segunda-feira, 20 de junho de 2016

Passado congelado

Semana passada estava vendo o programa "Estúdio Móvel", na TV Brasil. Naquele episódio, Liliane Reis entrevistava a historiadora Ana Maria Mauad. Tem muita coisa legal que foi dita entre elas essa daqui, que parece um tanto óbvia, mas em meio ao mar de críticas que se faz ao uso da fotografia, é bem interessante:

"a fotografia é um documento e um monumento. Ao mesmo tempo que retém uma informação sobre o passado, a fotografia é a imagem que aquela sociedade produziu para o futuro. Fotografia é o passado congelado, atualizado a cada presente."

Quando Liliane perguntou sobre o uso atual da foto ela o tratou de forma bem positiva, a partir justamente desse ponto em que ela chama a foto de "passado congelado atualizado".

Com o uso maior das câmeras digitais, incluindo o aperfeiçoamento delas nos smartphones, bem como a ampliação das redes sociais, muito se discute o aspecto frívolo e instantâneo da fotografia, especialmente no Facebook, Instagram e demais redes. Fora críticas ao nosso narcisismo e repetições de temas: fotos dos bichos de estimação, do espelho da academia na hora do "treino" (sou invocado com essa palavra), da comida na hora do almoço, a selfie do espelho do elevador antes de ir pra night e por aí vai.

E em meio a esse mar de repetições- que não são necessariamente ruins-, pode ser ter também outros olhares. E nessa diversidade podem ser vistas coisas bem interessantes. Ou até mesmo o quanto é revelador aquelas pessoas que fazem a mesma pose naquele determinado ponto turístico. E tal como a psicanálise já tem revelado, seja na teoria freudiana ou na própria clínica em si, a repetição é um de nossos aspectos enquanto humanos. Aliás, uma coisa que a psicologia me trouxe foi ver não só o que há de original, mas também de vulgar, comum e corriqueiro em nós (obrigado, Roscharch pelos seus testes!).

Nesse sentido, culpar a fotografia e as redes sociais por esses temas e repetições parece ser tão sem sentido como acreditar que o olhar por trás da foto é neutro e sem subjetividade. Mesmo para aquela mesma foto do pudim de leite da sobremesa do domingo passado que apareceu na timeline tirada por um contato nosso.

Se com a escrita, passando pela tipografia, jornais, blogs e textões nas redes, pode-se ter uma multiplicidade de ideias pela palavra- incluindo as que consideramos chatas, repetitivas, fúteis ou mesmo violentas- por que o mesmo não pode ser com a imagem? E se a imagem pudesse, tal como a palavra, revelar o que temos de corriqueiro, banal e também criativo e interessante?

Li recentemente uma frase ou ideia atribuída a Carl Sagan em que ele disse que a transmissão do conhecimento é uma das melhores, senão a maior, das invenções humanas. Não descartaria a fotografia no papel dessa transmissão.

Nenhum comentário: