segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Preto e Gordo

A minha década pessoal de 30 tem me feito aprofundar em uma série de questões sobre identidade e também de que maneira eu percebo os outros, bem como a mim mesmo. Na verdade penso que sempre fiz isso, só que na medida em que vamos envelhecendo, novos fatos ou novas maneiras de observarmos determinadas coisas vão aparecendo.

E uma dessas várias questões identitárias que me tem aparecido tem respeito com a minha própria negritude. Aliás isso me lembra até uma enquete que vi na página Preto Gay do Facebook, em que se perguntava em qual dessas ditas minorias a pessoa mais se identificava e houve diversas respostas. Todas muito interessante, porque me fizeram observar outras vivências que tinham vários pontos em comum com os meus. E da minha parte tenho observado como uma "velha novidade" pensar a minha negritude. Velha porque é um tema que nunca deixei de pensar. Novidade porque penso que tenho aprofundado mais essas questões comigo mesmo.

Cito aqui como um ótimo exemplo de quanta coisa legal e bem escrita o blog "Preto e Gordo", do Túllio. Há tempos estou para escrever sobre algumas reflexões que tive ao lê-lo. Mas o texto dele é tão bem escrito que fala por si só. Cabe apenas a mim aqui compartilhas algumas impressões que tive com a leitura e outras com a minha própria vida.

Entre tantos pontos que merecem destaque ali é a maneira com ele coloca de que como certos temas que são vistos por pessoas não pretas como "diferente" ou até mesmo "revolucionário" pode parecer diferente para nós. E aí pensei em dois outros exemplos, além dos que ele já menciona, especialmente nesse texto , no qual ele relaciona a questão do amor livre e a bicha preta.

Certo diz li em uma discussão um militante branco LGBT fazer uma crítica a um casal de dois homens pretos estadunidenses que tinham uma filha e postavam a foto deles o tempo todo no Instagram. Ele fez a crítica no sentido que aquele era um modelo heteronormativo propaganda de margarina. Em princípio concordei, mas precisei refletir mais um pouco a respeito.

Minha mãe conversava comigo por exemplo o quanto é comum após a sua viuvez as pessoas perguntarem por quantos anos ela "morou junto" com meu pai, lembrando que ela é preta e ele tinha passabilidade branca.  Ela comentava que é comum falarem esse "morar junto" porque muitos julgam improvável uma mulher preta ser casada tanto no civil como no religioso. E o quanto as pessoas se assustam por exemplo quando surge naturalmente em uma conversa lembranças do casamento dela, o preparativo do vestido de noiva, o padre que fez a celebração e tudo o mais. E daí ela me disse o seguinte "há mulheres brancas que consideram revolucionário o fato de não seguir as normas estabelecidas do casamento. Mas para a mulher preta, como sua bisavó, casada três vezes, morar junto era a norma. Então tem que ser observado que mulher está falando". E daí pude compreender melhor muitas dessas e outras questões que são colocadas por feministas negras.

E daí fazendo a ligação entre esse relato da minha mãe, o texto do Túllio e o discurso do ativista pude pensar da seguinte maneira: pessoas brancas possuem dentro da nossa sociedade a opção de escolher o modelo que ela deseja, quando comparado com pessoas pretas. E sendo assim, não há uma propaganda de margarina com uma família preta. Então um casal de homens pretos cuidando de uma filha está longe de ser o modelo heteronormativo branco da propaganda da margarina. Aliás nesse sentido, o ator Érico Brás faz um ótimo trabalho ironizando o racismo em nossa publicidade aqui.

Não quero dizer contudo que não existam outras formas de opressão, mas acho que o recorte étnico-racial que observo a partir de questões tanto da minha vivência como de outras pessoas tem contribuído muito para também me fortalecer no que diz respeito a minha auto-estima e também às minhas emoções.

Pensar mais a minha negritude e as vivências de outras pessoas pretas tem sido fundamental nessa jornada não só de reforço ou de valorização da própria identidade, mas também como uma troca excelente de experiências para lidar com a coletividade, já que eu não penso que o racismo não será vencido apenas por ações individuais e pontuais.

Bilingual, 20 anos

Um dos meus álbuns favoritos. Bilingual, dos Pet Shop Boys foi lançado há 20 anos, em 2 de setembro de 1996. Até fui dar uma conferida na página oficial deles no facebook, mas não tinha nenhuma informação sobre essa efeméride.

Fiquei pensando que grandes álbuns por vezes tem significado extremamente subjetivo. E pensar em Bilingual é me fazer voltar aos 18 anos e o que as músicas dele têm significado para mim desde então.

Sei que assim que soube eu fui comprá-lo. Achei a capa interessante, pois assim como eles fizeram em Very três anos antes, era possível fazer uma capa criativa em CD, coisa que os defensores dos LPs sempre reclamavam.

Eu tinha alguma coisa para fazer na casa de um amigo, mas não via a hora para chegar em casa e poder ouví-lo. Mas como a irmã dele era fã dos PSB acabamos escutando o álbum lá mesmo e pela primeira vez eu via um encarte com as letras e ali eu ia acompanhando.

Havia duas músicas que eu já conhecia, pois já havia clipes para elas: "Se a vida é" e "Before". A primeira com batuques e sendo uma versão de música gravada pelo Olodum rendeu críticas preconceituosas na imprensa local dizendo que os PSB tinham "dançado na boquinha da garrafa". É aquilo, onde já se viu usar música feita por gente preta da Bahia? Nosso país jurando que não é racista.

E aí eu me lembro que a música que mais me marcou de forma imediata foi "Metamorphosis" e por razões claras. Naquele ano, com 18 anos, foi quando parei para pensar e admitir a minha própria homossexualdade.

Naquela época também me lembro de ir às festas do Maxims no alto da torre do Rio Sul. Já tinha 18 anos e poderia ir aos aniversários das meninas que nem tinham tanto contato comigo assim. Mas aquele ambiente me deixava deslocado de certa forma. E daí ia pro lado de fora, onde havia o fumódromo, creio eu e ficava olhando o Pão-de-Açúcar e o Corcovado e na minha mente vinha "It always comes as a surprise" com sample de Corcovado de Stan Getz e João Gilberto e foi a partir dali que comecei a prestar mais atenção na bossa-nova.

Aliás é um álbum com grande influência latina, até porque eles tinham passado pelo Brasil dois anos antes. E fui no show no antigo Metropolitan em 1994 e isso renderia outro texto. E no fim daquele ano estaríamos dançando Ricky Martin no baile de formatura e depois viria a onda latina. Segundo dados, eles usaram a música latina como reação ao Britpop da época. E daí também a razão do so do nome: Bilingual.

O interessante é que o que me faz gostar deste álbum não é só a relação nostálgica que traz no momento em que ouvi pela primeira vez. É o fato de ouví-lo até hoje e sempre vendo as conexões que ele faz pensar em "Step Aside" nos momentos de crise economica, de vencer a timidez quando penso em "If you see someone gorgeous then you think, Am I in, with a chance, should I try, buy a drink?" de Saturday Night Forever, de quando viajei para outro país e me senti "Single, bilingual" ou ainda ver o leão na Praça Trafalgar e pensar em "Back to Trafalgar one kiss, then I'll go" de Up Against It com a participação maravilhosa do Johnny Maar. Enfim ao longo desses vinte anos esse álbum tem me dito muita coisa.

Um hábito que mantenho desde então é pular "Se a Vida é" - tenho implicância com a direção do Bruce Weber, com rapazes jovens demais, magros demais, numa estética gay muito "asséptica" na qual eu nunca me senti representado ou, ainda que eu não me visse ali, não tinha também nada a me dizer. Mas a música é bonita sim e esses dias tenho escutado todas as músicas sem pular. O mesmo com Electricity, que acho chatinha, apesar da ótima ironia presente na letra.

Enfim, o que eu ouvia em CD (que deve estar guardado em alguma gaveta de casa) agora se faz pelo Spotify. Se eu estiver vivo aos 58 anos, veremos em que midia e que sensações eu terei ainda com essa obra.






Impichimã

Política é, sem sombra de dúvidas, um dos meus assuntos favoritos. Só creio que não tenho comentado nada sobre o assunto aqui e também tenho me preservado ao ler sobre o tema nas redes sociais. Não que eu as considere irrelevantes, mas tenho consciência de que política é mais que a pessoa no principal cargo do Executivo e uma série de textões.

Eu tenho lido muita coisa que é dita, seja por órgãos oficiais ou pela chamada mídia alternativa. Não tenho paciência é para aqueles blogs reaças ou chapa-branca, porque aí é puxado.

Poderia elencar uma série de coisas. E esse texto aqui serve, talvez, para satisfazer um desejo neurótico meu de ter que mencionar algo sobre o assunto (a neurose detesta o vazio). E das coisas que penso serei bem simplista: temos um sistema político cagado- na verdade ele é feito pra beneficiar os poderosos-, no qual se quem está no poder tem que fazer aliança com o PMDB, a verdadeira geleia geral do Brasil. E a questão é mais além do "brasileiro não sabe votar", se não prestarmos a atenção como se dá o financiamento de campanha, o uso das máquina governamental, os acordos, o dinheiro do grande capital, a nossa cultura política, o fato de sermos um país em que passamos 300 anos sob a chibata de forma oficializada e mais outros 100 de forma (não muito) disfarçada.

Reconheço muito os avanços na área social que vieram na era Lula-Dilma, especialmente quando ouço o que me dizem meus familiares lá no sertão cearense. E sei que para outros setores colocados a margem, a barra continua sendo pesada. E creio que com o que vem por aí será bem pior.

Li uma frase que pode parecer simplista, que diz que "com impeachment ou sem impeachment" o povo continuará se ferrando. De certa forma concordo com ela, mas penso que o que está ruim, pode ficar ainda pior. Ao invés das alianças dos governos anteriores com o grande capital, agora esses poderosos poderão ditar as cartas sem disfarce. E tome aí: perda dos direitos trabalhistas, reforma de previdência, terceirização e tudo o mais.

E que venham os protestos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Medo de escrever

Sempre gostei de escrever. Há 35 anos faço isso.

De uns tempos pra cá não tenho gostado do que escrevo. Parece que com o tempo parece que meus textos têm dois caminhos: ou parecem muito rasos ou herméticos, sem sentido até para mim. E talvez isso tenha me frustrado. Esse blog é uma prova disso.

Ás vezes me pego pensando, ou como dizia um behaviorista, na fala sem voz comigo mesmo e gosto do que sai. E aí vai pro papel (ou pra tela) e parece que algo ali se perdeu. Ficou resumido demais, palavras poucas demais e, pior, poucas ideias.

Em parte devo isso a uma certa postura que tive de uns tempos pra cá em meio a essa avalanche de ego nas redes sociais. Tenho preferido observar e compartilhar mais bobagens e as minhas fotos (que para mim não são bobagens) e assim ir evitando a fadiga.

Jung -sim, ele mesmo, não o Freud- disse que a psicanálise deveria ser a análise do introvertido. Por ela se basear na fala e na associação livre faz com que ele se pronuncie. E na minha época de análise não foi diferente. Disse à analista que pretendia escrever livros, mas que tinha lido que para escrever  eu precisaria ler mais. Ela discordou e disse que isso não era necessário.

E agora me pego nessa onda rogeriana que diz que quando prestamos atenção ao outro, fazemos uma modificação em nós mesmos. E aí está esse embate: a introversão para evitar a fadiga e poder se permitir ao outro ou expor, falar, ou como diz aquele meme: colocar a cara no sol?

Queria textos estruturados, com boas ideias e principalmente, não tão grandes. E talvez o passo na afirmação de quem sou, sem descartar essa transformação que o outro causa, é justamente poder afirmar isso. E tá aqui o liquidificador. Ele é esse espaço.

E vem o jogo, poder observar, aprender com aquilo que é externo a mim. E a partir desse aprendizado,  o que pode ser dito. Porque posso ficar completamente calado e aí não aprender nada. Fico parecido com um amigo que, diante das discordâncias, diz que prefere ficar calado e é uma pessoa extremamente fechada com grande dificuldade em lidar com emoções que vem dos outros, além de uma cabecinha conservadora pra muita coisa.

Enfim cá estou. Com o texto exposto. Com a cara do Sol. Mas um sol de fim de tarde, trazendo belas cores, mas mostando que aquele momento é efêmero e que logo logo vem a noite para cobrir tudo. Uma bela metáfora da vida que traduzi em muitas fotos minhas e que cá aparece na hora de refletir sobre esse meu medo de escrever.

Que tenha luz, que tenha sombra, que tenha escuridão!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Da auto crítica à gratidão

In my waking life, in the waking life
In the painful now, in the painful now
I wish for such a visit in the light of day
The light of the truth
I wish for such a visit, I need to know
In the light of day, I need to know
( Andy Butler, Roberto Gallegos, Answers come in dreams )


Por vezes existem coisas que nos incomodam e não sabemos bem explicar sua razão. Comigo não é diferente e daí percebi que essa semana meu comportamento estava estranho: exagerado e por vezes agressivo. E tem-se aí uma forte manifestação do eu.

Eu que ultimamente tenho evitado paju em redes resolvi criticar um amigo meu. Depois me dei conta que, por mais que do ponto de vista racional, eu estivesse com argumentos racionais a favor, fui de certa maneira agressivo com ele. E ainda essa semana, no twitter, um conhecido resolveu questionar uma postagem minha e lá fui eu dar uma patada arrogante no moço de cara. No momento, por mais que eu soubesse que o importante era justamente me ater as ideias, fui movido mais pelo ego e a necessidade de "sair vencedor". Enfim, uma babaquice.

Aí há duas formas do eu se manifestar. No momento em que fui arrumar cotenda, foi uma maneira de me mostrar "olha como sou maravilhoso e sei das coisas". Nesse momento passo a criticar tudo e a todos a minha volta, eu certo, eles errados. E depois, no momento de auto crítica, o ego tb fica tentado a se punir , de querer se isolar diante de um comportamento percebido como errado. Esses dois comportamentos são duas faces de uma mesma moeda: o impedimento do que vem do outro.

Então, como diz a música: respostas vêm nos sonhos. Essa noite sonhei que estava na praia e de repente era a varanda da minha casa. Meu pai conversava comigo e me avisava que um amigo meu muito querido estava chegando. Ele estava lindo, com um chapéu na cabeça e me avisava sobre o encontro que teríamos com outros amigos no fim de semana. E aí meu celular com várias mensagens de supostos peguetes querendo sexo naquele fim de semana e eu no dilema entre ter que dar atenção pr'os meus amigos ou ir pra gandaia. Até por um momento cogitei pro meu pai fazer sala pra eles, enquanto respondia as mensagens. Então decido que ficarei com eles, conversando, trocando ideias.

Não cabe aqui uma ideia moralista do tipo "sexo é ruim, valorize as amizades". Os dois são ótimo. Porém no contexto do sonho o sexo simbolizava exatamente esse investimento no eu, que por muitas vezes pra se defender é agressivo. E penso que negligenciar (a si e ao outro) é uma forma de violência, negligência essa que aparece nos amigos que chegam e eu querendo sair. A minha decisão ali simboliza uma outra medida, para além das tais duas faces anteriormente mencionadas: se permitir às ideias dos outros e ao mesmo tempo me expor, sem me isolar deles.

Então me lembrei da gratidão. Agradeci às pessoas que de alguma forma tiveram contato comigo esses dias e a agressividade foi percebida, entendida e arrefecida. E me senti bem melhor. Não por um capricho do eu, até porque essa não é uma decisão fácil pra um narcisista, mas por saber que outras formas de se relacionar com si e com os outros também é possível.

Não sou lá fã dessa coisa cirandeira "mais amor por favor", mas bem sei que se bem colocado, ele, junto com tantos outros sentimentos, pode sim trazer mudanças importantes. Ainda que as respostas dele precisem ser decifradas pela interpretação de respostas oníricas.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre a Lua

- Um texto sobre os impossíveis da ansiedade

"Sozinho no escuro 
          qual bicho-do-mato, 
          sem teogonia, 
          sem parede nua 
          para se encostar, 
          sem cavalo preto 
          que fuja a galope, 
          você marcha, José! 
          José, para onde?" ( E agora José, Carlos Drummond de Andrade)

Anteontem,

Era o dia da magnitude máxima da Lua. Mas dessa vez queria a foto dela na versão amarela, logo que ela aparece no nascente. Pensei em estar na outra cidade, na pedra, beira da praia. Não tinha tempo, não tinha me dado conta que a hora tinha passado. Até que

ontem,

Fui tentar os 99%, mas aí o céu encoberto jogou o impossível na minha cara. Vento e tudo gelado. Era hora de se conformar. Era hora da voz no ouvido que diz:

calma!

Sempre ela, assim como hoje. Não via a hora de terminar o dia de trabalho. Vem tudo de uma vez: a pilha de livros, a pilha de músicas, a pilha de fotos, a pilha em mim mesmo. Calma é a senha que faz de repente o tempo ficar devagar, como as nuvens que passavam em torno da Lua que eu não vi. E estando tudo mais lento, as coisas pareciam possíveis. E o que era impossível era só impossível, uma desobrigação, uma pilha, sem energia. Não há nada demais nisso. E hoje ela aparece mais tarde e o que resta então é só a espera no céu, com as mesmas luzes, postes e casas a compor a imagem de hoje.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Passado congelado

Semana passada estava vendo o programa "Estúdio Móvel", na TV Brasil. Naquele episódio, Liliane Reis entrevistava a historiadora Ana Maria Mauad. Tem muita coisa legal que foi dita entre elas essa daqui, que parece um tanto óbvia, mas em meio ao mar de críticas que se faz ao uso da fotografia, é bem interessante:

"a fotografia é um documento e um monumento. Ao mesmo tempo que retém uma informação sobre o passado, a fotografia é a imagem que aquela sociedade produziu para o futuro. Fotografia é o passado congelado, atualizado a cada presente."

Quando Liliane perguntou sobre o uso atual da foto ela o tratou de forma bem positiva, a partir justamente desse ponto em que ela chama a foto de "passado congelado atualizado".

Com o uso maior das câmeras digitais, incluindo o aperfeiçoamento delas nos smartphones, bem como a ampliação das redes sociais, muito se discute o aspecto frívolo e instantâneo da fotografia, especialmente no Facebook, Instagram e demais redes. Fora críticas ao nosso narcisismo e repetições de temas: fotos dos bichos de estimação, do espelho da academia na hora do "treino" (sou invocado com essa palavra), da comida na hora do almoço, a selfie do espelho do elevador antes de ir pra night e por aí vai.

E em meio a esse mar de repetições- que não são necessariamente ruins-, pode ser ter também outros olhares. E nessa diversidade podem ser vistas coisas bem interessantes. Ou até mesmo o quanto é revelador aquelas pessoas que fazem a mesma pose naquele determinado ponto turístico. E tal como a psicanálise já tem revelado, seja na teoria freudiana ou na própria clínica em si, a repetição é um de nossos aspectos enquanto humanos. Aliás, uma coisa que a psicologia me trouxe foi ver não só o que há de original, mas também de vulgar, comum e corriqueiro em nós (obrigado, Roscharch pelos seus testes!).

Nesse sentido, culpar a fotografia e as redes sociais por esses temas e repetições parece ser tão sem sentido como acreditar que o olhar por trás da foto é neutro e sem subjetividade. Mesmo para aquela mesma foto do pudim de leite da sobremesa do domingo passado que apareceu na timeline tirada por um contato nosso.

Se com a escrita, passando pela tipografia, jornais, blogs e textões nas redes, pode-se ter uma multiplicidade de ideias pela palavra- incluindo as que consideramos chatas, repetitivas, fúteis ou mesmo violentas- por que o mesmo não pode ser com a imagem? E se a imagem pudesse, tal como a palavra, revelar o que temos de corriqueiro, banal e também criativo e interessante?

Li recentemente uma frase ou ideia atribuída a Carl Sagan em que ele disse que a transmissão do conhecimento é uma das melhores, senão a maior, das invenções humanas. Não descartaria a fotografia no papel dessa transmissão.

domingo, 15 de maio de 2016

Sobre a falta

No meu blog-coletânea chamado "alfabeto", eu coloco em um dos textos um trecho de uma real sessão de análise que eu tive há 16 anos. Fala sobre essa não expressão da falta, do desejo. E o último sonho que eu tive, mais uma vez volta nesse tema. O que você gosta?

Me peguei pensando neste sonho e nos elementos dele. Ainda não sei ainda a razão pela qual o supereu assume a forma de personagens femininas. A que vem de fora lança a pergunta, como a esfinge. Só que dessa vez a pergunta seria "decifra-te ou devora-te". O sonho, tão primeira pessoa assume ares da segunda, o "eu" se torna "tu", para quem se fala.

Para lidar com a dificuldade de assumir o desejo me pego perdido em diversas palavras. Elaboradas, arrumadas como requer a retidão das coisas. Interessante que neste sonho as minhas reivindicações, o que estava entalado, o que precisava ser dito, aparece quando eu vou me despindo da formalidade. E assim consigo pontuar e colocar exatamente aquilo que eu quero.

Ele aparece numa época em que meu namorado em tom de zoeira comigo sempre me chama de "rico" pelas posses e pelo meu vocabulário. E por vezes faço cara feia diante disso e talvez eu consiga entender a raiz disso: o medo de expressar o desejo.

Expressar o que se quer e gosta revela muito se si. Coloca em situação de vulnerabilidade. E a fantasia neurótica sempre vê esse desejo tão guardado ameaçado por algo externo. É como se a felicidade, o gozo, o prazer sentido naquele momento fosse passar e sendo assim como forma de evitar o sofrimento que possa vir no futuro, que tal extinguir a própria alegria?

Se apelas o tempo todo para as necessidades do "eu" sem levar em consideração o que está a minha volta é perigoso, por outro o não dizer pode se perder no ar. A identidade, o quem eu sou some, como na ignorada que a palestrante no sonho dá. No momento em que assumo outras palavras, mais naturais eu posso ser mais claro e livre da censura se aquilo que estou dizendo está certinho ou não. E ao mesmo tempo consigo reunir os desejos dos que estão a minha volta, ali naquela sala de aula simbolizada no sonho.

A resposta do sonho aparece no fim, naquela sala metáfora do próprio eu e vários de seus personagens. A autoridade original da professora é cedida para uma outra autoridade. O eu está em um discurso prolixo e, diante do abandono da escuta, se vê colocado de outra forma, falando de forma direta, sem rodeios e ao mesmo tempo altruísta.

Interpretando: era a mim mesmo que eu estava ajudando. Sem disfarces e fazendo valer essa a autoridade do sujeito que fala diante daquelas duas entidades que, sendo então desnecessárias, me fazem acordar.

Pensando na própria vida em relação ao imbrólio dos parágrafos anteriores: mais que dar atenção a ordens que não são realmente o meu desejo, é hora de assumí-lo sem medo de parecer incorreto, Mostrar que aquela pessoa que está ali no passado não comporta mais pro eu de hoje. O sujeito para quem se fala tornar-se quem fala, na primeira pessoa, no singular e no plural, já que quando sonho, vejo que sou muitos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

1/366 : Catar feijão


O ano de 2016 começa com a minha rotina completamente alterada. E as minhas ziquiziras místicas me dizendo que há uma energia no ar. Pudera: antes do ano terminar tenho febre, cansaço e dor no corpo e não é dengue. Minha mãe tem quase o mesmo e o "dia de ano" é passado em boa parte dentro de uma unidade hospitalar.

Por outro lado esse estado tem feito ver muitas coisas. Eu me lembro desse poema do João Cabral de Melo Neto:

"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.


Em princípio esse poema é metalinguístico, já que o fazer poesia era preocupação em algumas obras dele. Por outro lado, estar de cama faz perceber, pacientemente, como se dão alguns movimentos das pessoas. E o mais importante, de mim mesmo. Ver o que em mim é leve e oco, palha e eco.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dogmatismos

Ontem foi aquele momento de se reunir com os amigos do namorado. E lá tinha um que eu desconhecia, por esse morar em outra cidade e estar de visita na região em que moramos.

Aí começa um papo sobre religião. O gatilho foi a ausência de um dos amigos, que naquele momento da noite de domingo, estava em uma missa. Daí o rapaz visitante desata a falar de seu ateísmo, das questões familiares e das discussões com o tio religioso, além de todo histórico da construção do cristianismo e tudo o mais.

Até aí estava tudo indo muito bem, até mesmo quando ele falou dos evangelhos apócrifos, nos quais ele e o tio concordavam sobre a sua existência, mas para o tio a verdade só estaria nos canônicos Mateus, Marcos, Lucas e João . Beleza e tudo e tal, papo raro de se ouvir entre os amigos dele. Aliás esse é um dos mais velhos que eu conheci, deve ter mais ou menos a minha idade.

Daí vem um papo sobre Malafaia e Bolsonaro. Em provocação ele disse pro meu namorado que não tinha nada demais uma postagem que ele fizera há tempos sobre Bolsonaro. E que na verdade ele gostava do Bolsonaro, porque ele, assim como o Malafaia eram os únicos que falavam as verdades contra o PT no Brasil e que ele poderia falar mal do PT porque atingia diretamente o bolso dele.

Foi quando eu disse que o pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo tem interesse em uma concessão de TV e e essa a razão dele ter apoiado os candidatos do PSDB e ser contra o PT, que é aliado do Bispo Macedo, conocrrente de Malafaia no mercado da fé. Tudo uma questão de negócios.

Daí o rapaz se retirou, dizendo que estava na hora de ir para casa. E eu pensando que ateus podem ser- em nome de paixões políticas rasas- tão dogmáticos quando um fundamentalista religioso. No fundo o ser humano defende aquilo que melhor lhe convém.