domingo, 26 de junho de 2011

Da homenagem


O post de Osmar no Facebook mas a indicaçao do Gustavo também làa me moveram a escrever esse texto a partir de umas boas reflexoes que tive nesta caminhada de meio da tarde de domingo. Eu no pacato condominio burgues e a Parada Gay rolando solta em Sao Paulo. Alias o texto é esse aqui

http://rash-sp.blogspot.com/2011/06/nem-tas-nem-kassab-revolucao.html

Por mais que o texto pareça coisa de militantes imaginarios revoltados ou coisa do tipo ele aponta para uma questao interessante que ha tempo tenho pensado: a inclusao (ou suposta inclusao) do homossexual atraves do capital.

Pensando nas coisas ate o feudalismo, a sociedade ocidental se baseava basicamente na divisao entre os que trabalhavam duro (os servos) e os nobres. No meio do caminho surge uma nova classe, a burguesia, que "ressucita" o dinheiro, as cidades ate as coisas culminarem na Revoluçao Francesa, marco para a tomada do poder por essa classe. Faço esse retrospecto historico para lembrar que esta classe trouxe ao mundo a ideia de que com trabalho arduo e dinheiro, pode-se tomar o poder, antes destinado a somente uma minoria "escolhida por Deus".

Esse reflexo aparece na nossa sociedade, heredeira e continuadora desses ideais em que diversos grupos sociais reivindicam seus direitos a partir da ideia da igualdade, outra bandeira que vem desde os tempos da revoluçao que citei. E ao que parece é comum o argumento de que "gays consomem, gays gastam mais, gays tem mais dinheiro" como forma nossa de conseguirmos a nova versao do titulo de nobreza no seculo XXI: a cidadania.

Em materia para a Revista O Globo hoje, a entrevista com Carlos Tufvesson ressaltam esses mesmos argumentos em relaçao ao turismo gay.

Um paralelo pode ser feito com a questao racial-social nesse singelo exemplo que me vem a mente: Ivete Sangalo e Ronaldo Fenomeno - ricos evidentemente- tentaram comprar uma casa no Jardim Pernambuco, enclave no Leblon, zona sul carioca. Ao que parece houve uma recusa dos moradores venderem suas casas para esses senhores, uma vez que nao sao "pessoas de classe" apesar do dinheiro que possuem. No caso de Ronaldo ainda teve o adendo "imagine ele com aquele povo do suburbio fazendo pagode aqui".

Este exemplo mostra que ainda temos resquicios da Idade Media nas relaçoes sociais e que o dinheiro nao é o redentor, ao que parece. Cidadania, igualdade deve ser vista em um contexto global que ofereça direito a todos. E vou repetir o cliche, ja que as coisas nao parecem claras: independentemente de classe, etnia, genero, orientaçao sexual, religiao etc e tal.

Partido dessa premissa e que Osmar comenta no facebook é mesmo absurdo que a Associaçao da Parada resolva homenagear o sr Marcelo Tas. Ele que capitaneia uma serie de paspalhoes que dao exepediente as vezes como humoristas nas horas vagas que igualam a grosseria pura e simples ao humor "politicamente incorreto". Momento de me lembrar da fala de Flora de "a Favorita" que disse ao Dodi: "ironia é para gente engraçada e inteligente, e voce nao é nenhum dos dois".

Na falta de ironia sobram declaraçoes racistas, sexistas e tantas outras na trupe do Tas, que ao que parece andou ofendendo os baianos no ultimo carnaval. Podem me chamar de tio chato que quer dar uma de correto e se acha imune de preconceitos. Nao se trata disso: eles querem ser o artista e eu sou a plateia a ver o show pifio desses camaradas.

E nesse show ruim acho péssima a ideia da Associaçao que deve ter escolhido Tas nao somente pela sua atitude - sim corajosa- com sua filha no proprio programa que apresenta. Se voce està em um movimento social tem que ter em mente que como movimento ele se conecta com varios outras questoes da sociedade. E vale lembrar, o que seria do movimento gay se nao existisse o feminismo, o primeiro a questionar os valores patriarcais?

Nao quero e nem estou fazendo militancia barata. Mas cabe lembrar que a mera escolha deste senhor me parece uma forma também de agradar ao tiozinho que acha um horror ser gay "mas o meu filho é honesto e pior se ele fosse ladrao ou fumasse maconha", como se a homossexualidade fosse dos males, o menor e nao uma orientaçao digna de respeito e direitos.

sábado, 18 de junho de 2011

Ai que calor!


Eu bem que poderia fazer trocentos mil comentèarios sobre Miss Tacuarembo, musical uruguaio de 2010 dirigido e escrito por Martin Sastre - que faz uma ponta logo no começo do filme como o cara que seleciona participantes do reality show "Tudo por um Sonho"- baseado no romance de Dani Umpi. A trama é simples digna das tramas da teledramaturgia latino-americana: uma moça resolve sair da sua pequena Tacuarembo, no interior do Uruguai em direçao a Buenos Aires com o sonho de ser uma cantora famosa. O hilario é que ela trabalha em um parque tematico catolico chamado Cristo Park onde da expediente como uma parte dos 10 mandamentos ou Maria Madalena. Some a isso lembranças da sua infancia e personagens que por mais caricatos que poderiam parecer é o que faz a trama ser bem interessante.

Sastre acerta em cheio ao costurar referencias dos anos 80 e 90 no filme. Ele coloca com maestria sem embolar Flashdance, Madonna, EMF, o perfume de vidro-bolinha da avon e dialogos que fazem referencia aos Tupamaros, grupo de guerrilha de esquerda uruguaio, pais que assim como o nosso passou pelo processo de redemocratizaçao nos anos 80.

As musicas sao uma beleza de ouvir, assim como a dança a coreografia e o melhor de tudo: o filme é um chiste perfeito a elementos do catolicismo. Esqueçam filmes de pseudo-revoltados a fim de chocar a sociedade judaico-crista ocidental. A zoaçao é leve, divertida e isso permite ao filme dar otimas alfinetadas que talvez outro genero nao permitisse: Jesus é sexy, dança e da pinta. Santo Expedito parece um modelo e Sao Sebastiao aparece em um dos numeros de dança e musica como uma maluca pintosa.

A dicotomia personagens vonzinhos X viloes é feita de uma forma que nao parece chata e que os remete, justamente, às telenovelas. E graças ao filme fiquei conhecendo a musica do "passarinho quer dançar com rabicho a balançar" na versao em espanhol que provavelmente foi hit na "Banda oriental" nos anos 80. Enfim, um filme que vale a pena ser visto mesmo por aqueles pouco habituados a musicais, como eu. E como bom catolico "menino da freira" eu me diverti muito e gargalhei com as referencias.

ps: o teclado hoje carece de acentuaçao

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O que carregamos nos bolsos?

"Parte de nossa neurose é o desejo onipotente de ter os nossos bolsos cheios de verdades e certezas".

Essa é a frase de Rubem Alves lá no meu Facebbok. Usualmente as pessoas gostam de colocar frases assim como forma de criticar as outras. A primeira vista, no meu caso, é como se eu fosse o não-neurótico sem certezas no bolsos que colheu a frase por achar que eu poderia criticar aqueles que são assim. Ledo engano, essa frase foi escolhida por pura identificação.

Vejo aqui minha tia acompanhando o culto do pastor lançando não certezas para fazer sua cabeça, mas certezas com as quais ela se identifica. É como aquela que vai na cartomante - Machado de Assis mostra isso com maestria- para ouvir exatamente aquilo que quer ouvir.

Interessante que esse desejo é onipotente. Gosto dessa frase. Me lembrei de Deus, o ser onipotente que tem todas as certezas do mundo porque Ele o criou. Penso que as certezas que carregamos nos bolsos, nos olhos e repetimos com a língua é uma maneira de sermos o centro de tudo, de sermos o próprio mundo. Por isso quiseram queimar Galuleu quando ele resolveu contrariar que o nosso mundo não era o centro das coisas. Tudo isso em nome de certezas que queimaram, mataram e torturaram.

Será que as certezas servem para só sustentar nosso desamparo? Ou terá nela uma desculpa para exercemos nossos atos mais perversos com chancela de "normalidade"? Em outras palavras, certezas para podermos ser cruéis com os outros.

A vida tem sempre me mostrado o meu próprio desejo obsessivo. De certa forma é isso que ele quer, a possibilidade de ter um conforto aparente e a justificativa para ser cruel. Por isso sempre digo que é bom conversar com o monstro que habita dentro de mim, falar diretamente com ele ao invés de escondê-lo. É bom tirá-lo de dentro do bolso e mostrar que ele não pode absolutamente nada diante da realidade.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Da escuridão

Olá,

Ontem você estava enjoado e talvez por isso me sacou uma pergunta: "Quando você começou a namorar, você se julgou inexperiente?".

Nunca tinha parado para pensar nisso.A vida não tem manualde instruções nesta área. Alguns tentam, sejam nos livros religiosos, psicoterapias da moda, auto-ajuda ou qualquer outra coisas dessas, mas para mim não vi nenhum significado nessas coisas justamente por não ver que para me relacionar eu precisaria de um currículo e uma carta de referências. Inexperientes somos quase sempre.

O meu começo é engraçado, porque foi ter um relacionamento para não ter. Quando se está com alguém que é sem graça, feio e sem humor interessante o que eu queria mesmo era a escuridão. Sabe a cor negra que absorve todas as cores e nada reflete? Era por ai. Estava com alguém que adorava cores bizarras e coloridas mas construímos uma relação para nada refletir: a minha sexualidade, identidade e minha auto-estima.

As cores do arco-íris, mais vivas e que representam melhor nossa sexualidade do que as faixas de cor marrom daquele universo que conhecemos, foram surgindo pouco a pouco. E a saída foi a relação amorosa um uma de suas formas - mesmo conhecendo seu sábio conselho de que o amor é um só - a amizade. Ao descobrir com quem compartilhar minhas ideias, desejos, alegrias, momentos felizes e tristes (sim isso está parecendo enredo de música cafona ou mensagem da Ana Maria Braga no PowerPoint com imagens dos Alpes suíços) para que pouco a pouco minha identidade fosse construída e, na reflexão, abandonar essa forma de escuridão.

Se a palavra experiência te serve de algo,tome-a como vida e vivencie. Não se esconda em relações idealizadas com alguém que,além não te dar bola, só serve para no fundo esconder a sua necessidade de se manter na escuridão. Um mal resolvido para te manter em uma não-resolução perdida no "ainda gosto dele", boznzilnho só se fode, inúmeros textos prolixos a ele dedicado e tantas outras ilusões escuras.

Permita-se obrilho na intensidade que deseja e, antes de pensar se terás ou não inexperiência,você vivenciará aexperiência.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sobre o kit ainti-homofobia

Acabo de ler no facebook o comentário de um rapaz homossexual que afirma "não ser muito a favor do kit", o kit sobre homofobia barrado por Dilma, ao que consta, em troca de salvar a pele da (ops!) do Palocci junto à bancada "cristã" no Congresso. Minha reação foi logo de bancar o militante esquerdista-festivo (meu caso) e começar a gritar e achar um absurdo justamente um homossexual se dizer "meio contrário" ao kit. Depois retomo essa discussão. Por ora vou reproduzir a fala da professora Lilian do Valle que saiu hoje no "Globo":


"A professora Lilian do Valle, professora de Filosofia da Educação da Uerj, alerta:

- Quanto mais baixa a idade, mais delicada a situação. É uma idade muito sensível para questões afetivas e psiquícas. Uma palavra mal colocada pode resultar num dano maior do que simplesmente não falar nada. Tem que envolver um trabalho maior, interdisciplinar. Não é simplesmente aprovar uma lei e jogar o kit. É pedir demais do professor esse tipo de responsabilidade. Não se pode esperar que a escola resolva os problemas da sociedade."


Interessante o verbo "alertar" usado no texto, como se estivesse vindo uma catástrofe e a posição digna de Pilatos da professora. A crítica é necessária, vamos aos fatos.

Uma das formas de "dividir" o pensamento, como se isso fosse possível já que ele diverso e está em constante movinento, é colocar em termos do senso comum, o religioso, o filosófico e o científico. Quando um Silas Malafaia da vida brada aos 7 ventos contra o kit (e claro, por ele os homossexuais seriam exterminados) ele está usando o seu referencial dogmático religioso - claro que aliado a esperteza de manter seus fiéis conservadores (essa palavra é possível em Pindorama?) e seus dízimos em seu rebanho. O senso comum é o comentário do tiozinho do churrasco do fim de semana que afirmna ser absurdo expor as crianças a uma coisa dessas,, que isso é uma falta de respeito, ainda que sua experiência pregressa (também do senso comum) aponte para existênciua da sexualidade na infância e sua manifestação numa possível brincadeira de médico ou um troca-troca com primos mais velhos. Ok, é só um exemplo.

Eu pasmo é com aqueles que se colocam em nome do saber científico e filosófico engrossarem o coro. Tenho experiência em trabalho com adolescentes em Saúde Sexual e Reprodutiva, especiamente entre homens jovens. Rapazes entre 15 e 24 anos, justamente a camada mais vulnerável à morte pelas chamadas "causas externas": acidente de trânsito, homicídio, suicídio, etc. Daí a necessidade desse trabalho.

Nas oficinas que faço sempre tenho a preocupação de deixar bem claro a eles que o que está se fazendo é a construção de um conhecimento conjunto e que o objetivo não é estimular alguém a ter relações sexuais. Pelo contrário, o objetivo ali é criar um ambiente no qual o jovem se sinta confortável e, diante da informação coinstruída ali, estar com o poder suficiente que reduza a sua vulnerabilidade e, claro, promover a equidade de gênero. Por vezes jovens evangélicos vieram falar comigo sobre a questão da sua religião fazer pregração contra o sexo antes do casamento e digo-lhes que a decisão quem deve tomar são eles, com toda a responsabilidade, e que meu papel ali é mostrar as alternativas e os cuidados necessários, bem como o conhecimento do próprio corpo e - o que não pode ser nunca excluído- as questões emocionais. Forçar a barra seria aumentar-lhes a ansiedade e desempenhar um papel anti-ético. E olha que nem mencionei a questão da homofobia, que é sempre terreno espinhoso nestas oficinas.

Voltando à fala da professora. Qual a noção de escola que ela tem? Um prédio fechado com doutores do saber distante da sociedade que o cerca? Se a função é educar e promover cidadania porque esse discurso de "não foi feita para mudar o mundo?". Parece-me o cara que joga o papel de bala no chão da rua e diz "todo mundo faz". A professora se iguala ao tiozinho do churrasco ou ao fanático religioso.

Se iguala, por que? Qualquer profissional de educação, em tese, tem cadeiras de psicologia na licenciatura onde deveria ser discutida a questão da sexualidade. O nosso conhecimento está ali para isso e não somente para os doutores de consultório dizerem aos pacientes "sei, a culpa é da mãe!". Tudo bem que eu não sou inocente, eu moro no Brasil e eu mesmo já passei um tempo na licenciatura e vejo como é precária a formação de nossos professores - aliás tema apontado por Dilma em um dos debates que ela participou - e isso não é só na discussão da sexualidade. A formação é precária até mesmo para o professor dar aula em si, ensinar que 2+2=4. Assim sendo, se eu pensasse como a professora Lilian do Valle eu diria: deixemos as crianças analfabetas, pois os professores não estão integralmente preparados e já que a escola não veio para mudar o mundo vamos deixar todos ignorantes.

Em um ponto eu sou obrigado a concordar, até mesmo pela minha experiência: o material didático não deve ser um fim em si mesmo. Infelizmente pelo que leio da opinião tanto pró quanto contra o tal kit é reduzir uma questão fundamental que é a sexualidade a um material. E cabe lembrar que homofobia é sim um tema importantíssimo a ser tratado, mas não é o único. Há muitas questões a serem discutidas que tem relação sim com o campo da sexualidade: as DSTs, a gravidez de adolescentes, o uso abusivo de drogas, a violência de gênero e tantos outros. Claro que não quero fazer da educação sexual uma cruzada conta essas supostas "desgraças", mas que ela seja algo que haja o envolvimento efetivo de alunos, professores e família, mesmo reconhecendo que há dificuldade de todos - em várias orientações sexuais, faixa etária, gênero e classe social - em lidar com o tema que o ser humano mais escamoteia de si mesmo e que carrega uma série de preconceitos da nossa matriz religiosa. Não importa se você é crente, agnóstico ou ateu, eles estão ali na construção de nossa sexualidade que, obviamente, não apresenta só um componente individual.

Os videos foram produzidos pelo ECOS, instituição com a qual já trabalhei e tem um trabalho importantíssimo na área de sexualidade junto a adolescentes. Gostaria e deveria , se conseguir, ver esse material.

O jornal "O Globo" faz um "alerta" pelo fato do kit ser distribuído para crianças de 11 anos. Pera lá! Freud no começo do século XX, ele mesmo um conservador e vivente no puritanismo da Europa vitoriana, sacudiu o campo dos saberes com os seus "Três Ensaios" no qual afirma a existência da sexualidade infantil. Isso ele e todos nós sabemos. Até quem questiona a sua obra afirma o mérito dela nesse quesito. Então me espanta muito quando alguém do meio acadêmico vem à imprensa para reforçar preconceitos sem nenhum critério baseado no saber, como diz a palavra filosofia em sua etimologia.

Sim, os professores devem ser capacitados para lidar com a questão da homofobia. Eles também tem que estar preparados para lidar com as questões de sexualidade, violência, assim como ensinar às crianças que 2+2=4. E quem é da área sabe que a discussão desses temas não é feita da mesma forma para todas as crianças. Tem que ser respeitada a idade e a capacidade de compreensão de cada um. Mas isso não deve ser desculpa para perpetuamos o ciclio de violência que temos em nossa sociedade, ainda mais considerando que ser violento - e a homofobia é uma forma de sermos violentos - é construído ao longo dos anos em nossas famílias, comunidades e instituições como a escola. Se ela não vai mudar o mundo, ela deve cumprir sim seu papel como escola. É o mínimo que se espera. Daí a obrigação do Estado em capacitar os professores para além da mera distribuição. de material didático. No entanto, o que tenho lido é uma celeuma maniqueísta a respeito disso.

Voltando ao rapaz do começo do meu texto. Nós, sejamos homossexuais ou não, temos em nossa formação sexual nossos preconceitos e valores a respeito da sexualidade em si. Não é a minha orientação que vai fazer de mim uma pessoa progressista ou retrógrada. E vejo mais dúvida na fala dele do que certeza. E assim é a sexualidade, campo de dúvidas, descobertas e novidades, já que ela lida com a identidade daquele que inventou uma coisa chamada "consciência de si" para chegar a conclusão que uma resposta definitiva sobre ela é impossível. Esse alguém é o ser humanos, esteja ele inventando dogmas para afugentar sua insegurança diante da vida ou criando saberes inteligentes nos quais vão se somando novas perguntas e descobertas ao invés de uma certeza pura e simples.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma certa sabotagem

Se tem um tema que estou sempre conversando com os amigos é esse da sabotagem. Isso acontece comigo e bem como com várias pessoas. Não sei se isso vale como "instinto" da alma ou coisa que o valha, mas mais cedo ou mais tarde ela aparece de várias formas.

Esses dias creio que postei algo sobre alguém que cria regras para si e depois não cumprí-las. Isso é uma forma de sabotagem, pois pode esconder várias potencialidades de alguém com medo de encarar o próprio desejo. Esses dias eu pensei numa outra forma de sabotagem, que é aquela que é dirigida ao outro.

Imagine a cena clássica de alguém que sempre culpa o mundo ou os outros por tudo que dá errado em sua vida. Bem sei que isso é um mote perfeito para um livro de auto-ajuda. No entanto, como nos ensinou Poe no seu conto "A carta roubada" muitas vezes desprezamos o óbvio e deixamos de encontrar a solução mais evidente para o fato.

Voltando para esse acusador do mundo é engraçado que este cria padrões, só que para os outros. É uma forma de se defender contra os próprios desejos. Dia desses conversei com alguém que repetia, por exemplo, o velho e batido discurso de que "ninguém quer algo sério, um envolvimento emocional, um relacionamento", quando é ele próprio que cria condições e situações para que a coisa não dê realmente certo. Assim, se livra da culpa e joga nos outros o que é de sua responsabilidade.

Para usar um exemplo bem besta: imagine que alguém marque um evento ao ar livre, mas no fundo está sem saco. Espertamente marca para um dia em que a meteorologia preveu chuvas. Bem, a meteorologia acerta e chove no tal dia. A culpa do fracasso vai pra conta de São Pedro.

Enfim, tem pessoas que colocam essas sentenças e vão levando isso vida afora. A culpa é dos outros e assim consegue escamotear o que realmente querem. A grande questão que sempre repito é que depois a realidade - aquela que sequer conseguimos definir de todo e não temos controle sobre- vem cobrar a sua conta depois.

sábado, 30 de abril de 2011

Sobre o silêncio

Tenho uma prima de 17 anos que posso considerar como a típica fundamentalista evangélica. Só que ela não é do tipo que abre a Bíblia na cara dos outros ou coisa que o valha. Mas está cheia de convicções e certezas a respeito do mundo, embora ela mesma seja uma menina inteligente e capaz de questionar certas coisas. Pena que quando ela faz isso, na maioria das vezes, é para fundamentar a sua própria visão de mundo.

Ela agora faz um curso que inclui no currículo "cidadania". Cada mês um tema é escolhido para os alunos debaterem e, por vezes, eles têm que defender posições que são contrárias ao que eles pensam. Achei esse exercício interessante, especialmente pelo fato dela ter que defender a adoção de crianças por casais homossexuais, coisa que ela, por uma mera premissa religiosa, é contra.

O tema do mês é espiritualidade. Parece que o professor disse aos alunos que era do candomblé e os demais manifestaram suas opiniões. Pelo que ela me contou um dos meninos resolveu relativizar a Bíblia, sabiamente apontando que ela era um livro escrito pelos homens e que algo dali fazia sentido para ele, mas que tem muita coisa que não cabe no mundo em que vivemos. Bingo, nem todos os adolescentes são iguais. Ainda bem!

A minha prima, que dá aula na escola dominicar da igreja para crianças, lê os best-sellers evangélicos, do Malfaia à Cabana, resolveu ficar na dela. Ela disse que se manteve em silêncio porque não valia a pena discutir aquilo e que a Bíblia estava certa e ponto. Eu me identifiquei com ela em certos pontos, em certos defeitos meus, que também vejo em outras pessoas com quem me relaciono ou me relacionei.

Carl Rogers disse que entender o outro é algo difícil porque provoca uma mudança em si mesmo. Rubem Alves fala que nossas neuroses são fruto de termos os bolsos carregados de certeza. De fato, o silêncio tem muito a ver com isso.

Tem aquela velha lição de nossos avós de que o silêncio vale ouro. Eles não estão errados, desde que esse silêncio não crie uma prisão na qual você se fecha em si mesmo e fica, além de mudo, surdo e cego para o mundo.

O silêncio muitas vezes tem esse propósito. Diante da palavra não dita ela não tem como ser confrontada. Se ela não é confrontada a certeza está ali, aparentemente intacta, junto com a visão de mundo que essas palavras carregam e dão sentido. Uma forma também de dar, além da segurança de que as coisas são como são, de que temos poder, controle absoluto sobre todas as coisas, tal como Deus.

O que ocorre que esse ser mais desamparado de todas as espécies e mais dependente do outro chamado ser humano não tem esse controle que julga ter. E que por mais certeira que seja uma determinada ação, a sua reação diante do mundo por ser diferente.

Um exemplo muito besta disso pode ser o desmatamento. Durante séculos se procedeu da mesma forma, achando que aquele jeito não teria grandes consequência negativas. Até que um dia, depois de quase nulas as florestas, nos demos conta de que aquela ação a qual estávamos tão acostumadas teve que ser repensada e mudada para poder garantir a nossa sobrevivência no planeta. E como eu afirmei antes, este é só um exemplo besta de como a realidade pode interferir forte nas nossas ações, pensamentos e sentimentos quebrando certas ilusões que criamos acerca do mundo. E neste caso estão ai as campanhas preservacionistas tendo que sair do silêncio.

Na vida amorosa, no compartilhamento de ideias, na escola, nas universidades, na família, enfim, em uma série de áreas do convívio humano estamos carregando e sendo carregados pelos vários silêncios. O silêncio do segredo, o silêncio diante da violência, o silêncio quando se escuta alguém com uma certa experiência, enfim, ele assume várias formas. Resta saber qual delas a gente quer escolher para que a gente não pereça diante da realidade e, mais ainda, que a sabedoria se silencie quando mais precisarmos recorrer a nós mesmos para uma resposta diante de um problema e o coração se calar.

Ps: Esse texto é dedicado a um rapaz que se diz muito tímido, mas que tem medo de abandonar as próprias certezas, assim como eu.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Fim de um ciclo

1. Se falam de Mim: Você é do tipo que escolhe palavras, mesmo quando diz o que quer na lata. Quando o ciclo começou, você emudeceu. Será que suas palavras ficaram nuas? Lembro-me de que sua beleza, Ugly Betty, aparece quando você revelava a sua nudez.

2. Menino do cá e acolá: Absurdo e bizarro, mesmo quando coloca lá junto às oferendas que ofereceu a si mesmo, as suas emoções. Até que um dia, eu, no papel de um deus enjoado conseguirei sair desse teu desejo esquivo. E não vou te achar nem cá, nem acolá. Vou encontrá-lo no meio do nada, perplexo pelo despreparo após uma grande e bela queda.

3. Vento Passageiro: Quebrei certos tabus meus só para descobrir que tu eras mais do mesmo. A despeito de tua falta de criatividade, quero-te em minha cama.

4. Hey, soul teacher! Descobri contigo novas praias, deuses, um desejo andrógino, o orgasmo quando o corpo literalmente flutua, um mar de tranquilidade, o brilho da lua e a capacidade de superação. E na medida que você me diz tuas loucuras, descubro que és o mais são de todos. por enquanto...

5. Jogos, brincadeiras, Clube da Criança! Foi legal desligar o celular várias vezes só porque você vive com sono e repete, mesmo sabendo que não acredito, o mantra do "depois eu te ligo!". Esse pretexto é uma maravilha.

6. Totem e Tabu: Você está até hoje atrás do pinto do seu pai e fugiu diante do meu. Acho que deve ser a cor, não combina. Ou vai ver é pelo fato de pintos não serem cruzes sagradas. Cruzes!

7. Diga onde você vai... que te encontro em minha lembrança com a perna sob minha cabeça enquanto observamos o luar. Você acha que me esqueci de você, justo você que também se revela são quando me revela suas loucuras.

8. Professor Girafalis: Você só está aqui por ser feio, dentuço, chato e por odiar obesos mórbidos. Não o sou, mas diante de ti, ergo a bandeira e os defendo.

9. Enchendo linguiça: Este só apareceu para aporrinhar, nem me lembro de quem estou falando.

10. American Boy: Hey I miss you. You made me feel so comfortable while you were smoking. Together we were looking at skyline looking for something I have not found yet. I did not find any black oil, just a blue sky and your yellow smile.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Realengo

O meu primeiro post de abril feito via wap seria colocado ontem aqui. Mas como fiz uma besteira eu acabei deletando-o.

Hoje de manhã ouvi no radio sobre violencia em uma escola da Realengo, na zona Oeste da capital fluminense. Daí pensei "deve ser briga de moleques do tráfico na escola". Sim eu banalizei a questão na minha mente e naturalizei as coisas partindo de uma premissa preconceituosa. Não tenho medo em admitir isso aqui.

O cara que fez isso é louco e seu ato me choca. Por que em outras circunstâncias não me chocaria?

E a sociedade que se julga em ordem apela para dizer que é o fim dos tempos, como se algum dia em nossos milhares de anos de presença na Terra fôssemos seres de ordem. Como somos tolos.

E penso nos inúmeros "cidadãos bem" esbravejando "animal, louco!". Em quantos deles ja nao espancaram e bateram em seus filhos achando que estava agindo em nome da ordem. O assassino Wellington também, em seu delírio religioso, estabeleceu para si uma ordem. Claro que é demagogia pura achar colocar esses atos em uma balança equilibrada. O que não podemos é achar que o perverso e o desejo de morte, de crianças inclusive, não é privilégio de certos loucos.

domingo, 3 de abril de 2011

As leis de cá e acolá III

III) As leis

Cá e Acolá são simétricos, porém não inversos. Na inversão o número que era dividido passa a dividir, fica embaixo do traço de fração. Se você não fosse de cá e acolá seu mundo estaria de cabeça para baixo. Você prefere a simetria como no espelho. Sua imagem real levanta o braço direito e a virtual o esquerdo. Mas, e não mais, se trata do mesmo braço.

Sua reta real tenta em vão ter somente valores inteiros e não muito altos. A sua rigidez cá é +1 e a de acolá -1. O número 1 é valor inteiro não muito maior que 0, o número que representa o nada. Só que 1 é o número da solidão.

O zero implica possibilidade e a necessidade de agir, coisa que tua passividade rígida como o pênis erguido em forma de 1 se recusa em fazer. Você tem medo disso e ai seu desejo fica aparentemente inteiro a esquerda do zero, o terreno Acolá. Sua vida é de retidão como bem observa os preceitos que você aprendeu cá e assim você tem uma realidade inventada na qual você não faz nada.

No entanto a vida é um ciclo eliptíco com mais de um foco e distâncias irregulares. Se você unir os pontos +1 e -1 da sua reta tem-se o zero eliptíco das possibilidades, termo bem usado por aquele professor. E teus números não servirão apenas para as quatro operações fundamentais.

A incerteza por mas que existam leis, matemáticas ou não, é condição humana. E para seu desprazer você não é Deus. Não tem controle sobre todas as coisas. E a Vida exige que você seja Senhor de si mesmo.