Retomando o
Liquididificador, resolvi pegar uma lista de temas que eu tinha
deixado no meu bullet journal em julho (olá procastinação, minha
velha amiga!) e resolvi postar mais. O primeiro tema dessa lista era,
justamente, o título desta postagem. Além disso ele se relaciona
com o mais recente.
No remake de 2006 da
novela, “O Profeta”, Natália (Vitória Pina) é filha de Dedé
(Zezeh Barbosa). É uma menina negra de pele clara que tem vergonha
da mãe, que tem a pele escura. Em uma cena que viralizou no Facebook
e que, infelizmente, não consegui encontrar, ela despeja a raiva que
sente da mãe por conta do racismo internalizado.
A cena é um exemplo
da manifestação do chamado “colorismo”. No Brasil. O racismo é
mais forte contra pessoas de pele mais escura. No podcast de que
participei, num primeiro momento apareceu a impressão de que o
colorismo era um recurso que nós negros usamos uns contra os outros,
sem o envolvimento de pessoas brancas. Mas a situação não é essa.
A branquitude mantém a sua hegemonia com essa cisão e, por mais que
o tom da pele aponte diferenças na forma de tratamento, o negro de
pele clara não desfruta dos mesmos privilégios das pessoas brancas.
Algumas pessoas da
militância negra afirmam que, diante de um preto de pele clara
praticando colorismo, não cabe a gente apontar a sua negritude, que
isso deveria ser um processo de auto descoberta. Eu, por exemplo,
lido com alguns adolescentes com essas características, mas reparo
que entre aqueles que se politizam mais, depois de um tempo assumem a
sua negritude, sem que haja, de fato, a necessidade de apontar isso.
Por outro lado eu me
lembrei da minha infância. Minha mãe, do jeito dela, sempre apontou
essa questão. Creio que por conta das experiências dela, por ter a
pele escura, sempre procurou passar pra mim e pra minha irmã as
formas como isso acontece. Dessa forma, ela já nos ensinava como
lidar com crianças negras de pele mais clara que procurariam
diminuir a gente, especialmente a mim, que tenho a pele mais escura
que a da minha irmã. Ensinou a gente a apontar a negritude delas. E
sempre funcionou. Toda vez que eu tive que lidar com uma “Natália”
na minha infância eu mandava “não fala nada, que você também é
preta ou preto”. Alguns podem ver isso como crueldade entre
crianças, mas era a forma de lidarmos com o racismo internalizado
entre a gente. E em muitas vezes, já na transição pra
adolescência, tive algumas respostas positivas por ter ajudado
alguns outros negros que não se percebiam assim.
Anos mais tarde, fui
me encontrar com um rapaz. Ele era um pouco mais claro do que eu.
Rolou o que tinha que rolar e, lá pelas tantas ele dizia orgulhoso
que “dentre os meus irmãos eu sou o único branco”. Eu, sem
noção e de supetão disse “mas você não é branco”. O rapaz
ficou quieto. Desde aquele dia não rolou mais nada, apesar de ter
sido uma noite muito boa. Algum tempo depois eu o encontrei na fila
do cinema e o ele tentou fingir que não me via.
Já li alguns textos
apontando que o colorismo foi uma forma de dividir os negros e
impedir o seu fortalecimento, já nos idos coloniais. Na mídia,
reparo que diversos papéis que poderiam ser feitos por pessoas
negras de pele mais clara foi feito por pessoas brancas. De cara, me
lembro da minissérie Agosto (1993) em que Salete, uma das
protagonistas da série, é vivida por Letícia Sabatella, ao passo
que sua mãe, Sebastiana é vivida por Léa Garcia. O mesmo vi duas
vezes com Betty Faria, na adaptação de “O Cortiço”, em que ela
vive Rita Baiana (personagem negra) e em Tieta, atualmente em reprise
no Viva, que no livro não é uma mulher branca. Aliás, a Madame
Antoinette- como ela é conhecida em São Paulo- para poder
justificar que é francesa, diz que é mestiça, pois sua mãe é das
Antilhas Francesas, local que recebeu um grande número de africanos
escravizados, a exemplo do Brasil. Lembro-me de Maria Ceiça, atriz
negra, que no documentário “A Negação do Brasil”, fala do seu
maravilhamento ao perceber que muitas das personagens de Jorge Amado
poderiam ser feitas por ela.
Aliás reparo que
atualmente, alguns desses papéis, tem sido interpretados por atrizes
como Juliana Paes e Nanda Costa. Porém, aqui no Brasil, muitas vezes
elas são lidas como “morenas”. Aliás muitos fazem a mesma
leitura para Camila Pitanga, mas essa sempre faz questão de afirmar
a sua negritude. Lembro-me também de Sônia Braga, que entrevista já
disse que apontava sua ascendência portuguesa diante dos americanos
que não a leem como mulher branca ou “morena”. Aí é uma boa
reflexão de como as relações raciais não são naturais, nem
únicas, mas tem toda relação com o contexto social em que elas se
dão.