflexão, especialmente no que diz respeito aos aspectos da própria sociedade sobre o papel esperado para o comportamento masculino. Ser "homem de verdade" muitas vezes significa correr riscos e usar a violência como forma de resolução de conflitos. Nesse sentido a psicologia e a psicanálise também têm as suas contribuições.
Recentemente tenho procurado textos da psicanalista feminista Nancy Chodrow. Pelo que observei ela questiona a premissa tradicional freudiana- de base biológica, trazida pra psicanálise- e lacaniana - que relê Freud tendo como uma de suas bases a antropologia de Levi Strauss- a respeito da diferenciação entre meninos e meninas. Aliás estamos em tempos de maior questionamento a respeito do binarismo sexual, mas para aprofundar sobre isso seria necessário outro texto. Vou me ater a questão proposta por ela.
Nos Três Ensaios, Freud diz que a diferença sexual que as crianças fazem a partir do momento em que meninos e meninas pensam ser possuidores do pênis, até o momento em que o menino percebe que ele tem a menina não (complexo de castração) e a menina percebe que ela não tem o pênis (inveja do pênis). Lacan retoma isso no campo da linguagem e do simbólico em que a mulher é o "sexo que não é", ou, como dizia o meu ex professor Clauze, uma lógica do sistema de numeração binária 0 e 1. Ok, vai ter uma ruma de lacanianos dizendo que não é assim, que Mulher é um conceito, que não é a mulher real (ou da realidade) etc e tal, mas é fato que há críticas a sua obra nesse aspecto.
Chodorow coloca a noção de que ser homem não é uma afirmação fálica, mas sim uma negação do feminino. Ao invés de uma afirmação, o masculino se dá através de uma negação. Até relacionei nesse sentido com o ritual de passagem descrito na tribo Anga da Nova Guiné em que os rapazes, para fazer a transição para a vida adulta, devem engolir o semen de jovens mais velhos como forma de expulsar o efeito do leite materno ingerido quando criança.
Em nosso mundo ocidental, ser homem muitas vezes é negar tudo aquilo que é postulado como feminino. A aproximação com o feminino é motivo de piada, desonra e mesmo violência. E está na base das diversas formas da LGBTfobia. E de que maneira essa violência usada na construção do masculino atinge homens cis não heterossexuais, sendo nós também alvos dessa violência machista?
A nossa orientação sexual, por mais que existam várias discussões sobre se nascemos com ela ou se a aprendemos, é modulada ao longo dos anos. E os meninos ao longo do seu desenvolvimento vão aprendendo que a violência, independentemente de sua orientação, é a maneira como são resolvidos os problemas, que é a forma da afirmação de sua identidade, do seu ego.
É nesse sentido que um hetero torcedor de um time e um gay com sua diva musical favorita se aproximam. As escolhas que fazemos, sobre o que e quem amamos passa por um investimento narcisista e, diante da ameaça por parte de outra pessoa, de outro time ou preferência, a resposta, pra tentar manter esse ego masculino inteiro (tarefa inglória) se dá justamente pela violência.
Claro que aqui é bom observar que há discrepância grande entre os privilégios dos homens cis heterossexuais dos que não são, o que nos coloca em situação de maior vulnerabilidade. Ainda assim, esses aspectos da nossa socialização e a forma como isso está presente em nosso desenvolvimento psíquico não podem ser descartados.
Nesse sentido é importante percebermos esses aspectos das masculinidades hegemônicas e de que maneira ela nos afeta, de forma negativa, o nosso comportamento, bem como nossos sentimentos e a nossa possibilidade de expressão emocional (como o texto que eu mencionei já coloca). Que esse comportamento paradoxal que elege uma diva, mas estimula rivalidade, agressão e tudo mais não contribuem de forma positiva tanto na nossa realidade externa como em nossa subjetividade.
E também cabe o pensamento: ao invés de nós, homens cis, perguntarmos apenas "O que querem as mulheres", pois na maior parte das vezes a pergunta vem como forma de colocá-las como seres "complicados" é pensarmos "quem realmente somos e o que queremos ser" e perceber que as complicações, na verdade, são para todos nós e não tá baseada em nossa identidade de gênero.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
O alienígena que habita em mim
Esses dias me deparei com duas situações de amigos que me fizeram pensar sobre procastinações e conflitos. Na primeira, um amigo me dizia das investidas que recebia de um cara, mesmo ele estando em relacionamento monogâmico com seu namorado. Na segunda, a pessoa me dizia que estava pra baixo e que se encontra em conflito entre a sua bissexualidade e o fato de querer uma família nos moldes tradicionais.
Não dei palpite, mas pensei: por que essas pessoas não liquidam logo de uma vez? Por que essa necessidade de deixar pra resolver depois, ou de manter esses conflitos ao invés de resolverem logo isso de uma vez. Daí vem a voz do meu pai na minha cabeça com o velho ditado: você já olhou para o próprio rabo?
Pois então, olhei. Pensei na ruma de textos que queria colocar aqui. Nas caminhadas que eu queria fazer. No eu rumo profissional. Nas condições para ir a um encontro em uma cidade próxima. De reduzir a quantidade de comida. De ler mais. Escrever mais.
Existe uma parte de nós que é nossa, mas a enxergamos como algo de Outro. O meu exemplo mais simples está num sonho de uma invasão alienígena - logo, algo externo- e eu muito puto, vou falar com o chefe da invasão que me diz que quem comandou aquilo fui eu mesmo. Obviamente, aquele foi o ponto chave para eu acordar.
Crio então esses ritos: para caminhar, preciso de um dia tal, de uma playlist tão. Olha o trabalho! Pra o rumo profissional tenho medo de encarar as minhas próprias potencialidades por não querer encarar de frente certas coisas. No encontro, eu já tinha visto os horários dos ônibus e se não soubesse, tem como ficar sabendo. Em relação a escrever, ler e reduzir a comida, só começar. Só começar?
O fundamental nesse sentido é admitir que existe essa parte alienada. O alienígena que comanda essa invasão que parece alheia, mas é minha mesmo. Tal como existe o jogo erótico entre aquelas duas pessoas mesmo uma estando em relacionamento monogâmico ou como o aquele que deseja a sua liberdade pra ser quem é, viver de forma plena sua sexualidade mas ainda se prende a certos moldes que parecem mais aceitáveis socialmente.
Aliás, digo que as conversas que aconteceram esses dias com esses dois amigos, mais que me dar um estalo para pensar sobre esses moldes que criamos e nos prendemos, serviu para pensar "oi, o que eu também faço comigo mesmo nesse sentido?"
Até chegar o momento de admitir que há uma escolha sim que pode me fazer mais feliz, ainda que ela implique na quebra de um estado outro que mantém um certo comodismo, que me faz apontar para o chefe da invasão e querer satisfação. Admitir que o enredo, sou eu mesmo que crio. E que sim, ele é possível de contradições, dificuldades e não é algo pronto e linear. E não há nada de errado nisso.
Não dei palpite, mas pensei: por que essas pessoas não liquidam logo de uma vez? Por que essa necessidade de deixar pra resolver depois, ou de manter esses conflitos ao invés de resolverem logo isso de uma vez. Daí vem a voz do meu pai na minha cabeça com o velho ditado: você já olhou para o próprio rabo?
Pois então, olhei. Pensei na ruma de textos que queria colocar aqui. Nas caminhadas que eu queria fazer. No eu rumo profissional. Nas condições para ir a um encontro em uma cidade próxima. De reduzir a quantidade de comida. De ler mais. Escrever mais.
Existe uma parte de nós que é nossa, mas a enxergamos como algo de Outro. O meu exemplo mais simples está num sonho de uma invasão alienígena - logo, algo externo- e eu muito puto, vou falar com o chefe da invasão que me diz que quem comandou aquilo fui eu mesmo. Obviamente, aquele foi o ponto chave para eu acordar.
Crio então esses ritos: para caminhar, preciso de um dia tal, de uma playlist tão. Olha o trabalho! Pra o rumo profissional tenho medo de encarar as minhas próprias potencialidades por não querer encarar de frente certas coisas. No encontro, eu já tinha visto os horários dos ônibus e se não soubesse, tem como ficar sabendo. Em relação a escrever, ler e reduzir a comida, só começar. Só começar?
O fundamental nesse sentido é admitir que existe essa parte alienada. O alienígena que comanda essa invasão que parece alheia, mas é minha mesmo. Tal como existe o jogo erótico entre aquelas duas pessoas mesmo uma estando em relacionamento monogâmico ou como o aquele que deseja a sua liberdade pra ser quem é, viver de forma plena sua sexualidade mas ainda se prende a certos moldes que parecem mais aceitáveis socialmente.
Aliás, digo que as conversas que aconteceram esses dias com esses dois amigos, mais que me dar um estalo para pensar sobre esses moldes que criamos e nos prendemos, serviu para pensar "oi, o que eu também faço comigo mesmo nesse sentido?"
Até chegar o momento de admitir que há uma escolha sim que pode me fazer mais feliz, ainda que ela implique na quebra de um estado outro que mantém um certo comodismo, que me faz apontar para o chefe da invasão e querer satisfação. Admitir que o enredo, sou eu mesmo que crio. E que sim, ele é possível de contradições, dificuldades e não é algo pronto e linear. E não há nada de errado nisso.
sábado, 22 de abril de 2017
Caligrafia
A página do Bullet Journal divulgou esse texto sobre dicas de como melhorar a sua caligrafia. Eu que ando acompanhando muito essas coisas de organização e tudo o mais - até porque eu sou uma pessoa bem desorganizada- achei as dicas be legais. E isso apareceu justamente num momento em que estou dando aula pra uma adolescente preocupada com sua letra para a redação que fará no ENEM no fim deste ano.
Foi aí que me lembrei da minha relação com a escrita. Quando eu comecei a escrever, na infância, tinha o hábito de rabiscar nas paredes. Escrevia muita coisa com letra de forma. A letra cursiva fui aprender no colégio e durante um tempo era considerada feia. A professora do CA (atual primeiro ano) dizia que eu não tinha coordenação motora e que deveria fazer vários exercícios e tal.
Interessante como uma coisa aparentemente simples resvala em outros aspectos. Sempre gostei de ver esportes , mas sempre fui uma negação tanto no futebol, como no vôlei (dois dos meus favoritos) por conta dessa questão da coordenação motora. Sempre me achei ruim em habilidades manuais ou mesmo para fazer desenhos. De alguma forma as minhas criações deveriam aparecer. Voltemos à caligrafia.
Eu tinha um amigo de infância que tinha uma das letras mais bonitas da turma. Ele era meu vizinho também e eu admirava muito a letra dele. E a letra transparecia o jeitão vaidoso dele, sem falar que era um dos rapazes mais bonitos da turma, até porque ele já era adolescente a nós éramos crianças e ele já frequentava festas e lugares que eu ainda não ia, pela idade.
Depois que mudei de colégio e nos separamos foi mais ou menos na mesma época que minha mãe comprou um daqueles livros de caligrafia e daí comecei a ajeitar minha letra. Eu digo que minha letra arrendondada tem muita cara de professora primária e eu ainda hoje tenho ela como ferramenta, uma vez que dou aulas e preciso dela bem legível.
E ao longo dos anos sempre curti ter agendas, cadernos e tudo o mais. Daí entendi que a forma que eu poderia mostrar alguma capacidade minha não seria pelo esporte ou por aqueles maravilhosos desenhos, mas pela criação de textos. E eu sempre gosto, muitas vezes, de fazer o rascunho, escrito, para depois digitar. Isso serve também quando leio algum texto ou tenho que produzir alguma resenha sobre.
Voltando a minha aluna, compartilhei um pouco disso com ela, E foi legal ver que a sua última redação já estava bem legível, fácil de ser entendida e melhor do que os textos anteriores. Ela comentou comigo que gosta de escrever coisas, especialmente frases e citações que ela gosta. Achei isso um bom exercício.
E gosto muito quando vejo a letra de alguém, especialmente dos amigos que fiz pela internet e que, por razões óbvias, nos comunicamos pelos caracteres de computador/celular. Acho bem interessante ver a caligrafia por achar que tem algo da pessoa ali - ainda que eu reconheça que a grafologia não é científica- assim como o rapaz vaidoso lá da minha infância ou da menina insegura com a ruma de provas que tem pela frente.
Foi aí que me lembrei da minha relação com a escrita. Quando eu comecei a escrever, na infância, tinha o hábito de rabiscar nas paredes. Escrevia muita coisa com letra de forma. A letra cursiva fui aprender no colégio e durante um tempo era considerada feia. A professora do CA (atual primeiro ano) dizia que eu não tinha coordenação motora e que deveria fazer vários exercícios e tal.
Interessante como uma coisa aparentemente simples resvala em outros aspectos. Sempre gostei de ver esportes , mas sempre fui uma negação tanto no futebol, como no vôlei (dois dos meus favoritos) por conta dessa questão da coordenação motora. Sempre me achei ruim em habilidades manuais ou mesmo para fazer desenhos. De alguma forma as minhas criações deveriam aparecer. Voltemos à caligrafia.
Eu tinha um amigo de infância que tinha uma das letras mais bonitas da turma. Ele era meu vizinho também e eu admirava muito a letra dele. E a letra transparecia o jeitão vaidoso dele, sem falar que era um dos rapazes mais bonitos da turma, até porque ele já era adolescente a nós éramos crianças e ele já frequentava festas e lugares que eu ainda não ia, pela idade.
Depois que mudei de colégio e nos separamos foi mais ou menos na mesma época que minha mãe comprou um daqueles livros de caligrafia e daí comecei a ajeitar minha letra. Eu digo que minha letra arrendondada tem muita cara de professora primária e eu ainda hoje tenho ela como ferramenta, uma vez que dou aulas e preciso dela bem legível.
E ao longo dos anos sempre curti ter agendas, cadernos e tudo o mais. Daí entendi que a forma que eu poderia mostrar alguma capacidade minha não seria pelo esporte ou por aqueles maravilhosos desenhos, mas pela criação de textos. E eu sempre gosto, muitas vezes, de fazer o rascunho, escrito, para depois digitar. Isso serve também quando leio algum texto ou tenho que produzir alguma resenha sobre.
Voltando a minha aluna, compartilhei um pouco disso com ela, E foi legal ver que a sua última redação já estava bem legível, fácil de ser entendida e melhor do que os textos anteriores. Ela comentou comigo que gosta de escrever coisas, especialmente frases e citações que ela gosta. Achei isso um bom exercício.
E gosto muito quando vejo a letra de alguém, especialmente dos amigos que fiz pela internet e que, por razões óbvias, nos comunicamos pelos caracteres de computador/celular. Acho bem interessante ver a caligrafia por achar que tem algo da pessoa ali - ainda que eu reconheça que a grafologia não é científica- assim como o rapaz vaidoso lá da minha infância ou da menina insegura com a ruma de provas que tem pela frente.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Psicologia e relações raciais
Essa semana, o Waltinho compartilhou esse texto comigo sobre Virgínia Bicudo (1915-2003). Socióloga de formação e uma das primeiras psicanalistas, ela é referência nas questões de relações raciais no Brasil. Daí, na nossa conversa, a ausência do nome dela na minha formação me fez pensar no quanto as questões raciais foram negligenciadas na minha graduação em psicologia. E daí no quanto é importante refletir sobre essas questões em termos de saúde mental, o que engloba também psicologia e psicanálise.
Na minha adolescência eu cogitei em seguir o curso de Ciências Sociais, mas daí pensei: vou ser o negão clichê que, por ser preto, vai obrigatoriamente pensar sobre o racismo. Por várias outras razões acabei me interessando por psicologia. Só que com o tempo eu pude desmontar essa ideia de clichê e perceber o quanto essas questões precisam ser pensadas. E não apenas no campo das Ciências Sociais.
No meu curso eu enveredei pelo campo da Psicologia Social e, obviamente, pensar sobre várias questões e contribuições de outros campos do conhecimento. Acabei direcionando meu trabalho para pesquisa em temas como gênero (masculinidades), prevenção de violência, sexualidade e adolescência. E isso no campo prático também, no trabalho e não apenas na parte acadêmica. No entanto, nesses campos, a questão racial sempre foi colocada de forma muito superficial, isso quando aparecia.
Tive alguns contatos e experiências que foram positivas durante esse tempo. Tive uma colega de trabalho, assistente social de formação, também negra, que sempre apontava pra mim a necessidade de pensar sobre tais questões. E nos congressos que participei me lembro de apenas um trabalho sobre, e de forma muito voltada pra clínica, sobre a questão do racismo e as implicações da psicologia.
Entre as várias leituras possíveis que faço da psicologia duas delas me ajudam a refletir sobre questões raciais. A primeira é que ela pode tratar do desenvolvimento das potencialidades individuais de cada pessoa e a segunda é que ela lida com o sofrimento psíquico. Neste sentido a questão negra está muito focada nos seus aspectos sociais, mas pouco é pensado em como o racismo age individualmente, no desenvolvimento das pessoas. Por outro lado, uma visão do negro como forte, "aquele que aguenta tudo" traz uma ideia que, discutir saúde mental, é coisa pra gente branca, rica e "fresca", anulando essa possibilidade para as outras pessoas.
Ao longo desse tempo tenho aprendido um pouco mais sobre esse tema. Entre eles penso muito no trabalho do Valter DaMata neste campo e que merece ser lido. Sendo que eu sinto a necessidade de ir mais além, tanto no campo teórico como da atuação profissional.
Há muito tempo tenho refletido sobre a minha formação como psicólogo. Eticamente, ela deve servir para contribuir de alguma forma para a sociedade. Em um país em que o racismo é estrutural e institucionalizado, eis aí um campo para que eu não apenas atue ou pesquise, mas que fundamentalmente sirva para aprendizado e desenvolvimento, tanto em relação às minha questões como a das demais pessoas pretas.
Na minha adolescência eu cogitei em seguir o curso de Ciências Sociais, mas daí pensei: vou ser o negão clichê que, por ser preto, vai obrigatoriamente pensar sobre o racismo. Por várias outras razões acabei me interessando por psicologia. Só que com o tempo eu pude desmontar essa ideia de clichê e perceber o quanto essas questões precisam ser pensadas. E não apenas no campo das Ciências Sociais.
No meu curso eu enveredei pelo campo da Psicologia Social e, obviamente, pensar sobre várias questões e contribuições de outros campos do conhecimento. Acabei direcionando meu trabalho para pesquisa em temas como gênero (masculinidades), prevenção de violência, sexualidade e adolescência. E isso no campo prático também, no trabalho e não apenas na parte acadêmica. No entanto, nesses campos, a questão racial sempre foi colocada de forma muito superficial, isso quando aparecia.
Tive alguns contatos e experiências que foram positivas durante esse tempo. Tive uma colega de trabalho, assistente social de formação, também negra, que sempre apontava pra mim a necessidade de pensar sobre tais questões. E nos congressos que participei me lembro de apenas um trabalho sobre, e de forma muito voltada pra clínica, sobre a questão do racismo e as implicações da psicologia.
Entre as várias leituras possíveis que faço da psicologia duas delas me ajudam a refletir sobre questões raciais. A primeira é que ela pode tratar do desenvolvimento das potencialidades individuais de cada pessoa e a segunda é que ela lida com o sofrimento psíquico. Neste sentido a questão negra está muito focada nos seus aspectos sociais, mas pouco é pensado em como o racismo age individualmente, no desenvolvimento das pessoas. Por outro lado, uma visão do negro como forte, "aquele que aguenta tudo" traz uma ideia que, discutir saúde mental, é coisa pra gente branca, rica e "fresca", anulando essa possibilidade para as outras pessoas.
Ao longo desse tempo tenho aprendido um pouco mais sobre esse tema. Entre eles penso muito no trabalho do Valter DaMata neste campo e que merece ser lido. Sendo que eu sinto a necessidade de ir mais além, tanto no campo teórico como da atuação profissional.
Há muito tempo tenho refletido sobre a minha formação como psicólogo. Eticamente, ela deve servir para contribuir de alguma forma para a sociedade. Em um país em que o racismo é estrutural e institucionalizado, eis aí um campo para que eu não apenas atue ou pesquise, mas que fundamentalmente sirva para aprendizado e desenvolvimento, tanto em relação às minha questões como a das demais pessoas pretas.
sexta-feira, 31 de março de 2017
Sobre o sonho da "Viagem"
Momento de pensar sobre mais um sonho que eu tive. E este foi uma forma de mostrar aspectos tanto sexuais, especialmente os masculinos, lotado de símbolos fálicos.
Primeiro tem a questão da viagem. Estou em um carro e tal e fazendo massagem em um homem que está no banco da frente e é inevitável que eu não me lembre de uma cena em uma das festas da época de faculdade. Eu me lembro, já na vida real, de que estava com 3 colegas e a menina que estava do meu lado fazia massagem no motorista, que dali a pouco viria a ser seu namorado. Eu pra poder imitar e me sentir junto ao grupo faço o mesmo na colega que está no banco do carona. Só que eu não me lembro quem era a colega. O fato é que o sonho substituiu a moça por um rapaz, cuja imagem é de um ator que sempre faz papéis menores em novelas. É o caso de pensar tanto na quebra de tabus, de reverter o papel masculino de força pro carinho e a presença de um homem que mal tem presença em novelas, a forma de dramaturgia favorita minha. Talvez seja a necessidade da presença de um homem que não se destaque tanto, que não tenha essa necessidade, dentro de uma representação lida como mais "feminina". E ainda, a palavra "viagem" (que aparece duas vezes neste sonho) remete ao apelido de um grande amigo de faculdade, que entre os homens que conheci, justamente era um cara menos heteronormativo.
Daí surgem postes. Um novo no meu terreno cujo sentido não entendo e os cabos e as bolas (isso mesmo, Dr Freud). E a ideia de dar e receber energia. Isso tem muito, mais muito a ver com o papel sexual, não só de ativo e de passivo, mas bem como a questão do saber receber aquilo que vem do outro, que é uma questão grande pra mim. Sem falar que há um fiscal, talvez ali uma representação do supereu, uma cobrança. Um símbolo fálico (a torre) que parece ser algo que já conheço e que tecnicamente deveria estar do lado de fora pois há nela muita energia e no entanto quando eu me ergo (auto afirmação?) ela é algo pequeno e não substitui o que eu já tenho (o poste velho) e que no entanto precisa ser mudado. Resumidamente é como se dissesse que a minha auto-afirmação precisa de coisas que precisam ser mudadas, mas que isso depende de mim, sem nenhum ônus, não serei cobrado por isso (a ausência de multa). E no frigir dos ovos o fiscal não fiscaliza nada, é só um ator, alguém que busca o reconhecimento.
E esse reconhecimento vem das mulheres. Interessante observá-las no sonho, pois parte da ausência da figura paterna e presença da materna. E na noite antes de dormir conversava com amigos as melhores coisas da vida (comer, transar e dormir, nessa ordem) e eis que surgem ali, ao meu lado uma série de coisas gostosa em necessidade de esforço pra obtê-las. No plano real tenho preguiça de ir à padaria e tenho um vizinho que de vez em quando passa vendendo pão. Os bolos e os doces são exatamente um símbolo desse prazer, feito por mãos femininas. O "feminino" que há em mim, familiar, tão próximo e que eu por vezes desconheço (faz tempo que elas não me veem, o fato de desconhecer que elas estão ali perto de mim vendendo aqueles bolos).
Por fim aparece mais uma vez a "viagem", que foi o eufemismo pra morte do meu pai. A viagem significa isso, uma mudança de lugar, uma quebra de algo que está sempre presente em mim (o velho poste) por um novo, que dependerá de mim para trocá-lo. A morte do pai, ou seja, não é mais ele em campo, mas eu. Tanto é que há isso na parte final do sonho: meu pai querendo verificar se tudo já foi arrumado quando eu e minha mãe já fizemos isso e então vem a desculpa de querer verificar o sono. Mas eu preciso entregar-lhe o celular com a luz pra poder ver. Eu sou então a minha própria luz.
Primeiro tem a questão da viagem. Estou em um carro e tal e fazendo massagem em um homem que está no banco da frente e é inevitável que eu não me lembre de uma cena em uma das festas da época de faculdade. Eu me lembro, já na vida real, de que estava com 3 colegas e a menina que estava do meu lado fazia massagem no motorista, que dali a pouco viria a ser seu namorado. Eu pra poder imitar e me sentir junto ao grupo faço o mesmo na colega que está no banco do carona. Só que eu não me lembro quem era a colega. O fato é que o sonho substituiu a moça por um rapaz, cuja imagem é de um ator que sempre faz papéis menores em novelas. É o caso de pensar tanto na quebra de tabus, de reverter o papel masculino de força pro carinho e a presença de um homem que mal tem presença em novelas, a forma de dramaturgia favorita minha. Talvez seja a necessidade da presença de um homem que não se destaque tanto, que não tenha essa necessidade, dentro de uma representação lida como mais "feminina". E ainda, a palavra "viagem" (que aparece duas vezes neste sonho) remete ao apelido de um grande amigo de faculdade, que entre os homens que conheci, justamente era um cara menos heteronormativo.
Daí surgem postes. Um novo no meu terreno cujo sentido não entendo e os cabos e as bolas (isso mesmo, Dr Freud). E a ideia de dar e receber energia. Isso tem muito, mais muito a ver com o papel sexual, não só de ativo e de passivo, mas bem como a questão do saber receber aquilo que vem do outro, que é uma questão grande pra mim. Sem falar que há um fiscal, talvez ali uma representação do supereu, uma cobrança. Um símbolo fálico (a torre) que parece ser algo que já conheço e que tecnicamente deveria estar do lado de fora pois há nela muita energia e no entanto quando eu me ergo (auto afirmação?) ela é algo pequeno e não substitui o que eu já tenho (o poste velho) e que no entanto precisa ser mudado. Resumidamente é como se dissesse que a minha auto-afirmação precisa de coisas que precisam ser mudadas, mas que isso depende de mim, sem nenhum ônus, não serei cobrado por isso (a ausência de multa). E no frigir dos ovos o fiscal não fiscaliza nada, é só um ator, alguém que busca o reconhecimento.
E esse reconhecimento vem das mulheres. Interessante observá-las no sonho, pois parte da ausência da figura paterna e presença da materna. E na noite antes de dormir conversava com amigos as melhores coisas da vida (comer, transar e dormir, nessa ordem) e eis que surgem ali, ao meu lado uma série de coisas gostosa em necessidade de esforço pra obtê-las. No plano real tenho preguiça de ir à padaria e tenho um vizinho que de vez em quando passa vendendo pão. Os bolos e os doces são exatamente um símbolo desse prazer, feito por mãos femininas. O "feminino" que há em mim, familiar, tão próximo e que eu por vezes desconheço (faz tempo que elas não me veem, o fato de desconhecer que elas estão ali perto de mim vendendo aqueles bolos).
Por fim aparece mais uma vez a "viagem", que foi o eufemismo pra morte do meu pai. A viagem significa isso, uma mudança de lugar, uma quebra de algo que está sempre presente em mim (o velho poste) por um novo, que dependerá de mim para trocá-lo. A morte do pai, ou seja, não é mais ele em campo, mas eu. Tanto é que há isso na parte final do sonho: meu pai querendo verificar se tudo já foi arrumado quando eu e minha mãe já fizemos isso e então vem a desculpa de querer verificar o sono. Mas eu preciso entregar-lhe o celular com a luz pra poder ver. Eu sou então a minha própria luz.
domingo, 26 de março de 2017
Relacionamentos ruidosos
A partir de uma conversa que tive ontem, fiquei pensando nos ruídos na comunicação que existiram e existem nos meus relacionamentos afetivo-sexuais. E obviamente, sei que eles nos acompanham desde sempre, desde a brincadeira do telefone sem fio às discussões pessoais (reais e virtuais). Alguns acham que a forma de evitar tais ruídos nas relações é falar menos, pois complicamos demais as coisas. Mas sendo o complicado inevitável é importante sim que coisas sejam ditas e pensar em como elas são ditas, seja pra quem está transmitindo ou recebendo a mensagem.
Existe uma piada, um esteriótipo que me incomoda demais, afirmando que a famosa DR (discussão de relacionamento) é "coisa de mulher". Os homens, em tese, mais racionais e objetivos, não teriam tempo a perder com coisas menores, com complicações sem sentido. Acontece que tais complicações são nossas emoções, que existem independentemente do gênero/identidade sexual da pessoa, e menosprezar tais emoções nada mais é que uma manifestação machista que, ao considerá-las como atributos femininos, as desprezam. É a base do famoso "homem não chora".
Outro ponto a se pensar é o que Lacan chama de "imaginário". Neste vídeo, pra quem tiver interesse, há uma explicação boa sobre esse imaginário e as outras duas instâncias pensadas pelo psicanalista francês. Em suma, a partir desse conceito julgamos que aquilo que dizemos é imediatamente percebido pelo outro, quando na realidade não é isso que ocorre, pois as nossas palavras vão passar pelo mecanismo de interpretação de alguém que é diferente de mim, e pelo imaginário, julgamos que esse outro é igualzinho a nós mesmos (espelho)e que assim vai ter total compreensão. E não tendo isso, surgem os ruídos.
Pensei nesses dois pontos, o machismo e a relação imaginária, em exemplos da minha vida. Ouvi de algumas pessoas com quem já tive e tenho relacionamentos que a minha mania em querer falar sobre as coisas, discutir, analisar e interpretar é uma perda de tempo e que as coisas poderiam ser bem mais simples se eu não complicasse tanto. Paradoxalmente lido com uma cobrança justa de que me fecho demais e não coloco pra fora o que realmente sinto e assim não tem como o outro ficar sabendo o que se passa comigo. E também há o caso de me falarem que há sim a demonstração de sentimentos, de carinho, afeto e atenção, não por palavras, mas por outros gestos que por vezes não dou atenção, pois me preocupo com as palavras. E aí em parte dou razão pois existem sim essa dificuldade de interpretação (imaginário) e ao mesmo tempo de colocar meus sentimentos pra fora, por conta desse aprendizado machista em lidar com as emoções.
Já ouvi alguns amigos homens cis heterossexuais chegarem pra mim e dizer que no relacionamento entre dois homens as coisas seriam mais fáceis, inclusive no sexo. Que a pergunta clássica "você é ativo ou passivo?" já é uma forma de comunicar aquilo que se sente e gosta e seria assim uim facilitador. Concordo em parte com isso, mas sei que no relacionamento entre dois homens as coisas vão além disso e há respostas a essa pergunta clássica que não são lá muito bem aceitas. De qualquer forma eu devolvo: por que vocês não conversam com suas parceiras e, fundamentalmente, não as escutam? Aí diante disso segue-se aquela cara de "Sinhá Mariquinha, cadê o frade?"
Relacionar-se com homens é esbarrar nessa atitude machista da não necessidade de não se discutir sobre o que se gosta ou incomoda de forma mais profunda, pois isso seria uma forma de complicação. É lidar também com o imaginário de esperar uma resposta "x", quando o outro diz "y", jurando que x=y. É lidar com o bloqueio das próprias emoções também, e de saber escutar as emoções e desejos do outro.
De qualquer forma os relacionamentos vão esbarrar nesses ruídos. Não há uma comunicação fluida, 100% compreendida. No entanto, quebrar com certas amarras há tanto tempo estabelecidas, permitindo uma valorização da emoção, falar francamente sobre os desejos (inclusive os sexuais), de forma que não sejam menosprezadas é fundamental pra que se tenha uma relação franca, segura e gostosa para todos os envolvidos. Não é tarefa fácil, pois não é receita de torta de 2 minutos num vídeo do Tastemade, mas vou tentando.
Existe uma piada, um esteriótipo que me incomoda demais, afirmando que a famosa DR (discussão de relacionamento) é "coisa de mulher". Os homens, em tese, mais racionais e objetivos, não teriam tempo a perder com coisas menores, com complicações sem sentido. Acontece que tais complicações são nossas emoções, que existem independentemente do gênero/identidade sexual da pessoa, e menosprezar tais emoções nada mais é que uma manifestação machista que, ao considerá-las como atributos femininos, as desprezam. É a base do famoso "homem não chora".
Outro ponto a se pensar é o que Lacan chama de "imaginário". Neste vídeo, pra quem tiver interesse, há uma explicação boa sobre esse imaginário e as outras duas instâncias pensadas pelo psicanalista francês. Em suma, a partir desse conceito julgamos que aquilo que dizemos é imediatamente percebido pelo outro, quando na realidade não é isso que ocorre, pois as nossas palavras vão passar pelo mecanismo de interpretação de alguém que é diferente de mim, e pelo imaginário, julgamos que esse outro é igualzinho a nós mesmos (espelho)e que assim vai ter total compreensão. E não tendo isso, surgem os ruídos.
Pensei nesses dois pontos, o machismo e a relação imaginária, em exemplos da minha vida. Ouvi de algumas pessoas com quem já tive e tenho relacionamentos que a minha mania em querer falar sobre as coisas, discutir, analisar e interpretar é uma perda de tempo e que as coisas poderiam ser bem mais simples se eu não complicasse tanto. Paradoxalmente lido com uma cobrança justa de que me fecho demais e não coloco pra fora o que realmente sinto e assim não tem como o outro ficar sabendo o que se passa comigo. E também há o caso de me falarem que há sim a demonstração de sentimentos, de carinho, afeto e atenção, não por palavras, mas por outros gestos que por vezes não dou atenção, pois me preocupo com as palavras. E aí em parte dou razão pois existem sim essa dificuldade de interpretação (imaginário) e ao mesmo tempo de colocar meus sentimentos pra fora, por conta desse aprendizado machista em lidar com as emoções.
Já ouvi alguns amigos homens cis heterossexuais chegarem pra mim e dizer que no relacionamento entre dois homens as coisas seriam mais fáceis, inclusive no sexo. Que a pergunta clássica "você é ativo ou passivo?" já é uma forma de comunicar aquilo que se sente e gosta e seria assim uim facilitador. Concordo em parte com isso, mas sei que no relacionamento entre dois homens as coisas vão além disso e há respostas a essa pergunta clássica que não são lá muito bem aceitas. De qualquer forma eu devolvo: por que vocês não conversam com suas parceiras e, fundamentalmente, não as escutam? Aí diante disso segue-se aquela cara de "Sinhá Mariquinha, cadê o frade?"
Relacionar-se com homens é esbarrar nessa atitude machista da não necessidade de não se discutir sobre o que se gosta ou incomoda de forma mais profunda, pois isso seria uma forma de complicação. É lidar também com o imaginário de esperar uma resposta "x", quando o outro diz "y", jurando que x=y. É lidar com o bloqueio das próprias emoções também, e de saber escutar as emoções e desejos do outro.
De qualquer forma os relacionamentos vão esbarrar nesses ruídos. Não há uma comunicação fluida, 100% compreendida. No entanto, quebrar com certas amarras há tanto tempo estabelecidas, permitindo uma valorização da emoção, falar francamente sobre os desejos (inclusive os sexuais), de forma que não sejam menosprezadas é fundamental pra que se tenha uma relação franca, segura e gostosa para todos os envolvidos. Não é tarefa fácil, pois não é receita de torta de 2 minutos num vídeo do Tastemade, mas vou tentando.
quinta-feira, 23 de março de 2017
O lugar de fala como lugar de escuta
Creio que posso estar me repetindo aqui, mas estou há tempos para colocar algumas reflexões sobre a questão do lugar de fala. Um dos motivadores foram alguns textos do Tullio, que também abordam a questão sistêmica, da qual quero comentar aqui também."Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto..." (Fala, Luli e João Ricardo)
Resolvi por um tempo, em redes sociais, ler mais e ouvir mais as pessoas do que necessariamente sair emitindo opiniões. E um desses aprendizados foi sobre o chamado "lugar de fala" e as "vivências" no que diz respeito à minorias. Grosso modo, por esse princípio só um negro pode apontar e falar sobre racismo, mulheres sobre feminismo, bissexuais sobre bifobia e por aí vai. E nesse aspecto li tantas ideias que apoiam essa noções como as de críticas, as mais diversas. Aqui vou destacar duas vertentes que me chamaram a atenção neste período.
Uma de caráter mais racionalista, aponta que o importante não é a pessoa que fala - isso seria uma forma de falácia "ad hominem - e sim aquilo que é dito. E a partir do que é dito, parte-se para a verificação se aquilo é verdadeiro, factual, se pode ser corroborado. Logo, o lugar de fala estaria dando uma ênfase mais subjetiva para a pessoa que fala do que para a observação dos fatos.
Outra, que observei em alguns discursos da esquerda, aponta o lugar de fala como algo "pós-moderno". Seria uma deturpação da luta das pessoas que são oprimidas, pois ao valorizar essa subjetividade, a importância é dada em aspectos individuais da dita vivência, um vício burguês em detrimento de uma visão social, coletiva. E que a defesa das várias identidades esconderia a luta que realmente interessa, que é a luta de classes. Os aspectos históricos e sociais nesse sentido estariam desprezados em nome da afirmação do eu.
Penso que nas questões que me dizem respeito eu me fortaleço sim com argumentos mais factuais e jamais vou desprezar as condições sociais e econômicas diante de uma certa luta. Um gay da Vieira Souto não possui, de fato, as mesmas condições e realidade de um do Pavão-Pavãozinho, no mesmo bairro. No entanto para além desses aspectos mencionados, são fundamentais ter uma visão sistêmica das coisas e também o lugar da escuta.
Um exemplo entre essas críticas foi exemplificado comparando Gregório Duvivier e Fernando Holiday. O primeiro foi criticado por escrever uma coluna na Folha de São Paulo um texto antirracista e sendo ele branco não poderia fazê-lo por não ter o tal "lugar de fala". O segundo por sua vez, ainda que tenha o local de fala de duas minórias (é negro e homossexual) tem um discurso LGBTfóbico e contra as lutas do movimento negro, o que exemplifica a visão racionalista de que o mais importante é o que é dito do que quem fala. Ou seja, antes um Gregório branco como aliado que um Holiday negro bostejando o de sempre, agora com poder legal de sua vereância,.
Nesse sentido cabe uma visão mais sistêmica das coisas. Legal ter aliados e não tenho nada contra o Gregório se posicionar contra o racismo. Acho muito importante esse tipo de posicionamento. Mas cabe a pergunta; quantos colunistas negros debatendo racismo existem naquele e nos demais grandes veículos de comunicação? E no caso do Holiday, quantos negros há na Câmara de Vereadores paulistama? E quantos negros fazem parte do chamado Movimento Brasil Livre e o mais importante, quantos negros financiam esse movimento.
Não se trata aqui de livrar a cara do Holiday ou demonizar o Gregório. Penso que uma visão maior das estruturas pelas quais os discursos de combate as diversas formas de opressão circulam e, tão importante quanto, o quanto e como essas mesmas estruturas muitas vezes silenciam as falas. Daí também a necessidade do lugar de escuta.
Ainda sobre o lugar de fala e vivências e no quanto o subjetivo também é importante, eu me lembro que aos 11 anos, um colega de turma que também era meu vizinho, estava numa espécie de fofoca-bulying com a turminhha da sala dele comigo, me zoando pelo fato de eu ser filho do porteiro do prédio onde morávamos. Ao comentar com minha mãe - e disso nunca me esqueci- ela me disse "não espere que o grupinho te defenda. É você mesmo que tem que saber se posicionar. E não deixe um branco falar por você sobre o racismo que você sofre".
Outra lembrança minha vem da época do meu vestibular, a minha amiga Ana me disse "Odilon, como você quer ser psicólogo se você fala muito mais de você e ouve pouco?". Fiquei pensando nisso e a experiência ao longo dos anos, especialmente ouvindo as vozes de adolescentes negros em sua grande maioria e moradores de favelas cariocas me ensinou o quanto era importante ouví-los e ao mesmo tempo trocar as experiências.
Ainda questiono comigo mesmo se sou um bom ouvinte, mas tenho feito vários exercícios nesse sentido. E também observado mais as coisas com mais sensibilidade e entendendo certos privilégios que tenho enquanto homem cissexual. Há um mês, por exemplo, eu e meu namorado recebemos uma amiga muito querida na casa dele e junto havia um amigo hetero dele também. Ela é uma pessoa inteligentíssima e estava muito interessado no que ela tinha pra dizer, mas notava o quanto ela era interrompida pelo meu namorado e mais ainda pelo amigo. Então no momento em que em tese eu daria continuidade à conversa eu me calava pra poder ouvir a nossa amiga. Obviamente não entendo o meu gesto de "oh o homem bonzinho que deixa a moça falar, quer biscoito?", mas o mais importante pra mim foi me permitir mais ao que ela tinha pra dizer e pensar na minha ansiedade e nos meus privilégios nessas aparentes coisas cotidianas. E a partir da fala dela eu respondia dando continuidade ao diálogo E foi maravilhoso poder ouví-la mais.
A partir dessas e de outras experiências penso que uma boa observação dos fatos e fazer os diversos recortes, inclusive de classe, no que diz respeito a fala de pessoas de grupos marginalizados é fundamental. Assim como abrir mais espaço para que essas várias vozes falem, se manifestem e principalmente, se escutem. Entendo que o motor das mudanças sociais de certos grupos parte de dentro deles mesmo para aí sim ganhar espaço para além do próprio grupo. E há inúmeras lutas. Mas isso só é possível com o fortalecimento sim das pessoas dos ditos lugares de fala, para que tenham cada vez mais espaço para o que elas tem a dizer e, fundamentalmente, que haja espaço de escuta para que se tenha efetivamente um diálogo que ajude a promover mudanças de fato.
E isso não pode se restringir apenas no próprio grupo, até porque dentro de um grupo que divide uma mesma categoria identitárias há inúmeras diferenças. Há de se questionar as estruturas de poder que dão sustentação a isso, a observação das relações que existem nos sistemas e mecanismos de opressão e partir para um enfrentamento que não despreze o que é factual também. Sem amarrar esses diversos pontos e sem um lugar para a escuta, o chamado lugar de fala vai se restringir sim a uma mera vivência de webativismo em rede social mais preocupada em "lacrar" que realmente propor algo que venha garantir direitos.
sexta-feira, 17 de março de 2017
Da performance às descobertas
Quando comecei a pesquisar sobre masculinidades, a minha antiga supervisora me passou uma série de textos sobre o tema. Entre eles havia um que me chamou a atenção que era um que ligava a expressão sexual masculina como uma "performance". Não no sentido de Judith Butler, mas de uma forma mais geral.
O que eu pude constatar na minha própria vida, na de amigos meus e no trabalho era exatamente o quanto era importante não só apenas obter sexo, mas ser o cara que não brocha e conquistador para caracterizar bem essa performance. E ultimamente vendo páginas no Facebook, tanto gays quanto com presença de heteros isso fica bem visível, incluindo entre aqueles que se colocam como desconstruídos.
Essa relação da performance com as diversas masculinidades passaram a me chamar a atenção. Os homens hetero preocupado mais com suas conquistas. Alguns com o próprio prazer. Outros, que dizem que o homem de verdade tem que fazer um bom sexo oral na mulher, na verdade mais preocupado com o seu desempenho em si que realmente com o prazer da parceira.
Em algumas páginas gays vejo a mesma coisa. Há na auto afirmação sexual mais uma preocupação de se mostrar narcisicamente como fazem o sexo, ou que possuem atividade sexual. E não tiro o meu corpo fora, pois muitas vezes eu mesmo me pego pensando ou agindo dessa forma.
Daí faço uma ponte com a questão da alteridade e dos saberes, tal como mencionei na postagem anterior a essa. Na questão da alteridade há uma relação em que o sexo a ser dito, sabido pelos outros, como forma de marcar um "eu sou assim". Como selfies no instagram. Aliás sobre essa relação narcísica, o professor e psicanalista Christian Dunker, coloca bem neste vídeo: essa afirmação do eu não é uma maneira de se sentir grande e absoluto, mas uma tentativa de colocar num pequeno espaço a precariedade do próprio eu. De repente com essas formas de expressão sexual pode ser algo assim.
No que diz respeito ao saber, pensei em "Amar Verbo Intransitivo" do Mário de Andrade, no qual o pai de um jovem paga uma mulher, disfarçada de ama-seca, para tirar a virgindade do filho. Esse saber desse pai e da mulher era uma forma de, lá no começo do século XX, colocar o menino dentro do mundo masculino, torná-lo homem. Passados cem anos e com uma série de mudanças comportamentais e inseridos no mundo capitalista, nossa "fraulein" são os vídeos pornôs com homens com pirocas gigantescas, que não brocham e seguem um roteiro meticulosamente definido. Claro que com a crescente exposição da internet, tem crescido também o número de vídeos amadores, mas até esses passam por uma seleção, uma escolha do que vai ser postado.
Não quero também fazer aqui uma "Crítica Social Foda" ou demonizar a sexualidade ou ficar determinando regras de como cada um exerce seu prazer. Esse texto na verdade é uma reflexão que se restringe as minhas vivências com meu prazer e o que tem surgido de novo nesse sentido. E não consigo deixar de relacionar essas minhas vivências com o mundo que me cerca.
Entre o segundo e o terceiro namoros meus vivi uma série de novas experiências e até mesmo desilusões amorosas. No que diz respeito a papéis, de viver um período de cinco anos solteiro. E isso passa também pelas primeiras experiências com outros homens negros como eu, mas isso seria tema para um outro texto. Enfim, muita coisa se passou e com essas novidades, ganham-se novos saberes.
No atual namoro essa descoberta ainda continua. Tesão em partes do corpo até então ignoradas e a experiência de ter o primeiro namoro oficialmente aberto. E diante disso há sim momentos em que precisam ser confrontados saberes passados que, mesmo não fazendo mais sentido no presente, ainda persistem. Especialmente neuras em relação à performance sexual, a necessidade de conquista e de auto-afirmação, enfim, tudo que foi mencionado anteriormente. De qualquer forma eu digo que o momento atual, perto dos 40 anos, tem sido a fase mais feliz da minha vida nesse (e em outros) aspecto da minha vida.
E isso de dá pelo processo de descoberta. Na relação sinto que me descubro também quando estou com o outro. Aliás um item fundamental que descobri numas das minhas ficadas naquele hiato de cinco anos foi isso: estar com alguém que me deixe à vontade e que eu permita o mesmo a essa pessoa. Acho que é fundamental para que descobertas, prazeres novos, enfim que muita coisa boa aconteçam
Assim penso que essa mudança de percepção sobre nós mesmos pode realmente provocar uma grande mudança, até mesmo para questões ainda maiores de nossas vidas. Tenho reparado por exemplo o quanto tem sido importante a necessidade de escuta numa conversa, uma vez que tendo a falar demais de forma até rápida atropelando tudo. Enfim, esse novo exercício pode provocar uma mudança naquela velha pergunta de sempre "quem sou eu?"
O que eu pude constatar na minha própria vida, na de amigos meus e no trabalho era exatamente o quanto era importante não só apenas obter sexo, mas ser o cara que não brocha e conquistador para caracterizar bem essa performance. E ultimamente vendo páginas no Facebook, tanto gays quanto com presença de heteros isso fica bem visível, incluindo entre aqueles que se colocam como desconstruídos.
Essa relação da performance com as diversas masculinidades passaram a me chamar a atenção. Os homens hetero preocupado mais com suas conquistas. Alguns com o próprio prazer. Outros, que dizem que o homem de verdade tem que fazer um bom sexo oral na mulher, na verdade mais preocupado com o seu desempenho em si que realmente com o prazer da parceira.
Em algumas páginas gays vejo a mesma coisa. Há na auto afirmação sexual mais uma preocupação de se mostrar narcisicamente como fazem o sexo, ou que possuem atividade sexual. E não tiro o meu corpo fora, pois muitas vezes eu mesmo me pego pensando ou agindo dessa forma.
Daí faço uma ponte com a questão da alteridade e dos saberes, tal como mencionei na postagem anterior a essa. Na questão da alteridade há uma relação em que o sexo a ser dito, sabido pelos outros, como forma de marcar um "eu sou assim". Como selfies no instagram. Aliás sobre essa relação narcísica, o professor e psicanalista Christian Dunker, coloca bem neste vídeo: essa afirmação do eu não é uma maneira de se sentir grande e absoluto, mas uma tentativa de colocar num pequeno espaço a precariedade do próprio eu. De repente com essas formas de expressão sexual pode ser algo assim.
No que diz respeito ao saber, pensei em "Amar Verbo Intransitivo" do Mário de Andrade, no qual o pai de um jovem paga uma mulher, disfarçada de ama-seca, para tirar a virgindade do filho. Esse saber desse pai e da mulher era uma forma de, lá no começo do século XX, colocar o menino dentro do mundo masculino, torná-lo homem. Passados cem anos e com uma série de mudanças comportamentais e inseridos no mundo capitalista, nossa "fraulein" são os vídeos pornôs com homens com pirocas gigantescas, que não brocham e seguem um roteiro meticulosamente definido. Claro que com a crescente exposição da internet, tem crescido também o número de vídeos amadores, mas até esses passam por uma seleção, uma escolha do que vai ser postado.
Não quero também fazer aqui uma "Crítica Social Foda" ou demonizar a sexualidade ou ficar determinando regras de como cada um exerce seu prazer. Esse texto na verdade é uma reflexão que se restringe as minhas vivências com meu prazer e o que tem surgido de novo nesse sentido. E não consigo deixar de relacionar essas minhas vivências com o mundo que me cerca.
Entre o segundo e o terceiro namoros meus vivi uma série de novas experiências e até mesmo desilusões amorosas. No que diz respeito a papéis, de viver um período de cinco anos solteiro. E isso passa também pelas primeiras experiências com outros homens negros como eu, mas isso seria tema para um outro texto. Enfim, muita coisa se passou e com essas novidades, ganham-se novos saberes.
No atual namoro essa descoberta ainda continua. Tesão em partes do corpo até então ignoradas e a experiência de ter o primeiro namoro oficialmente aberto. E diante disso há sim momentos em que precisam ser confrontados saberes passados que, mesmo não fazendo mais sentido no presente, ainda persistem. Especialmente neuras em relação à performance sexual, a necessidade de conquista e de auto-afirmação, enfim, tudo que foi mencionado anteriormente. De qualquer forma eu digo que o momento atual, perto dos 40 anos, tem sido a fase mais feliz da minha vida nesse (e em outros) aspecto da minha vida.
E isso de dá pelo processo de descoberta. Na relação sinto que me descubro também quando estou com o outro. Aliás um item fundamental que descobri numas das minhas ficadas naquele hiato de cinco anos foi isso: estar com alguém que me deixe à vontade e que eu permita o mesmo a essa pessoa. Acho que é fundamental para que descobertas, prazeres novos, enfim que muita coisa boa aconteçam
Assim penso que essa mudança de percepção sobre nós mesmos pode realmente provocar uma grande mudança, até mesmo para questões ainda maiores de nossas vidas. Tenho reparado por exemplo o quanto tem sido importante a necessidade de escuta numa conversa, uma vez que tendo a falar demais de forma até rápida atropelando tudo. Enfim, esse novo exercício pode provocar uma mudança naquela velha pergunta de sempre "quem sou eu?"
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