segunda-feira, 23 de abril de 2018

Responsabilizar o outro?

Acordo hoje de manhã e o namorado me pergunta algo sobre um amigo em comum: “é verdade que ele tá apaixonado?” Eu: “ah, não. Ele disse que é o outro que está apaixonado e fica mandando mensagens”. Então ouço: é sempre os outros, a responsabilidade é sempre dos outros, nunca é da pessoa.

Durante o banho voltei no tempo, para algo que aconteceu há mais de dez anos. Estava em outra cidade, visitando um casal de amigos muito queridos. E eu fazia uma zoeira que quando algo considerado ofensivo eu dizia “vamos fazer uma oficina?”. Algo como o “desconstruir”, tão comum hoje, só que em tom jocoso. Me senti a vontade porque eu estava entre, como disse, pessoas queridas. Mas lá pelas tantas um deles me disse, em tom raivoso por conta de algo que ele disse e eu dei uma zoada: não, Odilon, é você que está precisando de uma oficina.

Não preciso dizer que graças a minha pouca capacidade de ouvir críticas e ao mesmo tempo por achar que a pessoa levou aquilo a sério demais fiquei quieto. Tentei murmurar algo, mas não saía nada da minha boca, porque eu não estava conseguindo processar o que eu tinha ouvido. Fiquei na minha, nunca mais fiz a tal brincadeira e tudo tem corrido bem de lá pra cá. Mas vira e mexe me pego pensando nesse episódio.

Nos últimos tempos tenho lido e acompanhado alguns vídeos falando sobre discussões de ideias, debates, argumentações e tudo o mais. E há uma premissa bem óbvia, mas que por vezes nos esquecemos, de que a pessoa responsável pelo que fala é a própria pessoa que diz e não aquele que está ouvindo. E em uma discussão saudável, se aquela pessoa que te ouviu fez uma má interpretação, é obrigação tua dizer de novo de modo que aquela ideia fique mais clara pro interlocutor. Entendo que em boa partes das discussões que vemos por aí estão a anos luz desse nível de entendimento, franqueza e generosidade. No entanto, é um caminho.

Acabei pensando sobre o sonho que tive nesta manhã. Só pra tentar ser sintético sobre o significado dele, num primeiro momento o sonho parecia uma forma de zoar a heteronormatividade de um rapaz com quem fiquei. Só que depois parei para pensar um pouco mais e me dei conta que ele ali era só uma alegoria. Que na verdade eu estava usando como escudo para esconder a minha própria heteronormatividade.

Obviamente, não se trata aqui de discutir uma necessidade de ser o “descontruído da galera”, de fazer uma espécie de penitência. Tampouco afirmar que estamos “imunes” a esses discursos. Até porque somos seres sociais e compartilhamos de códigos, valores e uma série de outras coisas em comum. A questão é o velho apontar o dedo para as outras pessoas e não observar a si mesmo.

Sendo assim penso na dificuldade de expor aquilo que se sente, como no rapaz alvo de uma paixão, do que se pensa, como o que aconteceu na outra cidade, ou o que se deseja, como na alegoria que o sonho me trouxe. O melhor então é, ao invés de apontar o dedo pro outro, guardar mágoa de um episódio tão antigo ou não assumir o próprio desejo, é verbalizar isso, admitir e seguir adiante.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Voo de planador



Eu tenho acompanhado essa última edição do BBB, que termina hoje. Uma das coisas que gosto de fazer é ver os comentários do pessoal da WebTVBrasileira, que tem como apresentadores Tati Martins e seu marido, Marcelo Carlos. Uma das várias atividades deste canal, são os comentários de realities shows e, obviamente, o BBB. Descobri o canal no ano passado, ainda que a 17ª fosse uma edição que mal acompanhei.

Eu não estou bem lembrado do dia, mas Tati comentou sobre a forma como ela passou a observar o jogo. Ela observa e lida com comentários em redes sociais de fandoms de participantes fazendo a defesa inflamada dos seus preferidos e pichando os adversários. Tati afrirma que prefere uma relação mais distanciada. E então ela diz algo que ficou martelando na minha cabeça "a gente aprende a não esperar das das pessoas e isso não só no BBB, mas na vida". Isso traria uma visão mais tranquila e menos inflamada, diferente daquela dos fandoms.

Achei essa observação genial. Isso mexeu comigo porque, desde o começo do ano, tenho pensado sobre essa questão de não gastar energias de forma desnecessária, inclusive nas minhas relações. E para isso lembrei dos motivos que levam a esse gasto de energia.

De um lado tem algo na gente em esperar que as outras pessoas sejam iguais a gente. Ou melhor dizendo, que sejam iguais ao que desejamos. Porque é fato que muitas das nossas expectativas estão mais ligadas a modelos que nós criamos em nossas cabeças e consideramos perfeitos que, necessariamente a uma visão "real" de quem realmente somos, pois isso incluiria as nossas falhas, geralmente varridas para debaixo do tapete.

Um exemplo bem clichezão barato do que mencionei antes é aquele da pessoa que fala que sempre foi boa, linda e maravilhosa e não entende porque o universo se volta contra ela. Porque as pessoas sempre lhe fazem mal e tudo o mais. Estou, obviamente, descartando as relações onde há de fato um abuso de poder. Não é o tema aqui.

Por outro lado lembrei do quanto nós resistimos ás diferenças que as outras pessoas nos trazem. Sejam por quem elas são (ou como a vemos) ou pelas coisas que elas fazem. Por vezes essas diferenças são vistas como uma ameaça ao que nós acreditamos. Um furo naquele modelo ideal que criamos, seja esse o modelo que inventamos para nós mesmos ou aquele que criamos em relação ao outro. E daí a gente cria um gasto de energia absurdo para não lidar com essa frustração que esses furos trazem. E diante dessa tarefa inglória, dada a sua impossibilidade, ou ignoramos a situação, ou reagimos de forma agressiva. Não muito diferente dos fandoms, torcidas de futebol ou mesmo na política.

Quando era criança, vi uma vez em uma matéria na TV em que mostrava um avião planador. Ele era  levantado por um Fusca. O carro corria na pista e o avião levantava voo como uma pipa. E ele ia indo pelo céu sem o uso de motor. Ou seja, ele voava ao sabor do vendo, sem a necessidade de um motor que o deixe em funcionamento. A energia vem do ambiente, sem a necessidade de um gasto interno.

Então usei essa metáfora do avião --pode ser barco a vela tb-- em reflexões pessoais nos úlltmos meses, em especial no trato com as outras pessoas. Percebo que não é interessante fazer um gasto desnecessário de energia em determinadas situações. Voltando à visão da Tati, aproveitar melhor o jogo, sem necessidade de cair em uma certa passionalidade com o que estamos vendo.

Por outro lado o avião não voa sem direção. Ele tem um ponto de partida e um lugar para retornar após um tempo. E o piloto tem que saber muito bem manejá-lo. Assim como o canal da Tati, assim como as nossas relações. Temos nossas intenções e propósitos. Não tem como colocar aqui que somos neutros: nossa visão não afeta aquilo que vemos. Ainda que com intenções menos fechadas em função daquilo que achamos como ideal.

Nesse sentido é importante perceber o quanto somos influenciados pelo o que está ao nosso redor, bem como o quanto influenciamos também o nosso ambiente. Nem sempre numa relação simétrica. Aliás, tanto o lidar com a alteridade, como a natureza, nos lembram das nossas limitações.

O importante aqui no caso e permitir-se surpreender com aquilo que aprendemos com essas experiências com menores expectativas. E também vermos que as expectativas não param de vez, elas estão ali. O reconhecimento disso é muito importante. E, aos trancos e barrancos, tentar lidar com essa estranha ecologia entre os nossos desejos e o mundo que nos rodeia.

Ainda estou aprendendo a levantar o voo desse planador, que está bem longe do céu.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bocas, olhos e falo

A Boca Cheia de Dentes

Vaidosa. Orgulhosa. Insensível. Assim tu acusas.

Feliz, ela se enche e conclama a festa que uma nova boca está para chegar. Não sabemos ao certo se será boca, cabeça ou coração. O que importa é a festa. E o que não importa é a dor de quem a boca cheia de dentes deixou para trás cheia de dores. Pra ela, isso não conta.

Essa boca é H E T E R O N O R M A T I V A. Assim dizes. Tu que és os

Olhos Semicerrados

Que observam e por não ser boca, não falam. Sempre atentos a tudo. Críticos ao que está a sua volta. Nada fala, só observam. Aliás este é um mote teu. Olhos extremamente sensíveis, mas por vezes de pouca sensibilidade. Na hora de captar as coisas, fazem bem. Na hora de colocar para fora, tomam de empréstimo uma boca tal qual aquela cheia de dentes e sem o menor tato para as consequências.

Aquela boa H E T E R O N O R M A T I V A. E dessa vez, tu não o dizes.

Prefere a acusação que atropela. Fala dos meus nãos: a não prova, o não concurso, o não dinheiro, a não organização financeira. Não, não, não e não. E se caio em prantos, isso pouco importa. São olhos, não se fala de coração

Assim fazes, pois tu e a boca são fálicos. Precisam da festa e da acusação para manterem os seus devidos lugares. Eu também o sou, pois aqui não se fala de bocas, nem de dentes, nem de olhos. Falo sobre homens.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

As experiências como relações amorosas

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo." (Álvaro de Campos, Poema em Linha Reta)

Tinha um tema no meu Bullet Journal esperando para ser desenvolvido. Lá estava escrito assim: "Das coisas que temos: as experiências que damos valor e as experiências dos outros". Por conta da procrastinação, adiei esse tema junto com os demais que estão lá. Provavelmente esse tema deve ter aparecido em alguma conversa longa com o Evandro, já que vira e mexe ele gosta de discutir temas assim comigo em longas conversas.

Fiquei um pouco relutante, talvez, por parecer um tema de auto ajuda com respostas óbvias do tipo: ah se você está valorizando as experiências do outros é porque há um problema de auto-estima sua. Então esqueça os outros e valorize-se. Fim. Penso que isso seria muito simplista para um tema em que consigo ver outros pontos além desses.

O ponto principal, após bastante tempo pensando sobre esse é: por que as outras experiências, diferentes das nossas, parecem melhores? Daí pensei em dois pontos: tomamos como nossas aquelas experiências e elas não sofrem o desgaste que sofreriam caso fossem realmente nossas.

As experiências que lidamos, sejam as nossas ou a das outras pessoas, quando são consideradas boas, elas passam por um investimento amoroso. A partir daí penso na questão da deterioração. Uma pista pode ser obtida pensando nas relações amorosas em si: em um primeiro momento a pessoa que amamos parece perfeita, até que com o tempo essa perfeição vai desaparecendo e os defeitos vão aparecendo, a pessoa não corresponde àquilo que idealizamos e os defeitos ficam mais aparentes. Talvez, as experiências dos outros que achamos maravilhosas, pode passar por um lado um processo parecido: as tomamos como nossa e imaginamos "nossa, como tal coisa é boa, como fulano vive bem". A diferença é que no fim das contas ela é uma experiência da outra pessoa, não minha. E então não sendo minha não tenho que conviver com o desgaste que ela possa sofrer com o tempo

Ultimamente comenta-se muito sobre as experiências compartilhadas em redes sociais, especialmente as fotos, que retratam sempre momentos felizes. Muitas vezes isso é criticado como algo típico do momento em que vivemos e que seria uma superficialidade e uma maneira de esconder coisas ruins em nossas vidas. E nesse "simulacro" as experiências dos outros que nos aparecem sempre surgem como maravilhosas e as nossas são vistas como ruins, pois não correspondem ao que vemos nas redes sociais. Nesse sentido prefiro fazer uma outra reflexão.

Não vejo o compartilhamento de experiências boas como uma novidade. A diferença é que fazíamos ( e ainda fazemos) através das conversas. Seja num papo de botequim, ou ao encontrarmos uma pessoa amiga nossa após algum tempo ou até mesmo nas famigeradas reuniões de família.Fernando Pessoa, via Álvaro de Campos, já nos deixa bem claro a nossa necessidade de parecer bem sucedido em seu "Poema em Linha Reta".  E , de alguma forma, assumimos as nossas experiências como um valor, a exemplo de nossos bens materiais e sentimos a necessidade de trocá-las com as outras pessoas. Como um exercício de laço afetivo e também de ter no outro o reconhecimento daquilo que fizemos. Quantas vezes numa viagem pensamos "imagine se pessoa tal estivesse aqui comigo agora?"

Eu me lembro das vezes em que, por algum motivo, fiquei sem computador. Ficava imaginando: quando eu voltar a usar um computador vou escrever vários textos. E é uma época em que meus cadernos enchem de rascunhos de contos e poemas. A imaginação tinindo pela falta. Aí quando voltava a ter o computador, o projeto dos textos ficam esquecidos. Enquanto eu não possuía o computador de volta, ele era um objeto ideal para colocar em prática coisas que eu acho maravilhosas. Quando ele voltava, eu me dava conta de que para escrever eu precisaria estabelecer uma rotina e lidar com esforço que é escrever, que é mais que inspiração. O que estava distante parecia ideal e quando a rotina vem, a falta de vontade aparece. Era apenas uma questão de preencher um certo vazio emocional, que por um lado pode ser produtivo, desde que as coisas fossem adiante.

Aqui seria a parte para apontar a solução mágica e simples: gente, vamos entender que as coisas se desgastam e que a vida é assim e que só dessa forma podemos parar com essas idealizações. Só que isso é um processo longo e, caso seja do desejo da pessoa em mudar, não é tão simples. Mas a partir do momento em que se arruma disposição para o entendimento desses processos já há um caminho que permite até perceber de que forma essas idealizações se relacionam com a nossa auto-estima e pode fazer a gente seguir em frente em meio a tantas experiências. Tanto as nossos como o dos outros.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Se joga

Uma das minhas grandes dificuldades: iniciar as coisas.

Vou usar a metalinguagem para ilustrar isso. Na página 58 do meu Bullet Journal, feito em julho deste ano, há uma lista de temas que servirão de textp para esse blog. Porém, o combo preguiça e procastinação fizeram com que esse texto, sobre a necessidade de se arriscar e se jogar, só fosse feito agora.

Chega o fim de ano e vem à cabeça aquela velha reflexão: lições aprendidas. E ei-la: se jogar na água fria,

No inverno desse ano -- ok, inverno no litoral do RJ não existe-- por conta da resistência do chuveiro quebrada e a demora em trocá-la por conta da procastinação  me fez encarar a água fria por alguns dias. Lembro-me de ter pego o "The Fat of the Land" do Prodigy pra tocar e a partir do ritmo da música tomar o banho sob a água gelada. A estratégia deu certo e no fim, serviu até para a economia de energia. O corpo se sacudindo produz calor e é uma beleza nesses momentos.

Esses dias meu namorado conversava comigo sobre o que eu quero fazer profissionalmente: terminar minha formação em psicologia, seguir pra uma pós ou fazer outro curso. E daí fiquei em n reflexões sobre como pode ser o futuro, esses eternos adiamentos e a dificuldade em iniciar as coisas. Me veio a mente a ideia principal deste livro (que baixei, mas não o li por inteiro) que fala sobre auto ilusão. Como a clássica "segunda começo a dieta".

A despeito de qualquer amontoado de pesquisas que eu desconheço a sua validade científica, uma coisa legal que fazer o Bullet Journal me mostrou ao ensinar a fazer a lista de coisas foi: passado o dia, aquela tarefa que não foi feita merece ser adiada pra outro dia ou ser descartada de vez? Se não for realmente necessária ou válida, basta riscar. Isso evita a tensão de ter que ver aquela coisa por terminar o tempo todo enchendo o saco ali. Mas essa ideia só tive recentemente ao rever o vídeo do pessoal que criou o conceito dessa agenda.

E voltando a conversa com o namorado. Ele me disse "se quiser fazer algo, inicie". Parece uma mensagem positiva por um lado. Por outro lado, nós dois ponderamos que, embora seja uma mensagem encorajadora por um lado, por outro ela pode ser muito inconveniente. Especialmente quando está lidando com alguém que não está bem com sua saúde mental. Por isso é mega insensível, por exemplo, chegar pra uma pessoa com depressão e dizer: olha pra sair dessa basta você dar o pontapé inicial. Tá, mas com que recursos? Por isso existe a necessidade de ajuda profissional. E eis o grande dilema, respeitar a saúde mental, mas ao mesmo tempo não deixar que a paralisia em não iniciar as coisas piore ainda mais a situação.

Sendo assim há dois processos importantes. Um que permita a se arriscar e poder fazer coisas novas ou retomar aquilo que ficou pra trás e que por uma série de inseguranças, ficaram guardadas. Outra é ver se, com o tempo e a devida reflexão, aquilo é realmente importante e não ver problema nenhum em descartar aquilo, que no fim das contas só servirá para alimentar uma neurose do tipo: preciso fazer tal coisa. A auto-ilusão do livro que citei.

Tão importante quanto se sentir vivo e capaz de se jogar na água fria, ao som da música que se gosta e sair com a pele maravilhosa é pensar no que realmente importante. Esse processo implica num exercício de auto conhecimento que na maioria das vezes surpreende. Especialmente porque aquela procastinação, aquele adiamento pode estar mascarando algum desejo que ainda não foi colocado pra fora e aquele "preciso fazer isso" e que nunca é feito funciona como uma represa pra esses desejos.

 Volta e meia cito nos meus textos e penso no processo de "cortar as inutilidades" dos poetas neoclássicos, a necessidade de um bom acabamento. Um caminho bom no processo de auto conhecimento é reconhecer onde é preciso fazer esses acabamentos, riscando aquilo que for inútil. E poder dar início, se jogar, nas coisas que realmente importam.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As Natálias que conheci

Retomando o Liquididificador, resolvi pegar uma lista de temas que eu tinha deixado no meu bullet journal em julho (olá procastinação, minha velha amiga!) e resolvi postar mais. O primeiro tema dessa lista era, justamente, o título desta postagem. Além disso ele se relaciona com o mais recente.

No remake de 2006 da novela, “O Profeta”, Natália (Vitória Pina) é filha de Dedé (Zezeh Barbosa). É uma menina negra de pele clara que tem vergonha da mãe, que tem a pele escura. Em uma cena que viralizou no Facebook e que, infelizmente, não consegui encontrar, ela despeja a raiva que sente da mãe por conta do racismo internalizado.

A cena é um exemplo da manifestação do chamado “colorismo”. No Brasil. O racismo é mais forte contra pessoas de pele mais escura. No podcast de que participei, num primeiro momento apareceu a impressão de que o colorismo era um recurso que nós negros usamos uns contra os outros, sem o envolvimento de pessoas brancas. Mas a situação não é essa. A branquitude mantém a sua hegemonia com essa cisão e, por mais que o tom da pele aponte diferenças na forma de tratamento, o negro de pele clara não desfruta dos mesmos privilégios das pessoas brancas.

Algumas pessoas da militância negra afirmam que, diante de um preto de pele clara praticando colorismo, não cabe a gente apontar a sua negritude, que isso deveria ser um processo de auto descoberta. Eu, por exemplo, lido com alguns adolescentes com essas características, mas reparo que entre aqueles que se politizam mais, depois de um tempo assumem a sua negritude, sem que haja, de fato, a necessidade de apontar isso.

Por outro lado eu me lembrei da minha infância. Minha mãe, do jeito dela, sempre apontou essa questão. Creio que por conta das experiências dela, por ter a pele escura, sempre procurou passar pra mim e pra minha irmã as formas como isso acontece. Dessa forma, ela já nos ensinava como lidar com crianças negras de pele mais clara que procurariam diminuir a gente, especialmente a mim, que tenho a pele mais escura que a da minha irmã. Ensinou a gente a apontar a negritude delas. E sempre funcionou. Toda vez que eu tive que lidar com uma “Natália” na minha infância eu mandava “não fala nada, que você também é preta ou preto”. Alguns podem ver isso como crueldade entre crianças, mas era a forma de lidarmos com o racismo internalizado entre a gente. E em muitas vezes, já na transição pra adolescência, tive algumas respostas positivas por ter ajudado alguns outros negros que não se percebiam assim.

Anos mais tarde, fui me encontrar com um rapaz. Ele era um pouco mais claro do que eu. Rolou o que tinha que rolar e, lá pelas tantas ele dizia orgulhoso que “dentre os meus irmãos eu sou o único branco”. Eu, sem noção e de supetão disse “mas você não é branco”. O rapaz ficou quieto. Desde aquele dia não rolou mais nada, apesar de ter sido uma noite muito boa. Algum tempo depois eu o encontrei na fila do cinema e o ele tentou fingir que não me via.

Já li alguns textos apontando que o colorismo foi uma forma de dividir os negros e impedir o seu fortalecimento, já nos idos coloniais. Na mídia, reparo que diversos papéis que poderiam ser feitos por pessoas negras de pele mais clara foi feito por pessoas brancas. De cara, me lembro da minissérie Agosto (1993) em que Salete, uma das protagonistas da série, é vivida por Letícia Sabatella, ao passo que sua mãe, Sebastiana é vivida por Léa Garcia. O mesmo vi duas vezes com Betty Faria, na adaptação de “O Cortiço”, em que ela vive Rita Baiana (personagem negra) e em Tieta, atualmente em reprise no Viva, que no livro não é uma mulher branca. Aliás, a Madame Antoinette- como ela é conhecida em São Paulo- para poder justificar que é francesa, diz que é mestiça, pois sua mãe é das Antilhas Francesas, local que recebeu um grande número de africanos escravizados, a exemplo do Brasil. Lembro-me de Maria Ceiça, atriz negra, que no documentário “A Negação do Brasil”, fala do seu maravilhamento ao perceber que muitas das personagens de Jorge Amado poderiam ser feitas por ela.

Aliás reparo que atualmente, alguns desses papéis, tem sido interpretados por atrizes como Juliana Paes e Nanda Costa. Porém, aqui no Brasil, muitas vezes elas são lidas como “morenas”. Aliás muitos fazem a mesma leitura para Camila Pitanga, mas essa sempre faz questão de afirmar a sua negritude. Lembro-me também de Sônia Braga, que entrevista já disse que apontava sua ascendência portuguesa diante dos americanos que não a leem como mulher branca ou “morena”. Aí é uma boa reflexão de como as relações raciais não são naturais, nem únicas, mas tem toda relação com o contexto social em que elas se dão.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Consciência Negra: eu no podcast

Na última segunda feira tive a oportunidade de participar do podcast "The Library is Open", a convite do Thello, Rodrigo e Caio. Na maioria das vezes é um podcast dedicado a RuPaul Drag Race, com temas que interagem com outras questões LGBT e, em dados momentos -- quando a atração não é exibida -- há discussão específica de vários temas: representatividade, gordofobia, bifobia, homofobia, transsexualidades entre outros temas que podem ser conferidos na página deles. No último dia 20, foi a interseção entre negritude e LGBTQ, onde eu tive a alegria de participar com, além dos citados, com Jean e Guilherme. Quem quiser conferir, pode clicar, aqui.

A oportunidade pra mim foi boa, apesar da minha ansiedade e das constantes quedas do meu roteador. Puder colocar as minhas questões, vivências e pensamentos. Além disso, houve dois pontos que me ficaram ressaltados para mim.

O primeiro ponto é que com a participação do Guilherme, que é bissexual e de Jean, que é travesti, eu pude perceber e ouvir- escuta, este exercício sempre tão necessário- experiências que são diferentes das minhas. Ao mesmo tempo perceber o quanto a questão racial por vezes une nossas vivências.

O segundo ponto é que entre os realizadores estão pessoas com quem converso há anos e compartilhamos pontos em comum, até porque, entre outras coisas, somos bichas gordas. Mas ali estávamos conversando sobre um dos vários pontos em que nos diferimos e o peso que isso tem.

A partir dessas reflexões penso em outras questões. Uma, que foi colocado aqui pelo Spartakus Santiago. Para ele , o dia 20 e os demais dias não devem ser apenas para nós, pretos, falarmos de racismo. Temos muito mais a contribuir e dizer além disso. Nesse sentido acho que é importante a nossa criação e conquista de espaços para nossas vozes serem ouvidas, que a nossa produção seja vista.

Nesse sentido começo a entender melhor um dos motivos que me fizeram desfazer um a amizade essa semana naquela famosa rede social. Eis a situação: a pessoa reclamou sobre um artigo na seção de gastronomia de um jornal sobre a invisibilidade de restaurantes de imigrantes pretos africanos. O motivo da reclamação foi que, para essa pessoa, o racismo se opera "de verdade" em questões como o genocídio do povo preto e a desigualdade. Nesse sentido, reconheço que são temas urgentes e que jamais podem ser negligenciados, fato que prontamente concordei com a pessoa. Por outro lado, não gosto de uma ideia supostamente militante em que a discussão sobre negritude deve se dar apenas nos aspectos negativos, deixando de lado as potencialidades.

Pensando nas palavras do Jailson de Souza, doutor em educação e com origem no complexo da Maré, que dizem que está na hora de parar de apontar a favela só pelas carências (sem querer mascarar a inexistência delas) , deixando de lado o que é produzido lá. Posso ampliar essa noção para negritude. Somos bem mais que aquilo que as estatísticas de violência e desigualdade dizem, ainda que elas sejam extremamente importantes e apontem sim, questões urgentíssimas para a nossa sobrevivência. O incômodo mesmo é esse maniqueísmo e enquadramento.

Então, creio que há vários caminhos a serem tomados. Um deles é o fortalecimento daquilo que nós pretos produzimos. E, para brancos que querem contribuir com essa causa, usando o espaço de privilégio que essa sociedade há séculos racializadas (sim, não é invenção de americano nem do "politicamente correto") lhes confere, é dar e ouvir as vozes de pessoas pretas, refletir sobre a branquitude ( por favor, leiam esse texto da Gabriela  Moura) e abrir seus espaços de fala não só para a discussão do racismo, mas também para outros temas para não sermos apenas o token lembrado no dia 20 de novembro.

Sobre a nossa participação em contextos hegemonicamente brancos, a  Tia Má coloca mais ou menos isso na sua fala a respeito de sua participação no programa da Fátima Bernardes em plena Rede Globo, ainda que isso dê espaço para uma discussão para além desse texto.

Enfim, que a nossa consciência nos aponte não só a realidade a nossa volta e nos dê forças para as tantas lutas, mas que permita também o nosso brilho. Mais uma vez fica aqui meu muito obrigado pelo convite por aquela participação.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Vez de Morrer

Já fazia mais de um ano que eu tinha comprado esse livro, mas ainda estava sofrendo com as minhas procastinações básicas. E levei quase um mês para finalmente escrever esse texto, que é uma análise pessoal e, sendo assim, tá longe de ser aquelas resenhas críticas formais com as impressões que tive do texto de Simone Campos.

Basicamente temos Izabel como protagonista, que após a morte do avô sai do Canadá e volta para o Rio de Janeiro, indo se estabelecer na localidade de Araras no município de Petrópolis, região serrana fluminense, na casa onde morava o seu avô. E é basicamente nesse cenário que se dará a maior parte da ação, sejam os envolvimentos sexuais/afetivos de Izabel, sua busca por trabalho e os confrontos.

Primeiramente me chama a atenção em como Simone coloca Araras. Fazendo uma ótima ironia com a classe média carioca, ela dá um histórico das transformações do lugar nos últimos tempos. Mas é bom esquecer o clichê do "local pequeno isolado e com pessoas pequenas interioranas", uma vez que múltiplas realidades se inserem naquele lugar. É o ponto que me chama para as diversas alteridades que há ali. E se estamos em uma época em que as formas de comunicação andam mais velozes bem como o encontro dessas alteridades, isso não é deixado de lado e para isso, não foi necessário colocar personagens "online" 24 horas por dia. Tentarei refletir melhor sobre essas alteridades.

Em uma época em que vejo discussões sobre "recorte de classe x identidades", uma dicotomia que considero artificial e que não dá conta da multiplicidade e da forma como uma questão atravessa a outra eu vejo essas diversidades. Por um lado há Izabel, mulher, independente, que vivencia sua bissexualidade sem grandes conflitos internos por conta disso, branca, de classe média. O fato dela ser mulher bissexual e as dificuldades que surgem por conta disso não são desprezadas, muito pelo contrário. Mas o seu encontro com Eduardo, aquele com "cara de índio", de outra classe social é atravessado por essa diferença. Percebo isso no momento em que ela chega na loja dele e espera ser servida- em um país como o nosso as classes média e alta esperam sempre ser servidas- bem como a forma que ela pensa sobre os nomes das pessoas naquele contexto:

"naquelas partes, havia muitos nomes como Geísa e Joelmo e Klay, mas o homem se chamava Eduardo. Izabel sentiu uma compulsão de ir atrás da mãe do rapaz e congratular o bom gosto"

O que me faz pensar na teoria das representações sociais, em que uma das ideias é "tornar o estranho familiar". Se Eduardo é o "outro", seu nome e as suas características intelectuais e o fato dele não comungar da mesma religião de seus familiares, faz com aquele rapaz, a princípio de outra classe, se aproxime das referências de Izabel. Há algo de narcísico na nossa atração.

Pessoalmente, ainda pensando nessa questão de classe, há algo que me chamou a atenção Tem um momento em que a procura de Izabel por um apartamento na zona sul carioca e ela procura estabelecer boas relações com o porteiro.
"Saiba conquistar um porteiro e um corretor ficará sem comissão. - Boa tarde!- Boa tarde, - Meu nome é Izabel"
Ali naquele momento tem-se o olhar da Izabel e eu, na minha leitura automaticamente fiz o olhar reverso, uma vez que meu pai foi porteiro por 50 anos, também na zona sul carioca e lembrei das inúmeras vezes em que aparecia gente pra vender os apartamentos e pedia a ele pra indicar um comprador na base do "depois te dou uma comissão" e depois sumia. Situação que só mudou após o casamento com minha mãe, que não deixava meu pai vacilar desse jeito.

Aliás, falando de religião, ao ver as personagens evangélicas, é bom esquecer o esteriótipo - especialmente no caso das mulheres- da beata de saião gritando aleluia o tempo todo. Com conhecimento de causa, Simone mostra as personagens evangélicas sem esses clichês, sem deixar de lado as noções morais que norteiam esse grupo que, ao mesmo tempo se insere no contexto capitalista da teologia da prosperidade. Isso pra mim é bem evidente nos planos da irmã de Eduardo.

Na questão da alteridade, me chama a atenção uma passagem em que na busca de uma terapia quando era mais jovem, Izabel se vê diante da negligência da terapeuta.  Justamente o material principal de qualquer abordagem (a escuta) é deixado de lado e essa ausência reflete, até certo ponto, o modo como a personagem lida com suas emoções.

Em toda a leitura não posso deixar de lado a forma bem feita como são construídas as personagens masculinas de diversas classes. Ao começar por Eduardo, personagem que tomei antipatia desde o começo por achá-lo um completo babaca que faz as coisas só pra manter o seu lugar de "macho" diante das cobranças ao redor dele. Se Izabel é cobradas em ter uma carreira, um emprego estável, seja por sua mãe ou a vizinha Aída, ela ocorre com Eduardo no sentido dele ser um homem solteiro e adulto. A forma como ele se relaciona com Sirlene e com os amigos é bem típica com o marcador atual da irresponsabilidade: homem não tem responsabilidade é assim mesmo. Sem falar nesse marcador da masculinidade da necessidade a aprovação de outros homens, como na transa com Haline:

"Uma loirinha chamada Haline colocou à prova os rumores (de homossexualidade) sentando em seu pau no banco de trás. Ele estava tão bêbado que não pôs camisinha (...) Gozou, abriu os olhos e viu Otoniel e Adão do lado de fora aplaudindo".
Essa passagem me lembra muito algo da indústria pornográfica em que, se o ator não goza, ele não recebe o cachê e precisa chamar outro pra completar a cena.

Outro bom exemplo desse machismo está presente com o ator namorado de sua amiga, cuja maior preocupação é não parecer corno. Mesmo vivendo em um meio diferente do de Eduardo- daí a importância do recorte de gênero além do de classe- ele tem essa preocupação do olhar de outras pessoas que podem tirá-lo desse lugar do masculino. Outro personagem detestável, porém verossímil.

Em meio a tudo isso gosto de perceber a presença marcante de uma cor na obra: o branco.

"A qualquer momento surgiria a construção branca que substituíra a antiga rodoviária"
"...logo Izabel avistou a fila de táxis também brancos que cobravam por destino e não distância"
"Só quando entrou na rodoviária se deu conta da espessura da neblina. Lufadas brancas invadiam o interior do terminal. O frio também. O frio era branco"
"Dois faróis branquíssimos perfuraram a distância e encontraram as retinas de Izabel"
"Agora eles eram brancos e tinham na lateral o brasão cinza-claro da cidade"

Se o branco em princípio se relaciona com a luz e clareza das coisas, aqui ele ganha um ar paradoxal de obscuridade. Os táxis e os ônibus não são como na infância. No Rio, as cores que ajudavam a identificar os carros, agora não existem, está tudo padronizado. Como a própria vida em que se exige uma padronização para o comportamento do homem, da mulher (negando outras identidades para além dessas) a forma dos nomes devem ser, as orientações  sexuais, o tipo de emprego, o trabalho que deve ser feito as várias cobranças e expectativas criadas.

Antes de escrever esse texto reli esse trecho dos taxis "cobram por destino e não por distância". Penso muito nesse mundo em que tudo parece conectado e que em tese facilitaria as nossas relações. Mas o que fazemos de nossas vidas é sempre cobrado. O nosso destino. E no final "A Vez de Morrer" fala dessa tentativa de Izabel e de todos nós de fazermos o nosso destino, sem essas cobranças.


 
 
 
 








quinta-feira, 17 de agosto de 2017

As palavras de Diva

Eu tinha 11 anos. Um colega de escola, que também era meu vizinho, tinha feito um comentário preconceituoso a meu respeito com alguns amigos da turma dele em voz baixa, mas eu ouvi. Fiquei quieto e comentei mais tarde com minha mãe. Disse que o tal colega tinha sido repreendido por alguns outros colegas e ela me disse "quem tem que se posicionar é você, não é para os outros te defenderem ou terem pena de ti". Ela sempre teve essa postura em relação a como se posicionar em situações como essa, especialmente quando envolve racismo. Daí, 28 anos depois daquele acontecimento, eis que Diva Guimarães é aplaudida na Feira Literária de Parati, a FLIP. E o que essas duas situações me trazem?

Prestei a atenção em primeiro lugar na fala de Diva. Eu me emocionei com sua trajetória, entendendo que aquela narrativa não me era incomum, mas tinha semelhanças com muitas mulheres da minha família e tantas outras mulheres pretas com quem convivi e que foram fundamentais no meu entendimento enquanto homem preto. Mulheres como a minha mãe.

Eu fiquei extremamente incomodado com as sucessivas interrupções de aplausos daquela plateia - fato observado tanto pelo Lázaro Ramos como por Diva Guimarães- majoritariamente branca. E esse incômodo tem vários motivos. Tem um quê de expiação católica naqueles aplausos, como se aplaudir aliviasse um pouco a "culpa" pelo fato da branquitude possuir privilégios e essa mesma estrutura calcada no privilégio branco que ao longo da vida tentou derrubar Diva. Mas não é só isso.

A plateia branca, ao invés de ficar quieta, e prestar a atenção em suas palavras a interrompia com aplausos. Como se dissesse "olha nós não somos assim, somos diferentes, uhul, olha como sou legal". Ou como se dona Diva fosse a "exótica" o que é diferente e estivesse como uma atração a ser aplaudida, mais pela sua performance, que por suas palavras, que analisando bem, foram duras.

Uns podem soltar o papo de "ah, Odilon, você está sendo radical. Pessoas brancas não podem estar na luta antirracista? Não é um sinal de reconhecimento os aplausos a ela?". Eu digo que a melhor ajuda na luta passa pela conscientização de si e espalhar isso entre seus pares. Tal como muita amiga feminista diz "Homem, quer ajudar na causa. Além de rever seu comportamento, dá um toque naquele seu amigão que assedia, faz piada escrota, não paga pensão, etc e tal". Isso também se aplica nesse caso. E isso não é excluir, muito pelo contrário, é apontar de que forma as pessoas brancas tem o seu papel nesssa relação de poder que é assimétrica.

Aliás nesse sentido lembro de um incômodo que uma pessoa branca me relatou dizendo que aquele era um momento solene. De escutar aquelas palavras em silêncio. Achei muito pertinente essa reflexão dela.

E por fim, me vem sempre as palavras da minha mãe que iniciaram esse texto e serve de inspiração pra mim e pode servir para outras pessoas pretas se posicionarem, tal como Diva fez de forma brilhante lá na FLIP`. Quem deve falar somos nós, e não esperarmos que os brancos venham nos defender. Nem aplaudir por aplaudir.

domingo, 2 de julho de 2017

Dear White People

Esse é um daqueles textos que levo tempo pra escrever, embora estivesse com a ideia dele já há algum tempo. Pensei em fazer, a princípio, uma resenha crítica sobre a série, mas acredito que essas observações do Murilo do "Muro Pequeno" já abrange muito que eu poderia pensar. Recomendo também, nesse sentido, o canal da Natália e Maristela, que tem muitos vídeos bons discutindo essas e outras questões.

O que me chamou a atenção foi a diversidade das personagens e as formas como cada um tem que lidar com o racismo. Nesse sentido, chamou a atenção de muitos comentaristas e de mim também a personagem Coco. A primeira vista ela parece ser uma negra querendo assimilar o que a branquitude tem, mas as questões são bem mais profundas. E fazendo uma relação com o que aconteceu com minha família, ela me deu bons insights.

A minha avó era uma mulher negra que se preocupava muito com a forma como a gente deveria se portar. Nada de falar alto, fazer bagunça, ter maus modos a mesa, pois ela achava que por sermos pretos, esses "maus modos" poderiam ser mau vistos. Por outro lado, ela tinha uma forma de se impor que era bem interessante.

Uma vez, meu primo foi na igreja em que ela congregava e não quis se sentar em um dos poucos espaços vazios que havia na igreja. Ela perguntou-lhe a razão e ele disse que o senhor que estava sentado perto do lugar vago era racista e não gostava de preto sentado do lado dele. Então ela disse "pois é ali é que você vai se sentar. E nos próximos domingos é do lado dele que você vai se sentar, só pelo desaforo". E assim ele foi fazendo e, acho que por conformismo ou pra não passar de recibo de racista no meio da congregação de forma tão explícita o homem não disse nada e ao que parece, depois daqueles dias, parou com essa palhaçada.

Muito amigos e conhecidos pretos me falam do quanto faltou (e falta) a eles referências familiares no enfrentamento ao racismo, uma vez que muitas vezes é negada a existência dele ou então rola o famoso "você tem que saber o seu lugar". No meu caso, minha família está anos luz de ser aquela super "desconstruída militante viva Dandara!" pois, estando numa sociedade em que o racismo é institucional, isso também vai se passar pelas relações pessoais. Mas assim como Coco, com o pouco que conseguimos meus avós foram, do jeito deles, se instrumentalizando para lidar com o racismo e isso foi passado pra minha mãe, que conseguiu ser uma pessoa mais atenta e com um entendimento melhor sobre questões raciais, que, por sua vez passou pra mim e pra minha irmã.

E mesmo com tudo isso, ainda há muito ainda em mim para ser questionado como forma de não só assumir e entender o meu papel como pessoa preta, mas também de que forma lutar e saber ocupar os espaços. De que maneira, na vida, devo sentar naquele lugar vazio, mas que o racismo- tanto o internalizado como o externo- tenta me impedir de sentar. Nesse sentido, penso que há muitas lições vindas tanto de Dona Conceição, bem como da análise do comportamento de Coco.

Ps: Super recomendo também esse podcast da moçada de "O Lado Negro da Força".