quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Se joga

Uma das minhas grandes dificuldades: iniciar as coisas.

Vou usar a metalinguagem para ilustrar isso. Na página 58 do meu Bullet Journal, feito em julho deste ano, há uma lista de temas que servirão de textp para esse blog. Porém, o combo preguiça e procastinação fizeram com que esse texto, sobre a necessidade de se arriscar e se jogar, só fosse feito agora.

Chega o fim de ano e vem à cabeça aquela velha reflexão: lições aprendidas. E ei-la: se jogar na água fria,

No inverno desse ano -- ok, inverno no litoral do RJ não existe-- por conta da resistência do chuveiro quebrada e a demora em trocá-la por conta da procastinação  me fez encarar a água fria por alguns dias. Lembro-me de ter pego o "The Fat of the Land" do Prodigy pra tocar e a partir do ritmo da música tomar o banho sob a água gelada. A estratégia deu certo e no fim, serviu até para a economia de energia. O corpo se sacudindo produz calor e é uma beleza nesses momentos.

Esses dias meu namorado conversava comigo sobre o que eu quero fazer profissionalmente: terminar minha formação em psicologia, seguir pra uma pós ou fazer outro curso. E daí fiquei em n reflexões sobre como pode ser o futuro, esses eternos adiamentos e a dificuldade em iniciar as coisas. Me veio a mente a ideia principal deste livro (que baixei, mas não o li por inteiro) que fala sobre auto ilusão. Como a clássica "segunda começo a dieta".

A despeito de qualquer amontoado de pesquisas que eu desconheço a sua validade científica, uma coisa legal que fazer o Bullet Journal me mostrou ao ensinar a fazer a lista de coisas foi: passado o dia, aquela tarefa que não foi feita merece ser adiada pra outro dia ou ser descartada de vez? Se não for realmente necessária ou válida, basta riscar. Isso evita a tensão de ter que ver aquela coisa por terminar o tempo todo enchendo o saco ali. Mas essa ideia só tive recentemente ao rever o vídeo do pessoal que criou o conceito dessa agenda.

E voltando a conversa com o namorado. Ele me disse "se quiser fazer algo, inicie". Parece uma mensagem positiva por um lado. Por outro lado, nós dois ponderamos que, embora seja uma mensagem encorajadora por um lado, por outro ela pode ser muito inconveniente. Especialmente quando está lidando com alguém que não está bem com sua saúde mental. Por isso é mega insensível, por exemplo, chegar pra uma pessoa com depressão e dizer: olha pra sair dessa basta você dar o pontapé inicial. Tá, mas com que recursos? Por isso existe a necessidade de ajuda profissional. E eis o grande dilema, respeitar a saúde mental, mas ao mesmo tempo não deixar que a paralisia em não iniciar as coisas piore ainda mais a situação.

Sendo assim há dois processos importantes. Um que permita a se arriscar e poder fazer coisas novas ou retomar aquilo que ficou pra trás e que por uma série de inseguranças, ficaram guardadas. Outra é ver se, com o tempo e a devida reflexão, aquilo é realmente importante e não ver problema nenhum em descartar aquilo, que no fim das contas só servirá para alimentar uma neurose do tipo: preciso fazer tal coisa. A auto-ilusão do livro que citei.

Tão importante quanto se sentir vivo e capaz de se jogar na água fria, ao som da música que se gosta e sair com a pele maravilhosa é pensar no que realmente importante. Esse processo implica num exercício de auto conhecimento que na maioria das vezes surpreende. Especialmente porque aquela procastinação, aquele adiamento pode estar mascarando algum desejo que ainda não foi colocado pra fora e aquele "preciso fazer isso" e que nunca é feito funciona como uma represa pra esses desejos.

 Volta e meia cito nos meus textos e penso no processo de "cortar as inutilidades" dos poetas neoclássicos, a necessidade de um bom acabamento. Um caminho bom no processo de auto conhecimento é reconhecer onde é preciso fazer esses acabamentos, riscando aquilo que for inútil. E poder dar início, se jogar, nas coisas que realmente importam.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As Natálias que conheci

Retomando o Liquididificador, resolvi pegar uma lista de temas que eu tinha deixado no meu bullet journal em julho (olá procastinação, minha velha amiga!) e resolvi postar mais. O primeiro tema dessa lista era, justamente, o título desta postagem. Além disso ele se relaciona com o mais recente.

No remake de 2006 da novela, “O Profeta”, Natália (Vitória Pina) é filha de Dedé (Zezeh Barbosa). É uma menina negra de pele clara que tem vergonha da mãe, que tem a pele escura. Em uma cena que viralizou no Facebook e que, infelizmente, não consegui encontrar, ela despeja a raiva que sente da mãe por conta do racismo internalizado.

A cena é um exemplo da manifestação do chamado “colorismo”. No Brasil. O racismo é mais forte contra pessoas de pele mais escura. No podcast de que participei, num primeiro momento apareceu a impressão de que o colorismo era um recurso que nós negros usamos uns contra os outros, sem o envolvimento de pessoas brancas. Mas a situação não é essa. A branquitude mantém a sua hegemonia com essa cisão e, por mais que o tom da pele aponte diferenças na forma de tratamento, o negro de pele clara não desfruta dos mesmos privilégios das pessoas brancas.

Algumas pessoas da militância negra afirmam que, diante de um preto de pele clara praticando colorismo, não cabe a gente apontar a sua negritude, que isso deveria ser um processo de auto descoberta. Eu, por exemplo, lido com alguns adolescentes com essas características, mas reparo que entre aqueles que se politizam mais, depois de um tempo assumem a sua negritude, sem que haja, de fato, a necessidade de apontar isso.

Por outro lado eu me lembrei da minha infância. Minha mãe, do jeito dela, sempre apontou essa questão. Creio que por conta das experiências dela, por ter a pele escura, sempre procurou passar pra mim e pra minha irmã as formas como isso acontece. Dessa forma, ela já nos ensinava como lidar com crianças negras de pele mais clara que procurariam diminuir a gente, especialmente a mim, que tenho a pele mais escura que a da minha irmã. Ensinou a gente a apontar a negritude delas. E sempre funcionou. Toda vez que eu tive que lidar com uma “Natália” na minha infância eu mandava “não fala nada, que você também é preta ou preto”. Alguns podem ver isso como crueldade entre crianças, mas era a forma de lidarmos com o racismo internalizado entre a gente. E em muitas vezes, já na transição pra adolescência, tive algumas respostas positivas por ter ajudado alguns outros negros que não se percebiam assim.

Anos mais tarde, fui me encontrar com um rapaz. Ele era um pouco mais claro do que eu. Rolou o que tinha que rolar e, lá pelas tantas ele dizia orgulhoso que “dentre os meus irmãos eu sou o único branco”. Eu, sem noção e de supetão disse “mas você não é branco”. O rapaz ficou quieto. Desde aquele dia não rolou mais nada, apesar de ter sido uma noite muito boa. Algum tempo depois eu o encontrei na fila do cinema e o ele tentou fingir que não me via.

Já li alguns textos apontando que o colorismo foi uma forma de dividir os negros e impedir o seu fortalecimento, já nos idos coloniais. Na mídia, reparo que diversos papéis que poderiam ser feitos por pessoas negras de pele mais clara foi feito por pessoas brancas. De cara, me lembro da minissérie Agosto (1993) em que Salete, uma das protagonistas da série, é vivida por Letícia Sabatella, ao passo que sua mãe, Sebastiana é vivida por Léa Garcia. O mesmo vi duas vezes com Betty Faria, na adaptação de “O Cortiço”, em que ela vive Rita Baiana (personagem negra) e em Tieta, atualmente em reprise no Viva, que no livro não é uma mulher branca. Aliás, a Madame Antoinette- como ela é conhecida em São Paulo- para poder justificar que é francesa, diz que é mestiça, pois sua mãe é das Antilhas Francesas, local que recebeu um grande número de africanos escravizados, a exemplo do Brasil. Lembro-me de Maria Ceiça, atriz negra, que no documentário “A Negação do Brasil”, fala do seu maravilhamento ao perceber que muitas das personagens de Jorge Amado poderiam ser feitas por ela.

Aliás reparo que atualmente, alguns desses papéis, tem sido interpretados por atrizes como Juliana Paes e Nanda Costa. Porém, aqui no Brasil, muitas vezes elas são lidas como “morenas”. Aliás muitos fazem a mesma leitura para Camila Pitanga, mas essa sempre faz questão de afirmar a sua negritude. Lembro-me também de Sônia Braga, que entrevista já disse que apontava sua ascendência portuguesa diante dos americanos que não a leem como mulher branca ou “morena”. Aí é uma boa reflexão de como as relações raciais não são naturais, nem únicas, mas tem toda relação com o contexto social em que elas se dão.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Consciência Negra: eu no podcast

Na última segunda feira tive a oportunidade de participar do podcast "The Library is Open", a convite do Thello, Rodrigo e Caio. Na maioria das vezes é um podcast dedicado a RuPaul Drag Race, com temas que interagem com outras questões LGBT e, em dados momentos -- quando a atração não é exibida -- há discussão específica de vários temas: representatividade, gordofobia, bifobia, homofobia, transsexualidades entre outros temas que podem ser conferidos na página deles. No último dia 20, foi a interseção entre negritude e LGBTQ, onde eu tive a alegria de participar com, além dos citados, com Jean e Guilherme. Quem quiser conferir, pode clicar, aqui.

A oportunidade pra mim foi boa, apesar da minha ansiedade e das constantes quedas do meu roteador. Puder colocar as minhas questões, vivências e pensamentos. Além disso, houve dois pontos que me ficaram ressaltados para mim.

O primeiro ponto é que com a participação do Guilherme, que é bissexual e de Jean, que é travesti, eu pude perceber e ouvir- escuta, este exercício sempre tão necessário- experiências que são diferentes das minhas. Ao mesmo tempo perceber o quanto a questão racial por vezes une nossas vivências.

O segundo ponto é que entre os realizadores estão pessoas com quem converso há anos e compartilhamos pontos em comum, até porque, entre outras coisas, somos bichas gordas. Mas ali estávamos conversando sobre um dos vários pontos em que nos diferimos e o peso que isso tem.

A partir dessas reflexões penso em outras questões. Uma, que foi colocado aqui pelo Spartakus Santiago. Para ele , o dia 20 e os demais dias não devem ser apenas para nós, pretos, falarmos de racismo. Temos muito mais a contribuir e dizer além disso. Nesse sentido acho que é importante a nossa criação e conquista de espaços para nossas vozes serem ouvidas, que a nossa produção seja vista.

Nesse sentido começo a entender melhor um dos motivos que me fizeram desfazer um a amizade essa semana naquela famosa rede social. Eis a situação: a pessoa reclamou sobre um artigo na seção de gastronomia de um jornal sobre a invisibilidade de restaurantes de imigrantes pretos africanos. O motivo da reclamação foi que, para essa pessoa, o racismo se opera "de verdade" em questões como o genocídio do povo preto e a desigualdade. Nesse sentido, reconheço que são temas urgentes e que jamais podem ser negligenciados, fato que prontamente concordei com a pessoa. Por outro lado, não gosto de uma ideia supostamente militante em que a discussão sobre negritude deve se dar apenas nos aspectos negativos, deixando de lado as potencialidades.

Pensando nas palavras do Jailson de Souza, doutor em educação e com origem no complexo da Maré, que dizem que está na hora de parar de apontar a favela só pelas carências (sem querer mascarar a inexistência delas) , deixando de lado o que é produzido lá. Posso ampliar essa noção para negritude. Somos bem mais que aquilo que as estatísticas de violência e desigualdade dizem, ainda que elas sejam extremamente importantes e apontem sim, questões urgentíssimas para a nossa sobrevivência. O incômodo mesmo é esse maniqueísmo e enquadramento.

Então, creio que há vários caminhos a serem tomados. Um deles é o fortalecimento daquilo que nós pretos produzimos. E, para brancos que querem contribuir com essa causa, usando o espaço de privilégio que essa sociedade há séculos racializadas (sim, não é invenção de americano nem do "politicamente correto") lhes confere, é dar e ouvir as vozes de pessoas pretas, refletir sobre a branquitude ( por favor, leiam esse texto da Gabriela  Moura) e abrir seus espaços de fala não só para a discussão do racismo, mas também para outros temas para não sermos apenas o token lembrado no dia 20 de novembro.

Sobre a nossa participação em contextos hegemonicamente brancos, a  Tia Má coloca mais ou menos isso na sua fala a respeito de sua participação no programa da Fátima Bernardes em plena Rede Globo, ainda que isso dê espaço para uma discussão para além desse texto.

Enfim, que a nossa consciência nos aponte não só a realidade a nossa volta e nos dê forças para as tantas lutas, mas que permita também o nosso brilho. Mais uma vez fica aqui meu muito obrigado pelo convite por aquela participação.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Vez de Morrer

Já fazia mais de um ano que eu tinha comprado esse livro, mas ainda estava sofrendo com as minhas procastinações básicas. E levei quase um mês para finalmente escrever esse texto, que é uma análise pessoal e, sendo assim, tá longe de ser aquelas resenhas críticas formais com as impressões que tive do texto de Simone Campos.

Basicamente temos Izabel como protagonista, que após a morte do avô sai do Canadá e volta para o Rio de Janeiro, indo se estabelecer na localidade de Araras no município de Petrópolis, região serrana fluminense, na casa onde morava o seu avô. E é basicamente nesse cenário que se dará a maior parte da ação, sejam os envolvimentos sexuais/afetivos de Izabel, sua busca por trabalho e os confrontos.

Primeiramente me chama a atenção em como Simone coloca Araras. Fazendo uma ótima ironia com a classe média carioca, ela dá um histórico das transformações do lugar nos últimos tempos. Mas é bom esquecer o clichê do "local pequeno isolado e com pessoas pequenas interioranas", uma vez que múltiplas realidades se inserem naquele lugar. É o ponto que me chama para as diversas alteridades que há ali. E se estamos em uma época em que as formas de comunicação andam mais velozes bem como o encontro dessas alteridades, isso não é deixado de lado e para isso, não foi necessário colocar personagens "online" 24 horas por dia. Tentarei refletir melhor sobre essas alteridades.

Em uma época em que vejo discussões sobre "recorte de classe x identidades", uma dicotomia que considero artificial e que não dá conta da multiplicidade e da forma como uma questão atravessa a outra eu vejo essas diversidades. Por um lado há Izabel, mulher, independente, que vivencia sua bissexualidade sem grandes conflitos internos por conta disso, branca, de classe média. O fato dela ser mulher bissexual e as dificuldades que surgem por conta disso não são desprezadas, muito pelo contrário. Mas o seu encontro com Eduardo, aquele com "cara de índio", de outra classe social é atravessado por essa diferença. Percebo isso no momento em que ela chega na loja dele e espera ser servida- em um país como o nosso as classes média e alta esperam sempre ser servidas- bem como a forma que ela pensa sobre os nomes das pessoas naquele contexto:

"naquelas partes, havia muitos nomes como Geísa e Joelmo e Klay, mas o homem se chamava Eduardo. Izabel sentiu uma compulsão de ir atrás da mãe do rapaz e congratular o bom gosto"

O que me faz pensar na teoria das representações sociais, em que uma das ideias é "tornar o estranho familiar". Se Eduardo é o "outro", seu nome e as suas características intelectuais e o fato dele não comungar da mesma religião de seus familiares, faz com aquele rapaz, a princípio de outra classe, se aproxime das referências de Izabel. Há algo de narcísico na nossa atração.

Pessoalmente, ainda pensando nessa questão de classe, há algo que me chamou a atenção Tem um momento em que a procura de Izabel por um apartamento na zona sul carioca e ela procura estabelecer boas relações com o porteiro.
"Saiba conquistar um porteiro e um corretor ficará sem comissão. - Boa tarde!- Boa tarde, - Meu nome é Izabel"
Ali naquele momento tem-se o olhar da Izabel e eu, na minha leitura automaticamente fiz o olhar reverso, uma vez que meu pai foi porteiro por 50 anos, também na zona sul carioca e lembrei das inúmeras vezes em que aparecia gente pra vender os apartamentos e pedia a ele pra indicar um comprador na base do "depois te dou uma comissão" e depois sumia. Situação que só mudou após o casamento com minha mãe, que não deixava meu pai vacilar desse jeito.

Aliás, falando de religião, ao ver as personagens evangélicas, é bom esquecer o esteriótipo - especialmente no caso das mulheres- da beata de saião gritando aleluia o tempo todo. Com conhecimento de causa, Simone mostra as personagens evangélicas sem esses clichês, sem deixar de lado as noções morais que norteiam esse grupo que, ao mesmo tempo se insere no contexto capitalista da teologia da prosperidade. Isso pra mim é bem evidente nos planos da irmã de Eduardo.

Na questão da alteridade, me chama a atenção uma passagem em que na busca de uma terapia quando era mais jovem, Izabel se vê diante da negligência da terapeuta.  Justamente o material principal de qualquer abordagem (a escuta) é deixado de lado e essa ausência reflete, até certo ponto, o modo como a personagem lida com suas emoções.

Em toda a leitura não posso deixar de lado a forma bem feita como são construídas as personagens masculinas de diversas classes. Ao começar por Eduardo, personagem que tomei antipatia desde o começo por achá-lo um completo babaca que faz as coisas só pra manter o seu lugar de "macho" diante das cobranças ao redor dele. Se Izabel é cobradas em ter uma carreira, um emprego estável, seja por sua mãe ou a vizinha Aída, ela ocorre com Eduardo no sentido dele ser um homem solteiro e adulto. A forma como ele se relaciona com Sirlene e com os amigos é bem típica com o marcador atual da irresponsabilidade: homem não tem responsabilidade é assim mesmo. Sem falar nesse marcador da masculinidade da necessidade a aprovação de outros homens, como na transa com Haline:

"Uma loirinha chamada Haline colocou à prova os rumores (de homossexualidade) sentando em seu pau no banco de trás. Ele estava tão bêbado que não pôs camisinha (...) Gozou, abriu os olhos e viu Otoniel e Adão do lado de fora aplaudindo".
Essa passagem me lembra muito algo da indústria pornográfica em que, se o ator não goza, ele não recebe o cachê e precisa chamar outro pra completar a cena.

Outro bom exemplo desse machismo está presente com o ator namorado de sua amiga, cuja maior preocupação é não parecer corno. Mesmo vivendo em um meio diferente do de Eduardo- daí a importância do recorte de gênero além do de classe- ele tem essa preocupação do olhar de outras pessoas que podem tirá-lo desse lugar do masculino. Outro personagem detestável, porém verossímil.

Em meio a tudo isso gosto de perceber a presença marcante de uma cor na obra: o branco.

"A qualquer momento surgiria a construção branca que substituíra a antiga rodoviária"
"...logo Izabel avistou a fila de táxis também brancos que cobravam por destino e não distância"
"Só quando entrou na rodoviária se deu conta da espessura da neblina. Lufadas brancas invadiam o interior do terminal. O frio também. O frio era branco"
"Dois faróis branquíssimos perfuraram a distância e encontraram as retinas de Izabel"
"Agora eles eram brancos e tinham na lateral o brasão cinza-claro da cidade"

Se o branco em princípio se relaciona com a luz e clareza das coisas, aqui ele ganha um ar paradoxal de obscuridade. Os táxis e os ônibus não são como na infância. No Rio, as cores que ajudavam a identificar os carros, agora não existem, está tudo padronizado. Como a própria vida em que se exige uma padronização para o comportamento do homem, da mulher (negando outras identidades para além dessas) a forma dos nomes devem ser, as orientações  sexuais, o tipo de emprego, o trabalho que deve ser feito as várias cobranças e expectativas criadas.

Antes de escrever esse texto reli esse trecho dos taxis "cobram por destino e não por distância". Penso muito nesse mundo em que tudo parece conectado e que em tese facilitaria as nossas relações. Mas o que fazemos de nossas vidas é sempre cobrado. O nosso destino. E no final "A Vez de Morrer" fala dessa tentativa de Izabel e de todos nós de fazermos o nosso destino, sem essas cobranças.


 
 
 
 








quinta-feira, 17 de agosto de 2017

As palavras de Diva

Eu tinha 11 anos. Um colega de escola, que também era meu vizinho, tinha feito um comentário preconceituoso a meu respeito com alguns amigos da turma dele em voz baixa, mas eu ouvi. Fiquei quieto e comentei mais tarde com minha mãe. Disse que o tal colega tinha sido repreendido por alguns outros colegas e ela me disse "quem tem que se posicionar é você, não é para os outros te defenderem ou terem pena de ti". Ela sempre teve essa postura em relação a como se posicionar em situações como essa, especialmente quando envolve racismo. Daí, 28 anos depois daquele acontecimento, eis que Diva Guimarães é aplaudida na Feira Literária de Parati, a FLIP. E o que essas duas situações me trazem?

Prestei a atenção em primeiro lugar na fala de Diva. Eu me emocionei com sua trajetória, entendendo que aquela narrativa não me era incomum, mas tinha semelhanças com muitas mulheres da minha família e tantas outras mulheres pretas com quem convivi e que foram fundamentais no meu entendimento enquanto homem preto. Mulheres como a minha mãe.

Eu fiquei extremamente incomodado com as sucessivas interrupções de aplausos daquela plateia - fato observado tanto pelo Lázaro Ramos como por Diva Guimarães- majoritariamente branca. E esse incômodo tem vários motivos. Tem um quê de expiação católica naqueles aplausos, como se aplaudir aliviasse um pouco a "culpa" pelo fato da branquitude possuir privilégios e essa mesma estrutura calcada no privilégio branco que ao longo da vida tentou derrubar Diva. Mas não é só isso.

A plateia branca, ao invés de ficar quieta, e prestar a atenção em suas palavras a interrompia com aplausos. Como se dissesse "olha nós não somos assim, somos diferentes, uhul, olha como sou legal". Ou como se dona Diva fosse a "exótica" o que é diferente e estivesse como uma atração a ser aplaudida, mais pela sua performance, que por suas palavras, que analisando bem, foram duras.

Uns podem soltar o papo de "ah, Odilon, você está sendo radical. Pessoas brancas não podem estar na luta antirracista? Não é um sinal de reconhecimento os aplausos a ela?". Eu digo que a melhor ajuda na luta passa pela conscientização de si e espalhar isso entre seus pares. Tal como muita amiga feminista diz "Homem, quer ajudar na causa. Além de rever seu comportamento, dá um toque naquele seu amigão que assedia, faz piada escrota, não paga pensão, etc e tal". Isso também se aplica nesse caso. E isso não é excluir, muito pelo contrário, é apontar de que forma as pessoas brancas tem o seu papel nesssa relação de poder que é assimétrica.

Aliás nesse sentido lembro de um incômodo que uma pessoa branca me relatou dizendo que aquele era um momento solene. De escutar aquelas palavras em silêncio. Achei muito pertinente essa reflexão dela.

E por fim, me vem sempre as palavras da minha mãe que iniciaram esse texto e serve de inspiração pra mim e pode servir para outras pessoas pretas se posicionarem, tal como Diva fez de forma brilhante lá na FLIP`. Quem deve falar somos nós, e não esperarmos que os brancos venham nos defender. Nem aplaudir por aplaudir.

domingo, 2 de julho de 2017

Dear White People

Esse é um daqueles textos que levo tempo pra escrever, embora estivesse com a ideia dele já há algum tempo. Pensei em fazer, a princípio, uma resenha crítica sobre a série, mas acredito que essas observações do Murilo do "Muro Pequeno" já abrange muito que eu poderia pensar. Recomendo também, nesse sentido, o canal da Natália e Maristela, que tem muitos vídeos bons discutindo essas e outras questões.

O que me chamou a atenção foi a diversidade das personagens e as formas como cada um tem que lidar com o racismo. Nesse sentido, chamou a atenção de muitos comentaristas e de mim também a personagem Coco. A primeira vista ela parece ser uma negra querendo assimilar o que a branquitude tem, mas as questões são bem mais profundas. E fazendo uma relação com o que aconteceu com minha família, ela me deu bons insights.

A minha avó era uma mulher negra que se preocupava muito com a forma como a gente deveria se portar. Nada de falar alto, fazer bagunça, ter maus modos a mesa, pois ela achava que por sermos pretos, esses "maus modos" poderiam ser mau vistos. Por outro lado, ela tinha uma forma de se impor que era bem interessante.

Uma vez, meu primo foi na igreja em que ela congregava e não quis se sentar em um dos poucos espaços vazios que havia na igreja. Ela perguntou-lhe a razão e ele disse que o senhor que estava sentado perto do lugar vago era racista e não gostava de preto sentado do lado dele. Então ela disse "pois é ali é que você vai se sentar. E nos próximos domingos é do lado dele que você vai se sentar, só pelo desaforo". E assim ele foi fazendo e, acho que por conformismo ou pra não passar de recibo de racista no meio da congregação de forma tão explícita o homem não disse nada e ao que parece, depois daqueles dias, parou com essa palhaçada.

Muito amigos e conhecidos pretos me falam do quanto faltou (e falta) a eles referências familiares no enfrentamento ao racismo, uma vez que muitas vezes é negada a existência dele ou então rola o famoso "você tem que saber o seu lugar". No meu caso, minha família está anos luz de ser aquela super "desconstruída militante viva Dandara!" pois, estando numa sociedade em que o racismo é institucional, isso também vai se passar pelas relações pessoais. Mas assim como Coco, com o pouco que conseguimos meus avós foram, do jeito deles, se instrumentalizando para lidar com o racismo e isso foi passado pra minha mãe, que conseguiu ser uma pessoa mais atenta e com um entendimento melhor sobre questões raciais, que, por sua vez passou pra mim e pra minha irmã.

E mesmo com tudo isso, ainda há muito ainda em mim para ser questionado como forma de não só assumir e entender o meu papel como pessoa preta, mas também de que forma lutar e saber ocupar os espaços. De que maneira, na vida, devo sentar naquele lugar vazio, mas que o racismo- tanto o internalizado como o externo- tenta me impedir de sentar. Nesse sentido, penso que há muitas lições vindas tanto de Dona Conceição, bem como da análise do comportamento de Coco.

Ps: Super recomendo também esse podcast da moçada de "O Lado Negro da Força".


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Presente

"Mas de repente a madrugada mudou 
e certamente 
aquele trem já passou 
e se passou 
passou daqui pra melhor, 
foi!" 
 (Go Back, Torquato Neto)

Aí mais uma vez me deparo com aquele tipo de texto que glorifica o passado e acha que o tempo atual é maravilhoso. E eu, no meu lado Simão Bacamarte, acabo verificando uma forma de narcisismo nisso. Mas antes de prosseguir, cabem algumas lembranças.

Meu gosto musical inclui muita coisa antiga. E na verdade esse foi um processo que foi formado ao longo da minha vida, mas há episódios significativos de como isso foi se consolidando. Um deles vai me fazer voltar a minha adolescência.

Na época eu tinha 12 anos e em plena Copa da Itália a televisão pifou. Foi um drama e, obviamente (moçada dos anos 80-90 vai entender isso bem) a culpa pelo estrago da TV sobrou pro videogame. Um Atari na verdade, numa época em que os consoles da Sega ( Master System e Mega Drive) e da Gradiente (Phantom System, que rodava jogos da Nitendo) estavam chegando ao Brasil. E enfim, no meio disso tudo, a televisão não foi consertada de cara e passamos uns 2 meses ouvindo rádio, incluindo a Copa e a eliminação do Brasil com aquele gol do Caniggia.

Durante esse tempo a rádio que era mais sintonizada era a Antena 1, que era a rádio de flash-backs por excelência. Ali, no comecinho dos anos 90 passei a ouvir um repertório dos anos 60 e 70 basicamente e que remetia a infância e adolescência da minha mãe. Não menciono meu pai porque em 68 ele não seria uma pessoa confiável, já que tinha acabado de fazer 31 anos.

Eu,  na começo da adolescência gostava de zoar aquelas músicas. Achava aquilo tudo muito velho e por implicância ficava zoando o tempo delas. Mas obviamente eu gostava de muita coisa. Lembro-me também que nessa época um primo nosso passou uma época lá em casa e era ele que me fazia escutar as rádios com as músicas que na época eram atuais. E verifiquei que alguns hits eram regravações, como Knockin' on Heaven's Door do Gun's, que era uma regravação do Bob Dylan, que, aliás, faria seu primeiro show no Brasil naquele ano.

Outra questão musical interessante foi quando a professora de música comentava sobre a moda da lambada. Quando se é muito jovem, parece que as coisas vão durar pra sempre. Mas ela avisou pra gente que em música, assim como em outras coisas, existem ondas. Modas que vão, desaparecem e depois retornam. De fato, a lambada não durou muito tempo, mas atualmente temos aí o reggaeton latino em alta, bem como alguns ritimos paraenses (como a lambada) e que apresentam familiaridades sonoras, uma vez que eles se encontram em bases semelhantes, ainda que sejam estilos diferentes.

Depois, já adulto sempre fiquei com aquela cisma: será que minha playlist é muito velha, apegada demais ao passado? Depois com um tempo reparei que não. Que na verdade, embora não suporte a maior parte do que se executa no pop atual e costumo gongar dizendo que tal coisa que Lady Gaga fez tá copiando Madonna no álbum tal, ou que a Nick Minaj tá pegando carona em algo que a Trinere fez muito melhor nos anos 80 reparo que gosto de ouvir coisas atuais, ainda que não necessariamente estejam no mainstream. Aliás não ouvir as músicas mais executadas nas rádios, como eu fazia 27 anos atrás com meu primo, é um sinal da atualidade, onde as coisas andam mais segmentadas por conta do impacto da internet na indústria fonográfica.

E qual a razão de toda essa reflexão musical e o que isso me fez pensar sobre outros aspectos da vida e qual a relação disso com o nosso próprio ego? É porque na medida em que vou envelhecendo vou me incomodando com esse discurso de que "antigamente era melhor", ainda que eu em vários aspectos reproduza isso. E tenho reparado que esse discurso - e que serviu de referência para essa reflexão- vem quando as pessoas sentem que em tempos atuais não podem falar qualquer merda sem ser criticada por algumas pessoas.

O clássico "geração mimimi" que vemos mencionados em redes sociais (ironicamente por uma galera com menos de 20 anos muitas vezes) é um bom exemplo da ideia de que se o mundo atual não aplaude qualquer merda que eu falo, então culpemos o presente e a atualidade e vamos nos fechar na nossa lembrança narcísica do "meu tempo", "minha época" ou "minha juventude" para, de alguma forma, termos o nosso pensamento valorizado. Ou uma ideia de lembrança para aqueles que não viveram aqueles tempos, mas ainda o idealizam, como a galerinha Bolsominion- cujos pais sequer eram adultos no começo dos anos 80- que acha que o tempo da ditadura era uma maravilha.

Aí fiquei o tempo todo com esses versos do Torquato Neto, musicado pelo Sérgio Brito dos Titãs esses dias na cabeça. Pensando o quanto se prender demais ao passado pode servir como uma tranca narcísica que impede de lidar com a atualidade das coisas. Obviamente, não vale colocar o passado para debaixo do tapete, pois como disse a professora, existem as ondas que vem e voltam (to reparando que foi uma professora de música que me fez pensar numa ideia anti-positivista de história em que tudo obrigatoriamente é linear e tende a progredir). É no tempo presente que se pode fazer uma boa conciliação entre o que se aprendeu- como aqueles dois meses sem televisão- e as coisas novas que podem chegar, como aquelas que meu primo me passou e que hoje faço descobrindo via web novas músicas.

E pra finalizar fico com duas frases de dois grandes músicos. O Paulinho da Viola, que diz, "meu tempo é hoje" e o clássico das rodinhas de violão, Belchior em "Como Nossos Pais" que afirma "mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem".

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A defesa do óbvio

Então essa semana teve a repercussão em torno da prisão dos dois homens que tatuaram um menor de idade, acusado de roubo de uma bicicleta, no ABC paulista. Eles divulgaram o vídeo que correu pelo whatsapp. E ao que consta, o dono da bicicleta não prestou queixa e estava preocupado com o rapaz e ficou consternado diante da tortura. E há relatos de que o rapaz sofre de problemas mentais, incluindo dependência química e está em tratamento pelo CAPS.

Então vem aquela avalanche de comentários achando um absurdo os grupos que se organizaram para pagar a cirurgia para o apagamento da tatuagem e contra a prisão dos torturadores. Entre os argumentos mais usuais tem-se a questão da pessoa que se esforça por meses e anos para comprar um bem e tem ele roubado. Há o clássico "os Direitos Humanos só defendem bandidos" além do "só defende vagabundo até a hora de um entrar em uma casa". Ou ainda que o tratamento do "marginal" como pessoa indefesa é coisa de discurso politicamente correta e que alguns disseram que leram a matéria ou viram o vídeo e que pelo que observaram que não há nenhum problema mental verificado.

Tristes esses tempos em que temos que dizer o óbvio: tortura é crime, em qualquer hipótese. E o direito a vida não é superior ao de propriedade.

Quem acha que Direitos Humanos só defende bandido realmente não sabe sequer o que o termo significa e que por definição ele é válido para todas as pessoas. E ele não é uma pessoa ou um grupo de pessoas, mas um conceito jurídico que se insere também nos campos social, político e psicológico.

A existência de um julgamento feito pelos órgãos competentes não é um "discurso politicamente correto", mas prerrogativa de qualquer Estado democrático de direito. Diante de um roubo cabe aos órgãos do Poder Judiciário cumprirem seu papel dentro do que foi estabelecido em lei.

O mais interessante é que quando esses argumentos são mostrados aparecem uma série de malabarismos retóricos. Uns que eu não sei de onde a pessoa tira e fazem inferências baseadas na sua própria observação, já dando diagnóstico psicológico da pessoa e tudo o mais.

Daí me lembro do conto da Cartomante do Machado de Assim, onde a personagem principal sai aliviado da casa da personagem título pois ela disse a ele exatamente palavras de conforto que ele gostaria de ouvir. E nós, no nosso narcisismo e para poder conferir as nossas ideias que não passaram por uma verificação racional e lógica, vamos acrescentando absurdos para poder sustentar, ainda que canhestramente, aquilo que dizemos e nos fechamos naquelas ideias. E o pior que nesse caso não é uma simples questão de opinião, mas sobre defesa de direitos básicos de existência de alguém.

Por essas razão tenho que repetir: tristes os tempos em que temos que defender o óbvio e ter que repetir que tortura é crime. E não há malabarismos para isso.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Decifra-me ou devoro-te

Um namorado, ao discutir sua relação, diz ao outro " cuida de mim!" O outro pergunta: "como?" E a resposta é "cuida de mim, do jeito que você sabe fazer!" Essa frase, carregada de enigma e subentendidos, junto com uma demanda de exigência de cuidado do outro traz a pergunta: a quem cabe o cuidado nas relações?

Em uma relação sadia as pessoas devem ter o poder de cuidar de si mesmas, sem a necessidade de exigência da outra pessoa. Assim, o cuidado do outro aparece de forma mais natural. E como pensar nessas questões, levando em consideração que esse texto se trata de relações não abusivas.

Cada um de nós temos nossas identidades, construídas ao longo de nossa própria história pessoal. Dessa forma vamos formando nossos defeitos, qualidades e uma série de emoções. Algumas delas, nós mesmos temos dificuldade em reconhecê-las. Assim, não há como outra pessoa adivinhar o que se passa com a gente se somos incapazes de expormos as coisas de forma clara. Nesse sentido, ter a possibilidade de uma conversa franca é muito importante, entendo que essa é uma forma de cuidado.

Muitas vezes agimos como o enigma da Esfinge de Tebas: decifra-me ou devoro-te. Nos sentimos pessoas muito especiais, tais como um artista famoso, e achamos que o outro sabe tudo a nosso respeito. Daí, manter o enigma e não deixar as coisas clara é uma maneira de manter esse pedestal que criamos para nós mesmos por nos sentirmos tão especiais e maravilhosos. Alimenta-se um narcisismo exigindo cuidado do outro, sem deixar as coisas explícitas, já que falar o que sentimos e nos incomoda seria uma forma de "rebaixamento" dessa imagem criada.

Dessa forma, comunicar o que sentimos, ou até mesmo a dificuldade que sentimos em reconhecer nossas emoções e colocá-las pra fora, é muito importante. Assim, pode ser criar uma relação baseada no cuidado sem exigências absurdas e enigmáticas que desgastam a relação. Isso possibilita nosso posicionamento como sujeitos naquela relação, ao mesmo tempo em que o que é posto está sujeitado ao que o outro sente e pensa. Abre-se o caminho para a comunicação e negociação em uma relação baseada em cuidado que foi construído e não exigido, como na situação dos namorados que ilustra esse texto.

O que Shigemi Suzuki tem a oferecer?


"Amar é dar o que não se tem a quem não quer. Dar o que se tem é festa, não é o amor" (Lacan)

Eu ainda preciso depois dar uma olhada na frase que abre esse texto, que se não me engano é do seminário VIII de Jaques Lacan. Ela foi escolhida porque estou há algum tempo escrever sobre o que achei interessante na série da Netflix chamada Midnight Diner: Tokyo Stories ( Shin'ya shokudou: Tokyo Stories) , no caso o episódio 6, chamado Tontenki.



A série é baseada no mangá de Yaro Abe lançado em 2006 e que já teve adaptações para série de TV japonesa e também em formato de filme. Daí a Netflix resolveu fazer sua versão, ao que parece, com o mesmo elenco. Há 1 temporada, lançada em outubro de 2016, com 10 episódios cada, bem curtinhos, com duração média de 25 minutos. E cada episódio funciona como uma crônica tendo como nome um prato da culinária japonesa servido no restaurante do Mestre, protagonista da série.

O episódio 3 possui a mesma base, o Mestre ( Kaoru Kobayashi) abre seu restaurante às 7 da noite e ele funciona até a manhã do dia seguinte. Desta vez ele é focado na vida da corretora de imóveis Shigemi Suzuki ( Hamiko Itô). Ela sempre se apaixona por um homem e decide fazer roupas de tricô para dar a eles.Só que suas tentativas sempre fracassam e ela desfaz todo o tricô que havia feito, desiludida em sua paixões platônicas.

Num dado momento ela conhece jovens colegas de trabalho, entre eles Kurihara (Ron Mizuma) e Shirano (Yûma Yamoto). Ela se apaixona por Kurihara e decide fazer uma blusa de tricô pra ele. E diferente das outras vezes, ela consegue entregar o presente a ele e a partir daí ela faz inferências de que seu amor é correspondido, ainda que uma moça no restaurante a tenha alertado por ela não ter sido clara em suas intenções. E ainda há Shirano, que a ama sem revelar o seu desejo.

Daí, diante desses presentes me veio essa frase do Lacan e também, além das nossas transferências, as nossas idealizações. Há uma frase do Kurihara, ao ter que jogar o presente fora que é bem significativa "uma malha feita a mão carrega tanta emoção, que eu não consigo jogar fora".

O quanto nós investimos seja em relações correspondidas ou não tanto quanto o tricô de Shigemi? E quantas vezes por conta dessas idealizações não vemos oportunidades ou amores, olhares para nós que sequer damos conta, por conta de certas expectativas que criamos. O que achei bonito nesse episódio, tratado com muita leveza, delicadeza e sem partir pra grandes discussões filosóficas é exatamente  sobre o quanto de mal entendido há no amor e tanto investimento simplesmente por coisas não ditas. E no fim há uma trama inteira a ser desfeita, para depois ser recomeçada.

O amor está além do tricô, que está mais pra festa, como diz a frase lacaniana. Ele está cheio de mal entendidos, de tentativas de remendos como os que Shirano tenta fazer na blusa descartada. E talvez ele deve ser assim, cheio de marcas e imperfeições, bem diferente daquele ideal bonito e contemplativo tal como Shigemi fazia em relação a Kurihara.

Enfim, queria fazer uma conclusão mais bonitinha, mas o que posso afirmar é que esse episódio, bem como os demais da série, merecem muito ser vistos. Belos, delicados, por vezes com uma dose de melancolia, mas que valem muito a pena.