sábado, 22 de abril de 2017

Caligrafia

A página do Bullet Journal divulgou esse texto sobre dicas de como melhorar a sua caligrafia. Eu que ando acompanhando muito essas coisas de organização e tudo o mais - até porque eu sou uma pessoa bem desorganizada- achei as dicas be legais. E isso apareceu justamente num momento em que estou dando aula pra uma adolescente preocupada com sua letra para a redação que fará no ENEM no fim deste ano.

Foi aí que me lembrei da minha relação com a escrita. Quando eu comecei a escrever, na infância, tinha o hábito de rabiscar nas paredes. Escrevia muita coisa com letra de forma. A letra cursiva fui aprender no colégio e durante um tempo era considerada feia. A professora do CA (atual primeiro ano) dizia que eu não tinha coordenação motora e que deveria fazer vários exercícios e tal.

Interessante como uma coisa aparentemente simples resvala em outros aspectos. Sempre gostei de ver esportes , mas sempre fui uma negação tanto no futebol, como no vôlei (dois dos meus favoritos) por conta dessa questão da coordenação motora. Sempre me achei ruim em habilidades manuais ou mesmo para fazer desenhos. De alguma forma as minhas criações deveriam aparecer. Voltemos à caligrafia.

Eu tinha um amigo de infância que tinha uma das letras mais bonitas da turma. Ele era meu vizinho também e eu admirava muito a letra dele. E a letra transparecia o jeitão vaidoso dele, sem falar que era um dos rapazes mais bonitos da turma, até porque ele já era adolescente a nós éramos crianças e ele já frequentava festas e lugares que eu ainda não ia, pela idade.

Depois que mudei de colégio e nos separamos foi mais ou menos na mesma época que minha mãe comprou um daqueles livros de caligrafia e daí comecei a ajeitar minha letra. Eu digo que minha letra arrendondada tem muita cara de professora primária e eu ainda hoje tenho ela como ferramenta, uma vez que dou aulas e preciso dela bem legível.

E ao longo dos anos sempre curti ter agendas, cadernos e tudo o mais. Daí entendi que a forma que eu poderia mostrar alguma capacidade minha não seria pelo esporte ou por aqueles maravilhosos desenhos, mas pela criação de textos. E eu sempre gosto, muitas vezes, de fazer o rascunho, escrito, para depois digitar. Isso serve também quando leio algum texto ou tenho que produzir alguma resenha sobre.

Voltando a minha aluna, compartilhei um pouco disso com ela, E foi legal ver que a sua última redação já estava bem legível, fácil de ser entendida e melhor do que os textos anteriores. Ela comentou comigo que gosta de escrever coisas, especialmente frases e citações que ela gosta. Achei isso um bom exercício.

E gosto muito quando vejo a letra de alguém, especialmente dos amigos que fiz pela internet e que, por razões óbvias, nos comunicamos pelos caracteres de computador/celular. Acho bem interessante ver a caligrafia por achar que tem algo da pessoa ali - ainda que eu reconheça que a grafologia não é científica- assim como o rapaz vaidoso lá da minha infância ou da menina insegura com a ruma de provas que tem pela frente.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Psicologia e relações raciais

Essa semana, o Waltinho compartilhou esse texto comigo sobre Virgínia Bicudo (1915-2003). Socióloga de formação e uma das primeiras psicanalistas, ela é referência nas questões de relações raciais no Brasil. Daí, na nossa conversa, a ausência do nome dela na minha formação me fez pensar no quanto as questões raciais foram negligenciadas na minha graduação em psicologia. E daí no quanto é importante refletir sobre essas questões em termos de saúde mental, o que engloba também psicologia e psicanálise.

Na minha adolescência eu cogitei em seguir o curso de Ciências Sociais, mas daí pensei: vou ser o negão clichê que, por ser preto, vai obrigatoriamente pensar sobre o racismo. Por várias outras razões acabei me interessando por psicologia. Só que com o tempo eu pude desmontar essa ideia de clichê e perceber o quanto essas questões precisam ser pensadas. E não apenas no campo das Ciências Sociais.

No meu curso eu enveredei pelo campo da Psicologia Social e, obviamente, pensar sobre várias questões e contribuições de outros campos do conhecimento. Acabei direcionando meu trabalho para pesquisa em temas como gênero (masculinidades), prevenção de violência, sexualidade e adolescência. E isso no campo prático também, no trabalho e não apenas na parte acadêmica. No entanto, nesses campos, a questão racial sempre foi colocada de forma muito superficial, isso quando aparecia.

Tive alguns contatos e experiências que foram positivas durante esse tempo. Tive uma colega de trabalho, assistente social de formação, também negra, que sempre apontava pra mim a necessidade de pensar sobre tais questões. E nos congressos que participei me lembro de apenas um trabalho sobre, e de forma muito voltada pra clínica, sobre a questão do racismo e as implicações da psicologia.

Entre as várias leituras possíveis que faço da psicologia duas delas me ajudam a refletir sobre questões raciais. A primeira é que ela pode tratar do desenvolvimento das potencialidades individuais de cada pessoa e a segunda é que ela lida com o sofrimento psíquico. Neste sentido a questão negra está muito focada nos seus aspectos sociais, mas pouco é pensado em como o racismo age individualmente, no desenvolvimento das pessoas. Por outro lado, uma visão do negro como forte, "aquele que aguenta tudo" traz uma ideia que, discutir saúde mental, é coisa pra gente branca, rica e "fresca", anulando essa possibilidade para as outras pessoas.

Ao longo desse tempo tenho aprendido um pouco mais sobre esse tema. Entre eles penso muito no trabalho do Valter DaMata neste campo e que merece ser lido. Sendo que eu sinto a necessidade de ir mais além, tanto no campo teórico como da atuação profissional.

Há muito tempo tenho refletido sobre a minha formação como psicólogo. Eticamente, ela deve servir para contribuir de alguma forma para a sociedade. Em um país em que o racismo é estrutural e institucionalizado, eis aí um campo para que eu não apenas atue ou pesquise, mas que fundamentalmente sirva para aprendizado e desenvolvimento, tanto em relação às minha questões como a das demais pessoas pretas.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sobre o sonho da "Viagem"

Momento de pensar sobre mais um sonho que eu tive. E este foi uma forma de mostrar aspectos tanto sexuais, especialmente os masculinos, lotado de símbolos fálicos.

Primeiro tem a questão da viagem. Estou em um carro e tal e fazendo massagem em um homem que está no banco da frente e é inevitável que eu não me lembre de uma cena em uma das festas da época de faculdade. Eu me lembro, já na vida real,  de que estava com 3 colegas e a menina que estava do meu lado fazia massagem no motorista, que dali a pouco viria a ser seu namorado. Eu pra poder imitar e me sentir junto ao grupo faço o mesmo na colega que está no banco do carona. Só que eu não me lembro quem era a colega. O fato é que o sonho substituiu a moça por um rapaz, cuja imagem é de um ator que sempre faz papéis menores em novelas. É o caso de pensar tanto na quebra de tabus, de reverter o papel masculino de força pro carinho e a presença de um homem que mal tem presença em novelas, a forma de dramaturgia favorita minha. Talvez seja a necessidade da presença de um homem que não se destaque tanto, que não tenha essa necessidade, dentro de uma representação lida como mais "feminina". E ainda, a palavra "viagem" (que aparece duas vezes neste sonho) remete ao apelido de um grande amigo de faculdade, que entre os homens que conheci, justamente era um cara menos heteronormativo.

Daí surgem postes. Um novo no meu terreno cujo sentido não entendo e os cabos e as bolas (isso mesmo, Dr Freud). E a ideia de dar e receber energia. Isso tem muito, mais muito a ver com o papel sexual, não só de ativo e de passivo, mas bem como a questão do saber receber aquilo que vem do outro, que é uma questão grande pra mim. Sem falar que há um fiscal, talvez ali uma representação do supereu, uma cobrança. Um símbolo fálico (a torre) que parece ser algo que já conheço e que tecnicamente deveria estar do lado de fora pois há nela muita energia e no entanto quando eu me ergo (auto afirmação?) ela é algo pequeno e não substitui o que eu já tenho (o poste velho) e que no entanto precisa ser mudado. Resumidamente é como se dissesse que a minha auto-afirmação precisa de coisas que precisam ser mudadas, mas que isso depende de mim, sem nenhum ônus, não serei cobrado por isso (a ausência de multa). E no frigir dos ovos o fiscal não fiscaliza nada, é só um ator, alguém que busca o reconhecimento.

E esse reconhecimento vem das mulheres. Interessante observá-las no sonho, pois parte da ausência da figura paterna e presença da materna. E na noite antes de dormir conversava com amigos as melhores coisas da vida (comer, transar e dormir, nessa ordem) e eis que surgem ali, ao meu lado uma série de coisas gostosa em necessidade de esforço pra obtê-las. No plano real tenho preguiça de ir à padaria e tenho um vizinho que de vez em quando passa vendendo pão. Os bolos e os doces são exatamente um símbolo desse prazer, feito por mãos femininas. O "feminino" que há em mim, familiar, tão próximo e que eu por vezes desconheço (faz tempo que elas não me veem, o fato de desconhecer que elas estão ali perto de mim vendendo aqueles bolos).

Por fim aparece mais uma vez a "viagem", que foi o eufemismo pra morte do meu pai. A viagem significa isso, uma mudança de lugar, uma quebra de algo que está sempre presente em mim (o velho poste) por um novo, que dependerá de mim para trocá-lo. A morte do pai, ou seja, não é mais ele em campo, mas eu. Tanto é que há isso na parte final do sonho: meu pai querendo verificar se tudo já foi arrumado quando eu e minha mãe já fizemos isso e então vem a desculpa de querer verificar o sono. Mas eu preciso entregar-lhe o celular com a luz pra poder ver. Eu sou então a minha própria luz.

domingo, 26 de março de 2017

Relacionamentos ruidosos

A partir de uma conversa que tive ontem, fiquei pensando nos ruídos na comunicação que existiram e existem nos meus relacionamentos afetivo-sexuais. E obviamente, sei que eles nos acompanham desde sempre, desde a brincadeira do telefone sem fio às discussões pessoais (reais e virtuais). Alguns acham que a forma de evitar tais ruídos nas relações é falar menos, pois complicamos demais as coisas. Mas sendo o complicado inevitável é importante sim que coisas sejam ditas e pensar em como elas são ditas, seja pra quem está transmitindo ou recebendo a mensagem.

Existe uma piada, um esteriótipo que me incomoda demais, afirmando que a famosa DR (discussão de relacionamento) é "coisa de mulher". Os homens, em tese, mais racionais e objetivos, não teriam tempo a perder com coisas menores, com complicações sem sentido. Acontece que tais complicações são nossas emoções, que existem independentemente do gênero/identidade sexual da pessoa, e menosprezar tais emoções nada mais é que uma manifestação machista que, ao considerá-las como atributos femininos, as desprezam. É a base do famoso "homem não chora".

Outro ponto a se pensar é o que Lacan chama de "imaginário". Neste vídeo, pra quem tiver interesse, há uma explicação boa sobre esse imaginário e as outras duas instâncias pensadas pelo psicanalista francês.  Em suma, a partir desse conceito julgamos que aquilo que dizemos é imediatamente percebido pelo outro, quando na realidade não é isso que ocorre, pois as nossas palavras vão passar pelo mecanismo de interpretação de alguém que é diferente de mim, e pelo imaginário, julgamos que esse outro é igualzinho a nós mesmos (espelho)e que assim vai ter total compreensão. E não tendo isso, surgem os ruídos.

Pensei nesses dois pontos, o machismo e a relação imaginária, em exemplos da minha vida. Ouvi de algumas pessoas com quem já tive e tenho relacionamentos que a minha mania em querer falar sobre as coisas, discutir, analisar e interpretar é uma perda de tempo e que as coisas poderiam ser bem mais simples se eu não complicasse tanto. Paradoxalmente lido com uma cobrança justa de que me fecho demais e não coloco pra fora o que realmente sinto e assim não tem como o outro ficar sabendo o que se passa comigo. E também há o caso de me falarem que há sim a demonstração de sentimentos, de carinho, afeto e atenção, não por palavras, mas por outros gestos que por vezes não dou atenção, pois me preocupo com as palavras. E aí em parte dou razão pois existem sim essa dificuldade de interpretação (imaginário) e ao mesmo tempo de colocar meus sentimentos pra fora, por conta desse aprendizado machista em lidar com as emoções.

Já ouvi alguns amigos homens cis heterossexuais chegarem pra mim e dizer que no relacionamento entre dois homens as coisas seriam mais fáceis, inclusive no sexo. Que a pergunta clássica "você é ativo ou passivo?" já é uma forma de comunicar aquilo que se sente e gosta e seria assim uim facilitador. Concordo em parte com isso, mas sei que no relacionamento entre dois homens as coisas vão além disso e há respostas a essa pergunta clássica que não são lá muito bem aceitas. De qualquer forma eu devolvo: por que vocês não conversam com suas parceiras e, fundamentalmente, não as escutam? Aí diante disso segue-se aquela cara de "Sinhá Mariquinha, cadê o frade?"

Relacionar-se com homens é esbarrar nessa atitude machista da não necessidade de não se discutir sobre o que se gosta ou incomoda de forma mais profunda, pois isso seria uma forma de complicação. É lidar também com o imaginário de esperar uma resposta "x", quando o outro diz "y", jurando que x=y. É lidar com o bloqueio das próprias emoções também, e de saber escutar as emoções e desejos do outro.

De qualquer forma os relacionamentos vão esbarrar nesses ruídos. Não há uma comunicação fluida, 100% compreendida. No entanto, quebrar com certas amarras há tanto tempo estabelecidas, permitindo uma valorização da emoção, falar francamente sobre os desejos (inclusive os sexuais), de forma que não sejam menosprezadas é fundamental pra que se tenha uma relação franca, segura e gostosa para todos os envolvidos. Não é tarefa fácil, pois não é receita de torta de 2 minutos num vídeo do Tastemade, mas vou tentando.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O lugar de fala como lugar de escuta

"Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto..." (Fala, Luli e João Ricardo)
Creio que posso estar me repetindo aqui, mas estou há tempos para colocar algumas reflexões sobre a questão do lugar de fala. Um dos motivadores foram alguns textos do Tullio, que também abordam a questão sistêmica, da qual quero comentar aqui também.

Resolvi por um tempo, em redes sociais, ler mais e ouvir mais as pessoas do que necessariamente sair emitindo opiniões. E um desses aprendizados foi sobre o chamado "lugar de fala" e as "vivências" no que diz respeito à minorias. Grosso modo, por esse princípio só um negro pode apontar e falar sobre racismo, mulheres sobre feminismo, bissexuais sobre bifobia e por aí vai. E nesse aspecto li tantas ideias que apoiam essa noções como as de críticas, as mais diversas. Aqui vou destacar duas vertentes que me chamaram a atenção neste período.

Uma de caráter mais racionalista, aponta que o importante não é a pessoa que fala - isso seria uma forma de falácia "ad hominem - e sim aquilo que é dito. E a partir do que é dito, parte-se para a verificação se aquilo é verdadeiro, factual, se pode ser corroborado. Logo, o lugar de fala estaria dando uma ênfase mais subjetiva para a pessoa que fala do que para a observação dos fatos.

Outra, que observei em alguns discursos da esquerda, aponta o lugar de fala como algo "pós-moderno". Seria uma deturpação da luta das pessoas que são oprimidas, pois ao valorizar essa subjetividade, a importância é dada em aspectos individuais da dita vivência, um vício burguês em detrimento de uma visão social, coletiva. E que a defesa das várias identidades esconderia a luta que realmente interessa, que é a luta de classes. Os aspectos históricos e sociais nesse sentido estariam desprezados em nome da afirmação do eu.

Penso que nas questões que me dizem respeito eu me fortaleço sim com argumentos mais factuais e jamais vou desprezar as condições sociais e econômicas diante de uma certa luta. Um gay da Vieira Souto não possui, de fato, as mesmas condições e realidade de um do Pavão-Pavãozinho, no mesmo bairro. No entanto para além desses aspectos mencionados, são fundamentais ter uma visão sistêmica das coisas e também o lugar da escuta.

Um exemplo entre essas críticas foi exemplificado comparando Gregório Duvivier e Fernando Holiday. O primeiro foi criticado por escrever uma coluna na Folha de São Paulo um texto antirracista e sendo ele branco não poderia fazê-lo por não ter o tal "lugar de fala". O segundo por sua vez, ainda que tenha o local de fala de duas minórias (é negro e homossexual) tem um discurso LGBTfóbico e contra as lutas do movimento negro, o que exemplifica a visão racionalista de que o mais importante é o que é dito do que quem fala. Ou seja, antes um Gregório branco como aliado que um Holiday negro bostejando o de sempre, agora com poder legal de sua vereância,.

Nesse sentido cabe uma visão mais sistêmica das coisas. Legal ter aliados e não tenho nada contra o Gregório se posicionar contra o racismo. Acho muito importante esse tipo de posicionamento. Mas cabe a pergunta; quantos colunistas negros debatendo racismo existem naquele e nos demais grandes veículos de comunicação? E no caso do Holiday, quantos negros há na Câmara de Vereadores paulistama? E quantos negros fazem parte do chamado Movimento Brasil Livre e o mais importante, quantos negros financiam esse movimento.

Não se trata aqui de livrar a cara do Holiday ou demonizar o Gregório. Penso que uma visão maior das estruturas pelas quais os discursos de combate as diversas formas de opressão circulam e, tão importante quanto, o quanto e como essas mesmas estruturas muitas vezes silenciam as falas. Daí também a necessidade do lugar de escuta.

Ainda sobre o lugar de fala e vivências e no quanto o subjetivo também é importante, eu me lembro que aos 11 anos, um colega de turma que também era meu vizinho, estava numa espécie de fofoca-bulying com a turminhha da sala dele comigo, me zoando pelo fato de eu ser filho do porteiro do prédio onde morávamos. Ao comentar com minha mãe - e disso nunca me esqueci- ela me disse "não espere que o grupinho te defenda. É você mesmo que tem que saber se posicionar. E não deixe um branco falar por você sobre o racismo que você sofre".

Outra lembrança minha vem da época do meu vestibular, a minha amiga Ana me disse "Odilon, como você quer ser psicólogo se você fala muito mais de você e ouve pouco?". Fiquei pensando nisso e a experiência ao longo dos anos, especialmente ouvindo as vozes de adolescentes negros em sua grande maioria e moradores de favelas cariocas me ensinou o quanto era importante ouví-los e ao mesmo tempo trocar as experiências.

Ainda questiono comigo mesmo se sou um bom ouvinte, mas tenho feito vários exercícios nesse sentido. E também observado mais as coisas com mais sensibilidade e entendendo certos privilégios que tenho enquanto homem cissexual. Há um mês, por exemplo, eu e meu namorado recebemos uma amiga muito querida na casa dele e junto havia um amigo hetero dele também. Ela é uma pessoa inteligentíssima e estava muito interessado no que ela tinha pra dizer, mas notava o quanto ela era interrompida pelo meu namorado e mais ainda pelo amigo. Então no momento em que em tese eu daria continuidade à conversa eu me calava pra poder ouvir a nossa amiga. Obviamente não entendo o meu gesto de "oh o homem bonzinho que deixa a moça falar, quer biscoito?", mas o mais importante pra mim foi me permitir mais ao que ela tinha pra dizer e pensar na minha ansiedade e nos meus privilégios nessas aparentes coisas cotidianas. E a partir da fala dela eu respondia dando continuidade ao diálogo E foi maravilhoso poder ouví-la mais.

A partir dessas e de outras experiências penso que uma boa observação dos fatos e fazer os diversos recortes, inclusive de classe, no que diz respeito a fala de pessoas de grupos marginalizados é fundamental. Assim como abrir mais espaço para que essas várias vozes falem, se manifestem e principalmente, se escutem. Entendo que o motor das mudanças sociais de certos grupos parte de dentro deles mesmo para aí sim ganhar espaço para além do próprio grupo. E há inúmeras lutas. Mas isso só é possível com o fortalecimento sim das pessoas dos ditos lugares de fala, para que tenham cada vez mais espaço para o que elas tem a dizer e, fundamentalmente, que haja espaço de escuta para que se tenha efetivamente um diálogo que ajude a promover mudanças de fato.

E isso não pode se restringir apenas no próprio grupo, até porque dentro de um grupo que divide uma mesma categoria identitárias há inúmeras diferenças. Há de se questionar as estruturas de poder que dão sustentação a isso, a observação das relações que existem nos sistemas e mecanismos de opressão e partir para um enfrentamento que não despreze o que é factual também. Sem amarrar esses diversos pontos e sem um lugar para a escuta, o chamado lugar de fala vai se restringir sim a uma mera vivência de webativismo em rede social mais preocupada em "lacrar" que realmente propor algo que venha garantir direitos.




                                     

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da performance às descobertas

Quando comecei a pesquisar sobre masculinidades, a minha antiga supervisora me passou uma série de textos sobre o tema. Entre eles havia um que me chamou a atenção que era um que ligava a expressão sexual masculina como uma "performance". Não no sentido de Judith Butler, mas de uma forma mais geral.

O que eu pude constatar na minha própria vida, na de amigos meus e no trabalho era exatamente o quanto era importante não só apenas obter sexo, mas ser o cara que não brocha e conquistador para caracterizar bem essa performance. E ultimamente vendo páginas no Facebook, tanto gays quanto com presença de heteros isso fica bem visível, incluindo entre aqueles que se colocam como desconstruídos.

Essa relação da performance com as diversas masculinidades passaram a me chamar a atenção. Os homens hetero preocupado mais com suas conquistas. Alguns com o próprio prazer. Outros, que dizem que o homem de verdade tem que fazer um bom sexo oral na mulher, na verdade mais preocupado com o seu desempenho em si que realmente com o prazer da parceira.

Em algumas páginas gays vejo a mesma coisa. Há na auto afirmação sexual mais uma preocupação de se mostrar narcisicamente como fazem o sexo, ou que possuem atividade sexual. E não tiro o meu corpo fora, pois muitas vezes eu mesmo me pego pensando ou agindo dessa forma.

Daí faço uma ponte com a questão da alteridade e dos saberes, tal como mencionei na postagem anterior a essa. Na questão da alteridade há uma relação em que o sexo a ser dito, sabido pelos outros, como forma de marcar um "eu sou assim". Como selfies no instagram. Aliás sobre essa relação narcísica, o professor e psicanalista Christian Dunker, coloca bem neste vídeo: essa afirmação do eu não é uma maneira de se sentir grande e absoluto, mas uma tentativa de colocar num pequeno espaço a precariedade do próprio eu. De repente com essas formas de expressão sexual pode ser algo assim.

No que diz respeito ao saber, pensei em "Amar Verbo Intransitivo" do Mário de Andrade, no qual o pai de um jovem paga uma mulher, disfarçada de ama-seca, para tirar a virgindade do filho. Esse saber desse pai e da mulher era uma forma de, lá no começo do século XX, colocar o menino dentro do mundo masculino, torná-lo homem. Passados cem anos e com uma série de mudanças comportamentais e inseridos no mundo capitalista, nossa "fraulein" são os vídeos pornôs com homens com pirocas gigantescas, que não brocham e seguem um roteiro meticulosamente definido. Claro que com a crescente exposição da internet, tem crescido também o número de vídeos amadores, mas até esses passam por uma seleção, uma escolha do que vai ser postado.

Não quero também fazer aqui uma "Crítica Social Foda" ou demonizar a sexualidade ou ficar determinando regras de como cada um exerce seu prazer. Esse texto na verdade é uma reflexão que se restringe as minhas vivências com meu prazer e o que tem surgido de novo nesse sentido. E não consigo deixar de relacionar essas minhas vivências com o mundo que me cerca.

Entre o segundo e o terceiro namoros meus vivi uma série de novas experiências e até mesmo desilusões amorosas. No que diz respeito a papéis, de viver um período de cinco anos solteiro. E isso passa também pelas primeiras experiências com outros homens negros como eu, mas isso seria tema para um outro texto. Enfim, muita coisa se passou e com essas novidades, ganham-se novos saberes.

No atual namoro essa descoberta ainda continua. Tesão em partes do corpo até então ignoradas e a experiência de ter o primeiro namoro oficialmente aberto. E diante disso há sim momentos em que precisam ser confrontados saberes passados que, mesmo não fazendo mais sentido no presente, ainda persistem. Especialmente neuras em relação à performance sexual, a necessidade de conquista e de auto-afirmação, enfim, tudo que foi mencionado anteriormente. De qualquer forma eu digo que o momento atual, perto dos 40 anos, tem sido a fase mais feliz da minha vida nesse (e em outros) aspecto da minha vida.

E isso de dá pelo processo de descoberta. Na relação sinto que me descubro também quando estou com o outro. Aliás um item fundamental que descobri numas das minhas ficadas naquele hiato de cinco anos foi isso: estar com alguém que me deixe à vontade e que eu permita o mesmo a essa pessoa. Acho que é fundamental para que descobertas, prazeres novos, enfim que muita coisa boa aconteçam

Assim penso que essa mudança de percepção sobre nós mesmos pode realmente provocar uma grande mudança, até mesmo para questões ainda maiores de nossas vidas. Tenho reparado por exemplo o quanto tem sido importante a necessidade de escuta numa conversa, uma vez que tendo a falar demais de forma até rápida atropelando tudo. Enfim, esse novo exercício pode provocar uma mudança naquela velha pergunta de sempre "quem sou eu?"

quinta-feira, 16 de março de 2017

Casa do Saber

O título dessa postagem vem da forma como o Evandro costuma chamar os motéis, ou hotéis pra finalidade sexual. Acho que ele nunca me disse a razão de usar esse nome, mas sempre acho interessante. E sim, creio que estou me repetindo nesse blog escrevendo sobre essa relação (saber e sexo), mas esse texto é base pra depois pensar sobre outro de caráter mais intimista.

Freud lá nos Três Ensaios, fala sobre a pulsão escopofílica e a pulsão de saber, na formação da sexualidade humana. A primeira, o ato de ver, seria derivada do ato de tocar e entendida como uma base, um caminho para a excitação da libido. Já a pulsão de saber, que para o pai da psicanálise aparece entre os três e os cinco anos de idade, é vista não como subordinada à sexualidade, mas uma forma sublimada de dominação. Por outro lado ela apresenta relação forte com a vida sexual, pois ela aparece de forma muito precoce e, talvez a inscrição da criança nessa pulsão de saber se dá justamente por questões sexuais.

Mais tarde, Foucault fala sobre a relação que os saberes apresentam com o poder (Yes, citei Fucô!)  e entre outras coisas na forma como eles serão disciplinadores, passando pelo psiquismo e pelo corpo e, consequentemente com a sexualidade.

E deixadas às referências dos autores anteriores, eu me lembrei que aos 11 anos assisti à novela Tieta pela primeira vez. Na primeira fase, a jovem protagonista se envolve com um homem mais velho que lhe diz que vai lhe ensinar o "ipsilone duplo" (acho que dá até pra fazer um link com o Canguru Perneta do Caco Antibes) e a partir da descoberta pelo pai que ela estava tendo relações com aquele homem, ela é expulsa de casa (olá disciplina), dentro do contexto machista de Santana do Agreste e, anos depois ela volta pra cidade, mais "experiente" e, ironicamente, será a tia que ensinará para o sobrinho virgem seminarista os prazeres do sexo. Outra relação, essa observada mais como de poder do que sexual, um abuso na verdade, é com o coronel Artur da Tapitanga, que quando quer que suas "rolinhas" lhe satisfaçam sexualmente, diz-lhes que vai ensinar o abecedário.

Acabou que descambei pra análise de uma telenovela que vai reestrear em breve no Viva, deixa eu segurar o freio de mão que daqui a pouco começo a fazer análise sobre Maria Imaculada, que é praticamente a Sheherazade do Agreste.

Voltando ao ponto, não deixa de ser interessante em pensar sobre essas relações sobre saber e poder. Eu estou sempre citando esse livro do Robert Hopcke, que entre outras coisas fala na relação puer-senex entre homossexuais, isto é, os jovens com homens mais velhos. Na compreensão deste junguiano, essa relação se dá não pelo fato do jovem querer um substituto para o seu pai, como poderia se pensar dentro do Complexo de Édipo freudiano, mas por querer encontrar alguém que o guie (pelo saber, penso eu). Os homossexuais não possuem rituais para as suas práticas (o texto é de 1989, só pra ressaltar), sendo o mais emblemático o casamento, Então a busca de um homem mais velho seria uma forma de compensar essa ausência de ritual, por encontrar alguém já inscrito na homossexualidade. Eu extrapolaria e diria que seria para uma das diversas formas das homossexualidades,

E me pego refletindo agora, o que tem toda essa papagaiada puer-senex sobre a ideia do saber?

Refleti sobre o que meus amigos que se envolveram com homens mais velhos (até eu mesmo, aos 21 anos) e quando confrontados (tudo que sai do esperado, como uma relação entre pessoas com grande diferença de idade é questionado, não?) sobre as razões do jovem querer alguém mais velho as respostas eram desde "tem mais experiência", passando pelo "é mais estável emocionalmente, diferente de outro jovem" até mesmo por alguns que queriam pessoas mais velhas pois eram mais "discretos, não dão muita pinta" pois talvez haja aí a ideia de que uma pessoa de uma geração anterior fosse menos "fechativa", pois viveu numa época de maior repressão.

De qualquer forma essas respostas e as reflexões que podem ser feitas a partir delas mostram o quanto desse saber pode ser capitalizado nas relações de acordo com os próprios desejos (alguém que saber amar, alguém que saiba ser discreto) entre tantas outras coisas.

A questão é que na realidade, assim como as instituições de saber que Foucault menciona, não são as mesmas por passarem por transformações, os saberes mudam, penso também, isso não se dá dentro das próprias relações? Mas aí é um outro questionamento: o que ainda está pra ser descoberto, seja na "casa do saber" ou fora dela?

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Sonho das Duas Dimensões

Freud, Jung e Lacan, cada um a seu jeito mostra o quanto do nosso psiquismo não é unitário. O último até usa o conceito de Outro, o inconsciente visto como uma alteridade, alienado de nós mesmos, que tomamos como algo diferente, pois a própria linguagem, na qual ele se estrutura, vem de fora. Para podermos falar e dar sentido às coisas dependemos de um idioma feito por outros antes mesmo de nós nascermos.

Começo com esse ponto, da integração pra pensar sobre o meu sonho mais recente relatado, que pode ser conferido no meu blog específico para sonhos aqui. Então, creio que a compreensão do texto depende fundamentalmente da leitura daquele sonho.

Ele começa em uma rodoviária. Ônibus são elementos recorrentes nos meus sonhos. Na minha infância eu achava divertido andar neles, especialmente quando corriam muito, o que não é difícil no Rio de Janeiro (anos 80, já com trânsito forte, mas não tão intenso como hoje).  Então a presença deles sempre me traz essa sensação da necessidade de movimento. E o excesso de pessoas, eu tendo que passar por elas pode significar alguns obstáculos que podem ser ultrapassados.

E há nele uma espera de alguém que nãos sei se vem ou não, mas que na verdade, não impede que eu caminhe e faça o que tenho que fazer, o que tem a ver com desejo de independência. Esse alguém vem de São Paulo, que significa ao mesmo tempo o passado (ex namorado) e o presente, em que tenho contato com alguns amigos de longa data e novos. Inclusive de um amigo que tem se mostrado muito presente e importante nos últimos 4 anos e costumo brincar que ele é o namorado paulista. Creio que a referência deve ser também a ele, que não por um acaso apareceu ontem num momento de socorro. Sincronicidades.

O ponto alto é a presença do casal citado. Trata-se de duas pessoas que há alguns anos tivemos forte contato, especialmente nos meus dois últimos anos de Rio de Janeiro. Parte da relação com um deles já estava estremecida um ano antes da mudança, uma vez que fiz algo que o desagradou e ele, que sempre foi aquela pessoa que "falava na cara, sou sincero, não sou grosso" resolveu comentar numa postagem de blog algo que não gostou meu, mas nunca teve a coragem de falar diretamente comigo, mesmo quando o interpelei para tal. E eles voltam agora, pois no último carnaval me lembraram deles e aí lembrei que no meu último encontro real, eu estava bêbado, os vi na rua e os tratei de forma fria, o que difere muito da postura diplomática que costumo ter muitas vezes.

O "oi falso" representa muitas coisas: aquelas duas pessoas não são quem elas aparentam ser. A minha amizade com elas já se acabou, daí a não aprovação do meu "oi" já esperada. E num sentido mais profundo, representa a minha própria "falsidade", que o inconsciente revela. Pois sentimentos são sempre escamoteados, não revelados, ou coloca-se no mundo real de uma forma diferente. Posso por vezes querer parecer ser sincero (como o amigo falso) com o que sinto, mas esbarro numa série de barreiras emocionais que impedem que ele se manifeste tal como eles são. Mas os sonhos existem pra isso, basta lê-los. E admitir isso não é fácil.

O apartamento por sua vez é pequeno e velho. Os amigos de outrora precisam estar no espaço deles. Só que esse espaço deles é,  paradoxalmente, o espaço que ele ocupam na minha subjetividade. É um espaço pequeno, velho e cabe a mim ceder esse pedaço pra eles. E ainda assim, ainda que próximo, deito em um velho colchão. Deitar pra mim tem o significado de se entregar as emoções, de se permitir, mas isso ali é precário.

Daí aparecem os vizinhos que parecem estar em um prédio vizinho ao que eu morava quando criança. Ali era um espaço em que eu costumava brincar com outro vizinho, éramos crianças e hoje não tenho menor notícia de que fim aquela família levou. Mas fica uma lembrança boa, com entendimento que aquilo está no passado. Um jargão típico da minha família materna é esse "não falemos sobre isso, isso é passado!".

Os vizinhos são de Minas. Isso tem tudo a ver com a mudança minha pra região que moro hoje. Por várias razões. O casal do sonho algumas vezes zombou, na vida real, a minha mudança, o meu novo lar. E aqui os mineiros têm fama de serem desordeiros, de fazerem muita bagunça pelas praias e meu inconsciente absorveu esse dizer preconceituoso. E o principal é motorista de van com o qual tenho um envolvimento erótico, me chama pra uma festa. A van é o principal meio de transporte na minha cidade e ao mesmo tempo é "fora da lei" é clandestino, Então esse erotismo, a festa, a cerveja, o motorista, tudo isso representa uma necessidade de quebrar com leis (supereu?) estabelecidos. E nessa quebra não há espaço sequer pra um dos dois rapazes, pois ele é repelido pelo outro e abandono eles ali, naquele lugar precário, para uma nova diversão.

Nesse sentido o fato de eu ter dito a eles que eu estava em outra dimensão e que as coisas deveriam ser integradas é isso. Além do próprio anoitecer, meu momento preferido do dia e que ao mesmo tempo representa fim de ciclos.  Não é pra ser uma questão no estilo "deixa pra lá, o que tá no passado sumiu, não existe". Na verdade ele existe sim, por vezes como uma boa lembrança, como as brincadeiras infantis ou então merece sim um lugar, o lugar da precariedade, da falta de recursos emocionais, uma relação que não merece mais quaisquer investimentos, pois ela e empoeirada como os móveis, o colchão e as paredes daquele apartamento, É hora de, conduzido pelo motorista da van (a desordem, a arruaça, a quebra da lei) de ir pra outra festa.

E resumidamente é sobre isso, Sobre desapegos. De como esses apegos são sustentados por leis que me colocam numa dimensão que atualmente não faz o menor sentido. Que é hora de quebrar com normas que estabelecemos para nós mesmos e tacar o foda-se. Esse último sonho foi, basicamente sobre isso.

Ps: nesse momento vem na playlist uma música do Hercules and The Love Affair, chamada Visitor, que diz, entre outras coisas:

It's no time to stand

It's time to jump
No time to sleep
It's time to bump


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Geração Y?

Agora de tarde o Vando me mandou esse texto, pois achou que era minha cara. Acho que ele se lembrou o quanto eu me empolgo com esses termos usados a respeito da geração Y, X, Millenials e tudo o mais.

O texto é longo e não sei se consigo resumir a ideia dele. Basicamente ele faz um comparativo entre a geração anterior, que não dispunha da tecnologia atual e conseguia se divertir e sustentar uma família com a atual, que tem milhões de ferramentas a sua disposição e no entanto ganha mal e tem todo o seu tempo tomado pelo trabalho.

A ideia que aparece no texto não é nova. Um dia desses o jornalista Xico Sá comentava o quanto se achava que nas redações de jornais as coisas mudariam quando as máquinas de escrever fossem substituídas pelos computadores e que, na prática, os jornalistas estão, atualmente, trabalhando mais e levando muita coisa pra fazer fora do horário de trabalho.

Isso levou o autor a questionar se de fato estamos vivendo uma geração livre quando na verdade somos uma geração de escravos. E que ao mesmo tempo, no Brasil, estamos submetidos às imposições dos clientes e que há uma exigência verbal de cordialidade para não ofender os clientes. Que o brasileiro "está acostumado ao mando" e que estamos formando uma geração de "bebês de meia idade".

Apesar de gostar da zoeira com esses nomes de gerações, eu acho que são generalizações complicadas e ao mesmo tempo falsas. Antes de qualquer coisa, convèm colocar uma das "n" definições que se encontra pra "geração Y" na internet. Tomei essa desta matéria da revista Galileu que, ao que consta, está de acordo com a ideia do autor do texto:
esses jovens são os representantes da chamada Geração Y, um grupo que está, aos poucos, provocando uma revolução silenciosa. Sem as bandeiras e o estardalhaço das gerações dos anos 60 e 70, mas com a mesma força poderosa de mudança, eles sabem que as normas do passado não funcionam - e as novas estão inventando sozinhos. "Tudo é possível para esses jovens", diz Anderson Sant'Anna, professor de comportamento humano da Fundação Dom Cabral. "Eles querem dar sentido à vida, e rápido, enquanto fazem outras dez coisas ao mesmo tempo."
Folgados, distraídos, superficiais e insubordinados são outros adjetivos menos simpáticos para classificar os nascidos entre 1978 e 1990. Concebidos na era digital, democrática e da ruptura da família tradicional, essa garotada está acostumada a pedir e ter o que quer.

Vivemos num país, segundo dados do IBGE de aproximadamente 190 milhões de habitantes. Se tomarmos a faixa etária da dita geração Y, ela representaria, em 2010, 26% da população aproximadamente. Imaginemos então o quão heterogênea essa parcela que representa mais que 1/4 dos brasileiros.

Se tomarmos como referência a classe média, parte do texto do autor pode fazer sentido. No entanto a realidade é mais complexa a apresenta bem mais variáveis do que "um bando de mimados" como pretende esse texto.

Muita gente sequer teve condições de terminar o ensino médio. Ainda temos casos de analfabetismo funcional na população, ainda que tenham ocorrido avanços no ensino fundamental nas últimas décadas. As escolas públicas, em sua maioria, estão em condições ruins, seja na própria estrutura material, como no apoio ao docente. Daí com essa precariedade no acesso ao ensino que parcela pode se dar ao luxo de pensar "vou criar uma startup" ou "quero um emprego com a minha cara com mil brinquedinhos no escritório" ou "vou fazer home office". A maioria das pessoas estão é mesmo encarando um transporte coletivo precário, saindo cedo de casa e chegando tarde ou fazendo mil malabarismos pra ter uma renda minimamente decente.

Não descarto a crítica em relação a suposta libertação que poderia vir com essa tecnologia. Agora, querer resumir esse grande contingente de pessoas a um bando de mimados ou que os clientes são pessoas mal acostumados a mando é reducionista. Isso pode funcionar - já que o texto usa a escola como exemplo- numa escola particular do Leblon. Na periferia de Araruama, o esforço dos professores é fazer com que os pais participem das reuniões ou por vezes tem que se envolver com casos de violência.

Claro que não cabe aqui fazer uma outra generalização do estilo "com a galera da baixa renda tudo é ruim", pois aí tem-se um novo reducionismo. O que precisa ser questionado é esse conceito de geração "x,y,z"que tenta agrupar tamanha heterogeneidade, ainda que eu entenda que o impacto das mudanças teconológicas atinge também os mais diversos grupos em diferentes estratos sociais.

Só pra finalizar vou trazer um pouco do que acontece aqui em Araruama, uma vez que trabalho com jovens, tanto de classe média como de classe mais baixa, sabendo que essa realidade está longe de representar sequer todo o município, menos ainda o Brasil.

Araruama é uma cidade que historicamente foi ligada à agricultura e pecuária e que a partir do século XIX teve expansão econômica por conta da produção do sal, que foi perdendo a força ao longo do século XX. No final desde mesmo século, a cidade testemunha um crescimento de pessoas vindo do Grande Rio em busca de melhor qualidade de vida e fugindo dos preços proibitivos da capital fluminense. Muitas fazendas se tornaram condomínios fechados e também teve um aumento da favelização. Pois bem, nesse contexto, a moçada aqui tem preocupações como a sua formação, já que não há universidade pública na região. Com a galera que estuda nos colégios públicos tivemos no ano passado ocupações em escolas estaduais, pois é notória a situação que se encontra em todo o Estado do Rio de Janeiro. Ao terminarem os estudos os jovens precisam arrumar trabalho no setor de comércio e serviços (bem diferente de criar startups ou trabalhar em um serviço em que tem uma mini quadra de golfe no escritório) com baixos salários ou então (os que podem) precisam ir para o Rio ou Niterói para fazerem seus cursos, ainda que as prefeituras da região disponibilizem transporte. Ou seja, é uma realidade bem diferente de uma galera mimada acostumada ao mando e que precisa de formas "polidas" de comunicação.

Então, justamente por observar o quanto é heterogênea a realidade brasileira em todos as faixas etárias da população, bem como suas diferentes demandas e necessidade que penso que agrupar essas diferenças em uma única letra do alfabeto se mostra equivocado.










segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Millenium II : A menina que brincava com fogo




O segundo livo da trilogia, Millenium II: A menina que brincava com fogo ( Stieg Larsson, Companhia das Letras,608 páginas) dá continuidade aos fatos ocorridos na obra anterior, aprofundando mais sobre a vida da protagonista, Lisbeth Salander, contando com a participação do jornalista da revista que dá título à obra, Mikael Blomkvist, a partir de três assassinatos.

Na trama, dois amigos de Blomkvist, a pesquisadora Mia Bergman e seu marido, o jornalista Dag Svensson são assassinados, assim como o tutor de Lisbeth, o advogado Nils Bjurman. Os dois primeiros estavam colaborando na investigação de uma rede de tráfico de mulheres para uma matéria para a Millenium. E nos três homicídios, Lisbeth é a acusada e passa a trama escondida e Mikael tenta achar os verdadeiros culpados. Enquanto isso a mídia a trata como inimiga número 1 da sociedade e a polícia entra numa caçada a ela.

A história é contada por datas ao invés de capítulos. O narrador em cada dia marcado conta os fatos acontecidos, assim como as lembranças das personagens. O que chama a atenção em muitos casos é que o narrador não é apenas um observador distante dos fatos e onisciente, mas em dados momentos ele coloca, em sua narrativa, as palavras que são pensadas pelas personagens.

Os fatos são escritos em ordem cronológica e a história se passa no começo dos anos 2000, em que podemos perceber a grande presença do aparato tecnológico para não apenas servir de instrumento de comunicação, mas um recurso que Lisbeth usa para descobrir o que deseja, afinal ela é uma hacker. A narrativa é linear, sendo que em alguns pontos o passado aparece de forma narrada pelas personagens ou ainda pelos sonhos da protagonista.

Os acontecimentos se dão inicialmente no Caribe, onde Lisbeth resolve tirar férias e depois regressa a Estocolmo. É interessante que o autor não trata a cidade apenas como um mero cenário, mas descreve os lugares, o nome dos bairros, bem como os lugares ao redor, o que pode ser convidativo a um futuro turista, caso queira conhecer futuramente a capital sueca.

E em meio a esses lugares temos Lisbeth saindo do seu apartamento antigo, deixado aos cuidados de Miriam Wu e compra um novo, maior e em bairro mais nobre. O apartamento antigo, deixado pela mãe, representa justamente o lugar onde ela passou parte de sua vida - quando não estava internada em clínicas - incluindo as lembranças violentas de sua infância. No novo, o apartamento apresenta uma paisagem quase estéril, com poucos móveis com grandes vazios, mostrando um pouco como é a Lisbeth adulta depois de tantos acontecimentos tendo que forjar a sua identidade, sempre escondida (por uma série de motivos) em detrimento do que os médicos, a polícia e a mídia diz a respeito de si.

A narrativa de Larsson é fácil de ser assimilada, com muitos diálogos entre as personagens explicando ao leitor o que está acontecendo. O começo do livro tem um longo enredo, considerado por alguns desnecessário, mas que vai construindo para o leitor a relação que Dag e Mia vai estabelecendo com a Millenium, bem como as suas investigações, assim como o comportamento de Lisbeth, para além do clichê "garota misteriosa doidona que não fala com ninguém". A ação em si vai ocorrer a partir do último terço do livro.

Um ponto fundamental apresentado pelo autor, além da crítica a uma sociedade machista que violenta as mulheres é como certas estruturas contribuem para manter esses sistema, em especial a mídia e as instituições de saúde mental. Larsson pode não ser nenhum Foucault ou mesmo Basaglia, mas não deixa de ter uma visão crítica de como essas instituições criam narrativas sobre as pessoas, rotulando-as em diagnósticos que não correspondem a quem a pessoa realmente é, como pode ser evidenciado neste trecho:

"O diagnóstico que a mídia apresentava sobre Lisbeth Salander variava segundo as edições e os jornais. Ela era descrita ora como psicótica, ora como esquizofrênica com tendências à mania de perseguição (...) Os leitores só podiam concluir que ela era desequilibrada e inclinada à violência".
E a crítica em muitos pontos também vai para pessoas ou instituições que se colocam por vezes como progressistas. Isso ocorre quando se sabe que uma das famílias adotivas de Salander era de sociólogos que queriam adotá-la só para mostrá-la como um troféu no estilo "olha como sou legal, adotei essa menina", o que desperta a revolta de  Lisbeth. Outro trecho que exemplifica bem essa crítica é este:
 "Nem mesmo as reportagens mais compassivas, temperadas com uma pontinha de crítica ao sistema, que exibiam manchetes como "Uma falha da sociedade" ou "Ela nunca recebeu a ajuda de que precisava, conseguiam minorar seu papel de inimigo público número um - uma assassina"

Em alguns pontos sinto que a trama parece com novela da Globo, com "coincidências" para poder desenrolar a trama, como por exemplo no momento em que Salander vai à casa de campo de Bjurman e aparecem os capangas de Niedermann, um dos vilões da história.

Voltando ao ponto do machismo, é interessante observar como Larsson constrói a sua narrativa a partir do olhar dos homens. Melhor explicando, ao invés de ser um autor que busca traduzir a "alma feminina", ele coloca as observações que os homens (bem como instituições) fazem das mulheres e como se comportam com elas. E não só com Salander, mas também com Miriam - onde fica evidenciada a lesbofobia, pela forma como a imprensa e um policial a trata - e na conturbada relação entre Sonja Modig (uma das investigadoras da polícia) com seu colega de trabalho.

Outras duas observações sobre esse "masculino" que cabem ser notadas estão em duas personagens: o médico psiquiatra que atende Lisbeth na clínica onde ela é internada, Peter Telehorian, e o jornalista Per-Ate Sandstorm.

O primeiro é descrito como o pior homem que Lisbeth conheceu, ainda que ele não a tenha estuprado. Ele é um sádico que não se contenta com o silência dela e usa seu "tratamento" como um jogo para satisfação de seu desejo. Uma vez que Lisbeth se recusa a responder às perguntas dos psicólogos, Telehorian a forçava a reconhecer a existência dele. E se for pensada a forma como os homens tratam as mulheres de uma forma geral é isso, é uma objetificação, mas com uma necessidade narcísica do olhar delas para reconhecer o seu suposto poder. Quando isso não acontece, muitas vezes se recorre à violência. Pode se pensar desde o cara que quer forçar uma menina a ficar com ele numa noitada a um marido que mata a sua esposa.

E nessa objetificação, o  estupro cometido por Sandström, além dos aspectos já mencionados, é uma performance a ser vista por seus colegas, para deleite deles. E seu grande medo (assim como de outras personagens) não é baseado no que ele fez com as mulheres, mas do olhar da sociedade julgando-o e acabando com a sua reputação.

Mais uma vez é colocada essa questão do olhar do outro e essa necessidade de afirmação narcísica dos homens. Seja esse olhar de Lisbeth, dos colegas ou mesmo da própria sociedade em si. É esse é um dos pontos em que o masculino se sustenta na obra de Larsson.

E ainda sobre personagens masculinos, Niedermman é colocado como um tipo estranho, esquisito e incapaz de sentir dor por conta de sua genética. E é uma personagem, na descrição de Zala (chefe dele) como assexual. Fico pensando porque a assexualidade é sempre elencada junto com patologias e não como uma variação da sexualidade como tantas outras. Aliás, é legal ver na obra personagens que não são heterossexuais apenas.

No mais a mais é uma obra que prende pela trama, pode trazer grandes reflexões não só apenas sobre nossa sociedade, mas de que maneira nos relacionamos uns com os outros, bem como as instituições presentes nelas.