Domingo, 6 de Julho de 2008

Tricolor não-evangélico

Quando eu penso que desgraça é só o meu querido Fluzão perder a final para LDU - ou LCU, nos dizeres do "escrachado" Wagner Montes - me vem essa notícia:

Pesquisa Datafolha mostra que o senador Marcelo Crivella (PRB) lidera as intenções de votos à Prefeitura do Rio com 26%. A ex-deputada federal Jandira Feghali (PC do B) está em segundo lugar com 17%.

Como a margem de erro da pesquisa é de 3% pontos percentuais, para mais ou para menos, três candidatos aparecem empatados no terceiro lugar. Tratam-se da deputada federal Solange Amaral (DEM), com 10%, seguida pelo ex-secretário estadual de Esportes e Turismo Eduardo Paes (PMDB), com 9%, e o deputado federal Fernando Gabeira (PV), que aparece com 7%.

Já o deputado estadual Alessandro Molon (PT) tem 3% das intenções de voto.

O levantamento, realizado no dia 3 de julho, está na edição da Folha de S.Paulo deste domingo (6), que já chegou às bancas. O Datafolha ouviu 812 moradores do Rio.




Só isso!

Domingo, 8 de Junho de 2008

Será?


Pode parecer um clichê. Algo que você está cansado de escutar o tempo todo. Eu pelo menos estou. No entanto parece fato: as pessoas estão mais preocupadas em falar do que ouvir. E quando me disponho a falar as histórias ficam inconclusivas, por conta dos delírios narcísicos de cada um.

Será que é por isso que a Internet virou uma válvula de escape para a solidão?

Será que é por isso que os remédios fazem mais sucesso que as terapias, na qual a pessoa simplesmente não fala, mas é obrigada a ouvir. Não as palavras do analista/terapeuta, mas principalmente, si mesmas.

Será que as pessoas incapazes de ouvirem o que o outro tem a dizer são capazes de ouvir a si mesmas? O falatório narcisista será uma maneira de livrar um encontro doloroso consigo mesmas?

Araruama e esse período desconectado me fazem bem. Sou obrigado a escutar mais a mim mesmo e me afasto dos discursos narcisistas, sejam eles teclados ou falados.

Duas Caras II

Duas Caras (2)

Como essa semana já se encerra a novela, deixei de preguiça e resolvi postar meus comentários sobre “Duas Caras”, com alguns personagens e questões que foram abordadas na trama:

- Evilásio Caó, o p´ríncipe da Portelinha?

Em sua segunda telenovela, Lázaro Ramos mostra que é capaz de lidar bem com o gênero e interpretar uma personagem que difere muito do seu anterior “Foguinho”. Vejamos, Evilásio é filho de Misael Carpinteiro- um dos fundadores da Portelinha-, irmão de Gislaine e afilhado de nada mais nada menos de que Juvenal Antena, o déspota quase esclarecido da comunidade.

Como é sabido “padrinho” é o segundo pai e é com Antena que Evilásio terá o seu maior embate que em muito se assemelha às relações de pais e filhos, sendo que em jogo está uma comunidade. Além disso ele terá que lidar com outro vilão, comum à maioria dos brasileiros: o racismo, encabeçado pelo seu futuro sogro, Barretão. Esses fatos credenciam Caó a ser o herói romântico da trama, somando-se a isso um romance – como todo folhetim pede- com uma moça branca e de classe social acima da sua: Júlia.

Existe um momento da vida em que nos damos conta de que nossos pais não são infalíveis (castração) e que, em decorrência dessa falha, nós corremos em busca de outros objetos, em substituição às figuras parentais e somos obrigados a fazer escolhas. E como somos incompletos, cada escolha implica no abandono de outra, ainda que muitas vezes hesitamos com medo de perder o amor dos pais. Com Evilásio não é diferente.

Ele é criado junto com Juvenal, trabalhando na Associação de Moradores. Em um dado momento percebe-se de que a vida chama Evilásio a olhar para além da favela, a visslumbrar novos horizontes. Neste momento ele conhece Julia, a moça que vem de fora da Portelinha, e entra em atrito com os métodos de Juvenal Antena, com quem se envolve em uma disputa política até Antena se dar conta de que, diferente de Evilásio, ele só é rei na Portelinha. Se a alteridade é fundamental para que nos reconheçamos, com Juvenal isso só se dá na comunidade. Diferente de Evilásio, que tem a necessidade de sair dali e realizar o seu projeto de ser o representante da favela na Câmara Municipal.

Em relação a Juvenal já fiz comparações com “Totem e Tabu” de Freud. Com Evilásio a idéia se repete, sendo que em princípio ele não deseja o assassinato do pai (Juvenal) mas deseja trabalhar junto com ele. Mas talvez o grande “tabu” que existe para os planos de Caó não é Juvenal Antena em si, mas a Portelinha, comunidade que é seu objeto de amor.

Sílvia

Esqueçamos a nomenclatura antiga psiquiátrica que dividia os loucos em neuróticos e psicóticos e aprendamos o que é o transtorno Boderline, no qual a pessoa se mostra extremamente agressiva quando seus objetivos não são alcançados, somados a surtos de depressão e tentativas de suicídio. Esqueçamos também as mulheres eternamente loucas, histriônicas e sem sentido de Manoel Carlos, e vamos nos divertir com a vilã desequilibrada e por muitas vezes cômica, de Aguinaldo Silva..

A personagem, aparentemente uma menina insossa que estudou na Sorbonne e que volta ao Brasil após o falecimento do pai vai mostrando a sua “outra cara” a partir que começa o seu relacionamento com Marconi Ferraço e esta fica mais acentuada graças a uma outra personagem: Renato, filho de Ferraço com Maria Paula.

Interessante observar a disputa narcísica que ela apresenta diversas vezes, o que de certa forma pode até fazer pensar sobre o Complexo de Édipo. Silvia sempre foi uma menina mimada que, de acordo com sua mãe, sempre teve tudo o que quis graças ao pai. Silvia não sabe lidar com as faltas. Quando o pai lhe falta, na morte, ela encontra um substituto em Ferraço, união a que a mãe se opõe e que é o motivo principal da briga das duas durante a trama, fazendo lembrar a rivalidade mãe e filha. Outra mulher que aparece em seu caminho e que lhe representa uma ameaça é Maria Paula, uma mulher capaz de obter o amor de Ferraço, algo temerário à Silvia. E por fim, a presença de Renato, uma criança tão cheia de vontades, talvez, quanto a adulta madrasta que passa a trama tentando achar mil formas de eliminar o menino, já que este aos poucos vai ganhando a atenção e o amor de Ferraço, a ponto de Silva simular um acidente da escada na festa de aniversário do menino e assim obter a atenção de todos.

O flerte de Silvia com a “morte” não se dá somente nas tentativas de assassinato ou no seu suposto acidente. Ao conhecer o motorista João Batista (JB) que representa socialmente tudo o que ela detesta – ele é pobre, favelado e, no fetiche da mesma, fedorento- ela decide mostrar uma sexualidade fetichizada por motéis baratos e onde ela pode exercer peno poder anulando qualquer tentativa de desejo do outro. Ela quer JB submisso a ela, fazendo todas as suas vontades de maneira obediente. Se Freud afirma que no masoquismo há uma fusão pulsional (da libido e da pulsão de morte) é por ela que a personagem tenta manter, de forma caduca, a atenção de todos sobre si.

Outras personagens / tramas

A novela apresentou diversas personagens com suas tramas particulares e o jogo do duplo. Algumas tramas forma bem aproveitadas, como o núcleo da Portelinha que mostrou diversas questões:

Alzira: a personagem dividida entre o “dever” que tomou para si mesma de cuidar dos filhos e do marido – revestindo de si como heroína- e o desejo de brilhar nos palcos na famosa “dança do cano” (elemento fálico?)

Os Evangélicos De um lado Edivânia, a fanática que poderia beirar a caricatura mas, que de certa forma representa uma parte da realidade evangélico-fanática de nosso país, em especial nas comunidades mais pobres. A caricatura não é de Suzana Ribeiro. Talvez seja o caso de se pensar que, no afã narcisista de buscar uma saída para uma vida medíocre e se sentir especial e eleito por uma entidade maior e se sentir superior a todos, não estariam muitos evangélicos se tornando caricaturais e escamoteando o que tem de melhor em si mesmo, contrariando assim o ensinamento daquele que eles dizem acreditar. A melhor resposta para isso está em Ezequiel, que representa não o lado puramente religioso, mas também como a espiritualidade e a ligação com o divino pode-se dar de outra forma e que isso pode ser usado para o bem de todos.

Ainda no campo religioso houve a presença de mãe Bina e o dilema de Andréia Biju de assumir o terreiro. A personagem que em princípio quer ser a rainha de bateria da escola, não se dá conta, ou tem medo, de perceber que seu trono é outro. Curiosa trama para uma personagem que teve que cuidar desde cedo da irmã mais nova, assumindo o lugar da mãe (eas são órfãs) e se vê em um dilema para se tornar uma mãe-de-santo.

Personagem mal aproveitada por sua vez foi a Branca, em atuação histriônica de Suzana Vieira, que só teve momentos mais interessantes ao lado de Alinne Moraes (Silvia) e de certa forma, Renata Sorrah. Muitos criticam a personagem Célia Mara de Sorrah, mas é fato que no jogo duplo de espelhos invertidos – uma desejando o que a outra não tem- ela se saiu bem melhor que Suzana Vieira, seja em suas brigas – por vezes cansativas ao público – ou em seus monólogos no qual culpava a todos por sua desgraça. E nesse meio temos um Jo´se Wilker apático no papel do insípido professor Macieira, personagem que poderia ter rendido mais e muito aquém do talento de Wilker.

A esquerda festiva simbolizada nesta falácia chamada “movimento estudantil” encontrou em Rudolf a sua maior crítica, não distante da realidade. Rudolf é o negro patrulheiro, chato, que posa de politicamente correto e se faz de pobre. Todavia anda o tempo todo com pessoas brancas, ricas, despreza as pessoas da Portelinha – alguns alunos da mesma raça dele – e descobrimos lá pelas tantas que ele é rico e trata com desprezo os seus empregados. Está aí uma boa metáfora do que representa muitos setores da esquerda brasileira- chamada de esquerda festiva- que diz adorar os pobres, mas sabemos que ela os quer bem longe. Isso explica em parte porque certos movimentos não deram certo no Brasil, em que até parte dita esquerda repetiu os mecanismos de concentração de renda e disparidade social seculares- e do movimento estudantil, que se tornou, pela UNE um monopólio de militantes imaginários e que os estudantes de forma geral só se lembram dela por conta de carteirinhas de meia-entrada e daqueles protestos vazios “contra o FMI”. E junto com isso, Rudolf mostra talvez o perigo da militância negra sem sentido, aquela que se limita a ver racismo em tudo e se esquece de atacar os reais problemas que fazem com que nós negros, maioria neste país, estejamos marginalizados em um país que se recusa a ver o óbvio enquanto a parcela mais clara da população delira com suas ascendências européias esquecendo-se de que está nos trópicos.

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E a elite vem representada pelo casal Gioconda e Barreto. A primeira cria um movimento chamado “Chega” – alguma semelhança com o “Cansei”? – após a amiga ser assaltada no calçadão. Se por um lado pode parecer coisa de perua desocupada, por outro pode ser um caso a pensar: será que só os pobres podem protestar? Casado com ela, Barretão, se mostra um racista que esconde da mulher a avó que fugiu com um negro. Nesse sentido faltou ousadia a Aguinaldo ou uma ligação melhor com a realidade que poderia fazer de Barretão neto deste negro.

Por fim temos a Portelinha, talvez ela mesma uma personagem.. As personagens, a exemplo de Lucimar, são dúbias, divididas, não diferente de todos nós. Uma hora vacilam em votar em Evilásio ou continuar sob os desmandos de Juvenal Antena e a sua “justa-mente” que decide o que deve ser feito ou não dentro da comunidade.

Domingo, 1 de Junho de 2008

Vento Nordeste

Ai alguém aparece de mansinho, sem ser vento, sendo sol. Apesar de toda ansiedade. O Cristo abre os braços para mais um "estrangeiro", o estranho encontro da minha vida, se tornar mais familiar...o Odilon agora é outro: é pego de surpresa quando menos se espera, com um certo vazio, sentindo a falta de alguém que tornou as últimas horas em momentos muito felizes. E os momentos felizes sempre têm a pretensão de serem imortais.

Domingo, 18 de Maio de 2008

Duas Caras

Faz muito tempo que eu não publico algo neste blog, por pura preguiça mesmo. Resolvi voltar publicando um texto longo sobre uma de minhas grandes paixões, a telenovela, e com uma idéia que pode parecer absurda a muitos: porque eu gosto de Duas Caras.

Uso a palavra “absurda” pois muito tem sido comentado. O IBOPE da novela é baixo e alguns dizem que a novela é ruim e que os mutantes-trash da Record abalam a audiência. Outros comentários maldosos afirmam que o blog do Aguinaldo Silva – autor da trama—é mais interessante que a própria novela. Pura maldade! Pelo menos de acordo com a minha cabeça doida que jura que “Duas Caras” é a melhor trama de Aguinaldo desde Tieta, esta adaptação do livro Tieta do Agreste de Jorge Amado.



Não vou desprezar a “trilogia” de novelas rurais que seguiram a Tieta (1989) na qual tem sempre uma cidade de interior como cenário principal da trama. Foi assim com a Resplendor de Pedra Sobre Pedra, a Tubiacanga de Fera Ferida—esta inspirada em Lima Barreto – e com a Greenville de “A Indomada”. Depois destas, Aguinaldo escreveu a fraquíssima Suave Veneno – cujo destaque foi somente a Maria Regina de Letícia Spiller à la Isabela Rosselini- e a ótima Senhora do Destino capitaneada pelaatuação de Renata Sorrah, a inesquecível Nazareth Tedesco.

Só para relembrar, segue abaixo o meu resumo sobre a trama da novela, em especial para que está completamente por fora:

“Maria Paula, garota rica do interior paranaense, perde os pais em um acidente de carro e se casa às escondidas com um vigarista que se apresenta como Adalberto Rangel. Após o casamento, ele a faz assinar uma série de procurações dando plenos poderes para ele sobre seus bens. Adalberto vende as propriedades de Maria Paula – incluindo a própria casa em que esta morava-- e foge com o dinheiro sem saber que a mesma está grávida de Renato.

Adalberto faz plástica e adota uma nova identidade: Marconi Ferraço. Com o dinheiro, ele monta uma construtora imobiliária e compra um terreno em Jacarepaguá- Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro – ao lado de um terreno invadido que se transformou na favela da Portelinha. Esta favela tem um líder , Juvenal Antena, que era segurança da empresa que funcionava ali.

Dez anos se passam e Maria Paula mora em São Paulo com o filho trabalhando em um supermercado e disposta a encontrar Adalberto/Ferraço. Até que um dia ela o vê em uma reportagem e decide ir para o Rio de Janeiro – aproveitando uma transferência que o gerente do supermercado propôs a ela e assim poder reencontrar Adalberto/Ferraço para um acerto de contas. Este, por sua vez, vive às turras com Juvenal Antena já que a vizinhança da Portelinha, é um entrave para seu projeto de construção de um condomínio de luxo no terreno ao lado.


Aqui vou enumerar algumas personagens que me chamam a atenção por duas razões em especial que me agradam. A primeira é a existência do “duplo”. Este tema já citei no meu blog antigo, acho, em que cito algus escritores que usam desse tema, tais como Guy de Maupassant, Robert Louis Stevenson, Machado de Assis e Sigmund Freud. A segunda razão é que com a trama basicamente ambientada em alguns “microcosmos” como a Portelinha e a Universidade Pessoa de Moraes, Aguinaldo desfila com personagens e questões que atacam males do Brasil (ou universais), sem perdoar ricos ou pobres, esquerda ou direita... está (quase) tudo ali.


Maria Paula, a heroína da história.




Em uma das minhas aulas sobre Lacan, a professora apontava 3 estruturas básicas apoiadas em patologias: a neurótica, a psicótica e a perversa. Entre as neuróticas tem-se a histeria, na qual sempre existe a necessidade de atingir um gozo perfeito e pleno. Junto com esse blábláblá chato lacaniano ela citava como exemplo Antígona, personagem da Trilogia Tebana de Sófocles. que foi até as últimas conseqüências para enterrar o pai, Édipo.

De certa forma Maria Paula se assemelha à personagem grega – uma heroína de acordo com o próprio autor – e que se revele o seu outro lado, o seu duplo, nessa busca incansável em querer que Adalberto pague pelo que fez com ela. No entanto, Maria Paula descarta a punição legal da polícia e da justiça: ela quer que Adalberto se humilhe a ela e que assuma os crimes que cometeu. Provavelmente imbuída de seu narcisismo que deve se perguntar “por que eu fui rejeitada?”.

E para aumentar mais ainda essa trama, tem-se Renato, filho de Maria Paula e Adalberto, que como Freud aponta o filho é fruto do desejo da mãe e é objeto narcísico da mesma. E ao que parece é ele- desejo da mãe- que vai unir as duas personagens, já que Maria Paula se defronta com o fato de não assumir o seu desejo por Adalberto. Renato fala aquilo que o desejo de Maria Paula tenta dissimular, mas que surge na forma de duas relações fracassadas: com Claudius e, posteriormente, com Narciso – “coincidência” irônica entre o nome do deputado e a natureza do desejo da personagem.

De menina rica e protegida do interior, o golpe sofrido por ela revela uma mulher que decide se sustentar com o seu trabalho e cuidar sozinha de seu filho. E a sua obstinação não fica só aí. A personagem tem um objetivo que é se encontrar com Adalberto e ter o seu acetro de contas, ou vingança, encontro amoroso, seja lá o que for. Algo parecido, guardadas as devidas proporções, com Aurélia Camargo criada por José de Alencar.

É importante assinalar a preferência de Aguinaldo por personagens vingativos: Tieta e Raimundo Flamel (Fera Ferida). Ele também gosta de personagens obstinados, tal como Maria do Carmo de Senhora do Destino, que também busca por algo roubado: Do Carmo buscava a filha roubada por Nazareth, vilã que a impediu de viver o amor da mãe com a filha. Maria Paula tenta buscar o amor perdido e roubado por Adalberto Rangel. Talvez sejam esses os elementos que justificam a tese de Aguinaldo em colocá-la como heroína e centro da história e da transformação de uma personagem que no começo da trama era chata e sem graça.

Adalberto Rangel/Marconi Ferraço/Juvenaldo Ferreira, o vilão?





Uma personagem que figura na trama com três nomes. O nome dá a noção de existência do sujeito e o insere no mundo tomado por linguagem. Juvenaldo ilustra bem isso.

Não é comum ver nas tramas um “vilão” com toda sua origem traçada. Para Adalberto seguem-se 4 fases: a primeira quando ele, no interior de Pernambuco, é vendido pela família miserável para Hermógenes, um trambiqueiro local que usa crianças para seus golpes e lhe dá um novo nome: Adalberto Rangel. Na segunda fase Adalberto adolescente conhece Bárbara – sua futura governanta- e aprende truques e golpes com Hermógenes. Na terceira, já adulto, ele foge roubando o dinheiro de Hermógenes, dá o golpe em Maria Paula, faz uma plástica e muda de nome e de vida. Para enfim vermos o impiedoso Marconi Ferraço, homem mecânico, frio e grosseiro com seus funcionários, dono da Marconi Ferraço Empreendimentos Imobiliários.



Em princípio, creio que o próprio Aguinaldo revelou ter se inspirado em José Dirceu para a “mudança” da personagem. Vale lembrar que, cá na vida real, José Dirceu, ex-líder estudantil na época da ditadura militar, faz plástica para fugir da perseguição política, muda de identidade e casa-se. Anos depois é que a própria esposa de Dirceu vai saber de sua verdadeira identidade. Com a abertura política Dirceu funda o PT sempre criticando os políticos corruptos, tornando-se o principal partido da dita esquerda brasileira e 23 anos depois, quando o partido elege o seu primeiro Presidente da República, ele torna-se Ministro-Chefe da Casa Civil, cargo com muitos poderes. Em 2005 se vê envolvido em uma série de escândalos acusado de chefiar um esquema de compra de votos de políticos da base aliada do governo, o famoso escândalo do “Mensalão”. Euis então as Duas Caras de Dirceu: o militante esquerdista que clama por justiça e político corrupto tão igual quanto os que ele por anos criticou. Estes fatos revelam que Adalberto/Marconi o golpista/ o grande empresário aproxima a trama da telenovela ao nosso dia-a-dia político. Ambos apresentam a arrogância no trato com as pessoas que eles julgam serem inferiores—Dirceu em seu "marxismo em proveito próprio" se vale da sua história pessoal como forma de absolvição --, a frieza e o cinismo.

A riqueza da personagem não pára por aí: na reta final da trama ele mesmo desconhece a sua real identidade, perdida em documentos guardados por Bárbara – personagem que funciona às vezes como o supereu de Marconi e que conhece toda sua história. Questionado por Maria Paula e depois por seu filho, Marconi Ferraço se dá conta que durante anos ao usar identidades falsas tinha varrido pra “debaixo do tapete” (inconsciente) ou para dentro da mala guardada por Bárbara o seu verdadeiro nome: Juvêncio Ferreira. Nome que ele acha feio e que revela a sua real origem e que, a exemplo de Maria Paula, revela uma rejeição por pessoas amadas – no caso, seus pais – que o vende para Hermógenes. A não-existência de Juvenaldo, sepultado por Adalberto e Ferraço, mostra talvez esse “não-desejo” filial e a necessidade dessas duas identidades: Adalberto para a sobrevivência em um mundo miserável e Ferraço que mostra que o desejo do ser humano passa além da mera necessidade. O desejo está além da necessidade.

Ponto para Aguinaldo e para a ótima intepretação de Dalton Vigh à personagem que, a exemplo de muitos patrões deste país, não tem lá grande estudo, recebe a alcunha de “doutô” e trata seus empregados com grosseria e intimidação. O “capitalismo” brasileiro guarda muito dos 400 anos de escravidão que o antecederam e permanecem até hoje.


Juvenal Antena, o pai totêmico.




A melhor interpretação de Antônio Fagundes em telenovelas desde o famigerado e odiado Felipe Barreto criado por Gilberto Braga em “O Dono do Mundo”, ainda que ele continue com aquele “ovo na boca” do Bruno Mezzenga de “O Rei do Gado”. Juvenal Antena é mais que uma personagem: é uma aula de filosofia política e psicanálise se for considerado o que Freud descreve em “Totem e Tabu”.

Na ficção a nascente comunidade da Portelinha se vê diante da necessidade de ter um líder. E de cara este líder já está ali: Juvenal Antena, ex-chefe da segurança da empresa dona do terreno invadido. Freud fala da horda primitiva, do assassinato do pai – que dá origem ao tabu do Édipo—e da presença desse pai totêmico (base do suprereu, instância psíquica que nos diz sobre o certo e errado) como forma de organizar a civilização. Na Idade Média as invasões dos chamados bárbaros do Norte da Europa forçaram às pessoas viverem em feudos fechados e dando status aos cavaleiros, responsáveis pela “proteção” e guerras naqueles tempos.

Juvenal atualiza isso para o Brasil do começo do século XXI, ainda às voltas com líderes populistas e ao Rio de Janeiro tomado pelo narcotráfico e de favelas com suas “milícias”. Rio das Pedras, favela de Jacarepaguá que inspirou a fictícia Portelinha, e tal como a favela da ficção é tida como exemplo por “viver em paz” ou como local onde “traficante não se cria”, tudo isso às custas de uma ordem severa e punitiva.

Outra pessoa pode ter em mente o venezuelano Hugo Chavez e no meu caso eu associo também ao presidente estadunidense George Bush. Juvenal justifica a sua “liderança” e o excesso de poder em suas mãos em nome de segurança da “sua favela”. Juvenal não tem medo de usar o pronome possessivo de primeira pessoa ao se referir à Portelinha. Os vilões de Chavez são a elite venezuelana e os EUA. Os de Bush são líderes de países como o próprio Chavez e os terroristas islâmicos. Os de Juvenal são a chamada “violência” – enquanto ele mesmo usa de violência e intimidação dos moradores – e às investidas de Marconi Ferraço, nas palavras dele “meu maior inimigo”. O venezuelano muda a Constituição, o estadunidense manda uma máquina de guerra para o Oriente e Antena dispõe de “7 anõs” (seus capangas). Chavez vende petróleo pros EUA de Bush, cuja família tem ligações com Osama Bin Laden. E Antena negocia com Ferraço apoio para sua campanha a vereador em troca de favores. A Portelinha, e Antena, são metáforas perfeitas para o mundo de hoje e o de sempre, com o ser humano sempre querendo um líder, um pai, que dê conta de todos os seus anseios, segurança nem que para isso custe a sua própria liberdade. E é desse tipo de coisa que tenho medo, já que isso gerou e ainda gera tantas autrocidades, sejam as da Inquisição Católica, dos monarcas despóticos ou das ditaduras de esquerda e de direita. Tudo isso em nome da “segurança”. A famosíssima premissa de Maquiavel --“Os fins justificam os meios”-- permanece atual. Sendo que “O Príncipe” tem várias caras, não só duas.

Enfim, por hoje é isso...no meu próximo post comento mais!

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Hiato

Só pra não ficar um espaço em branco e jurar que em breve esse blog terá post novo. Juro!

Terça-feira, 25 de Março de 2008

Pós Quaresma

- Esta páscoa foi a mais sem sal de todos os tempos e, paradoxalmete, eu tenha sentido melhor o significado dela: ressurreição;

- Odeio modem que não funciona;

- Gyselle não deveria ganhar o BBB 8, mas vai...totalmente sem função, exceto por servir de "disfaceitor" para Marcelo, aquele moço que repete o clichê "eu gosto de pessoas";

- Quando eu escrever um livro de auto-ajuda pra homossexuais masculinos com problemas de assumir a sexualidade ou, melhor dizendo, bicha mal resolvida, o título será "eu gosto de pessoas";

- A imprensa inteira tá baixando o pau nos governantes sobre a dengue no meu outrora lar Rio de Janeiro, mas se esquece cinicamente de que o grande responsável pela maldita é a população. Só que dessa vez o Aedes ão ficou só a pobreza dos pneus abandonados de ferros-velhos na Dutra e resolveu ir para as piscinas abandonadas na Zona Sul, Barra e Jardim Guanabara (Ilha do Governador) e, talvez por isso não cabe a máxima do "pobre sem educação e ignorante" e sim do carioca divertido, alegre, que dança o "Créu" e impede a entrada dos agentes de saúde em suas casas;

- Por isso o hit do verão não foi o Créu, e sim o Aedes, que assim como Clovis Bornay no concurso de fantasias do Hotel Glória, é hors-councours;

Sábado, 8 de Março de 2008

Didi x 10

1- Aumento de 5% para os aposentados que ganham acima do salário-mínimo é mais que vergonhoso, em especial para o partido que está no governo;

2- Hugo Chavez é o Brizola com mais melanina;

3- Rafael Correa umidifica;

4- Alvaro Uribe tá se achando porque tem apoio do tio Bush, mas vamos ver até quando;

5- A melhor personagem de "Queridos Amigos" é o Benny intepretado por Guilherme Weber;

6- Hoje é dia de curtir a praia;

7- O vento daqui me assusta;

8- Homem que entende significado de música da Britney Spears deveria ser forçado à cirurgia de trangenitalização e mudança na carteira de identidade (quem vê o BBB sabe ao que me refiro);

9- O ex-procurador geral da República, Cláudio Fontelles, é um nome perfeito para substituit Bento XVI;

10 - Parabéns a ministra Ellen Grace que adiantou o voto a favor das pesquisas com células-tronco embrionárias.

Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Verbos

Acordar mais cedo. Pensar na vida. Comer o melhor pão da minha vida. Discutir filosofia aplicada a parentes distantes com a mãe. Verificar abcesso no corpo do pai. Escutar miados desesperados pelça manhã. Acarinhar animal de estimação não adaptado. Ver o ônibus ir para praia desconhecida e próxima. Assistir ao seriado da noite e refletir sobre o país. Encontrar uma revista de 1988 comentando os 20 anos anteriores a ela. Lembrar que esse é o ano dos 30. Ir na lan house. Testemunhar um garoto com 6 anos de idade jogar counter strike com destreza. Ver o pôr-do-sol. Preparar novas aulas. Estudar para ganhar dinheiro. Desfazer a mala antiga grudada com uma fita marrom. Espraguejar a síndica do condomínio pelo alagamento que trouxe uma cobra não venenosa que não passou pelos meus pés. Selecionar a quem dar o novo número do telefone. Mandar e-mails para pessoas queridas. Lavar banheiro com desinfetante de aroma maçã verde. Preparar picadinho e comer 7 rosquinhas vendidas a 1 real. Pensar nas pessoas que valem a pena e descartar sanguessugas. Lembrar que um bom jogador de BBB tem que jogar com o público e nenhum pretenso a expert no programa se dá conta disso. Lembrar-se de que BBB não casa com experts, mesmo sendo originalmente um experimento de psicologia beahviorista. Lembrar-se de que sou psicólogo. Desejar ter outra profissão além da psicologia. Olhar-me nu no espelho como não fazia há algum tempo. Perceber que está gordo, mas que se pegaria e rir quando alguém diz que a barriga murchou. Rir com blogs amigos. Ver outras fotos no flickr. Ler textos de Freud e Foucault sobre o discurso. Refletir sobre o papel dos gêneros na sociedade brasileira. Que pariticipantes de BBB fazem discursos machistas. Que eu odeio o fato de todo negro do programa ganhar a alcunha de "negão". Ter sonhos estranhos que não teria coragem de revelar nem mesmo no meu blog. Odiar a cachorra da vizinha e perceber que meus sonhos recorrentes com este animas simbolizam meu ódio inconsciente contra eles, uma vez que na minha infância foi mordido por alguns. Odiar lacanianos e dar razão a Freud e Lacan quando penso nos meus sonhos. Procurar uma igreja própria e reencontrar a espiritualidade. fazer fotos macro do jardim e olhar para as nuvens carregadas pelo vento sem compromisso. Pensar em um certo rapaz que está longe e lançar um sorriso besta e se dar conta de um apaixonamento. Receber telefonema para visita indesejada. Falar com um amigo na divisa de dois estados e esperar a sua visita desejada. Esperar por promesssas falsas. Ser mais carioca e dizer "passa lá em casa" sem dizer o endereço. Escrever bobagens neste blog.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Rapidamente

Queria confessar que gosto da novela das 8 que passa às 9 e da minissérie depois do BBB, mas tem suas falhas. Que to obcecado pela saída da "urça" esperando esse dia chegar....e que a Praia Seca é linda e me trouxe uma paz que não sentia há muito tempo.