segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Valeu 2012

Pelos passeios malucos com o Osmar. Pela máscara de pirata. Pela cor linda da praia. Pelos quiproquós na Região dos Lagos. Pela Montila. Por me ter feito ganhar mais. Pelos meus mergulhos emocionais. Pelas trepadas. Pelos mergulhos emocionais. que eu tive. Pelas noites malucas. Pelas cantadas em pessoas erradas. Pelas cantadas certas. Pelos livros que li. Pelos meus questionamentos espirituais. Pelas minhas revoltas. Pela minha filosofia que sempre muda. Pelos meus amigos que amo. Pelos clichês. Pela inovação. Por tudo...


Que venha 2013!


sábado, 29 de dezembro de 2012

Reveillon da maioridade 11/12

Bem, escrever esse reveillon aqui seria de certa forma chover no molhado, já que ele foi liquididificado aqui neste post.

Mas de qualquer forma é bom lembrar da chuva, do Osmar, do Jefre, de mim montilado (tal como estou no momento desse post) falando bobagens, jogando videogame, subindo e descendo pra rua e, claro, evitando o David Guetta.

Beijos Guetta, mas coxinha só na Fornalha.

Reveillon da maioridade 10/11

Em meio a uma época tão atribulada, passo meu primeiro reveillon com meu melhor amigo. Na tranquilidade e paz do posto 5, no mesmo ponto onde passei o de 98/99 agora com um clima diferente.

Estranhamos a voz da Débora Bloch an propaganda da Paradiso, tentamos algumas fotos e, na festa de casa tinha piadas chatas do famoso primo inconveniente que sempre tem nas família...

E no fim fui me encontrar com o Marcelo e alguns amigos dele...foi mais uma caminhada em direção a muvuca clássica do Copa Palace em si do que ir a um show de fato.

Era só um preview de que no ano que vem, regenerado, viria algo melhor. O mantra de Osmar valeu!


Reveillon da maioridade 09/10

É mais um reveillon com a participação da Fabi, mas em outro contexto.

Eu a tinha chamado para vir pra cá e ficar tranquila. E foi isso que encontramos aqui.

Foi o meu primeiro em Araruama e , finalmente, fiz uma foto com fogos de artifício hahahaha E aqui devidamente registrado!!!!!

E 2010 foi um ano muito intenso, para todos nós!


Reveillon da maioridade 08/09

Em meio a tantas mudanças que 2008 trouxe para mim, eu passo o reveilllon em Copacabana com alguém que veio de um lugar a 2000 km distante de mim.

Foi tudo muito bonito, teve algo sublime e ao mesmo tempo sem paixões loucas e avassaladoras. E volto para o mesmo Leme das mulheres de areia e do calçado descolando no meio do caminho.

Foi uma experiência muto gostosa, apesar da pessoa ter feito coisas que não merece a lembrança... de qualquer forma é isso que nós guardamos no frigir dos ovos.


Reveillon da Maioridade 07/08

Desde 1982 não passava um reveillon fora do Rio...foi esse o caso

Passei na companhia de dois amigos marabichosos em Curitiba, em uma fase de transformação e regeneração absurda. Estava prestes a me mudar do Rio e vir para Araruama e na busca de casas. Tinha acabado com a 2ª gestão naqueles dias mesmo... e no fim das contas foi tudo ótimo, com muita risada, falando bobagens e diversão...

Ali onde os dias pareceram mais longos, onde se poderia ter as 4 estações do ano no mesmo dia...onde tinha tequila, onde tinha Basilio fazendo palhaçada e Matias com seu humor ferino... tudo muito bom!!!

E naquela mesma época conheci alguém que me virou do avesso em vários sentidos...outras histórias.


Reveillons da Maioridade 06/07

Esse reveillon tem duas particularidades: serve como uma foto para dizer o que aconteceu com as pessoas que ali estavam e ao mesmo tempo foi a versão 02/03 para a 2ªgestão, que criou confusão por não querer passar o reveillon com meus amigos.

Sei que levei pavê e refrigerante para a casa do Gui e do Wally e que foi uma festinha que fizemos muito legal, até porque tínhamos o França vindo do Ceará e o San vindo de São Paulo em sua primeira visita ao Rio.

No fim todos nós nos divertimos muito e, além disso, é legal ver que as vidas de cada um ali foram bastante mudadas.  E foi meu último reveillon no Rio morando no Rio.


Reveillons da maioridade 05/06

Esse reveillon é de uma simplicidade absurda. E guardo com carinho...

Passamos eu, 2ªgestão e Fátima, tranquilos, na Praia do Flamengo. Tudo muito sossegado.

E no fim me lembro que Ivete Sangalo estava dando um show na Marina da Glória. Dava para ouvir suas músicas. Dali concluí de que, mesmo não curtindo-a como cantora, sou obrigado a reconhecẽ-la como uma grande performer.

E foi só....tranquilo!


Reveillons da maioridade 04/05

Foi o primeiro já com novo namoro. Eu quase não me lembrava dele até que me veio o estalo: casa da Suiá, 2ª gestão dormindo no sofá, André falando de Disney, Fátima em algum ponto fazendo a maldita e,na saída acho que pela primeira vez vi alguém cheirando assim de frente sem pudores na minha frente.

Isso foi na rua...

E depois um abençoado 154 me livrou da fila absurda do metrô,  com "esquema especial" de reveiilon na recém inagurada estação Siqueira Campos.


Reveillons da maioridade 03/04

Era para ser um reveillon detestável. Muito!!!!

Em tese eu seguiria de Copa para Barra da Tijuca para encontrar o Osmar... só que

Márcia dava seus últimos suspiros. E cismou em querer passar o reveillon comigo. Até ai, tudo bem.

Só que a infeliz prendeu meu tempo, acabou fazendo um esquema chato e no fim, ajudado pelo trânsito e ônibus cheios, foi impossível chegar, naquele dia, na casa do Osmar

Restou-me voltar para casa e me encontrar com Osmar, Marcelo, Marcus, Baixinha, Fred e mais um pessoal naquela festa realmente maluca, mas que levantou muito o meu astral.

E no dia 2 tive conversa com aquela que ainda seria a "Segunda Gestão" na minha vida de relacionamentos amorosos.

No dia 3 ou 4 mandei Márcia pro espaço sideral com seus marcianos, porque sou homem da Terra e do Fogo.

Tudo mudou...




Reveillons da Maioridade 02/03

Sabe aquele reveillon que anuncia o começo dom fim? Foi esse!

Me lembro de pela primeira vez na vida ter ido ver a queima de fogos, agora em balsas, no Aterro do Flamengo com meu pai.

Foi uma energia muito boa que rolou ali e, alguns dias depois iria para São Paulo. Essa ida deu a origem a esse texto do meu "alfabeto". Os 3 aconteceram em 2003 essa é a ironia disso tudo.

E no fim foi tudo intenso e positivo, mas foi um ano que no fim foi deprimido. Era esse clima que eu queria exorcisar no próximo texto...


Reveillons da maioridade 01/02

O mais marciano de todos. Estranho. Em Itaipu vendo os fogos ali e lá distante os de Copacabana.

Lembro-me de música progressiva, de desenhos e de uma piscina de azulejos improvisada. E da notícia da morte da Cássia Eller.

Muito, muito estranho aquilo tudo, observando hoje. Talvez por isso eu não queira comentar tanto.


Reveillons da maioridade 00/01

Desta vez foi em Guaratiba. Muito bom e digno dos versos que diz "festa estranha com gente esquisita". É quando as pessoas mais coxinhas querem fazer a maluca... e isso foi em Guaratiba.

Primeiro reveillon com Fabi após alguns anos. Muito bom com direito a uma chuva torrencial como pedia, de fato, a virada do século. E autonomia crescendo...


Reveillons da maioridade 99/00

O falso reveillon da virada de século.

Fase horrível da vida. A família louca com o filho viado e eu no começo de namoro com a falecida Márcia. E fazendo análise com uma analista escrota e encarando um verão brabo no sobe e desce em Duque de Caxias.

O primeiro ano saturnino desde 92 foi assim, cheio de duras lições. No fim saí firme.

E passei no terraço do prédio filmando os fogos na Praia do Flamengo, onde a Leila puxava o saco do Tapajós, já morto.


Reveillons da maioridade 98/99

Aquela era uma fase de intensa atribulação emocial. Crise dos 20, não seri, Mas era quando, de fato, estava tomando conta de forma mais intensa, na maioridade pela primeira vez, dos meus desejos e ainda não tinha me dado conta disso.

Tinha combinado encontrar amigos em Copa. E a solução, com a Avenida beira-Mar engarrafada era ir até o Largo do Machado. Daí tomei um taxi e acabou indo um casal de senhores indo comigo até Copa.

Desci no local combinado 20 minutos antes dos fogos. Fui até a areia e foi o reveillon que mais me deslumbrei com os fogos. Surgiu daí um poema.

Depois encontrei uns amigos...a pergunta que me fica na cabeça é: será que eu já tinha celular?

E na volta um rosário de reclamações da minha irmã de reclamações da minha mãe no modo passivo agressivo ressentido porque simplesmente fui me divertir e não ficar com ele..

É um reveillon para pensar: pequenas ações Odilon, sua vida!


Reveillons da maioridade 97/98

Esse reveillon, o que a minha memória tem a dizer é isso


Reveillons da Maioridade 96/97

Na tensão dos resultados do vestibular foi um encontro com amigos que moravam em Botafogo em frente ao Rio Sul e dali, seguimos para o Leme.

De cara uma polêmica: a irmã de uma amiga estava revoltada. Motivo, ele não virou a cara quando viu a Carla Perez na televisão. Sim, era fim de 1996.

E me lembro da Claudinha zoando muito. O momento mais "marcante" foi ela cismar com uma trava com um belo vestido de renda e ela gritava loka "Mulheres de Areia! Mulheres de Areia!"

Dali descobri que era mais fácil atravesssar o túnel...e os resultados de 97 foram positivos.


Reveillons da maioridade - 95/96

Ainda tinha 17 anos, mas me lembro de ter tomado um bom champanhe na casa da Suiá. Era lá nós e alguns membros da cozinha, na virada do segundo para o terceiro ano.

Aquele ano tinha sido intenso e tinham duas inéditas provas finais na minha vida.

Foi tudo lindo e maravilhoso. E lá pelas tantas alguém teve a ideia de querer ver o nascer do sol no Aropador. E lá fomos do Bairro Peixoto até lá, andando, andando, andando para no fim...

... não ter nascer do sol. As nuvens cobriam tudo. Mas 96 foi um ano prestigioso, rápido e intenso.

E no dia seguinte ainda teve o Colheita me ligando falando de alistamento militar. Eu rezo por ele até hoje! ;)


E vamo que vamo

Layout mudado nesse liquidificador e uma ideia: bater o recorde de postagens em 2012. Qual o objetivo disso? Nenhum! Traço de neurose obsessiva? Sempre

Mas os textos já existem, clamando para serem feitos



Então, como canta Vander Pires: a hoooooooooora é essa!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um aviso

Alô alô,



Se por um acaso você ver o viadeiro carioca em polvorosa no facebook por conta da inauguração da Livraria Cultura na Cinelândia não estranhe. Cabem aqui algumas explicações:

1. O Rio de Janeiro, apesar de ser a segunda metrópole do paíse terceira da América do Sul até o presente momento não tinha nenhuma livraria. Uma injustiça, uma vez que Araruama, com população 60 vezes menor já possuiu uma;

2. As bees farão peregrinação para lá assim como os mulçumanos vão para Meca. Em breve farei a minha também;

3. A nova livraria ficará onde antes havia um cinemão. Por conta de alguns espíritos lá presentes eles acabam atraindo o esse público para o local. Já chamaram Silas Malafaia e Macedo para fazer o exorcismo, mas como o cachê era baixo, isso não foi possível. O efeito Poltergeist permanece;

4. A família Herz conseguiu um fato raro: fazer com que alguns cariocas idolatrem uma criação paulistana. O próximo plano é a substituição da Baía de Guanabara pelo Rio Tietê, o Flamengo pelo Corinthians e o Maracanã pelo Itaquerão. Além disso, todas as pegações do Aterro serão transferidas para o Autorama do Ibirapuera.

Fala sério: cale a boca e coloque-se no seu lugar


Ai eu agora há pouco vejo esse vídeo no face e os seguintes comentários de um militante petista:


"Depois de receber o Bolsa Família, o financiamento do Minha Casa Minha Vida, e colocar os filhos na faculdade pelo Prouni, e finalmente sair do desemprego com as obras civis bombando pelo Brasil, o Severino resolveu fazer essa musiqueta brega após assistir o Jornal Nacional (...) Como Tim Maia já dizia: "No Brasil puta beija na boca e pobre vota na direita (...) Sim, devia: antes de Lula ele era desempregado, não tinha casa e os filhos nem sonhavam em estudar."

É aquela coisa. Muitas vezes nesse país, você pode ser de direita ou de esquerda, mas você pode estar na mesma Casa Grande. Os de direita diz: vai trabalhar pra mim vagabundo e para de pedir esmola ao governo. Alguns na esquerda avisam: negão pobre, fica na tua e não fale mal do governo, senão eu te tacho de alienado, pois você sabe que sou superior a você e só eu sei determinar politicamente o que é melhor ou pior para você.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Não moro em uma maçã


Acabo de ler essa matéria que o meu querido Osmar postou no facebook. De cara minha cabeça começou a dar voltas e pensar na vida de pessoas que, mesmo afirmando o contrário em certos momentos de aparente lucidez, se mostram completamente encantadas por um determinado produto. E tudo isso para se sentir bem nos seus grupos de convívio, mesmo que o produto não caiba em seu orçamento ou ainda, não raro, que seu nome não esteja sujo no SPC ou Serasa.

Depois pensei: se alguém quer viver assim, o que eu tenho a ver com isso? Se ela diz pra mim que é de um jeito e depois age de outro, de acordo com os seus interesses, o que eu, Odilon, tenho a ver com isso? Do que adianta eu servir de "conselheiro" ou algo do tipo? É o que eu penso e acho o que conta, ou o que a pessoa faz?

Influências? Não! Hoje percebo que o que conta não são influências. São escolhas.

Por essas e outras parei no banho a olhar para os azulejos e pensar nas pessoas na minha vida que sempre me dizem algo e pensar: epa, o que eu faço para o meu bem, em última análise, é a minha própria escolha. E se não quero que o outro submeta as suas escolhas na minhas, também não posso repetir o mesmo comportamento. Respondendo às perguntas anteriores, não cabe a mim determinar o que é certo ou o que é errado. Virar um cagarregra. 

E, obviamente, isso não é algo fácil.

E voltando aos 3000 paus do Iphone 5, é aquele momento que penso: Odilon, você tem uma casa para terminar. O resto, meu caro taurino, é só ferro velho.

Uma dica para o Bispo Macedo

R.R Soares criou uma estória e ela foi transformada em filme produzido nos EUA e com ótima bilheteria. E pelo trailer, tem todo um clima de Sessão da Tarde evangélico.

Então, Bispo Macedo, prestenção: o sr tem a Record e a IURD. Monte uma produção nacional. Há incentivos fiscais, claro que não 100% free como é no caso de ter uma igreja. Mas vale a pena.

Junte o povo do Balacobaco, Rei Davi, etc e tal e olha, com o show de exorcismos da IURD ter-se-ia tantos efeitos e momentos emocionantes que desbancariam quaisquer desses filmes baseados em Tolkien e afins.

E a cereja do bolo: as redes sociais seriam floodados por crentelhos ao invés de nerds chatos com filmes de super heróis, elfos, hobbits e duendes. Pense nisso!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Didiabólico


Aí a criatura fundamentalista escapa de um assalto ou algo do tipo e diz que Deus deu um livramento pra ela e coloca na conta do capeta a violência. 

Sinceramente, se o diabo existisse e ele fosse eu, mandaria essa criatura pro inferno. Literalmente. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sobre a fumaça

Com o tempo se aprende a não correr atrás dos sinais de fumaça. Se ali há fogo, se ele é extinto. Existe em mim um lago repleto de coisas que ainda não descobri e que, no fim das contas, há de valer muito mais a pena. 

Ok, não escondo que a vi. Apenas me permito a vê-la, admitir a sua existência e simplesmente não ir atrás de onde ela se esconde.

Logo mais há um crepúsculo. Ainda que repetitivo, é mais belo que a fumaça. E lá estarei imerso em mim mesmo, sem me preocupar com fogo, fumaça ou palavras perdidas no vento.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Asterion no reino dos espelhos


Pior que o centro do labirinto, agora era o centro do reino dos espelhos. Tinha a cara de lugar perfeito onde a fome seria a menor de todas as preocupações. Era no tempo da nova dieta de Astérion, de novos terras e novos ares. Tempo do fogo abrandar e deixar jorrar por todos os lados as águas sobre o solo. E, junto com ela, certamente, viriam os peixes.

Melhor tempo, sempre o que vem após a chuva. As águas estavam repletas de peixes. Acontece que ali havia deuses caprichosos ocupados em ver a indecisão ou o sofrimento do faminto. Assim, e somente por isso, os peixes que eram de água doce tornavam-se de água salgada. E se fossem de água salgada viravam de água doce. E, segundo consta os antigos escritos, era vedado comer aquele fora de seu habitar natural. É o momento de ver o Destino como obra de um deus de carne e osso, ciente do que faz e disposto a pregar peças.

Assim, junto com a fome veio a fúria. Era grande o suficiente para revirar boa parte daquelas terras. De colocar abaixo árvores que, por mais flexíveis que fossem, eram profundamente enraizadas ali e por onde ar de nenhuma terra havia lhe tocado as folhas. 

Era outro tempo agora, o tempo das cinzas...

O acusado se apresenta diante do rei. Seus bolsos traziam, além de pouco dinheiro para a contribuição real, alguns argumentos que não poderiam ser utilizados no reino onde a imperfeição era tida como perfeita e ninguém poderia desmentir aquilo.  Estava vedado também tremer o chão, já que estes quebravam todos os espelhos. E como poderia um rei de espelhos sem seus espelhos?

"Acusam-te de exigir águas tranquilas e claras e aqui é lei que isso não existe". Era hora de sacar mais um argumento dizendo que as águas daquele tipo eram inexistentes e que a exigência fora outra. mas era só hora, pois todos sabiam que, diante do rei, nenhuma palavra era pronunciada quando este se julgava cheio de razão.

"Acusam-te de querer um reino real e este aqui é virtual, feito de ilusão. Como ousas a desafiar a natureza deste reino que sempre foi completamente aberto a você? No fundo você não gosta do clima daqui e por isso resolveu destruir a todos nós". Foi a maneira do rei poder fazer justificar a acusação mais forte, a de querer destruir aquele reino.

Como era o tempo do preto e do branco se combinarem no ar para que nenhuma resposta fosse dada,o condenado resolve fazer o mesmo por algum tempo. A escolha em calar-se era a mais acertada para não ter que enfrentar de novo as lamúrias do Rei dos Espelhos. Melhor ainda é que sempre havia a esperança de partir para o exílio.

É no caminho para o exílio que a água ainda inundava a terra, agora quebrada. Se antes era plana, agora quebrava em partes altas e baixas. E as águas caíam em cachoeiras. E foi nelas que o agora exilado percebeu que os peixes - que sempre tinham o conselho de que não fazer nada era muita coisa- eram exatamente os mesmos e que nunca havia mudado, seja de água doce ou salgada. E eles seguiam conscientes e felizes para as parcas iscas que pescadores enganadores lançavam naquelas novas águas. A morte também era uma escolha.

Fora dali era hora de tornar-se bicho por todo. No tempo das mastigadas, as ruminantes foram a que fizeram pará-lo e deter os olhos para aquele reino de longe. A terra agora, ao invés de parecer destruída, parecia também ainda mais bonita. 

Ao Rei dos Espelhos  isso era inútil. Ele não gostava, naquele momento, de pensar na vida também como uma outra escolha. Estava mais preocupado em olhar para os espelhos na garantia de que sua imagem ainda estava intacta em meio a esganiços no meio da noite que nenhum súdito escutou. E nem os peixes que sofriam mortos em meio a um campo de flores antigas que ainda resistiram ao terremoto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Trilha sonora da última noite

Bem, como não me lembro exatamente do sonho, não vai para " a vida que eu sonhei". Mas sim, ele tinha essa trilha sonora, com Adriana cantando e nele dizia que era a minha preferida do Roberto. Conscientemente, só me lembrava do "corro demais, só pra te ver". Depois me dei conta de que essa música fala de mim...



terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sakamoteando


Hoje, na hora da novela vou me encontrar com lideranças políticas e blogueiros importantes do meu Brasil. Entre alguns tópicos teremos:

1- Encontro com lideranças do movimento negro. Além de discutirmos Monteiro Lobato nas escolas de ensino fundamental e médio, vamos também falar sobre o time do Divino, já que tem mais negros na seleção da Finlândia do que no time de subúrbio ficcional do Rio.

2- Encontro com a delegação do Brejo Paraibano. Discutiremos o preconceito contra o povo nordestino bem como a inclusão ou não de crianças negras no lixão de Avenida Brasil. Além disso, proporemos a mudança de rodas de pagode na Zona Oeste carioca por forró Pé de Serra em lonas climatizadas para ninguém sofrer com o calor. É o mínimo.

3- Checar o "mailing list" com convidados VIPs da Igreja Universal do Reino de Deus. Afinal de contas eles são chatos, mas suas mensagens são inócuas e não contribuem em nada para o morte e o sofrimento de milhões de homossexuais neste Brasil. Conversaremos sobre Maquiavel e não permitiremos a alusão à Aristóteles no que tange à política.

4- Reunir com lideranças para traçar planos e estabelecermos a Ditadura Gay. Ela é o novo socialismo, o que Marx chamaria de "antítese", para depois estabelecermos a Ditadura do Politicamente Correto (a síntese), que será presidida por uma mulher negra, pobre e lésbica. Como se sabe, atualmente os homens heterossexuais ricos andam sem poder e perseguidos em nossa sociedade.

5- Fazer a mudança no plano educacional de Araruama. Substituir os livros de Nietszche - já que todo mundo sabe que no Brasil as crianças da rede pública leem o filósofo alemão desde o primeiro ano do ensino fundamental - por Gramsci e doutriná-las com o mais profundo esquerdismo.

5- Providenciar segurança para a jornalista global Zileide Silva, que se pronunciou a favor da restrição  a certas obras de Lobato nas escolas. Afinal de contas já foi dito que há pessoas com "vontade de matar aquela nega".

6- Providenciar a substituição de todos os DVDs da Globo Marcas por DVDs de seriados estadunidenses e filmes do Lars von Trier e evitar que as pessoas assistam obras misóginas por "acidente".

7- Preparar a defesa do José Dirceu e defender petistas que usam de argumentos racistas contra a atuação de Joaquim Barbosa. Afinal, todo mundo sabe que se uma pessoa está num partido que sempre defendeu a causa dos oprimidos, entre eles o povo negro, não é racista em hipótese alguma. Se fosse uma brincadeira de pique, eles seriam "café-com-leite".

8- Reclamar sobre racismo. Como é sabido isso no Brasil existe, mas não é pra tanto escândalo e fazer protesto e vilanizar ícones da nossa história, literatura ou artistas de pagode. Nem pra criar cotas raciais nas universidades. Estão racializando o Brasil e na verdade estou envolvido em um complô come-dorme no terceiro setor: reclamo dessas coisas só para mostrar serviço e ganhar verbas do governo federal. Assim tornar-me-ei senhor feudal de Araruama.

Outros temas, se surgirem, serão devidamente liquididificados.

Grato,
a gerência

Ps: A ironia desse texto é baseada em "chorumes" que andei lendo esses dias nas redes sociais.

sábado, 29 de setembro de 2012

Quando Copacabana Assombra

Certa vez em um programa de entrevistas, o escritor Rubem Alves falava sobre o "assombramento". Que os professores ao ensinarem ao invés de repetirem velhos conteúdos deveriam promover o "assombramento" dos seus alunos, pois isso é o que encanta e motiva o aprendizado.

Posso dizer que meu aprendizado por assombramento vai além da sala de aula. Aliás, quem disse que o aprendizado é só lá?

Noite de sábado. Vindo de Araruama sem muita vontade. Trânsito de Mercúrio em oposição ao Sol natal, me avisa o Personare no começo do dia, em meu email. Dia de acordar com uma dor de cabeça terrível e minimizada após o engov para apagar os vestígios dos excessos da noite passada. Pobre fígado. Mas o sono com o remédio resolveu a situação.

Chego tarde no Rio...queria ter chegado, sinceramente, mais cedo. Mas nem sempre as coisas saem como idealizamos. Isso serve para mim também. É quebrar de alguma forma as velhas fórmulas que se repetem.

Nesse "quebrar" meu amigo me chama para uma volta à noite. Não saímos de imediato. Ele vai ver algo e eu decido beber mais após outro engov. Eu bêbado me assombro comigo mesmo. Talvez mais que os outros que convivem comigo. Enfim... 

Saímos.

Pausa para parar em frente a um dos apartamentos. Meu amigo tem TOC e quer ajeitar o tapete na porta de um deles. Mas dá tempo para chamar o elevador e imediatamente ele parar no nosso andar, ainda que ele aponte para cima, não havia ninguém nele.

Nesse mesmo "imediatamente" sai alguém de um dos apartamentos. Será o do tapete organizado? Não, não foi. 

Ele, saindo, no começo não tem rosto. Me bate uma certa timidez que ainda estou quebrando. Sinto o meu olhar um tanto invasivo. Algum recalque de conteúdo sexual, diria o Freud aqui dentro de mim, tendo consciência do meu lado voyeur e também do exibicionista. E foi para isso que existe o espelho dentro do elevador - sim ele teve tempo de pegar com a gente- e reparar melhor.

A imagem: um homem baixo, gordinho, de cavanhaque e cabelos loiros. Olhos azuis. Cordão grosso no pescoço, bolsinha e uma camisa do Vasco. O norte do desejo apita e me dá uma noção de delírio...delírio porque ele acena para meu amigo, como quem quer iniciar uma conversa.

"E ai será que amanhã vai dar praia?"

Falar do tempo, o velho iniciador de conversas. Falar da praia, do sol de sábado e do tempo ainda sim frio. Dos momentos em que a ressaca ainda me consumia nas Baixadas Litorâneas e que fez algumas pessoas se animarem para ir para a praia em Copa.

E assim prossegue até a saída do prédio. Achei que o papo morreria ali. Ao invés de dar a volta no próprio prédio e pegar o carro estacionado na porta, ele decide continuar a conversa com a gente. Isso assombra.

"Sabe que é melhor sair com uma menina daquelas e pagar 30 reais do que de repente sair com outra, levar para um restaurante e gastar mais dinheiro e tudo o mais com a conta e com o hotel depois".

Isso poderia ser em princípio um papo repetido ou até machista...em princípio. Os assombramentos estão ai para mostrar que existem mais coisas do que aquilo que estamos acostumados a pensar.

"Hoje em dia está difícil arrumar uma pessoa companheira" Sim, o termo usado foi o clássico "pessoa". Continua a conversa entre concordâncias fáticas, pois queríamos ver onde aquele papo poderia chegar.

"Mas você que é homossexual deve passar por isso, não?" Diz ele a queima-roupa para o meu amigo. O interessante observar e que merece crédito na conversa é que ele percebeu que éramos amigos de fato, diferente da maioria de conhecidos e amigos meus que acham que nós dois tenhamos algum relacionamento de ordem sexual e tudo e tal... (rima boba, confesso)

Ali é o momento de assombrarmos não com algo que está por vir. Mas com algo que tínhamos dentro de nós. Emoções. Falamos do amor. Das semelhanças entre o vascaíno e meu amigo que não conseguiu ter sorte nesse sentido. Do elogio furtivo do meu amigo "você é bonito, vai conseguir arrumar alguém".

Ele fala mais. Fala da sua dificuldade emocional. Do quanto era difícil para ele a vida a dois. Até pensamos que ele fosse de fora, no meio dessa mesma conversa. Mas ele é de Copacabana, 31 anos, morou no Posto 6 e se mudou para o 4.

Onde encontrar o amor, aqui? Isso quando passamos pelo bar com pessoas bebendo e algumas putas...rimos. Ele se abre. Fala da sua bipolaridade, que vê como se fosse um diabetes. Mas faz psicoterapia também.

Em meio a isso as perguntas e afirmações "você mora sozinho? eu também" "O que vocês vão fazer hoje à noite?"...fala do apartamento onde sempre vai se encontrar com a prostituta que procura, como forma de manter uma ligação. Meu amigo diz o número de seu apartamento e ele fala da necessidade de conversar com alguém. Ele já havia dito antes da dificuldade que tem em ter um círculo de amigos, que os únicos contatos que tem são as pessoas que trabalham com ele e isso só no ambiente de trabalho.

Em meio a esse assombramento de solitários e ao saber o número do ap do meu amigo ele deixa o cartão e o telefone. Já tinha comentado o seu endereço. Era o que faltava naquela noite. Era o momento de confirmar o que Jô Soares disse no "o que vi da vida" no Fantástico: que a conversa era uma coisa maravilhosa. E o vascaíno, mesmo com sua bipoloaridade diz: "viver é muito bom"...conversando, melhor ainda...assombrando então...

sábado, 15 de setembro de 2012

O palácio que não é


No reino do rei dos espelhos há um lugar especial...um palácio muito bonito por fora, mas cheio de caminhos tortuosos.

Não me lembro ao certo quando eu o visitei pela primeira vez, me disse uma vez um poeta.  Parece que ele foi chamado pelo próprio rei dos espelhos e aquele lugar era, talvez, a única herança de seu pai. Uma pessoa que não era refletida nos espelhos dos aposentos reais oficiais do dito rei. Mesmo em períodos que todos os palácios do reino estivessem abertos. Havia sempre algo escondido.

Mas voltando ao palácio das mentiras. Ele é guardado na entrada por três homens. Todos eles possuem profunda admiração pelo rei, que inclusive manipula seus próprios decretos para conceder-lhes privilégios. Dizem que estão ali por ordem de alguém, para proteger um nobre de um reino vizinho de riquezas enferrujadas por uma certa maresia que sempre sopra do mesmo jeito. O rei dos espelhos por vezes tem que limpar em seus aposentos com alguns restos dessa ferrugem. 

Parece que na mesa dos banquetes há uma grande torta de chocolate com queijo algo assim. Em uma mesa magnífica que o pai do rei construiu. E dizem que o rei sabia exatamente de cabeça como era a receita servida em certos finais de semana que ele recebia conselheiros que toda semana ele mandava para a guilhotina, mas sempre voltavam.

Algumas cantoras cantam em italiano uma música que me é conhecida, mas resolvo ignorar. Não traz nenhuma emoção em especial. Só surpreende mesmo a presença das cantoras ali, já que o rei tinha decretos  que proibiam tal tipo de música por ali, pois aquela é "arte que não condiz com as coisas desse reino".

No pátio do palácio há uma festa. Um príncipe de quem nunca se ouvira nada veio de longe. Trazia consigo as melhores vestes e adornado pelas melhores joias. E tinha uma beleza magnífica. Só alertara ao príncipe de que não poderia ficar muito tempo ali porque tinha outros compromissos em suas terras. Seus súditos o amavam e exigiam a sua presença lá ineditamente. De qualquer forma havia ali num fim de semana desses encontro com diversos reis, príncipes, rainhas e outros nobres de terras igualmente desconhecidas naquele pátio.

Enquanto isso passam funcionários correndo no meio do salão principal. Era hora do turno de sábado, oito da noite. E na cozinha próxima um homem oferece um drink, mas manda avisar que está ali escondido do pai do rei, que não pode sequer notar sua presença ali. E tem planos de ir para outras terras e deixa para o rei um maço de folhas, envelopes e selos para manterem a comunicação.

Uma águia pousa na parte mais alta do palácio. Ela aparece ali de vez em quando, em épocas que não há presença de tantas pessoas. Só que dessa vez, assim, do nada, ela surgiu.

Trancado na parte de trás do pátio encontro um morador de lá Amuado, triste ele chora quando olha para tudo aquilo. Quando lhe pergunto o motivo para tanta tristeza, ele me diz me conta a sua saga. Fala de que cumpria uma pena ali estabelecida pelo rei que inclusive forjara provas contra ele. Mesmo sendo senhor absoluto das suas terras e de seu povo, havia ali uma corte para julgar os atos do cidadão, já que incomodava ao rei ter que ele mesmo fazer julgamentos. 

Em um certo momento o condenado me diz: esqueça, nada disso aqui existe. E ao olhar percebo que enquanto os 3 guardiões se transformam em areia, todo o palácio desaparece. E todos os espelhos do rei, um a um, se quebram... nada mais fazia sentido.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Semeadura

Semear exige paciência. Esse é um lado taurino que eu preciso cultivar mais.
Ao invés de querer ser uma estufa, um experimento transgênico que faça a planta crescer rápido, que tal apenas lançar a semente e esperar que a flor cresça?

E se os passarinhos a comerem ou o vento a levar, não se sinta culpado por isso. Seu poder termina quando suas mãos a lançaram no chão. O resto, são condições.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sono da tarde


Hoje, antes do sono da tarde pensei em ti do meu lado fazendo exatamente o mesmo. Daí me imaginei falando com você em sussurros. Ouvi a minha própria voz, mais devagar. Dali me dei conta que eu parecia outro mesmo repetindo coisas que já te disse outras vezes. Mas nesta tarde, por alguns minutos era maneira que eu queria ser intenso com você.

Quando penso em ti penso nessa energia forte que, se por vezes tem algo que se assemelha à briga e à raiva, carrega dentro de si uma tremenda força criadora. Pensei em um manual que você me recomendou certa vez, mas dessa vez decidi fazer as coisas do meu jeito.

Vou primeiro me felicitar com a sua beleza. Quero me sentir com isso. Ver que na verdade tu és mais belo que eu. O quanto aprecio a sua pele, enquanto a toco. Os seus olhos miúdos e seu sorriso de quem tem o maxilar inferior para frente. Prognatas, o meu fraco. E você vai me criticar por achar meu comportamento depreciativo e aí eu solto uma gargalhada daquelas. Bem gostosa, franca e longa. E ainda assim sem me desgrudar de ti. Acontece que dentro de mim há um conquistador que cisma com aquilo que ele considera maior que ele mesmo. A beleza, nesse sentido, não foi descartada.

Vou te beijar. Primeiro em beijos leves entre um sussurro e outro. E de repente, quando menos se espera vem um mais intenso. Não se preocupe com a aquilo que você outro dia chamou de "obrigatoriedade da língua" ou algo parecido. Assim como eu você se preocupa com os encaixes. Mas nesta tarde é diferente. Um pouco...

Passarei minha mão por dentro dos seus shorts, aqueles baratos que você usa e eu gosto. Vou sentir a cueca babada de tesão e só para provocar passarei de leve o polegar e o indicador bem na pele da cabeça do teu pau só para espumar aquilo. E deslizá-la de leve, bem devagar. E contigo farei o mesmo, conduzindo a sua mão até o meu para você ter nas mãos a lembrança de outra semelhança nossa. E vou te beijar ainda com mais força pra sentir você ainda mais melado.

E antes que você reclame "agora não, estou pensando em dormir", eu vou tirar minha mão e te abraçar de novo. Vou te dizer que hoje quero dormir nessa tarde exatamente assim. Carregado, cheio de energia. Cheio de tesão em você. Mas vou sentir aquela energia circulando no meu corpo e sentir o mesmo em você. Daí vamos deitar e dormir, mas de um jeito diferente. Ao invés de desfalecidos após a gozada, vamos dormir acordados pelo tesão. Abraçados e percebendo que o que vem da periferia do nosso corpo, na verdade está percorrendo ele todinho. O meu prazer vai ser te tocar e dormir, sem compromisso com a noite ou com as horas certas de sono. Sem compromisso com o gozar. Só com os dois corpos soltos e abraçados com a voz mansa até sumir. É assim que será uma das maneira de me sentir intenso com você.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Nudez e cultura

E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam. Gênesis 2:25

















Esta semana uma menina de 13 anos se apavora com a imagem no quadro que tem na sala de casa: por que aquela mulher está pelada? Mais que uma curiosidade a sua pergunta carrega um tom de reprovação e, ao mesmo tempo de estranheza.

Minha mãe estranha o comportamento da garota. Mesmo sendo filha de uma presbiteriana ferrenha, ela foi educada de forma que o nu fosse visto de forma natural. Eu mesmo me lembro de minha avó repreendendo alguns de meus primos quando eles riam ou faziam piada diante da nudez. Para ela, esse tipo de comportamento denotavava "malícia", um sinal de que aquela nudez era vista com um teor sexual e não apenas como um corpo.

Esse paradoxo da minha avó é interessante. Afirmo o paradoxo porque há em seu comportamento uma repressão da sexualidade o ver "com maldade". Ao mesmo tempo há algo libertador, em especial para uma mulher nascida na alvorada do século passado no interior do Rio, de que o corpo é um dado natural e que o mesmo não deveria ser ridicularizado ou ao mesmo tempo estranho.

Mas se o corpo é estranho mesmo entre adultos - os nossos esforços em querer modificá-lo de certa forma está relacionado a isso- imagine em uma menina de 13 anos que está começando a passar pelas mudanças da adolescência?

Minha mãe me chama a atenção para um outro ponto. Em suas palavras, "ignorância". Pensamos como as coisas se dão em Araruama. Em geral a diversão dos adolescentes de classe média aqui nos fins de semana é sair para comer ou, quando muito, assistir a um blockbuster em uma das duas únicas salas de cinema da cidade.  Um dos poucos museus está afastado do centro, o Teatro Municipal é pequeno e subaproveitado e posso dizer que, comparado com os demais municípios da região pode se dizer que há muitas coisas aqui.

O ponto de reflexão aqui é a forma como o "nu artístico" é encarado pela menina. Isso somente dá por questões psicológicas da idade ou mesmo relacionado à sua criação familiar ou a falta de investimento em atividades culturais também não se liga ai?

O risco neste caso é cair num discurso elitista no qual a apreciação de  "obra de arte do artístico num museu bacana incluindo esculturas e pinturas de nu" fosse apenas para pessoas de fino gosto e que lidam de forma "natural" e refinada diante desses aspectos. Acho que se pode pensar para além disso.

Tomo como exemplo a televisão, que torçam ou não o nariz, é um elemento de cultura de massa. Esses dias alunos meus comentavam como iludiam os pais para poderem assistir ao seriado "Gabriela" porque alguns deles os repreendiam (em especial as meninas) por terem cenas de muita "indecência". De qualquer forma isso aponta que as representações artísticas da nudez (acompanhada nesse caso com a sexualidade) não se dão somente em espaços restritos.

O que eu penso nesse caso é até que ponto lidamos com a nudez? Com a sexualidade? As duas precisam estar necessariamente juntas? Ou não? E quando estão, como se apresentam? Onde elas se representam? Só em espaços elitizados? De que forma isso pode ser dito? E melhor, como dar voz aos jovens para que eles possam expressar suas dúvidas, choques, repressões de forma natural e para que seja superada essa dicotomia da maldade x nudez? Por fim, como nos livraremos das nossas folhas de parreira sabendo que, todo homem, todo lobisomem está cheio de inferno e céu, como diria Caetano ?

domingo, 19 de agosto de 2012

Muro cinza

I'm bulding a wall, a fine wall. Not so much to keep you out, more to keep me in.

Por um instante imaginei um grande artista, um mestre do "grafiti". Na sua casa tem um muro. Do lado de dentro esse muro tem belos desenhos com muitas, mas muitas cores. Os traços ainda podem melhorar, mas o que poderia ser visto ali já e encantador...

poderia...

Poucos tem acesso à parte de dentro da casa. O muro que se vê, na sua parte externa só tem preto, branco e cinza. De vez em quanto um novo desenho é adicionado, mas não se nota muita diferença. E se repetem. Preto, branco e cinza. 

É essa parte do muro que o artista pinta na esperança de ter seu reconhecimento. É por ali que ele tem o contato com o mundo, com a sua parte cinza como forma de que alguém lhe diga "oi, tudo bem". 

O que eu ainda não entendi são os motivos deste artista não revelar a parte mais colorida do muro, tão bela. Por enquanto ele só me assopra no ouvido: sou tímido.

A partir da leitura de seu muro, já que pude ver parte do que estava lá dentro eu pensei nos meus muros, nos meus desenhos. Que cores eles têm? O que está na parte de dentro? E na parte de fora? E antes de eu pensar nas motivações do artista era o momento de pensar: e as suas motivações, Odilon?

Enquanto não me atenho as respostas definitivas, vou liquididificando...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre certas mentiras

Sempre pensei, até que ponto as mentiras de Pinóquio o tornavam mais humano e menos boneco, marionete manipulado por alguém?

Aquele momento em que vem um estalo enquanto se lê Wilde e provoca uma certa mexida em ideias pré estabelecidas minhas. Dizia o escritor irlandês:
" Seus lábios não me agradam, pois são retos como os de quem nunca disse uma mentira. Quero que aprenda a mentir, de modo que seus lábios fiquem bonitos e sinuosos como os de uma máscara antiga " 
Momento de pensar o quanto já fui cruel com alguém que mentiu para mim diante de uma mentira que em nada interferiria na minha vida, nem postitiva, nem negativamente. Puro orgulho ferido de quem não gosta de ser passado para trás. 

A mente volta para os meus dezessete anos. Tínhamos uma amiga mintômana; Suas histórias incluíam um noivado com um rapaz da sua igreja que sequer a olhava na cara. O rapaz era de fato bem bonito. 

Anos depois eu a reencontro no shopping com o seu marido de fato. Mais feio, mais velho, sem graça... a verdade naquele momento "fora de Matrix".

Um louco quando alucina não diz necessariamente uma mentira, subjetivamente falando. Para o sujeito aquilo é uma realidade. Mas com os olhos da objetividade, do observável, independentemente da intenção ou não do sujeito aquilo é tanta mentira quanto alguém que a faz deliberadamente. De qualquer forma, é um clichê dos profissionais psi que a alucinação é, sobretudo, uma resistência...

Platão em sua República - uma das inspirações de Matrix que citei há pouco - temia os poetas por serem "falseadores". Seu compromisso com a Verdade impedia a ação deles. 

Séculos mais tarde, Fernando Pessoa nos diz que o poeta é um fingidor, com uma dor que "deveras sente". Aí está a beleza.

Hoje, diante de certas mentiras preciso olhar para o outro lado. Penso na elaboração, na construção dela, como ela é feita. O trabalho imaginativo que foi colocado ali. O rapaz com quem fui cruel, por exemplo, construiu uma que era dotada de um certo romantismo e erotismo... O problema todo é quando a imaginação termina e assim todas as estórias se assemelham, ficam iguais. Aliás é essa uma justa crítica à telenovela, por exemplo e a necessidade de mudar algo. O sucesso de Avenida Brasil, de certa forma, mostra um pouco dessa necessidade.

A grande questão é quando a mentira oprime. Quando uma coisa é tomada como Absoluto e impede o ser de criar e impedir justamente novas construções - ou novas mentiras- e daí a pessoa se prende naquela repetição sem poder mais sair dela. Penso em outro mentiroso, um cara casado com quem já fiquei e tem uma vida dupla de moço pai de família evangélico no interior e bicha pegadeira na capital. Aliás esse rapaz sempre carecia de imaginação por repetir as mesmas coisas em suas cantadas.

Essa ponte com "verdades absolutas" misturadas com mentiras universais me fazem pensar na dicotomia religião e ciência. A ciência estabelece verdades efêmeras que no futuro se tornam mentirosas. Ou não foi isso que Einstein fez com Newton ainda que os dois estivessem dizendo a verdade?

Talvez esse texto me faça pensar em outro foco, não o da mentira em si, mas o da imaginação, da capacidade de criação. E é esse ponto que estou vendo naquela outra mentira, aquela em que fui cruel e em nome do meu ego acabei de analisar a beleza que existia ali até o momento em que as coisas não se repetiam por falta de imaginação. Como nos contos eróticos de um cara que sempre curtia ler, mas que perdi o gosto ao saber que em todas as suas estórias os seus parceiros se mudavam de cidade do mesmo jeito, para poder justificar o caráter efêmero de sua mentira-imaginação e a impossibilidade de um retorno com a mesma pessoa, ainda que com outras pessoas a sua narrativa seria exatamente a mesma.

Ou talvez não seja o caso de se pensar no fim da estória em si, mas no meio dela e como aquilo tudo é contado. Sem quebrar o encanto que há nela. Como a amiga do falso noivado que chegou na minha casa dizendo que no mesmo dia conheceu Malu Mader e que depois sofreu uma tentativa de assalto antes de chegar lá, mas que seu spray de pimenta salvara toda a situação. E um amigo gaiato perguntou "deixa ver o spray, tá na sua bolsa né?" e a infeliz tirou de tudo dentro da bolsa e sem sucesso emite uma resposta absurda para não admitir sua mentira: "ih, acho que esqueci", Ilógico, mas a lógica do meu amigo quebrou o encanto da estória.

Já que falei em novela me lembrei de outra, Roque Santeiro, na qual a existência da cidade e das vidas das personagens se sustentavam justamente em uma mentira. Essa mentira que nos sustenta. Será que não era essa a ideia de Dias Gomes.

Por isso, por vezes, melhor que "ser você mesmo" é melhor escolher uma boa mentira, uma que faça você e o outro se sentirem bem...e para isso, imaginação é necessária.  É ela talvez que dê a sinuosidade e a beleza que Wilde dizia.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dos galhos em linha reta


De repente busca-se um ponto. Ou melhor, uma sucessão deles formando uma linha reta. O caminho é grande, mas fazendo tudo com planejamento, tudo pode sair certinho e levar exatamente ao ponto que se deseja. Como a viagem a um lugar mágico que nem sempre fora tão desejada, mas motivada pela possibilidade de um encontro vão se criando raízes.


Além das raízes vem os galhos que vão se afinando e ficando flexíveis. É a maneira melhor de poder crescer, resistir ao vento sem se quebrar. É seguir o devir sem encarar de frente a morte. E ao apoio encontra-se a ilusão no sorriso de um homem.


Só que o homem que sorri, tão aberto às emoções, como o jardineiro desse jardim, esquece-se de falar. Tem medo e baixa a cabeça.


Um curto-circuito e os galhos então deixam de seguir seu rumo. paralisa. Ou então procuram novas alternativas, novas rotas.


E no fim da tarde estas rotas se abrem. Mas ao invés de se olhar para elas ou saber exatamente onde quer chegar, que tal contemplar, ainda que por um instante curto, a beleza delas?


Nesse momento o jardineiro torna-se inútil, como sempre foi na construção dessa caminho perdido. O que conta agora é a beleza de sua própria natureza. A revelação dói, mas ao mesmo tempo, liberta...e é bela!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Dos ideais


Se é um tema recorrente na minha (psico)análise é a questão da idealização. Ela também apareceu forte em um caderno que escrevi sugerido por um amigo quando eu não estava muito bem há um tempo atrás.


No meu caso ela se relaciona com a minha própria ansiedade. De repente a crença em um Absoluto (e não me refiro a Deus somente) pode dar conta de tudo isso.


Só que junto com esse investimento (eros) vem também um desejo de destruição, em especial quando o ser idealizado não corresponde ao próprio ideal.


A dicotomia Deus e Diabo mostra isso. Nessa construção mitológica judaico-cristã, o mal é encarnado por um anjo "caído" que ao ser impedido de ser igual ao seu ideal, se opõe a ele.


Traduzindo em miúdos para o dia-a-dia, como pode isso funcionar?


Pensemos em alguém que eu ame muito. Junto com esse investimento amoroso vem uma carga forte de idealização sobre quem ela é. Só que, diante de sua humanidade e imperfeição, eu me voltaria contra ela justamente por perceber que ela está longe desse ideal.


Posso extrapolar isso para a relação pais e filhos entre tantas outras. Os lacanianos gostam muito de fazer a analogia disso com a castração, a percepção de que o ser é incompleto.


A questão da completude, desse ideal (de fazer o 1 com o a mamãe , como os lacanianos dizem) e da impossibilidade da relação sexual é bem interessante. Penso no rito da missa, no qual os fieis incorporam o corpo e o sangue de um ser que eles julgam perfeito. Uma união narcísica com um Absoluto capaz de aliviar de todas as nossas ansiedades e tensões.


E o que não seriam as guerras e a intolerância religiosa uma resposta de tanatos (pulsão de morte) a essa não realização de um desejo... questões, questões...


Saindo do escopo religioso e voltando ao campo amoroso mais uma vez. Por que há essa necessidade de enxergar no outro a possibilidade de se unir a esse absoluto e, uma vez que ele não atende a isso, afloram os desejos de destruição: acusações, brigas, ressentimentos entre outras coisas?


Um passo para sair desse esquema é assumir algumas coisas. Que esse outro ideal não está no outro, mas é uma criação de si mesmo. Uma criação narcísica. Uma invenção sua... nessas horas me lembro de filmes como O Clube da Luta e Os Outros que de alguma maneira fala dessas criações. 


Outro passo é admitir que por ser criação, invenção ela não dará conta de todas as suas frustrações. Ao mesmo tempo, ao invés de ver a idealização como algo obrigatoriamente negativo, penso na possibilidade criadora que ela pode representar. Como fez a doutora Nise da Silveira no Engenho de Dentro que estimulou os pacientes a representarem artisticamente a sua "loucura". 


E você, Odilon, como representa a sua loucura?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Odisseia no abismo


Durante a faculdade havia uma matéria que a professora usava técnicas de teatro para trabalharmos corpo e discussões, fossem elas familiares ou políticas.


Dentre os vários exercícios tinha um clássico no qual eu tinha que jogar meu corpo para que a pessoa que fizesse dupla comigo pudesse segurá-lo.


Eu tinha medo de me jogar, acho que na verdade nunca me joguei. Achava me o mais pesado e impossível de ser sustentado depois.


Outra anedota daqueles tempos era o medo que eu tinha de me embriagar. Uma das desculpas era: se eu cair, não terá ninguém para me segurar depois. Sou pesado.


Talvez com sentimentos também ocorra a mesma coisa. O medo de se atirar e lá ninguém poder carregar.


Imagino uma nova versão de Ulisses: ele escuta o canto da sereia no abismo e depois se joga. Só que nenhuma delas se interessa a levá-lo para seu mundo e ele cai morto.


Meu Ulisses deixa de ser herói, fica mais parecido com meus sentimentos, em especial alguns que cultivo em relação a mim mesmo.


Me jogo e ao não me sentir acolhido, o chão do meu abismo se abre na forma de ressentimento...


De repente eu poderia pensar: por que não descer por mim mesmo? E se eu cair? Que eu me levante, terei sentido a queda sem ter que responsabilizar a, b, c ou d por isso. 


A grande lição para um coração ressentido pode ser essa: saber criar suas próprias asas. E ter em conta que  elas podem falhar.


Um passo para sair da torre de marfim...e também de humanamente responder ao "Odilon, por que você não se abre?" Abrirei minhas asas...se quiser, me acompanhe.

Para entender o último sonho


Quando os cacos se quebrarem, Odilon
repare bem na fenda que existem entre eles.


Lá no seu mundo de olhos fechados
toda pedra, mesmo quebrada, possui o seu valor.


Observe bem os ladrões que as desejam e se dividem
estão em algum canto de si conspirando contra você.


Nesse momento o sábio cansado que há em ti surge
desmascara, descobre disfarces e os expulsa.


E ele chegará para você, de uma condição diferente
e perguntará com certa estranheza e superioridade


"De onde vieste?
Não és tu de um estranho lugar?"


E com a graça que lhe cabe, diante de si mesmo
apenas diga:


Nada que é meu, me é estranho...

Atos falhos



Estou eu digitando dois sonhos no meu blog para isso quando comento dois "erros":


"menteando" , ao invés de "mentindo"


"corpo", ao invés de "copo"


E ainda teve boatos de que Freud estava na pior...










Velho, sonhos e ladrões. Tenho que dizer que era um encontro entre o meu eu, isso e o velho era o psicanalista dentro de mim...


Epa, não foram dois sonhos, era um só. Mas em dois tempos...Didi explica!

sábado, 16 de junho de 2012

O Rei da Evasão


Já é madrugada de uma noite de sábado e, sinceramente, sem saco para escrever qualquer coisa inicialmente. Daí naquela absoluta vontade de ver algo acabei decidindo ver "Le roi de l'évasion"(2009), filme de Alain Giraude. Não me lembro onde nas minhas fuçadas internéticas achei a menção inicial ao filme, provavelmente em algum site básico de putaria por conta das cenas de “cruising” no mato do Sul da França onde se passa a ação. E o que inicialmente para mim parecia um filme sem pé e nem cabeça – e talvez ele seja- ao mesmo tempo se mostrou sensacional em especial por seu desfecho.


Armand (Ludovic Berthillot) é um vendedor de tratores na região de Albi no meio dos Pireneus , gay, solteiro, de 43 anos que vive fazendo sua pegação básica aqui e ali, mas com aquela vidinha mais ou menos entre um cochilo e outro no carro no meio do expediente. Ele se envolve com Curly (Hafsia Herzi), uma adolescente de 16 anos e todo o mote do filme são as idas e vindas dos dois em fuga pela desaprovação dos pais ao relacionamento. Se fosse contar a trama seria simplesmente isso.


No começo o filme me causou estranheza. O som era pobre e desconectado bem como a aparente falta de descontinuidade das cenas. Em dado momento não sabia se era sonho de Armand o que acontecia ou se era real tudo aquilo além de ironias bem sutis durante a trama. Mas o que conta é a caracterização das personagens, do s belos cenários das florestas dos Pireneus e eterna perseguição.


Em uma crítica feita por um espectador no imdb ele dizia que a melhor tradução para o filme, que em inglês foi “The King of Scape” (O Rei da Fuga) poderia ser O Rei da Evasão. Faz sentido, apesar de que em português fuga, escapada e evasão podem ser sinônimas mesmo quando se trata de aspectos psicológicos. E sou obrigado a concordar com essa crítica, é disso que o filme fala.


Armand tem aquela vida de sempre, entre um cochilo e outro e a pegação. A ruptura pode se dar por 3 coisas a meu ver: a paixão dele pela menina, a perseguição policial e o mediador de tudo isso, uma raiz usada como droga, inicialmente no “meio gay” da cidade, mas na verdade a visão de Giraude do filme é interessante por fazer a gente pensar se esse “meio” é tão meio assim.


Esse texto não é uma crítica do filme inicialmente. Fala das minhas impressões também, já que pelo final do filme, dado o diálogo simples entre Armand e Jean (Jean Toscand) é que amarra tudo o que vi ali. Veja, a personagem principal é um cara gordo de 43 anos, ou seja não é o gostosão das personagens gay em geral. Também não é o “urso” estereotipado em filmes, cada uma sua maneira, como em Bear City ou nos (superiores a este) espanhóis “ Cachorro” e “Chueca town”. Aliás sobre esse último pensei em tecer uma crítica a respeito mas só preciso dizer que é engraçadinho  graças as atuações excelentes de Concha Velsaco e Rosa Maria Sardá.


E o paradoxo é que a maior parte das personagens são idosos, incluindo o pai de Curly. E mesmo assim consegui perceber nele um erotismo muito interessante. Se Rousseau apontou com seu Emílio o campo como refúgio e o infantil o contato com o nosso ser não corrompido pela civilização, tal como os índios, no que deu origem ao mito do “bom selvagem”, a imagem de Armand correndo com a adolescente pelos bosques na maior parte das cenas de cueca ou nu me remetem um pouco a essa visão. Aliás é a menina que rompe a sua pulseira , por onde a polícia (metáfora da civilização?) controlava seus passos. É interessante observar como a trama tem suas viradas sem grande suspense ou alarde, já que como no sonho, tudo que é estranho parece natural.


No fim o filme me fez pensar nisso, no quanto a sexualidade por vezes é amarrada. É engraçado que, guardada as devidas proporções, a região em que moro  tem semelhanças com aquela mostrada no filme, por ser no interior, com boa parte da população acima dos 40 anos e sem a presença das boates ou de um “comércio gay”. E com muitos homens casados – o comissário indaga a Armand se ele tem preferência por casados ao que ele responde que é o que acontece, dando uma pista como se dão as coisas no interior- buscando o prazer no meio do mato.  E o melhor, no como colocamos a nossa sexualidade (em sentido mais amplo para além do ato sexual) em formas e nas limitações que isso traz.



segunda-feira, 28 de maio de 2012

Efêmeras


Os textos que mais gosto são os que me inquietam, me colocam para pensar. Posso fazer isso com a Bíblia (um paradoxo, reconheço) ou com qualquer outro texto como esse maravilhoso de Eliana Brum para a Época.


Ela ao fazer uma correlação entre o Antigo Egito e o tempo atual das redes sociais fomenta mais ainda a questão "quem sou eu", aquela que por vezes pode ser vista como superada e, paradoxalmente se faz sempre presente. Afinal se, a exemplo de Nietzsche, dos existencialistas e do Odilon com bronca de escrever na redação "quem sou eu" é impossível afirmar uma essência, afirmar essa impossibilidade já é em si uma possibilidade. É como aquele que diz "tudo é relativo", até o "tudo é relativo" pode ser sim relativo.


Deixando essas reflexões penso também nas palavras que dizemos uns aos outros. Como comunicamos nossos desejos, tanto a quem convive com a gente, como para nós mesmos e ao Outro que habita em cada um de nós. A existência depende intimamente da alteridade. Insetos como formigas e cupins tiveram sucesso ao viverem assim, a diferença é que eles não reconhecem a si mesmos e nem provocam transformações - fora aquelas preconizadas por Darwin, mas aí é dar origem a novas espécies.


Reconhecer esse outro e ao mesmo tempo como interfere em si mesmo é perturbador. É provocador de mudanças em certezas absolutas e eternas diante de nossa efemeridade.


Ironicamente, pensei em Let It Be, dos Beatles, no "deixar ser" antes de começar a postar. Mas no fechamento desse texto não-concluído me lembrei do álbum que mais ouvi nesse fim de sema. Esta música pode refletir bem o estado de coisas meu agora. A morte, que pede um tipo de recomeço, essa sim não é efêmera.


Sem a angústia de desculpas, explicações ou ter que dizer ao outro quem eu sou. Basta chegar diante de mim e se perguntar "Odilon, quem você quer ser?". Ou simplesmente não dizer nada, bem na metafísica proposta por Alberto Caeiro, talvez o melhor entendedor das efemeridades da poesia em língua portuguesa.

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
 
     O que penso eu do mundo?  
     Sei lá o que penso do mundo!  
     Se eu adoecesse pensaria nisso.
     Que idéia tenho eu das cousas?
     Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
     Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
     E sobre a criação do Mundo?
     Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
     E não pensar. É correr as cortinas
     Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
     O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
     O único mistério é haver quem pense no mistério.
     Quem está ao sol e fecha os olhos,
     Começa a não saber o que é o sol
     E a pensar muitas cousas cheias de calor.  
     Mas abre os olhos e vê o sol,
     E já não pode pensar em nada,
     Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
     De todos os filósofos e de todos os poetas.
     A luz do sol não sabe o que faz
     E por isso não erra e é comum e boa.



Se bem que sei que o pensar em nada é tão impossível quanto a morte...