quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Não gosto dos meninos




Esse curta dirigido por Andre Matarazzo e Gustavo Ferri foi lançado em maio deste ano, mas eu estava mais por fora que umbigo de chacrete. Sorte que um dos que sigo no Twitter passou essa dica e pude acompanhá-lo.
 

O filme me chamou a atenção por vários pontos. Tem o lado de que me parece todos gozam de um mesmo status social - além de, como diz uma amiga minha em tom de piada, "cadê as cotas" ? - , mas isso em momento algum diminui a intenção, a força e a verdade dos depoimentos. E provavelmente muito do que é dito ali já foi vivido por muitos de nós, homossexuais.

Eu sou aquele tipo de neurótico que adora as entrelinhas. É comum ver a repetição, nos depoimentos dos homens em especial, sobre os "modelos". É sempre dito que o modelo que sempre nos é passado é negativo, da bicha louca, que solta a franga e tudo o mais. O que pode parecer negativo a princípio na verdade fez eu ter uma reflexão sobre mim mesmo.

Minhas referências masculinas foram, em suma, de homens heterossexuais - é esse o tema do próximo tópico do meu alfabeto - e, obviamente a vivência sexual e afetiva deles é diferente da minha. E isso não é um detalhe qualquer, mas algo que faz sim muita diferença.

Talvez essa nossa tentativa de "somos normais como quaisquer pessoa" guarda, mais do que a justa luta por direitos civis, uma necessidade de se desviar daquilo que consideramos negativo ou patológico. Talvez por essa razão muitas transexuais, por exemplo, sempre tem que dizer "eu não faço prostituição", como se fosse algo negativo esperado.

Quando me percebi gay vi que poderia não ser o tal "modelo negativo" que é dito nestes depoimentos. Em função disso durante um tempo achei válida a ideia do "seja gay, mas seja homem", como uma forma de ser o "gay parecido com a heteronorma", que na verdade despreza o que nós homens no fundo tememos: o feminino (ou femininos).

Sei que esse é um tema recorrente nesse blog ultimamente, mas ele reflete muito o que tenho pensado a respeito. E o contato com amigos que não têm medo de brincar com esse "feminino", mesmo não o sendo e sobretudo, compreender que da mesma forma que as orientações sexuais são diversas, há homossexualidades. Querer estabelecer um modelo "padrão"  e único para que seja seguido a todos nós homossexuais, de um gay asséptico, e no caso de nós homens, "másculos não afeminados" é tão intolerante, senão pior, que a própria homofobia.

Sim, quando um programa de humor resolve fazer graça em cima da bicha-louca, cabe sim a reclamação que muitos de nós fazemos sobre esse esteriótipo. Ao mesmo tempo cabe ver que famosos como Jorge Laffond ou Lacraia foram formas de expressão igualmente válidas da homossexualidade, ainda que o sistema tenha trabalhado de forma que estas se tornassem personagens que garantissem a tranquilidade que a heteronorma precisa de ver o homossexual como o "desviante".

Se eu reduzisse a questão do homossexual com a imagem devidamente asséptica é só de uma demanda de mercado seria uma interpretação reducionista. Ao mesmo tempo é uma das várias interpretações que se somam nesta questão. Por isso como vemos no vídeo, pode ser reconfortante como em alguns depoimentos do video se assemelhar a essa norma. Nesse sentido me chama a atenção o depoimento do menino com o cabelo "emo", que diferente dos outros não teve um esporte ou a amizade com o grupo de homens para se refugiar e passou sim por hostilização.

Quando se discute homofobia o que se quer é liberdade para as diversas formas dessa expressão homossexual da mesma forma que a hetero também encontra a sua diversidade.

O mais interessante foi que ao navegar por blogs e críticas sobre o filme de deparei com esse post aqui no qual muitos estavam com dúvidas sobre o título do filme. O fato é que essa dúvida vem pelo fato de quem diria isso seria uma lésbica, igualmente homossexual e que , pela forma como lidamos com o feminino é sempre descartado. Esse não entendimento vem disso, já que um homem homossexual diria justamente o contrário. Escolher o título a partir do que seria de uma fala lésbica é um dos grandes méritos deste curta. Até eu mesmo levei tempo para a ficha cair em relação a isso.

Enfim, em ritmo de fim de ano e com textos atrasados para o liquididificador esse curta despertou-me esse interesse. Mas claro há inúmeras outras interpretações a serem feitas a partir daí.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nan Goldin

Bem, em momento oportunista e para dar uma de "cult", o liuquididificador pega carona sobre a polêmica a respeito da exposição de Nan Goldin no Oi Futuro.

Vamos à celeuma. A dita instituição fez um edital e aceitou fazer a exposição da fotógrafa estadunidense que ocorreria a partir de janeiro de 2012. No dia 20 de dezembro ela estaria no Rio para ver os últimos detalhes e fazer fotos na minha querida Cidade Maravilhosa. Terra do samba, do carnaval, dos corpos malhados em sungas e biquínis nas praias. Do carioca manemolente cheio de gingado e descontração receptivo a tudo que vem de fora. Das muscas siliconadas e nuas nos carros alegóricos da Sapucaí e dos machos de pintos a mostra mijando na rua nos blocos de carnaval, apesar do choque de ordem. Terra das popuzudas do funk, atualmente alçadas à categoria de mulheres-fruta.

Dita essa ironia essencialista, o pessoal do Oi Futuro resolveu de última hora dizendo que a exposição não corresponde à missão da organização que é promover educação e cidadania a crianças e adolescentes. E segue se comentários, a partir da própria organizadora, sobre censura à arte e tudo o mais e claro, momento de criticarmos a terra brasilis. A crítica é válida.

No entanto deixo essa tradução minha de um artigo publicado pela própria Goldin em 8 de julho de 2008. Ela comenta sobre essa polêmica em torno de suas obras no jornal britânico "The Independent". A tradução não tá lá essas coisas, mas é o que temos pra hoje:



" Perversão está nos olhos de quem vê. As crianças nascem sem medo da sexualidade ou de seus próprios corpos. Esse medo é imposto a elas. Crianças são seres sensuais, elas se tocam e gostam de serem tocadas. É o adulto que às vezes tira vantagem desta situação.
Isso não é sobre o que as crianças estão fazendo em uma imagem e não há nada doentio no que diz respeito a uma criança nua. É tão ridículo que nós tratemos isso como um problema na sociedade. Esta é uma das alegrias da vida, o corpo humano.

Meu pequeno sobrinho cresceu na Escócia e quando ele visitasse a América com seus pais, ele correria pela praia nu e as pessoas ficariam irritadas. Quanto mais estamos cercados de nudez, mais ela pode ser desmistificada e mais percebemos que o corpo é belo.

Pornografia já é outra questão. Eu costumo trabalhar em Times Square e muitas pessoas que trabalharam em um bar lá foram profissionais do sexo que ganharam dinheiro em revistas pornográficas. Eu diria que a diferença entre pornografia e arte é essa (em um primeiro momento), crianças são abusadas para agirem na versão dos adultos de suas fantasias sexuais. Abuso de crianças está totalmente relacionado a poder e eu não estou estimulando ninguém a ter relações com alguém menor de idade.

No ano passado quando tive minha exposição na galeria Baltic, o diretor assistente chamou a polícia e disse que havia uma peça lá que você não poderia gostar. A imagem era de duas pequenas irmãs fazendo a dança do ventre. Elas decidiram dançar pra mim, eu não preparei nada. Elas estavam agindo de forma completamente natural. Depois disso eu recebi uma carta dos pais delas para dizer o quanto eles gostaram das imagens.
Mas agora até editores respeitáveis estão com medo de usar esta imagem em um livro do meu trabalho porque eles acham que isso poderia deter a sua distribuição pelos Estados Unidos.


Arte não pode e nem deve ser regulada pelo Estado. Políticos não tem nada a ver com arte ou artistas em qualquer situação exceto caso queiram se tornar colecionadores anônimos."

sábado, 19 de novembro de 2011

O prazer que habita em mim ou uma ursa nada carinhosa

Estou numa fase forte de pensar em uma série de coisas sobre a minha própria sexualidade. Sobre como quero e gosto de sentir prazer.

Quando se está na década de vinte, vamos dizer assim,  muita coisa parece novidade e tem-se a impressão de que está pronto para qualquer coisa. Depois dos trinta, como diz aquela piada infame, se está na idade do gavião, em que você olha bem o que vai comer antes. A despeito dessa metáfora machista posso dizer que ela tem muito a ensinar a todos, eu incluído.

Hoje foi mais ou menos assim: aparece uma figura no msn e marca encontro para aquela noite, assim de supetão. Eu naquela coisa de "tenho que ir para não perder a viagem e nem parecer bobo" me arrumei e fui.

Bem, ai chego e encontro a figura. Um cara de 40 anos, aparentando menos, careca, da minha altura,, gordo daquele tipo parrudão, cavanhaque, enfiim, muito bonito e dentro, para os parcos leitores desse blog, daquilo que chamo de "norte de desejo", isto é, fisicamente está "perfeito" para mim.

Trocamos poucas palavras e vamos em direção a um quartinho miúdo e acanhado que ele aluga em um lugar que me parece ter sido uma pousada nos áureos tempos de Araruama no turismo pré-via Lagos e que hoje me parece ser algo como uma pensão. O quarto está uma zona e ele solta o famoso "não repara na bagunça".

Tiramos as roupas pois uma ideia nossa antes era tomarmos um banho juntos. Naquele momento de ansiedade vou passando o sabonete no ursão. Estranhamente ele não me toca e nem me beija. Daí compreende-se bem o sentido mais extremo do termo "passivo": não é aquele que simplesmente quer ser penetrado, é simplesmente o fato de querer ser apenas tocado, sem te tocar.

Fomos percebendo que a coisa não estava andando e disse-lhe que comigo as coisas não funcionavam daquela forma. Me lembrei do Preto Velho que me afirmou que sou de Oxum, que dentre tantas coisas - meus conhecimentos sobre as divindades afro-brasileiras são parcos- representa o prazer. na minha referência intelectual greco-romana.

Nessa relação aconteceu algo que difere do que a maioria de nós pensamos sobre os papéis sexuais. de modo estanque pensamos: homens são os ativos que chegam metem sem perder muito tempo. As mulheres seriam aquelas que recebem, que precisam de carinho, atenção e afeto. Um binarismo ultrapassado, claro, porém existente e nessa noite me dei com ele de forma invertida: um passivo querendo um cara que não beija, de pau grande e duro ali pra chegar direto e meter nele, ainda que no começo ele tenha gostado do carinho durante o banho, apesar da sua visível insegurança ali naquele momento.

Outro dia conversava com amigos sobre pegação por exemplo e como - sem querer fazer papel de santo- minha sexualidade nesse exemplo só funciona basicamente de forma voyerística e não de chegar ali de pau duro e pá, "mandar ver". Esses papos me permitiram olhar mais para mim mesmo e ver como sinto prazer. E assim como eu disse ao urso dessa noite quando ele soltava o famoso e falso "não vamos perder contato, me desculpe acho que estou cansado e não estou bem", eu disse-lhe que cada um sentia prazer da forma que lhe convia e que comigo não era assim. Não quis perder tempo e fazer uma oficina de sexualidade com ele, já estava tarde e ele mesmo devia estar louco para me ver pelas costas assim como eu a ele.

Pensei em outro cara, da faixa etária deste araruamense, com quem tive encontros no Rio. Ele dizia que não gostava da penetração e que durante suas sessões de análise junguiana ele é "como as mulheres", pois precisa de beijos e carinhos. Tudo bem, beijos e carinhos não são exclusividade das mulheres, há homens hetero e homossexuais que gostam disso, assim como há mulheres que gostam de ir "direto ao ponto". Mas entendi o que esse carioca quis me dizer.

Hoje tive que lidar com isso. Na verdade com todo meu eu, meu prazer e ao mesmo tempo reafirmá-lo. A afirmação do seu prazer é mais do que dizer como você sente ou goza. Diz parte importante da famosa pergunta "quem sou eu". Diferente dos 20 anos, em que me sentiria naquela famosa "obrigação" de tudo dar certo, pude perceber com maior maturidade isso e dizer "maluca é essa ursa", que como parafraseou o Jonas, não é nada carinhosa. E a vida segue.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Araruama e a sua Parada

Ontem Araruama teve a sua Primeira Parada do Orgulho LGBT. Mal divulgada, por razões óbvias, mas valeu o empenho do pessoal do Araruama Free, bem como a colaboração do Cabo Free, além de outras entidade.

A primeira coisa, inevitável, é fazer a comparação com as paradas do Rio e São Paulo. Não como crítica, mas como diferenças que existem por ter diferença entre cidades com 10, 5 milhões de habitantes para uma de 100 mil no interior fluminense.

Aqui havia apenas um trio elétrico e não sei precisar o número de pessoas, mas era pequeno. Ainda assim a parada correu sem problemas e todos puderam se divertir.

Na parte discurso político notei a diferença do discurso. Claro que há as semelhanças nas críticas aos homofóbicos de plantão do meu Brasil Varonil, como Malafaia, Garotinho e Bolsonaro. No entanto, o discurso da militância tinha um lado mais pessoal que um pensamento "macro-político". Em outras palavras, as críticas eram diretas e válidas ao movimento evangélico da cidade e os militantes traziam seus depoimentos pessoais, familiares para argumentar contra a homofobia. Foi diferente do que já tinha visto nas grandes cidades e achei interessante ver as coisas também por esses viés. E também contou com a ajuda de outras organizações do interior do Estado. O melhor é que a maioria dos presentes prestou a atenção no que estava sendo dito, mesmo estando loucos para "fever". E vamos combinar e sermos menos hipócritas de que queremos discursos políticos em 6, 7 horas de parada ou reduzir a ação política apenas em um dia de parada. Ela deve ser vista como um detalhe importante em meio às lutas da causa LGBT.

Me deu a impressão que em um feriadão com show do Exalta Samba na cidade naquela noite havia muitas pessoas de fora. A pergunta também é: quem não é de fora em Araruama? Sejam os turistas ou pessoas que moram mas que vieram da capital como eu.

E o prefeito se ausenta por motivos políticos- entenda-se voto evangélico no pleito de 2012- e manda sua mãe para a Parada. Isso não melindrou o rapaz do Araruama Free falar a verdade, que esta é uma terra de coronéis. Se pensarmos bem, dentro do discurso que foca a militância LGBT podemos pensar como a política que pretende nos amordaçar, bater e matar também o faz com a população em geral.

Outro ponto interessante quando se está no interior é que as pessoas que ali estão lhe são mais próximas. A representante do Araruama Free é Guarda Municipal na cidade. O gordinho que dança com as drags é  o rapaz que trabalha no mercado. O menino da lan house está lá dançando com todos na pista, enfim é uma atmosfera diferente do que eu já estava habituado.

Enfim, em sua pequenez, a Parada mostrou sua grandeza, com suas características e acima dos obstáculos que lhe foram impostas. Que venham as outras.

domingo, 6 de novembro de 2011

Valores contra a parede

Um personagem delirante meu decide escrever a história de um universo próprio em uma parede infinita. Ele é livre para escrever. Quer dizer, nada do que ele escreveu pode-se apagar. Só poderá fazer isso uma única vez.

Talvez hoje eu estive tal como o personagem. Uma pergunta simples, e uma argumentação que não exigiria muito, e lá se vão valores meus contra a parede enquanto questiono os valores do outro. Vamos chamar esse outro, mais uma vez, de Homem-Parede.

Conversávamos sobre a presença de grupos em que há inimizades. E ele saca "grupo que tem muito viado é igual grupo que tem muita mulher, dá muita fofoca e intriga". Eu no meu afã feminista multifacetado - já não era a primeira assetiva machista dessa personagem da vida real em seu machismo - comecei a divagar sobre uma série de coisas. Tentei ser socrático ao perguntar quem mais mata e mais morre, se não são os homens,  boa parte heterossexuais, muitas vezes por motivos banais (há motivo sério para a morte? fica essa primeira questão). Ele me diz: homens são diretos, matam, não perdem tempo com intrigas, enquanto mulheres usam de falsidade. Tentei me perder em teorias mil, defeito meu, quando poderia simplesmente dizer "filho vai ver a próxima edição do BBB em janeiro que, ai quem sabe, você pensa melhor sobre isso".

Humano, demasiado humano. Criamos valores. E muitas vezes o usamos para rotular e discriminar - entenda como especificação- sobre o que o Hegemônico determina como o errado, pecaminoso, doente. Em suma, o que é "estranho" e "fora da norma". Uso um lugar comum também: o que é estranho e que ameaça o controle de quem detém poder causa angústia. Por isso deve ser rotulado, classificado para ser devidamente controlado. Daí é bom sair com boas pré-definições. "Vai me dizer que você nunca viu mulher falsa?". Poderia perguntar "Vai me dizer que você nunca viu um ladrão preto?" E daí poderia usar essa premissa do senso comum para poder estabelecer uma série de valores para manter tudo na devida ordem, tudo dentro da parede. Só que diferente da minha personagem, sem a possibilidade de voltar atrás na criação de seu próprio universo.

Não sou diferente. Sou um homem de universos e premissas. E com certezas no bolsos. Tentando em vão mantê-las mesmo sabendo que elas são como açúcar em água, se desmancham com facilidade. Isso já foi devidamente compreendido. E nesses meus universos compartilho com os demais o tabu da morte. A morte como algo último e que tirar a vida de alguém é condenável, absurdo, ainda que muitas vezes isso não tenha consistência absoluta.

Então, pelo tom da conversa - só pelo tom, não tive a oportunidade de questionar de modo mais profundo porque eu e o Homem Parede temos o mútuo medo de despedaçar tijolos falhos- me pareceu que falsidade tinha um valor mais fácil de ser condenado do que homicídio. No universo-parede, falsidade é intrinsecamente feminino (ou de viados, que por extensão se iguala ao feminino, haja visto que homem "de verdade" não transa com outro e viados são igualados às mulheres para isso parecer mais natural e controlável) e daí, talvez se lá, fosse um país, fofoqueiros, mentores de intrigas merecessem a cadeira elétrica e homicidas, uma liberdade por bom comportamento. Afinal o homicídio não é um fator desagregador, ele extermina logo de uma vez. E exterminando tudo, resolve se de maneira sucinta a possibilidade do conflito, sem espaço para indagações, dúvidas e incertezas que a natureza humana - se é que existe uma - é incapaz de resolver de uma vez em nome de uma suposta Verdade.

sábado, 29 de outubro de 2011

Misericórdia


Corro o risco de ser repetitivo. Pelo estilo, pelo local, pela companhia e a igualdade por coisas fora da lógica que acontecem. No entanto, esses passeios sempre implicam em algo diferente.

Pode ser pelos carros de polícia parado em frente, civil e militar. A curiosidade em saber o que aconteceu no prédio em frente. Os porteiros nao sabem o que acontece, mas o carro da Defesa Civil dizendo "remoção de cadáver" e o choro da mulher em frente esclarecem parcialmente a questão e traz nova dúvida: homicídio ou suicído.

A trava da janela em frente reaparece e fala pelo celular com os amigos em frente e a questão das janelas finalmente se esclarecem pela curiosidade. É hora de ir para a praia.

Lá, há um casal que não se identifica a natureza de gêneros. Em vão ele tenta penetrá-la e resta-lhe então uma punheta. E longe em meio às barracas surgem dois seres vagando pelas areias. O que eles fazem? Andam a uma distância segura um do outro e procuram algo na areia que desconheço. E andam catando algo. Hora de voltar, assim como o casal que deu uma escapadinha no local engradado.

Duas ursas passam e ao nos ver andam em direção à areia. Andam em direção ao mar enquanto sentamos e conversamos e vemos o gestos dois dois estranhos andantes ainda a procurar algo que desconhecemos.

De volta a areia os passantes são passado e longe vão as ursas em marcha muito rápida. A moça está na fase do sexo oral, que a penetração pelo jeito estava difícil. Hora de voltar para a calçada.

Taxis, putas, ponto de ônibus, evangélicos, garrafa de uísque quebrada na esquina, mais taxis e um andar por ruas mais tranquilas. Mais taxis, cigarro que se perde enquanto paramos para jogar conversa fora. Balconistas da madrugada, afagos de amigos depois da enésima cerveja, um coroa que sai do taxi em busca de cigarro e um belo rapaz resolve pegar um carro.

Ao atravessar ela grita "me espera, Aline!", que mais ousada atravessou em frente aos carros sem medo.

Um taxista pergunta se queremos ir. Dizemos não enquanto o homem na porta do puteiro cisma em achar que somos clientes em potencial. Uns cigarros a mais na esquina e paramos mais a frente.

É quando uma figura maltrapilha um tanto suja pergunta se há ônibus para São Conrado. É dito a ele que não, mas ainda há o transporte alternativo. Então ele diz algo sobre Gadernal e remédios e arremata "eu vou lá pra São Conrado cheirar um pó do bom, que está melhor ainda que o pó de Itaguaí, Misericórdia". Ele recolhe suas coisas no chão, pergunta se estávamos indo pra casa e, entre as coisas que recolhe, um exemplar da Bíblia. "Vai na paz", como dizem os evangélicos é a saudação final.

Voltamos para a outra esquina. Um belíssimo taxista está no seu carro. Ficamos na dúvida sobre que movimento ele faz com seu corpo no carro. Ele sai para buscar um lanche no fornalha, e enquanto isso vários traseuntes, incluindo uma mulher baixa de casaco preto que murmura algo incompreensível e duas bichas visivelmente casal, com pinta de turistas latino americanos, entram no puteiro.

O taxita volta para seu carro antigo e bem cuidado. Não pertence à nenhuma cooperativa, não tem número e resta-lhe aproveitar o lanche a após isso conversar com seus outros amigos na esquina. Hora de voltar dando a volta no quarteirão.

Os mesmos no bar da esquina, incluindo um jovem com um velho feio e, mais adiante, com o porteiro do puteiro convidando-nos a entrar de novo, sai um nerd estranhamente bonito. E mais à frente dois bêbados passam cantando um samba-enredo que enaltecem algum time. "Eles vão entrar no puteiro e vão ser expulsos". De fato isso acontece, só que não deu tempo de saber como seria a provável expulsão já que era hora de voltarmos e tirar a areia sobre os pés.

Goiânia





"Meu Destino.

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...

Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida..."
(Cora Coralina)


I.

- Veja como o dia está hoje!
- Tem uma névoa forte, não vai dar praia. Diz-me agora se sabe bem prever o tempo...
- Não sei. Ainda são seis da manhã, e ainda pode mudar. Esse mês é assim.
- Imagino, por isso queria estar em Góias.
- Por que? Lá não tem praia...
- De mar. Mas lá eu sei que o tempo está seco. É assim, tempo de chuva, tempo de seca.
- E quem te garante que lá está seco? Estamos no fim de outubro e as chuvas já vão começar.
- Sim, mas gosto do padrão. Não tem erros...
- Não é bem assim... eu gosto do movimento, como essa névoa.
- Ela está parada e não deixa ver absolutamente nada, nem a praia da janela.
- Não está e lembre-se de que no movimento as coisas podem se revelar.
- Quem disse isso? Newton?
- Eu, agora...

II

- A areia está quente demais, vamos parar aqui?
- Não, vamos na direção da bandeira, se algo no caminho interessar a gente para e dá uma olhada. Tudo está muito bom hoje aqui.

III.

- Viu?
- O que?
- Ali, o falso magro, ou falso gordo.
- Ah sim! Gostei.
- Ficamos aqui?
- Agora

IV.

- Está vendo, até o mar muda seus movimentos.
- Estou vendo os movimentos dele. Todos, até o sorriso.
- É lindo, está descarado.
- É pra gente, com certeza

V.

- O mar está bravo hoje, não rapazes?
- Sim, você viu? Tivemos que pegar tudo correndo e mesmo assim o mar molhou as toalhas.
- É verdade.
- E você é daqui, ou de outro lugar?
- Sou de Goiânia, mas moro aqui no Rio há 1 ano já.

VI.

- E ele?
- O goiano? Saiu, mas deve ter pedido a conta ou pegar umas cervejas na barraca.

VIII

- Voltou.
- E está fazendo exatamente os mesmos movimentos, iguais, regulares como o clima de lá.
- Hora seco, hora frio?
- Isso, talvez espere nossa mudança de movimento.
- Então deveria ter conversado mais.

IX
- Olhou para elas, é isso?
- Sim, ele fez isso perto da água também. Mas só para manter as aparencias.
- Os movimentos para deixar tudo como está.
- Ou nao, a sunga, tá diferente agora.
- Sim, o movimento que ele faz é revelador.
- O que cobre, agora, revela, entendeu agora a névoa?

X

- Olhe, a névoa voltou e cobre o hotel.
- E o goiano, já foi.
- Vamos também? Não tem mais sol.
- Quem sabe encontramos o outro, o de vermelho lá perto do quiosque?
- Ou o goiano poderia ter demorado mais.
- Encontramos ele de madrugada, pode apostar.
- Como voce sabe que ele mora aqui.
- Pelo que ele me disse...
- Bem, faz sentido. Ele trouxe pouca coisa pra praia. Deve morar por aqui perto.

XI

- Viu, ali na moto?
- Vi e vai passar perto da gente.
- Mas ali vem outro. É bonito, mas fala alto, grita. Muito favelado pro meu gosto.


XII

- Tem aquele jornal ai?
- Que jornal? Acho que não existe.
- Quero o outro, o da fofoca sobre espíritos...
- Esse já esgotou.

XIII

- Vai entrar na casa azul.
- Tem todo o jeito, mas repare ele quebra o movimento.
- Para disfarçar..veja!
- Entrou!
- Vamos sair. Até porque pior que verem a gente entrando lá é ficarmos aqui fora. Não somos como aquele rapaz de Estocolmo, que tem essa coragem.

XIV

- Olhe pelas janelas, é um boquete.
- É e tem uma cortina marrom atrapalhando tudo. Mas como você perecebeu?
- Pelo movimento. E veja, as mãos limpam a boca.
- Engoliu?
- Tenho certeza. E não adiantou a cortina querer esconder que vimos. Estou há dois meses querendo saber o que acontece ali e hoje tive certeza.
- Mas não é lindo vê-los se beijando, se acariciando, é tão romântico?  Tal como os dois na banca
- Você para de pensar nisso. Quero ver sexo e você pensando nessas coisas. Vamos mudar o pensamento.
- Tá, olhemos para a janela de baixo que algo acontece ali.
- Viu, a mão toca o outro..
- Sim, os movimentos mudam.
- Como há de mudar o tempo em Goiânia, em Goiás a gente não sabe.
- Vamos então esperar a madrugada e quem sabe não cruzamos com novas emoções.

XV

- Goiania não tem mar, mas tem movimento.
- Ainda bem, para a nossa alegria. Mas o que mais se revela?
- A névoa...que já foi embora. Agora uma lua sorri para a gente.
- Como o goiano, na praia.
- Por isso gosto de estar com você. Você me põe em movimento e assim as coisas se revelam.
- E melhor, quando elas querem se esconder. Esse é o lado interessante da coisa.

Da Trip de Outubro

A revista Trip desse mês tem essa capa ai do lado. Pode parecer bobo, ou lugar comum, dois homens se beijando. Mas como me disse o Matias em uma conversa, o que pode parecer natural para uns, parece estranho para outros. Parece tese sobre a teoria das Representações Sociais, mas na verdade é algo que o senso comum pode observar.

Ontem mesmo, voltávamos eu e Osmar da Cinelândia. Antes de tomarmos a condução, paramos na banca. Ele para comprar cigarros e eu aproveitei para procurar a revista. Não foi surpresa minha ver que esta eduição da trip estava escondida atrás de outras.

Agora explicando para quem não conhece o Ridejanero: a Cinelândia, a.k.a, Praça Marechal Floriano, está situada no coração da capital Fluminense. Na região tem-se o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, prédios comerciais, o cine Odeon - mantido pela Petrobrás tem um ar "cult"- e é ponto de prostituição masculina.

No Odeon era dia da mostra LGBT. Na praça, vários michês a oferecer seus serviços. E não é estranho ver revistas como G Magazine à mostra nas bancas.

O interessante é que o beijo é mais chocante. Por uma visão romântica - aliás me lembrei do epíteto "prostitutas não beijam" - o beijo sela algo mais, o amor. Leituras antropopsicológicas que li, diz que o beijo rompe as barreiras do ativo/passivo, pois a entrada e saída das línguas são mútuas. E por mais bobo que possa parecer, ainda assim, tem certa iconoclastia nele.

O Hebert Daniel dizia em uma reportagem da Manchete antiga feita no Aterro do Flamengo que aquele local de pegação era na verdade um grande teatro de pessoas que escondiam os seus desejos. Antes do encontro com o Osmar, com um amigo que vivencia a sua sexualidade na maior parte das vezes desse jeito e compartilha da ideia do "esse beijo pode chocar as pessoas" ou tem hábito de recriminar moças que andam com short curto demais, dado o ranço religioso que ainda carrega. E naquele mesmo dia tinha feito um "atendimento" no banheiro de uma loja ali próxima.

Usando a clássica frase de Caetano que diz " a gente não sabe o lugar certo onde coloca o desejo", digo que isso se reflete no que vi nessa última sexta. Tentamos colocar ou na pegação, ou no discurso moralista - é legal reprimir nos outros o que não gostamos na gente, não é mesmo? - ou escondemos a revista. Só pela capa, valeu Trip, por pelo menos mexer em parte com esses desejos que tentamos colocar no fundo de uma banca de jornal.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Televisão (ainda) comanda a nação

Neste papo todo sobre a suspensão de Rafinha Bastos do CQC o que me vem à mente é outra coisa. Não apenas a discussão dos "limites do humor" ou algo que o valha, mas de uma coisa muito mais antiga, talvez de 60 anos de idade: o poder da televisão.

Creio que já liquididifiquei alguma vez uma referência sobre a música do Daft Punk chamada "Television Rules the Nation". Em plena euforia e hypes em torno da internet achei o título defasado. Engano meu. O caso Rafinha prova que a ideia do duo francês procede.

A televisão, por mais que se fale da diminuição da audiência com o advento da internet e sua popularização ainda tem o seu poder. Não estudei comunicação social, mas é fato que  muitos dos chamados webhits e downloads de conteúdos via web são, justamente, produtos feitos pela e para televisão.

Rafinha tem seus seguidores no twitter e afins e ganhou o tal título de "personalidade influente". Nessas redes já falou muita bobagem, mas nenhuma que lhe valesse uma suspensão. Acontece que internet é veículo (com ressalvas) selecionados por quem navega. TV é um tiro no escuro e vai para a grande massa. Em programa ao vivo, o risco aumenta exponencialmente.

Quando li a entrevista deste rapaz na Rolling Stones, pensei "esse cara ainda não sacou que a televisão pode colocá-lo no céu ou no inferno". E basta seguir o encadeamento: zoar a Wanessa, que é mulher do Buaiz que é sócio do Ronaldo que mesmo gordo e fora de atividade é uma marca poderosíssima. Bastou um piti do "fenômeno" em não aparecer em programas da Band que a pressão de Jonny Saad deve ter subido a 30 por 19. E daí para suspensão foi um pulo e um grito.

Ano que vem faz 20 anos do impeachment de Collor. Um presidente cuja eleição teve papel decisivo da mídia assim como a sua saída. E esse poder ainda é atual.

E são justamente os anunciantes que contam. Não adianta bancar o "enfant terrible" a esmo se tem um conglomerado de empresas pagando o seu salário e com interesses mercadológicos. Quer ser subversivo, siga o conselho de Flora de "A Favorita": ironia é pra gente engraçada e inteligente. Faltou isso ao Rafinha. É como diz um amigo meu, cuidado ao cair nos extremos, porque senão você pula para o outro como a cobra que morde o próprio rabo. Rafinha mordeu a sua ao querer ser "maldito" e caiu na inocência de achar que era maior que essa caixa quadrada cheia de assombrações, como seu colega de bancada, Marcelo Tas - esse profundo conhecedor de mídia que não deu um toque pro amigo - costuma se referir à TV.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A impossibilidade do sexo como uma possibilidade do amor

Esse título meu parece um  livro de auto-ajuda ou uma palestra pseudo- profunda.
Mas são reflexões que me trazem a viagem noturna pela Serra do Matogrosso. Me vem essas coisas na cabeça, a sensação de sono, o relaxamento faz o cérebro ter devaneios e se livrar de certas amarras. Somado a um papo animado da semana passada que ganha contornos concretos, como essa estátua de Rodin.

Certa vem Alguém me disse que eu só pensava em sexo. Aliás é tema recorrente neste blog, percebi isso. Enfim, discuti isso com alguém que me falava sobre como devo me aproximar não de uma maneira claramente sexual, mas amorosa, de quem cuida e tudo mais e que isso me traria resultados surpreendentes.

Parei para pensar um pouco nisso e vi que faz sentdo. O que falta agora é sair dos contornos e isso virar um fato concreto e real diante da "parede". Ou seja, fazer daquela situação onde o sexo me parece falsamente impossível para uma demonstração de amor real.