domingo, 12 de fevereiro de 2012

Onde estão suas cordas?

Uma coisa que deve irritar a maioria das pessoas e que comigo não é diferente é ser subestimado, em especial no que tange à minha inteligência. Essa é uma frase corriqueira típica dos mimimis que escutamos nos espaços reais e virtuais. E eu gosto de uma dose de vulgaridade.

Aí você se depara com uma situação em que a pessoa mente, omite da forma mais absurda acerca de temas igualmente vulgares, banais. Pode ser que ela arrume uma boa justificativa para satisfazer os seus atos.

A questão é que para mim o que menos importa muitas vezes é o conteúdo que está escondido. No final aquilo só tem relevância de fato para a própria pessoa, mas por algum motivo ela dispara a sua mentira com os argumentos mais tolos e essa suposta inocência é o que realmente irrita.

Usando o Pinóquio como metáfora, a gente percebe que as próprias mentiras que ela criar para si corre o risco de servirem como cordas e no fim e a outra pessoa que, ao perceber isso e resolver ser cruel o suficiente, fazer como o Gepetto e começar a manipular a pessoa, como marionete. Só que como não é boneco a pessoa pode se enforcar em uma coisa aparentemente tão besta.

Usando a frase de uma personagem vulgarizada, o Dr House, "todo mundo mente". Só que se me conheces minimamente, saiba escolher uma boa e bem contada mentira.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Garrafa de Água



"Namorar implica em negociar, em renunciar, mas também em ter muito prazer no estar com o outro, em fazer coisas juntos, e uma série de possibilidades que emergem do conhecimento mutuo e da segurança do vinculo. Talvez exista aqui o problema de que a mídia prega a relação amorosa como sendo instantânea e natural. A ideia transmitida é que desde que haja amor todo resto é resolvido por "osmose", simplesmente tudo aconteceria como num passe de mágica. Sabemos que essa é uma versão achocolatada e idealizada do amor. Assim diante do primeira dificuldade, da primeira diferença de interpretação do mundo, podemos recorrer ao chocolate ou ao sexo fácil como alternativa a nossa angústia diante de nossa dificuldade de encontrar soluções criativas para a vida cotidiana a dois. "




Esse trecho vem de um antigo texto do psicanalista Júlio Nascimento do Mix Brasil. Ele expõe uma dicotomia de nosso desejo, que penso ser um contraponto de duas "eternidades"a de eros, a pulsão de vida e a de Tanatos, a pulsão de morte.

Mais uma vez eu fico sabendo de uma velha história recorrente, especialmente quando estamos às vésperas do carnaval. Alguém encontra Outrem e tem daquelas paixões avassaladoras a ponto de já se permitirem namorar após o primeiro ou segundo encontro, inciativa de Outrem que Alguém prontamente concorda e deseja. Decidem experimentar a relação que acaba seis dias depois, após algumas discussões por motivos fúteis e Outrem dá como argumento para o término: preciso experimentar a putaria porque ainda tenho feridas de um relacionamento anterior.

Alguém reclama, pois saiu também de uma situação parecida e estava completamente disposto e encantado pronto para participar desse relacionamento. Alguém é do tipo romântico, se abre muito, sensível e mostra para Outrem todo o seu carinho, afeto e atenção, ainda que uma pulga atrás da minha orelha sempre me diga que Alguém tem mais prazer no relacionamento, em dar carinho a alguém (esse assim mesmo em minúsculas) do que realmente nomear Alguém. Ai está o paradoxo da puta e da freira romântica.

Outrem é um neurótico clássico. O eros que Alguém lhe oferece ao responder ao seu desejo de ter um relacionamento lhe causa um tremendo desconforto e uma incapacidade de lidar com o Outro. Ao que parece, enquanto Alguém me afirma na sua retórica romântica de que não pensava tanto no sexo em si, mas no carinho e afeto para Outrem, enquanto esse encarnava um tesão mais forte na cama, em detrimento dos carinhos de Alguém. 

Alguém enquanto sujeito do discurso apresenta o lado lindo do relacionamento, do quanto está feliz em viver aquela situação nova, um sentimento que não tinha sentido por ninguém antes e tudo o mais e esconde as pequenas brigas por motivos banais que mexem com o emocional e pouco diz a respeito das características de Outrem, restrito ao velho "é legal, gente boa, lindo, gostoso"...coisas superficiais e comuns a muitos alguens. E eu partilhei desse mesmo sentimento ao conversar com Outrem.

Júlio Nascimento aponta como metáforas o chocolate e o achocolatado. Outrem parte da premissa do achocolatado, de um relacionamento maravilhoso, mas que após a primeira discussão ele decide terminar por achar que tem que viver a putaria, o lado chocolate da história, ou seja, a simples gozada, a busca do prazer sem o ônus dos conflitos emocionais que a relação com uma outra pessoa implica. A sua justificativa de achar que Alguém é uma peça que não se encaixava em seu quebra cabeça é perfeita ao demonstrar esse lado achocolatado inicial, a busca de um romance perfeito e inquembrantável, uma peça que complementasse a sua falta, lembrando que a ausência da falta é terreno de Tanatos...a putaria lhe dá o prazer puro e simples sem cobranças.

Essa metáfora do quebra-cabeças - da qual também já sofri a maldita analogia - explica bem como funciona o neurótico. Há uma espécie de busca de prazer pelo poder. O carnaval batendo à porta com as inúmeras possibilidades de encontro significa um alívio, uma ilusão que compensa a sua castração, condição de todos nós humanos. É como alguém que ao beber a água quase no final que está na garrafa da geladeira não a bebesse toda e deixasse aquele resto ali como metáfora de horror ao vazio, à castração, o que implicaria, caso a bebesse toda, em ter que encher de novo toda a garrafa e esperar mais um tempo na geladeira para estar na temperatura ideal para beber nesse verão que vivemos cá nos trópicos.

O quebra cabeça completo é ilusório. Assim como Nascimento aponta o quanto certas ilusões como as drogas, o excesso de comida e outros comportamentos compulsivos pode nos acarretar a longo prazo, podemos pensar na quarta-feira de cinzas, o dia que vem depois do carnaval, que para católicos é o começo da quaresma. Período de expiar os pecados (afinal veio o carnaval antes, não?) que culmina na celebração de um deus-humano, Jesus, aquele que renunciou aos prazeres e se sacrificou pelos pecados de toda a humanidade. Jesus o ser completo, o que morre e ressucita por ser Deus.

Como não somos deuses, não somos o começo e fim, a completude alfa e ômega, somos dotados desse vazio. Como sentir-se "de bode" depois da festa ou da "blue monday" dos usuários de droga ou a lombeira que temos depois de comermos muito. O prazer é momentâneo e não dá garantia que aquela coisa chamada "vontade" não apareça de novo. Nas nossas contradições, o coração há de se fazer suas exigências e aí nem Outrem e nem ninguém terá como escapar disso. Como numa música dos meus queridos Pet Shop Boys "there's no place to hide when you're screaming inside".

Quanto a Alguém o movimento foi de sair de uma situação "chocolate" - com a devida latência- e partir para uma relação achocolatada. No entanto a breviedade dos acontecimentos talvez não lhe provocou dores maiores, mas uma necessidade de repensar o seu papel. Alguém me diz "Odilon eu não tenho como interferir nas escolhas do outros, mas nas minhas escolhas". Eu prontamente concordo e lhe digo se a garrafa tá vazia vai lá e a encha de novo e espere gelar. Para você que admitiu sua falta fica mais fácil partir para novas e ricas experiências do que Outrem, que prefere não só admitir seus erros, bem como maquiar a sua falta, que um dia há de lhe fazer pesadas cobranças, como aquele que abre a geladeira e pergunta "ei, quem foi o filha da puta que estava com preguiça de encher a garrafa e deixou esse restinho na geladeira?'. E diferente da sexta-feira santa, pode não haver o perdão.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Rogers e o Zen

Esse moço careca da foto é Carl Rogers (1902-1987). É um dos grandes nomes da psicologia humanista. Se você desconhece o que é isso pense na manjadíssima escala de necessidades de Abraham Maslow (1908-1970) que há tempos já deixou os limistes da psicologia e aparece desde livros de auto-ajuda até em palestras motivacionais.








Creio que algum blog passado meu tenha feito menção ao Rogers. Hoje uma ideia muito presente no seu clássico "Tornar-se Pessoa" que é: entender o outro provoca uma mudança em si mesmo.

Daí me lembrei de outro mote, dito por um cara com quem fiquei uma vez e na sua sabedoria de  entre um chope e outro e discussões sobre astrologia me disse: "Hoje,aos 62 anos, eu posso dizer que estou zen, mas ser zen não significa ser bundão"?

E que o cu tem a ver com as calças?

Quando pensei nesse "entendimento do outro" pensei na trolagem de um professor meu que dizia que o existencialismo foi colorido de rosa na Califórnia e daí saiu a psicologia humanista. Fato é que essa premissa de Rogers (terapia centrada no cliente) do "entendimento do outro" com "mudança" se relaciona com o existencialismo por este ser anti-determinista (a existência precede a essência) e se não há nada essencial de fato, como já bem revela Nietzsche, então essas mudanças são possíveis.

No entanto, como me disse o sexagenário, não deveria ser espaço pra ser bundão. Entender o outro não significa colar-se ao outro, ser igual ao outro, mas provocar uma mudança em si mesmo. Por outro lado a mudança que você causa, causa mudança no outro.

Não quero dizer que a partir de um comportamento "x" seu o comportamento "y"do outro mudará da maneira esperada. Não é função, é uma relação, como bem ensina a matemática. Não é uma lei simples de causa e efeito, mas com certeza, pensando em várias experiências que tive, no entendimento do outro pude mudar a ponto de até mesmo certas pessoas se afastarem como efeito disso. E posso dizer, foi muito bom.

Faltam 28 anos ainda para chegar aos 62, mas usar a prática zen junto com a do titio Rogers há de me fazer muito bem.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os Descendentes



Ok, ainda no esquema oscar 2012, o filme de hoje é "Os Descendentes", de Alexander Payne (o mesmo de Sideways que comecei a ver com Fabi mas não vi todo). Um filme que concorre nos Oscars mais comentados, a saber:  melhor filme, melhor ator (George Clooney), melhor direção,  edição (Kevin Tent , de  filmes com Payne e uma curiosidade, Emmanuelle 5 de 1987) e roteiro adaptado (categoria que Payne divide com os atores Nat Faxon e Jim Rash). Roteiro baseado na obra de Kaui Hart Hemmings, que faz uma ponta no filme como secretária do protagonista.

A primeira vista o filme me pareceu um mix de Supercine com Sessão da Tarde: Matt King (Clooney) é um advogado workaholic que se vê de repente envolvido no cuidado das filhas por causa de um acidente que deixa a esposa em estado de coma. Tudo para ser aquele dramalhão básico se não fossem as sutilezas.

Tecnicamente o filme é correto e conta com ótima atuação de Clooney bem como de Shailene Woodley e Amara Miller que vivem as filhas Alexandra e Scottie respectivamente. Elas conseguem dar o tom certo ao fazer duas adolescentes com seus problemas, reforçados pela ausência parental, mas sem cair na caricatura.

Ai que está o tom do filme. Ele é solar como pede o seu cenário, o Havaí com praias e a maior parte das cenas (externas) ambientadas durante o dia, aproveitando bem a exuberância do arquipélago. Mas diferente de uma Ilha da Fantasia ali, com personagens muito comuns - a exemplo de Beleza Americana, com neuroses menos evidentes- vai se percebendo os não ditos, os conteúdos recalcados familiares que coordenam aquela família desestruturada afetivamente e que vai juntando os seus cacos na medida em que Matt tem que lidar com as filhas, a traição da esposa e questões familiares quanto a venda de terras paradisíacas de sua família.

O filme não propõe uma solução imediata no estilo "e todos foram felizes para sempre", mas dá uma dimensão humana e a possibilidade de continuidade, coisa que uma "felicidade eterna" abortaria. Com um texto leve e bem humorado muitas vezes vai se revelando uma série de conflitos e temas como amor, perdão, traição, atenção e entre tantos outros afetos vão aparecendo e cativando o espectador mais sensível.

Não considero o filme uma joia, mas muito bem feito e que sim, provoca ótima reflexão dentro de sua direção "correta". Valeu a pena!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Millenium: o homem que odiava as mulheres



Neste verão eu decidi fazer algo de diferente. Ficar na minha casa nesse verão maravilhoooooooooooso das Baixadas Litorâneas fluminenses, tomando meus bons Montillas e dividir com vocês esses momentos meus, que inclui bancar o cinéfilo de ocasião e comentar os filmes oscarizáveis.

É que cinema pra mim tem sido como ir a um restaurante bom ou ir no McDonald's, ou seja, seja um filme de arte ou um blockbuster cerejão é algo que faço raramente e, quando o faço, sei distinguir entre uma coisa e outra.

Mas o cerne do post não é esse, e sim comentar o que vi da versão estadunidense para a obra do jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), "Man som hataar kvinnor" (quedê o trema para o a de man, abnt? #classemediasofre) e que na versão de David Fincher é a "A Garota com a Tatuagem de Dragão" e no nosso dialeto brasileiro tornou-se "O Homem que não amava as mulheres". Coloquei os três títulos porque achei interessante quanto ao seu significado. Mas vou deixar a papagaiada psicolingúistica para o fim.

Estou com a versão sueca do filme na fila, que é de 2009 e dirigida por Niels Arden Oplev e quando vê-lo comentarei aqui, para as inevitáveis comparações.

Vamos ao tio Fincher. Esse é o tipo de filme que não dá pra ver assim de relance, aliás como todo o filme de mistério, detetives e afins em teoria devem ser. Não li a obra, mas pelo roteiro ele mescla uma história aparentemente nada absurda em termos de mistério, mas faz isso de uma maneira muito bem feita. Não foi difícil saber quem era o assassino do filme - acho que deduzi mais pela escolha de quem desempenhou o papel do que pela lógica em si, sou péssimo pra essas coisas - mas Fincher conseguiu trabalhar isso de forma  muito boa, partindo dos clichês habituais sim mas sem o lugar-comum: o investigador que se envolva com a assistente, o velho nazista em uma casa empoeirada, a garota hacker-gótica-maluquinha-usuária-de- drogas-bissexual, o senhor rico elegante e tudo o mais. E claro que além do bom roteiro de Steven Zaillian - o mesmo de Tempo de Despertar, A Lista de Schindler, Missão Impossível, Gangues de Nova Iorque, A Intérprete entre outros- aliado com as atuações do ótimo elenco, bem como detalhes técnicos como a fotografia, edição e montagem contribuem para isso.

Daniel Craig faz com competência Mikael Blomkvist, o jornalista da revista Millenium (título do filme) que perde um processo para Hans-Erik Wennerström, um "vilão" que pouco aparece no filme, até porque ele não é o foco central, mas o começo e o desfecho da trama. Craig teria tudo para repetir o 007 - tanto é que assim como em Casino Royale temos uma cena de tortura com tom homoerótico- e, por sua competência não o faz. Ele consegue achar o equilíbrio entre o jornalista derrotado, o pai ausente, o investigador inteligente e um homem submetido ao desejo de mulheres em situação de poder maior, seja pela editora Erica Berger (Robin Wright), chefe de Blomkvist ou pela jovem Lisbeth Salander (Rooney Mara), mais rápida, inteligente e que, sexualmente é quem toma a iniciativa diante de Mikael. 

A presença de Stellan Skarsgård é muito boa, ainda que eu o ache uma espécie de Gerard Depardieu sueco, ou seja, se o filme é sueco ou tem lenda nórdica na história, chamem Stellan. Para quem viu "A Casa de Vidro", em que ele era Terry Glass (vidro em inglês)  pode fazer uma ótima conexão, pois a personagem dele em Millenium, Martin Vanger, mora em uma casa envidraçada de fora a fora e dentre os membros da família Vanger é o mais simpatico e "transparente", juntamente com seu tio Henrik.

Bom rever Christopher Plummer que ficou na minha memória como o Capitão Von Trapp do clássico "A Noviça Rebelde". Mas uma vez ele é rico e mora em um lugar isolado de tudo...e a sua participação como o patriarca Henrik Vanger está ótima. 

Outro que merece destaque é o ator holandês Yorick van Wageningen, que faz do seu Nils Bjurman a medida exata entre o advogado comum, gordo , pai de família - sutileza do diretor na presença leve do álbum de retratos em sua mesa- e o cara perverso, fazendo um bom jogo com Rooney Mara sobre quem dá as cartas em alguns momentos do filme. 

A escolha do titúlo em inglês "A Garota com a Tatuagem de Dragão" é excelente, pois o filme é de Lisbeth Salander, a dita garota. O bacana é que essa tatuagem durante o filme é mostrada uma vez só durante um banho da personagem e já é o suficiente para sair do clichê (nossa, como estou usando essa palavra aqui). E se Lisbeth tinha tudo para ser a caricatura da garota esquisita rebelde maluca, a atuação econômica de Rooney Mara deu o ponto exato para a personagem que transita entre o violento, sexual, rigidez, dureza, afeto, carinho, infantil, inteligente tudo isso no momento certo, preciso.



Outros bons pontos é o fato do filme não terminar na resolução do mistério principal "quem matou Harriet Vanger?" e voltar para a briga de Blomkvist x Wennerström e Rooney Mara num visual mezzo Kate Perry, mezzo Raquel Assunção no julgamento de Ruth (sim, eu tenho que mencionar a teledramaturgia).

Aliás em relação ao apelo "gótico" de Lisbeth, é bom lembrar que a trilha tem o senhor Trent "Nine Inch Nails" Reznor, o homem do rock industrial tão querido pelos "goths, já que não só o filme, mas como o cenário, desde Estocolmo até o chalé de Blomkvist no norte da Suécia dá exatamente esse clima sombrio, mas sem cair naquele esquema fácil do noir-cinzento (pelo contrário o lugar é coberto por alvíssima neve). Há referência a Trent na camisa que o gordo que vende apetrechos eletrônicos para a espionagem de Lisbeth. 

E sim, nada de vilão voltando dos mortos para encher o saco e amarrando o final da história. O tempo nesse sentido é trágico e não dramático e isso é bom para o filme.

E as mais de duas horas de filme, enfim valem a pena. Se bem que nunca vi um filme gringo com merchandising descarado - quase no modelo brasileiro em que nomes de bancos vêm escancarados nas cenas- como esse, incluindo a Apple - claro em todo filme tudo mundo usa Mac, mas nesse, diferente de outros que vi, mostra o uso do MacOs- Coca Cola, Marlboro e Mc Donald's. Nada que comprometa o filme.

Consigo fazer mais leituras que me chamaram a atenção sobre Lisbeth: o fato dela oscilar bem entre a fragilidade e a força, entre a vítima e a vingadora, entre a louca e a sã, a tutelada e a independente. Outro ponto, no fim do filme, é que ela, mesmo sabendo de cabo a rabo a vida de Blomkvist ainda é surpreendida na cena final do filme por uma atitude tão comum feita pelos homens. Não vou contar para não fazer spoiling.

E por fim, no Brasil quisemos nos aproximar do título sueco "Man som hataar kvinnor", como "O Homem que não amava as mulheres". O que acontece, meus caros distribuidores brazucas é que uma coisa é "não amar", outra coisa é "odiar", onde é um desejo realmente existente com objeto e objetivo constituído, como o filme bem mostra. aliás quando li "hataar" me lembre do inglês "hate". Tá bom, não interessa a ninguém saber meus exercícios de etimologia vagabunda só pra dizer que sei alguma coisa).


Ps: Vejo nesse momento a que categorias do Oscar o filme está concorrendo

- Melhor atriz (Rooney Mara);

- Melhor Fotografia ( Jeff Cronenweth, que já trabalhou com Fincher em O Clube da Luta e A Rede Social, diga-se de passagem o segundo ainda não vi por pura implicância e o primeiro impliquei por anos para depois gostar muito do filme);

- Edição (Kirk Baxter e Angus Wall, companheiros de Fincher em A Rede Social, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button, sendo que o segundo fez o Quarto do Pânico, para mim um suspense mediano)

- Edição de Som: Ren Klyce, também dos filmes já citados

- Mixagem de Som: David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Bo Persson. Parker, já participou de inúmeros filmes, de O Retorno de Jedi a Gi-Joe, Piratas do Caribe entre tantos blockbusters. Semanick já tem duas estatuetas, uma por O Senhor dos Anéis- O Retorno do Rei (2003/4) e outra por King Kong (2005).  E o sueco Bo Persson já trabalhou com Bergman em Fanny e Alexander de 1982).

- Nada melhor que o IMDB nessa vida né mesmo? Dá um ar de que a gente sabe tudo de cinema, mesmo sendo um lammer, meu caso.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

As fluminenses


Bem eu sou daqueles neuróticos histéricos que repetem que carioca é quem nasce na cidade do Rio de Janeiro. Atravessou a Dutra, a Serra do Mendanha, o Rio Meriti ou a Ponte rio Niterói o "carioca" morre e pode-se usar o que todos nós cariocas, niteroienses, gonçalenses, campistas ou araruamenses somos: fluminenses.

Baseado nessa ideia vou escrever "As Fluminenses" baseado totalmente em fatos reais, a saber:

- A Desaparecida de Araruama;
- A Adúltera de São Pedro d'Aldeia;
- As Inconstantes de Cabo Frio;
- A Neurótica Obsessiva de Barra do Piraí;
- A Dissimulada de Volta Redonda;
- A Dama da Noite de Casimiro de Abreu;
- A Gringa de Macaé;
- A Aposentada de Itaperuna;
- A Bipolar de Paraíba do Sul;
- A Dama da Tarde de Nova Friburgo;
- A Política de Cordeiro;
- A Enfermeira de Itaboraí;
- A Maldita de Niterói;
- A judoca de Resende;
- A Solitária de Angra dos Reis;
- A Ninfomaníaca de Búzios;
- A Evangélica de São Gonçalo;
- A Caladona de Nova Iguaçu;
- A BBB de São João do Meriti;
- A Pintora de Nilópolis;
- A Samaritana de Tanguá

Mas isso não é uma questão de opnião

Estou preguiçoso com o liquididificador, compreendo. E a ressurreição de um texto do Danili Gentili de 2008 na minha timeline do facebook fez com que minha cabeça entrasse de fato no liquidificador (sem os di repetidos, por favor).

O fato em si não foi o fator principal. Eu poderia fazer um tratado completo sobre polissemia, falar de significante, significado, Saussurre, Lacan, antropologia , a teoria de Goffman sobre estigmas, projeto genoma e o escambau. E poderia repetir a diferença entre humor politicamente incorreto com exemplos e a grosseria pura e simples. Poderia, mas há uma razão mais simples diante de comentários de pessoas - de pensamentos políticos opostos - que assinaram embaixo para a baboseira desse senhor considerando-o genial. Tão ruim quanto um Bolsonaro da vida é ver esses discursos travestidos de uma suposta modernidade progressista.

Não me importa se posso ser considerado considerar racialista, ressentido, que estou me fazendo de vítima ou o caramba a quatro. O fato é simples: não quero ser xingado de baleia, macaco ou viado ou seja lá o que for. Xingado, esse é o termo, diferente de um amigo meu que chega e diz "viado, como tá a senhora?" que aí a semântica é outra. E isso não é uma questão de opinião, é grosseria mesmo. Sem teorias.

domingo, 1 de janeiro de 2012

MMXII


Se teve uma coisa interessante no ano que passou foi ver alguns acontecimentos como crônicas, apesar de ser fã do gênero e medíocre para escrevê-las.

Dia de sair de Araruama e vir para Copacabana, esse bairro-cidade que nunca para. Muitos tipos bonitos de todos os tipos (a repetição é proposital) e muito movimentado obviamente, com direito às figuras novas e aquelas que já fazem do bairro.

Aí no dia 30 pode-se ver clientes a procura das profissionais do sexo em suas quitinetes. Deve ser algo comemorativo ou pura vontade. De qualquer forma os que ali passarem já estão abençoados com alguma mensagem em forma de versículo da Bíblia pregado na porta.

Então papo com o porteiro na madrugada para saber mais ou menos como será a festa no dia seguinte e ele já avisando que não tem bagunça no prédio que ele não deixaria. Passam pessoas, entram senhora e senhor na boate de strip-tease que como Marilac devem quer algo de diferente neste verão. Isso na volta da madrugada do mercado relativamente cheio para o hora, em especial adolescentes apinhados na seção de bebidas, indecisos e com suas tolas brincadeiras (sim eu já fiz isso também).

Cervejas, mantimentos e rum comprados é esperar o dia seguinte. E pode-se dizer que foi bem sossegado, preparando a ceia. Posso dizer que foi feita em absoluta tranquilidade a ponto de podermos descer e acompanhar o papo de uma ex dançarina de uma boate ali de Copa reclamando do pessoal "de comunidade" que vai para a praia além de não sei quantos parentes vindo de Anápolis (Goiás insiste em nos rondar) e tudo o mais. Fora as olhadas descaradas e nossa visão fragmentada entre os Bombeiros, a Guarda Municipal, as janelas, as portarias e o grupo que só queria aproveitar a água dos chafarizes próximo à estátua da Princesa Isabel.

E assim foi. Os pedaços crus do chester demorado foram para o grill. A cuba libe + antártica bateram bem e lá fomos nós para areia festejar a chegada do ano novo com os belos fogos de praxe. Depois uma rodada pela muvuca, volta para jogarmos Mortal Kombat (será esse um ano nerd?) e retornamos à praia já sem show, mas com muita muvuca.  Hora de rirmos mais um pouco da vida e voltarmos para dormir que dois mil e doze só está começando, ainda que em um texto fraco, mas liquididificado.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Do desapego

Nestes dias pensei em uma série de textos, um para cada dia da última semana do ano com pensamentos sobre imagem, retornos entre outros que a falta do meu arquivo txt com os esboços me impede de lembrar.

Daí penso no meu último sonho do ano, que não está no meu blog específico de sonhos, mas aparece aqui por ter a ver com o título desta postagem e por sua aparente simplicidade: estávamos eu e Osmar na porta de seu prédio para ver os fogos em Copacabana. Estranhamente a rua tinha pouco movimento e logo em seguida o loucutor anunciava a contagem regressiva para o fim de 2011. Eu sem entender nada por achar que era mais cedo e meu amigo comemora e me diz que vai voltar pra casa. Na vontade de controlar o próprio tempo (isso já prestes a acordar e podendo controlar o sonho) pretendo voltar o relógio para trás e fazer daquela contagem algo melhor, com mais pessoas, enfim em clima de reveillon.

O sonho ilustra, entre várias coisas, a nossa dificuldade em nos despegarmos a certas coisas, pessoas ou situações. Achamos que somos capazes de controlar tudo e fazer as coisas da forma que idealizamos ou que achamos certa.

O que ocorre que o mundo não obedece ao nosso comando. E talvez por isso vamos tentando, como um colecionador, sustentar relações ou situações que não rendem mais nada.

E 2011  veio com doenças de pessoas queridas e morte de amigos, coisas sobre as quais nem eu nem ninguém temos controle, além de uma profunda transformação emocional. O meu desejo no fundo, a despeito de qualquer controle, é fazer com que as coisas aconteçam como tem que acontecer e, assim como fez meu amigo no sonho, aproveitar aquele momento de forma que dê prazer, independentemente se há 10, 100, 1000 ou um milhão de pessoas na rua. Pouco importa. A comemorãção, ou o recolhimento, quem faz é você e claro dentro das limitações que o mundo oferece.

E que em 2012 aprendamos a nos desapegar mais daquilo que não nos enriquece nada e saibamos fazer, cada um a seu jeito, mais celebrações. Que se dane o número de posts nesse blog, a vontade de fazer textos certinhos para cada dia ou a vontade de controlar os sonhos. Feliz 2012!!!!!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Não gosto dos meninos




Esse curta dirigido por Andre Matarazzo e Gustavo Ferri foi lançado em maio deste ano, mas eu estava mais por fora que umbigo de chacrete. Sorte que um dos que sigo no Twitter passou essa dica e pude acompanhá-lo.
 

O filme me chamou a atenção por vários pontos. Tem o lado de que me parece todos gozam de um mesmo status social - além de, como diz uma amiga minha em tom de piada, "cadê as cotas" ? - , mas isso em momento algum diminui a intenção, a força e a verdade dos depoimentos. E provavelmente muito do que é dito ali já foi vivido por muitos de nós, homossexuais.

Eu sou aquele tipo de neurótico que adora as entrelinhas. É comum ver a repetição, nos depoimentos dos homens em especial, sobre os "modelos". É sempre dito que o modelo que sempre nos é passado é negativo, da bicha louca, que solta a franga e tudo o mais. O que pode parecer negativo a princípio na verdade fez eu ter uma reflexão sobre mim mesmo.

Minhas referências masculinas foram, em suma, de homens heterossexuais - é esse o tema do próximo tópico do meu alfabeto - e, obviamente a vivência sexual e afetiva deles é diferente da minha. E isso não é um detalhe qualquer, mas algo que faz sim muita diferença.

Talvez essa nossa tentativa de "somos normais como quaisquer pessoa" guarda, mais do que a justa luta por direitos civis, uma necessidade de se desviar daquilo que consideramos negativo ou patológico. Talvez por essa razão muitas transexuais, por exemplo, sempre tem que dizer "eu não faço prostituição", como se fosse algo negativo esperado.

Quando me percebi gay vi que poderia não ser o tal "modelo negativo" que é dito nestes depoimentos. Em função disso durante um tempo achei válida a ideia do "seja gay, mas seja homem", como uma forma de ser o "gay parecido com a heteronorma", que na verdade despreza o que nós homens no fundo tememos: o feminino (ou femininos).

Sei que esse é um tema recorrente nesse blog ultimamente, mas ele reflete muito o que tenho pensado a respeito. E o contato com amigos que não têm medo de brincar com esse "feminino", mesmo não o sendo e sobretudo, compreender que da mesma forma que as orientações sexuais são diversas, há homossexualidades. Querer estabelecer um modelo "padrão"  e único para que seja seguido a todos nós homossexuais, de um gay asséptico, e no caso de nós homens, "másculos não afeminados" é tão intolerante, senão pior, que a própria homofobia.

Sim, quando um programa de humor resolve fazer graça em cima da bicha-louca, cabe sim a reclamação que muitos de nós fazemos sobre esse esteriótipo. Ao mesmo tempo cabe ver que famosos como Jorge Laffond ou Lacraia foram formas de expressão igualmente válidas da homossexualidade, ainda que o sistema tenha trabalhado de forma que estas se tornassem personagens que garantissem a tranquilidade que a heteronorma precisa de ver o homossexual como o "desviante".

Se eu reduzisse a questão do homossexual com a imagem devidamente asséptica é só de uma demanda de mercado seria uma interpretação reducionista. Ao mesmo tempo é uma das várias interpretações que se somam nesta questão. Por isso como vemos no vídeo, pode ser reconfortante como em alguns depoimentos do video se assemelhar a essa norma. Nesse sentido me chama a atenção o depoimento do menino com o cabelo "emo", que diferente dos outros não teve um esporte ou a amizade com o grupo de homens para se refugiar e passou sim por hostilização.

Quando se discute homofobia o que se quer é liberdade para as diversas formas dessa expressão homossexual da mesma forma que a hetero também encontra a sua diversidade.

O mais interessante foi que ao navegar por blogs e críticas sobre o filme de deparei com esse post aqui no qual muitos estavam com dúvidas sobre o título do filme. O fato é que essa dúvida vem pelo fato de quem diria isso seria uma lésbica, igualmente homossexual e que , pela forma como lidamos com o feminino é sempre descartado. Esse não entendimento vem disso, já que um homem homossexual diria justamente o contrário. Escolher o título a partir do que seria de uma fala lésbica é um dos grandes méritos deste curta. Até eu mesmo levei tempo para a ficha cair em relação a isso.

Enfim, em ritmo de fim de ano e com textos atrasados para o liquididificador esse curta despertou-me esse interesse. Mas claro há inúmeras outras interpretações a serem feitas a partir daí.