quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sobre a fumaça

Com o tempo se aprende a não correr atrás dos sinais de fumaça. Se ali há fogo, se ele é extinto. Existe em mim um lago repleto de coisas que ainda não descobri e que, no fim das contas, há de valer muito mais a pena. 

Ok, não escondo que a vi. Apenas me permito a vê-la, admitir a sua existência e simplesmente não ir atrás de onde ela se esconde.

Logo mais há um crepúsculo. Ainda que repetitivo, é mais belo que a fumaça. E lá estarei imerso em mim mesmo, sem me preocupar com fogo, fumaça ou palavras perdidas no vento.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Asterion no reino dos espelhos


Pior que o centro do labirinto, agora era o centro do reino dos espelhos. Tinha a cara de lugar perfeito onde a fome seria a menor de todas as preocupações. Era no tempo da nova dieta de Astérion, de novos terras e novos ares. Tempo do fogo abrandar e deixar jorrar por todos os lados as águas sobre o solo. E, junto com ela, certamente, viriam os peixes.

Melhor tempo, sempre o que vem após a chuva. As águas estavam repletas de peixes. Acontece que ali havia deuses caprichosos ocupados em ver a indecisão ou o sofrimento do faminto. Assim, e somente por isso, os peixes que eram de água doce tornavam-se de água salgada. E se fossem de água salgada viravam de água doce. E, segundo consta os antigos escritos, era vedado comer aquele fora de seu habitar natural. É o momento de ver o Destino como obra de um deus de carne e osso, ciente do que faz e disposto a pregar peças.

Assim, junto com a fome veio a fúria. Era grande o suficiente para revirar boa parte daquelas terras. De colocar abaixo árvores que, por mais flexíveis que fossem, eram profundamente enraizadas ali e por onde ar de nenhuma terra havia lhe tocado as folhas. 

Era outro tempo agora, o tempo das cinzas...

O acusado se apresenta diante do rei. Seus bolsos traziam, além de pouco dinheiro para a contribuição real, alguns argumentos que não poderiam ser utilizados no reino onde a imperfeição era tida como perfeita e ninguém poderia desmentir aquilo.  Estava vedado também tremer o chão, já que estes quebravam todos os espelhos. E como poderia um rei de espelhos sem seus espelhos?

"Acusam-te de exigir águas tranquilas e claras e aqui é lei que isso não existe". Era hora de sacar mais um argumento dizendo que as águas daquele tipo eram inexistentes e que a exigência fora outra. mas era só hora, pois todos sabiam que, diante do rei, nenhuma palavra era pronunciada quando este se julgava cheio de razão.

"Acusam-te de querer um reino real e este aqui é virtual, feito de ilusão. Como ousas a desafiar a natureza deste reino que sempre foi completamente aberto a você? No fundo você não gosta do clima daqui e por isso resolveu destruir a todos nós". Foi a maneira do rei poder fazer justificar a acusação mais forte, a de querer destruir aquele reino.

Como era o tempo do preto e do branco se combinarem no ar para que nenhuma resposta fosse dada,o condenado resolve fazer o mesmo por algum tempo. A escolha em calar-se era a mais acertada para não ter que enfrentar de novo as lamúrias do Rei dos Espelhos. Melhor ainda é que sempre havia a esperança de partir para o exílio.

É no caminho para o exílio que a água ainda inundava a terra, agora quebrada. Se antes era plana, agora quebrava em partes altas e baixas. E as águas caíam em cachoeiras. E foi nelas que o agora exilado percebeu que os peixes - que sempre tinham o conselho de que não fazer nada era muita coisa- eram exatamente os mesmos e que nunca havia mudado, seja de água doce ou salgada. E eles seguiam conscientes e felizes para as parcas iscas que pescadores enganadores lançavam naquelas novas águas. A morte também era uma escolha.

Fora dali era hora de tornar-se bicho por todo. No tempo das mastigadas, as ruminantes foram a que fizeram pará-lo e deter os olhos para aquele reino de longe. A terra agora, ao invés de parecer destruída, parecia também ainda mais bonita. 

Ao Rei dos Espelhos  isso era inútil. Ele não gostava, naquele momento, de pensar na vida também como uma outra escolha. Estava mais preocupado em olhar para os espelhos na garantia de que sua imagem ainda estava intacta em meio a esganiços no meio da noite que nenhum súdito escutou. E nem os peixes que sofriam mortos em meio a um campo de flores antigas que ainda resistiram ao terremoto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Trilha sonora da última noite

Bem, como não me lembro exatamente do sonho, não vai para " a vida que eu sonhei". Mas sim, ele tinha essa trilha sonora, com Adriana cantando e nele dizia que era a minha preferida do Roberto. Conscientemente, só me lembrava do "corro demais, só pra te ver". Depois me dei conta de que essa música fala de mim...



terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sakamoteando


Hoje, na hora da novela vou me encontrar com lideranças políticas e blogueiros importantes do meu Brasil. Entre alguns tópicos teremos:

1- Encontro com lideranças do movimento negro. Além de discutirmos Monteiro Lobato nas escolas de ensino fundamental e médio, vamos também falar sobre o time do Divino, já que tem mais negros na seleção da Finlândia do que no time de subúrbio ficcional do Rio.

2- Encontro com a delegação do Brejo Paraibano. Discutiremos o preconceito contra o povo nordestino bem como a inclusão ou não de crianças negras no lixão de Avenida Brasil. Além disso, proporemos a mudança de rodas de pagode na Zona Oeste carioca por forró Pé de Serra em lonas climatizadas para ninguém sofrer com o calor. É o mínimo.

3- Checar o "mailing list" com convidados VIPs da Igreja Universal do Reino de Deus. Afinal de contas eles são chatos, mas suas mensagens são inócuas e não contribuem em nada para o morte e o sofrimento de milhões de homossexuais neste Brasil. Conversaremos sobre Maquiavel e não permitiremos a alusão à Aristóteles no que tange à política.

4- Reunir com lideranças para traçar planos e estabelecermos a Ditadura Gay. Ela é o novo socialismo, o que Marx chamaria de "antítese", para depois estabelecermos a Ditadura do Politicamente Correto (a síntese), que será presidida por uma mulher negra, pobre e lésbica. Como se sabe, atualmente os homens heterossexuais ricos andam sem poder e perseguidos em nossa sociedade.

5- Fazer a mudança no plano educacional de Araruama. Substituir os livros de Nietszche - já que todo mundo sabe que no Brasil as crianças da rede pública leem o filósofo alemão desde o primeiro ano do ensino fundamental - por Gramsci e doutriná-las com o mais profundo esquerdismo.

5- Providenciar segurança para a jornalista global Zileide Silva, que se pronunciou a favor da restrição  a certas obras de Lobato nas escolas. Afinal de contas já foi dito que há pessoas com "vontade de matar aquela nega".

6- Providenciar a substituição de todos os DVDs da Globo Marcas por DVDs de seriados estadunidenses e filmes do Lars von Trier e evitar que as pessoas assistam obras misóginas por "acidente".

7- Preparar a defesa do José Dirceu e defender petistas que usam de argumentos racistas contra a atuação de Joaquim Barbosa. Afinal, todo mundo sabe que se uma pessoa está num partido que sempre defendeu a causa dos oprimidos, entre eles o povo negro, não é racista em hipótese alguma. Se fosse uma brincadeira de pique, eles seriam "café-com-leite".

8- Reclamar sobre racismo. Como é sabido isso no Brasil existe, mas não é pra tanto escândalo e fazer protesto e vilanizar ícones da nossa história, literatura ou artistas de pagode. Nem pra criar cotas raciais nas universidades. Estão racializando o Brasil e na verdade estou envolvido em um complô come-dorme no terceiro setor: reclamo dessas coisas só para mostrar serviço e ganhar verbas do governo federal. Assim tornar-me-ei senhor feudal de Araruama.

Outros temas, se surgirem, serão devidamente liquididificados.

Grato,
a gerência

Ps: A ironia desse texto é baseada em "chorumes" que andei lendo esses dias nas redes sociais.

sábado, 29 de setembro de 2012

Quando Copacabana Assombra

Certa vez em um programa de entrevistas, o escritor Rubem Alves falava sobre o "assombramento". Que os professores ao ensinarem ao invés de repetirem velhos conteúdos deveriam promover o "assombramento" dos seus alunos, pois isso é o que encanta e motiva o aprendizado.

Posso dizer que meu aprendizado por assombramento vai além da sala de aula. Aliás, quem disse que o aprendizado é só lá?

Noite de sábado. Vindo de Araruama sem muita vontade. Trânsito de Mercúrio em oposição ao Sol natal, me avisa o Personare no começo do dia, em meu email. Dia de acordar com uma dor de cabeça terrível e minimizada após o engov para apagar os vestígios dos excessos da noite passada. Pobre fígado. Mas o sono com o remédio resolveu a situação.

Chego tarde no Rio...queria ter chegado, sinceramente, mais cedo. Mas nem sempre as coisas saem como idealizamos. Isso serve para mim também. É quebrar de alguma forma as velhas fórmulas que se repetem.

Nesse "quebrar" meu amigo me chama para uma volta à noite. Não saímos de imediato. Ele vai ver algo e eu decido beber mais após outro engov. Eu bêbado me assombro comigo mesmo. Talvez mais que os outros que convivem comigo. Enfim... 

Saímos.

Pausa para parar em frente a um dos apartamentos. Meu amigo tem TOC e quer ajeitar o tapete na porta de um deles. Mas dá tempo para chamar o elevador e imediatamente ele parar no nosso andar, ainda que ele aponte para cima, não havia ninguém nele.

Nesse mesmo "imediatamente" sai alguém de um dos apartamentos. Será o do tapete organizado? Não, não foi. 

Ele, saindo, no começo não tem rosto. Me bate uma certa timidez que ainda estou quebrando. Sinto o meu olhar um tanto invasivo. Algum recalque de conteúdo sexual, diria o Freud aqui dentro de mim, tendo consciência do meu lado voyeur e também do exibicionista. E foi para isso que existe o espelho dentro do elevador - sim ele teve tempo de pegar com a gente- e reparar melhor.

A imagem: um homem baixo, gordinho, de cavanhaque e cabelos loiros. Olhos azuis. Cordão grosso no pescoço, bolsinha e uma camisa do Vasco. O norte do desejo apita e me dá uma noção de delírio...delírio porque ele acena para meu amigo, como quem quer iniciar uma conversa.

"E ai será que amanhã vai dar praia?"

Falar do tempo, o velho iniciador de conversas. Falar da praia, do sol de sábado e do tempo ainda sim frio. Dos momentos em que a ressaca ainda me consumia nas Baixadas Litorâneas e que fez algumas pessoas se animarem para ir para a praia em Copa.

E assim prossegue até a saída do prédio. Achei que o papo morreria ali. Ao invés de dar a volta no próprio prédio e pegar o carro estacionado na porta, ele decide continuar a conversa com a gente. Isso assombra.

"Sabe que é melhor sair com uma menina daquelas e pagar 30 reais do que de repente sair com outra, levar para um restaurante e gastar mais dinheiro e tudo o mais com a conta e com o hotel depois".

Isso poderia ser em princípio um papo repetido ou até machista...em princípio. Os assombramentos estão ai para mostrar que existem mais coisas do que aquilo que estamos acostumados a pensar.

"Hoje em dia está difícil arrumar uma pessoa companheira" Sim, o termo usado foi o clássico "pessoa". Continua a conversa entre concordâncias fáticas, pois queríamos ver onde aquele papo poderia chegar.

"Mas você que é homossexual deve passar por isso, não?" Diz ele a queima-roupa para o meu amigo. O interessante observar e que merece crédito na conversa é que ele percebeu que éramos amigos de fato, diferente da maioria de conhecidos e amigos meus que acham que nós dois tenhamos algum relacionamento de ordem sexual e tudo e tal... (rima boba, confesso)

Ali é o momento de assombrarmos não com algo que está por vir. Mas com algo que tínhamos dentro de nós. Emoções. Falamos do amor. Das semelhanças entre o vascaíno e meu amigo que não conseguiu ter sorte nesse sentido. Do elogio furtivo do meu amigo "você é bonito, vai conseguir arrumar alguém".

Ele fala mais. Fala da sua dificuldade emocional. Do quanto era difícil para ele a vida a dois. Até pensamos que ele fosse de fora, no meio dessa mesma conversa. Mas ele é de Copacabana, 31 anos, morou no Posto 6 e se mudou para o 4.

Onde encontrar o amor, aqui? Isso quando passamos pelo bar com pessoas bebendo e algumas putas...rimos. Ele se abre. Fala da sua bipolaridade, que vê como se fosse um diabetes. Mas faz psicoterapia também.

Em meio a isso as perguntas e afirmações "você mora sozinho? eu também" "O que vocês vão fazer hoje à noite?"...fala do apartamento onde sempre vai se encontrar com a prostituta que procura, como forma de manter uma ligação. Meu amigo diz o número de seu apartamento e ele fala da necessidade de conversar com alguém. Ele já havia dito antes da dificuldade que tem em ter um círculo de amigos, que os únicos contatos que tem são as pessoas que trabalham com ele e isso só no ambiente de trabalho.

Em meio a esse assombramento de solitários e ao saber o número do ap do meu amigo ele deixa o cartão e o telefone. Já tinha comentado o seu endereço. Era o que faltava naquela noite. Era o momento de confirmar o que Jô Soares disse no "o que vi da vida" no Fantástico: que a conversa era uma coisa maravilhosa. E o vascaíno, mesmo com sua bipoloaridade diz: "viver é muito bom"...conversando, melhor ainda...assombrando então...

sábado, 15 de setembro de 2012

O palácio que não é


No reino do rei dos espelhos há um lugar especial...um palácio muito bonito por fora, mas cheio de caminhos tortuosos.

Não me lembro ao certo quando eu o visitei pela primeira vez, me disse uma vez um poeta.  Parece que ele foi chamado pelo próprio rei dos espelhos e aquele lugar era, talvez, a única herança de seu pai. Uma pessoa que não era refletida nos espelhos dos aposentos reais oficiais do dito rei. Mesmo em períodos que todos os palácios do reino estivessem abertos. Havia sempre algo escondido.

Mas voltando ao palácio das mentiras. Ele é guardado na entrada por três homens. Todos eles possuem profunda admiração pelo rei, que inclusive manipula seus próprios decretos para conceder-lhes privilégios. Dizem que estão ali por ordem de alguém, para proteger um nobre de um reino vizinho de riquezas enferrujadas por uma certa maresia que sempre sopra do mesmo jeito. O rei dos espelhos por vezes tem que limpar em seus aposentos com alguns restos dessa ferrugem. 

Parece que na mesa dos banquetes há uma grande torta de chocolate com queijo algo assim. Em uma mesa magnífica que o pai do rei construiu. E dizem que o rei sabia exatamente de cabeça como era a receita servida em certos finais de semana que ele recebia conselheiros que toda semana ele mandava para a guilhotina, mas sempre voltavam.

Algumas cantoras cantam em italiano uma música que me é conhecida, mas resolvo ignorar. Não traz nenhuma emoção em especial. Só surpreende mesmo a presença das cantoras ali, já que o rei tinha decretos  que proibiam tal tipo de música por ali, pois aquela é "arte que não condiz com as coisas desse reino".

No pátio do palácio há uma festa. Um príncipe de quem nunca se ouvira nada veio de longe. Trazia consigo as melhores vestes e adornado pelas melhores joias. E tinha uma beleza magnífica. Só alertara ao príncipe de que não poderia ficar muito tempo ali porque tinha outros compromissos em suas terras. Seus súditos o amavam e exigiam a sua presença lá ineditamente. De qualquer forma havia ali num fim de semana desses encontro com diversos reis, príncipes, rainhas e outros nobres de terras igualmente desconhecidas naquele pátio.

Enquanto isso passam funcionários correndo no meio do salão principal. Era hora do turno de sábado, oito da noite. E na cozinha próxima um homem oferece um drink, mas manda avisar que está ali escondido do pai do rei, que não pode sequer notar sua presença ali. E tem planos de ir para outras terras e deixa para o rei um maço de folhas, envelopes e selos para manterem a comunicação.

Uma águia pousa na parte mais alta do palácio. Ela aparece ali de vez em quando, em épocas que não há presença de tantas pessoas. Só que dessa vez, assim, do nada, ela surgiu.

Trancado na parte de trás do pátio encontro um morador de lá Amuado, triste ele chora quando olha para tudo aquilo. Quando lhe pergunto o motivo para tanta tristeza, ele me diz me conta a sua saga. Fala de que cumpria uma pena ali estabelecida pelo rei que inclusive forjara provas contra ele. Mesmo sendo senhor absoluto das suas terras e de seu povo, havia ali uma corte para julgar os atos do cidadão, já que incomodava ao rei ter que ele mesmo fazer julgamentos. 

Em um certo momento o condenado me diz: esqueça, nada disso aqui existe. E ao olhar percebo que enquanto os 3 guardiões se transformam em areia, todo o palácio desaparece. E todos os espelhos do rei, um a um, se quebram... nada mais fazia sentido.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Semeadura

Semear exige paciência. Esse é um lado taurino que eu preciso cultivar mais.
Ao invés de querer ser uma estufa, um experimento transgênico que faça a planta crescer rápido, que tal apenas lançar a semente e esperar que a flor cresça?

E se os passarinhos a comerem ou o vento a levar, não se sinta culpado por isso. Seu poder termina quando suas mãos a lançaram no chão. O resto, são condições.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sono da tarde


Hoje, antes do sono da tarde pensei em ti do meu lado fazendo exatamente o mesmo. Daí me imaginei falando com você em sussurros. Ouvi a minha própria voz, mais devagar. Dali me dei conta que eu parecia outro mesmo repetindo coisas que já te disse outras vezes. Mas nesta tarde, por alguns minutos era maneira que eu queria ser intenso com você.

Quando penso em ti penso nessa energia forte que, se por vezes tem algo que se assemelha à briga e à raiva, carrega dentro de si uma tremenda força criadora. Pensei em um manual que você me recomendou certa vez, mas dessa vez decidi fazer as coisas do meu jeito.

Vou primeiro me felicitar com a sua beleza. Quero me sentir com isso. Ver que na verdade tu és mais belo que eu. O quanto aprecio a sua pele, enquanto a toco. Os seus olhos miúdos e seu sorriso de quem tem o maxilar inferior para frente. Prognatas, o meu fraco. E você vai me criticar por achar meu comportamento depreciativo e aí eu solto uma gargalhada daquelas. Bem gostosa, franca e longa. E ainda assim sem me desgrudar de ti. Acontece que dentro de mim há um conquistador que cisma com aquilo que ele considera maior que ele mesmo. A beleza, nesse sentido, não foi descartada.

Vou te beijar. Primeiro em beijos leves entre um sussurro e outro. E de repente, quando menos se espera vem um mais intenso. Não se preocupe com a aquilo que você outro dia chamou de "obrigatoriedade da língua" ou algo parecido. Assim como eu você se preocupa com os encaixes. Mas nesta tarde é diferente. Um pouco...

Passarei minha mão por dentro dos seus shorts, aqueles baratos que você usa e eu gosto. Vou sentir a cueca babada de tesão e só para provocar passarei de leve o polegar e o indicador bem na pele da cabeça do teu pau só para espumar aquilo. E deslizá-la de leve, bem devagar. E contigo farei o mesmo, conduzindo a sua mão até o meu para você ter nas mãos a lembrança de outra semelhança nossa. E vou te beijar ainda com mais força pra sentir você ainda mais melado.

E antes que você reclame "agora não, estou pensando em dormir", eu vou tirar minha mão e te abraçar de novo. Vou te dizer que hoje quero dormir nessa tarde exatamente assim. Carregado, cheio de energia. Cheio de tesão em você. Mas vou sentir aquela energia circulando no meu corpo e sentir o mesmo em você. Daí vamos deitar e dormir, mas de um jeito diferente. Ao invés de desfalecidos após a gozada, vamos dormir acordados pelo tesão. Abraçados e percebendo que o que vem da periferia do nosso corpo, na verdade está percorrendo ele todinho. O meu prazer vai ser te tocar e dormir, sem compromisso com a noite ou com as horas certas de sono. Sem compromisso com o gozar. Só com os dois corpos soltos e abraçados com a voz mansa até sumir. É assim que será uma das maneira de me sentir intenso com você.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Nudez e cultura

E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam. Gênesis 2:25

















Esta semana uma menina de 13 anos se apavora com a imagem no quadro que tem na sala de casa: por que aquela mulher está pelada? Mais que uma curiosidade a sua pergunta carrega um tom de reprovação e, ao mesmo tempo de estranheza.

Minha mãe estranha o comportamento da garota. Mesmo sendo filha de uma presbiteriana ferrenha, ela foi educada de forma que o nu fosse visto de forma natural. Eu mesmo me lembro de minha avó repreendendo alguns de meus primos quando eles riam ou faziam piada diante da nudez. Para ela, esse tipo de comportamento denotavava "malícia", um sinal de que aquela nudez era vista com um teor sexual e não apenas como um corpo.

Esse paradoxo da minha avó é interessante. Afirmo o paradoxo porque há em seu comportamento uma repressão da sexualidade o ver "com maldade". Ao mesmo tempo há algo libertador, em especial para uma mulher nascida na alvorada do século passado no interior do Rio, de que o corpo é um dado natural e que o mesmo não deveria ser ridicularizado ou ao mesmo tempo estranho.

Mas se o corpo é estranho mesmo entre adultos - os nossos esforços em querer modificá-lo de certa forma está relacionado a isso- imagine em uma menina de 13 anos que está começando a passar pelas mudanças da adolescência?

Minha mãe me chama a atenção para um outro ponto. Em suas palavras, "ignorância". Pensamos como as coisas se dão em Araruama. Em geral a diversão dos adolescentes de classe média aqui nos fins de semana é sair para comer ou, quando muito, assistir a um blockbuster em uma das duas únicas salas de cinema da cidade.  Um dos poucos museus está afastado do centro, o Teatro Municipal é pequeno e subaproveitado e posso dizer que, comparado com os demais municípios da região pode se dizer que há muitas coisas aqui.

O ponto de reflexão aqui é a forma como o "nu artístico" é encarado pela menina. Isso somente dá por questões psicológicas da idade ou mesmo relacionado à sua criação familiar ou a falta de investimento em atividades culturais também não se liga ai?

O risco neste caso é cair num discurso elitista no qual a apreciação de  "obra de arte do artístico num museu bacana incluindo esculturas e pinturas de nu" fosse apenas para pessoas de fino gosto e que lidam de forma "natural" e refinada diante desses aspectos. Acho que se pode pensar para além disso.

Tomo como exemplo a televisão, que torçam ou não o nariz, é um elemento de cultura de massa. Esses dias alunos meus comentavam como iludiam os pais para poderem assistir ao seriado "Gabriela" porque alguns deles os repreendiam (em especial as meninas) por terem cenas de muita "indecência". De qualquer forma isso aponta que as representações artísticas da nudez (acompanhada nesse caso com a sexualidade) não se dão somente em espaços restritos.

O que eu penso nesse caso é até que ponto lidamos com a nudez? Com a sexualidade? As duas precisam estar necessariamente juntas? Ou não? E quando estão, como se apresentam? Onde elas se representam? Só em espaços elitizados? De que forma isso pode ser dito? E melhor, como dar voz aos jovens para que eles possam expressar suas dúvidas, choques, repressões de forma natural e para que seja superada essa dicotomia da maldade x nudez? Por fim, como nos livraremos das nossas folhas de parreira sabendo que, todo homem, todo lobisomem está cheio de inferno e céu, como diria Caetano ?

domingo, 19 de agosto de 2012

Muro cinza

I'm bulding a wall, a fine wall. Not so much to keep you out, more to keep me in.

Por um instante imaginei um grande artista, um mestre do "grafiti". Na sua casa tem um muro. Do lado de dentro esse muro tem belos desenhos com muitas, mas muitas cores. Os traços ainda podem melhorar, mas o que poderia ser visto ali já e encantador...

poderia...

Poucos tem acesso à parte de dentro da casa. O muro que se vê, na sua parte externa só tem preto, branco e cinza. De vez em quanto um novo desenho é adicionado, mas não se nota muita diferença. E se repetem. Preto, branco e cinza. 

É essa parte do muro que o artista pinta na esperança de ter seu reconhecimento. É por ali que ele tem o contato com o mundo, com a sua parte cinza como forma de que alguém lhe diga "oi, tudo bem". 

O que eu ainda não entendi são os motivos deste artista não revelar a parte mais colorida do muro, tão bela. Por enquanto ele só me assopra no ouvido: sou tímido.

A partir da leitura de seu muro, já que pude ver parte do que estava lá dentro eu pensei nos meus muros, nos meus desenhos. Que cores eles têm? O que está na parte de dentro? E na parte de fora? E antes de eu pensar nas motivações do artista era o momento de pensar: e as suas motivações, Odilon?

Enquanto não me atenho as respostas definitivas, vou liquididificando...